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Revista CEFAC

On-line version ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.16 no.2 São Paulo Mar./Apr. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0216201411912 

ORIGINAL ARTICLES

Relação da perda auditiva induzida por ruído e o uso de tabaco em trabalhadores de uma indústria alimentícia

Eliziane Gai Menin 1  

Betina Thomas Kunz 2  

Luciana Bramatti 3  

1CEFAC, Francisco Beltrão, PR, Brasil.

2CEFAC, Concórdia, SC, Brasil.

3Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, PR, Brasil.


RESUMO

Objetivo

verificar se o uso do tabaco potencializa os efeitos do ruído causados na audição.

Métodos

153 trabalhadores de ambos os sexos, fumantes e não-fumantes, de uma indústria do ramo alimentício, escolhidos aleatoriamente dentre 14 setores da empresa, cuja faixa de ruído apresentada teve uma variação de 85 a 109 dBNA, responderam a um questionário sobre tempo e exposição ao ruído bem como hábitos sobre fumo e passaram por exame de audiometria.

Resultados

os limiares auditivos da via aérea nas frequências de 4.000 Hz e 6.000Hz foram significantemente mais altos no grupo de fumantes/ex-fumantes quando comparados aos não-fumantes tanto na orelha direita quanto na orelha esquerda; limiares estes, característicos da perda auditiva induzida por ruído. Essas diferenças se mantiveram significantes após o ajuste pela idade e pelo tempo de exposição.

Conclusão

por meio dos resultados obtidos, concluiu-se que o uso do tabaco pode potencializar os danos causados pelo ruído à audição.

Palavras-Chave: Ruído; Perda Auditiva Provocada por Ruído; Tabaco; Audição

ABSTRACT

Purpose

to determine whether tobacco use enhances the effects of noise caused hearing.

Methods

153 workers of both sexes, smokers and nonsmokers, from an food sector industry, randomly chosen from among 14 sectors of the company, whose band noise was presented a variation from 85 to 109 dB, answered a questionnaire about time exposure to noise as well as on smoking habits and submitted to audiometry.

Results

the hearing thresholds in the frequencies of 4000 Hz and 6000 Hz were significantly higher in the group of smokers / ex-smokers when compared to nonsmokers in both ears, these thresholds, characteristic of hearing loss induced by noise. These differences remained significant after age adjustment and exposure time.

Conclusion

through the obtained results it was possible to conclude a correlation between the use of tobacco and hearing loss.

Key words: Noise; Hearing Loss Noise-Induced; Tobacco; Hearing

INTRODUÇÃO

A preocupação com a saúde dos trabalhadores tem crescido ao longo dos anos, fazendo com que diversos estudos sejam realizados com a intenção de prevenir os agravos que o trabalho pode ocasionar ao indivíduo. Dentre os problemas de saúde relacionados ao trabalho, a Perda Auditiva Induzida por Ruído (PAIR) é um dos mais frequentes em todo o mundo1.

A PAIR, também denominada de Perda Auditiva Induzida por Níveis de Pressão Sonora Elevados (PAINPSE), tem por característica ser neurossensorial, acometendo os limiares auditivos em uma ou mais frequências da faixa de 3 a 6KHz. Progride conforme o tempo de exposição e tem como característica ser irreversível2. Alguns sintomas podem surgir associados à PAIR, tais como: zumbido, dificuldade no entendimento da fala, algiacusia, sensação de plenitude auricular e sensação de audição “abafada”;, bem como o recrutamento, presente em praticamente todos os casos2,3.

Atualmente, um dos maiores desafios na área de saúde do trabalhador se constitui nos estudos sobre os efeitos de exposições ocupacionais combinadas, uma vez que diversos agentes físicos e químicos podem ser encontrados no ambiente de trabalho4. Produtos químicos tais como: acetona, estireno, resinas, cobalto, entre outros, associados à exposição ao ruído favorecem a uma maior incidência de perda auditiva5. Também, com relação à exposição concomitante a inseticidas e ruído, o tempo médio para o desenvolvimento de alterações auditivas é menor do que quando a exposição é realizada somente ao ruído6. Outras pesquisas indicam que o monóxido de carbono pode ter um efeito direto sobre o metabolismo coclear7. Há ainda outras substâncias químicas consideradas ototóxicas encontradas no ambiente de trabalho: arsênio e seus compostos, chumbo e seus compostos, etileno glicol, gás sulfídrico, misturas de solventes, tolueno, xileno, entre outros8. Com relação aos agentes físicos, estudos apontam a vibração como agente agressor não só à audição, mas ao organismo como um todo9.

Outros fatores, não só os agentes encontrados no ambiente de trabalho, podem contribuir para o desencadeamento e agravamento das perdas auditivas. A literatura apresenta estudos que apontam o fumo como um fator de risco para perdas auditivas condutivas e neurossenroriais10-13. A audição pode ser afetada pelo cigarro pelo efeito do mecanismo antioxidante ou pela supressão vascular do sistema auditivo. Alguns estudos também indicaram que indivíduos fumantes apresentam alteração na via auditiva em tronco encefálico baixo e nas vias auditivas centrais em regiões subcorticais13.

De acordo com a literatura, o tabagismo é responsável por déficit de oxigenação no sangue, obstruções vasculares e alteração na viscosidade sanguínea, podendo ter um efeito ototóxico10. Porém, como o tabaco resulta na queima de mais de 4000 componentes, entre eles a nicotina, monóxido de carbono, dióxido de carbono, metanol, nitrogênio e oxidantes, fica difícil determinar se seria a nicotina a causadora do efeito prejudicial maior ou se seria a combinação de vários componentes13.

Estudos apontaram que o tabagismo é uma das dependências mais prevalentes em todo o mundo, sendo que no Brasil, segundo levantamento realizado no ano de 2005, mais de 10% da população brasileira entre 12 a 65 anos faz uso de tabaco14.

Desta forma, sendo a PAIR um dos maiores problemas de saúde relacionados ao trabalho, o tabagismo ter uma alta prevalência em todo o mundo e, considerando ainda que, há achados na literatura que referem que o fumo pode prejudicar a audição, este trabalho teve por objetivo verificar se o uso do tabaco potencializa os efeitos do ruído causados na audição.

MÉTODO

Esta pesquisa teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa do CEFAC sob o nº 016/11.

Trata-se de um estudo transversal realizado com 246 trabalhadores de uma empresa do ramo alimentício no interior do estado de Santa Catarina, no período de novembro de 2010 a maio de 2011. Os trabalhadores selecionados apresentaram faixa etária de 15 a 60 anos, com tempo de exposição ao ruído entre 1 e 15 anos, e foram escolhidos aleatoriamente dentre 14 setores da empresa, cuja faixa de ruído apresentada teve uma variação de 85 a 109 dBNA. Os valores de níveis de ruído em cada setor foram obtidos do Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) da empresa, que relatou fornecer protetor auditivo a todos os funcionários expostos a ruído, fazendo exigência do uso do mesmo.

Previamente ao início da pesquisa, todos os sujeitos envolvidos foram orientados sobre os objetivos e metodologia da mesma recebendo uma carta de esclarecimento e um termo de consentimento livre e esclarecido para ser lido e assinado. Após isso, a pesquisadora realizou a aplicação de um questionário (Figura 1), onde foram coletados dados como: identificação do trabalhador, tempo de trabalho na função atual e nesta empresa, histórico de trabalho em outras empresas com exposição ao ruído, uso de protetor auricular, doenças pregressas e atuais, uso de medicamentos, sintoma de zumbido e intolerância a sons intensos, tipo de tabaco, quantidade e tempo de uso, bem como exposição extra-ocupacional a sons intensos.

Figura 1 – Questionário 

Posteriormente à aplicação do questionário, foi realizada inspeção do meato acústico externo a fim de excluir do estudo indivíduos com presença de cerúmen ou alguma anormalidade que pudesse descaracterizar o objetivo da pesquisa. Os sujeitos que apresentaram alguma dessas características foram devidamente encaminhados ao otorrinolaringologista.

Além disso, foram considerados critérios de exclusão para a pesquisa: perda auditiva condutiva ou mista, perda auditiva neurossensorial profunda ou anacusia, diabetes mellittus, hipertensão arterial sistêmica e trabalho prévio com solvente e/ou agrotóxico.

Os indivíduos que não apresentaram nenhum critério para exclusão, foram submetidos à audiometria tonal liminar nas frequências de 250Hz a 8KHz por via aérea. A pesquisa de via óssea nas frequências de 500Hz a 4KHz bem como a audiometria vocal com os testes de limiar de recepção de fala (LRF) e índice de reconhecimento de fala (IRF) foram realizados quando os limiares não estiveram dentro da normalidade (abaixo de 25dBNA). O equipamento utilizado para aplicação do exame foi o audiômetro Interacoustics 259 e, também, cabina audiométrica Vibrasom VSA50, ambos submetidos à calibração eletroacústica anual.

Foram consideradas perdas auditivas induzidas por ruído (PAIR) aquelas em que os limiares auditivos nas frequências de 3 e/ou 4 e/ou 6KHz ficaram acima de 25dBNA, e mais elevados que nas outras frequências testadas, estando estas comprometidas ou não, tanto no teste de via aérea quanto no de via óssea, em um ou ambos os lados15.

Esta pesquisa teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da instituição de origem sob o nº 016/11.

Quanto à análise estatística, as variáveis quantitativas (limiares auditivos) foram descritas por mediana e amplitude interquartílica, por apresentar distribuição assimétrica. As variáveis qualitativas (as demais) foram descritas por frequências absolutas e relativas.

Para comparar os limiares auditivos entre os grupos, o teste de Mann-Whitney foi utilizado. Já, para avaliar a associação entre as variáveis qualitativas, o teste qui-quadrado de Pearson foi aplicado. Em caso de significância estatística, o teste dos resíduos ajustados foi calculado para auxiliar a localizar as associações.

A fim de controlar possíveis fatores de confusão (idade e tempo de exposição total), a Análise de Covariância (ANCOVA) foi utilizada para avaliar a associação entre o fumo e os limiares auditivos. Como esses limiares apresentaram distribuição assimétrica, a transformação da raiz quadrada foi aplicada nos dados brutos para ser possível a realização da ANCOVA.

O nível de significância adotado foi de 5% (p≤0,05) e as análises foram realizadas no programa SPSS (Statistical Package for the Social Sciences) 18.0.

RESULTADOS

A amostra foi constituída por 153 trabalhadores com predominância do sexo feminino (60,9%), idades entre 21 e 40 anos (68,0%) estando a maior parte alocados nos setores de evisceração e expedição (45,1%). A prevalência de fumantes ou ex-fumantes na amostra foi de 20,9% (32/153). Com relação à distribuição de fumantes e não fumantes,houve similaridade entre homens e mulheres, faixas etárias e setor (Tabela 1).

Tabela 1 Caracterização da amostra 

Variável Amostratotal Nuncafumou Fumante/Ex-fumante p*
(n=153) (n=121) (n=32)

n (%) n (%) n (%)
Sexo        
Feminino 92 (60,1) 75 (62,0) 17 (53,1) 0,479
Masculino 61 (39,9) 46 (38,0) 15 (46,9)  

Faixa etária        
15-20 25 (16,3) 21 (17,4) 4 (12,5) 0,343
21-30 70 (45,8) 55 (45,5) 15 (46,9)  
31-40 34 (22,2) 28 (23,1) 6 (18,8)  
41-50 21 (13,7) 16 (13,2) 5 (15,6)  
51-60 3 (2,0) 1 (0,8) 2 (6,3)  

Setor        
Caixaria 10 (6,5) 10 (8,3) 0 (0,0) 0,335
Controle de qualidade 1 (0,7) 1 (0,8) 0 (0,0)  
Depenadeira 7 (4,6) 6 (5,0) 1 (3,1)  
Embalagem 13 (8,5) 9 (7,4) 4 (12,5)  
Evisceração 43 (28,1) 36 (29,8) 7 (21,9)  
Expedição 26 (17,0) 17 (14,0) 9 (28,1)  
Fábrica de gelo 3 (2,0) 2 (1,7) 1 (3,1)  
Fábrica de ração 5 (3,3) 5 (4,1) 0 (0,0)  
Inspeção federal 15 (9,8) 13 (10,7) 2 (6,3)  
Manutenção 9 (5,9) 7 (5,8) 2 (6,3)  
Plataforma 8 (5,2) 6 (5,0) 2 (6,3)  
Sala de miúdos 1 (0,7) 0 (0,0) 1 (3,1)  
Sala de cortes 12 (7,8) 9 (7,4) 3 (9,4)  

A associação entre fumo e as variáveis relacionadas ao tempo de exposição total ao ruído e problemas de audição foi apresentada na Tabela 2.

Tabela 2 Variáveis relacionadas ao tempo de exposição total e problemas de audição 

Variável Amostra total Nunca fumou Fumante/ Ex-fumante p*
(n=153) (n=121) (n=32)

n(%) n (%) n (%)
Tempo de exposição total        
<1 ano 10 (6,5) 9 (7,4) 1 (3,1) 0,016
1 – 5 anos 79 (51,6) 65 (53,7) 14 (43,8)  
5,01 – 10 anos 38 (24,8) 29 (24,0) 9 (28,1)  
10,01 – 15 anos 16 (10,5) 8 (6,6) 8 (25,0)**  
> 15 anos 10 (6,5) 10 (8,3) 0 (0,0)  

Zumbido        
Sim 9 (5,9) 8 (6,6) 1 (3,1) 0,686
Não 144 (94,1) 113 (93,4) 31 (96,9)  

Intolerância ao ruído        
Sim 27 (17,6) 22 (18,2) 5 (15,6) 0,939
Não 126 (82,4) 99 (81,8) 27 (84,4)  

Meato Acústico Direito        
Sem obstrução 139 (90,8) 109 (90,1) 30 (93,8) 0,735
Com cerumen parcial 14 (9,2) 12 (9,9) 2 (6,3)  

Meato Acústico Esquerdo        
Sem obstrução 140 (91,5) 111 (91,7) 29 (90,6) 0,735
Com cerumen parcial 13 (8,5) 10 (8,3) 3 (9,4)  

O tempo de exposição total ao ruído e o fumo tiveram associação estatisticamente significante (p=0,016). O grupo de fumantes/ex-fumantes apresentou significantemente maior tempo de exposição total, principalmente entre 10 e 15 anos.

A relação entre a audiometria e o fumo foi apresentada na Tabela 3. Os limiares auditivos da via aérea nas frequências 4.000 Hz e 6.000Hz foram significantemente mais altos no grupo de fumantes/ex-fumantes quando comparados aos não-fumantes tanto na orelha direita (p=0,034 e p=0,018, respectivamente) quanto na orelha esquerda (p=0,021 e 0,001, respectivamente). Essas diferenças se mantiveram significantes após o ajuste pela idade e pelo tempo de exposição. Além disso, uma nova diferença estatística apareceu após o ajuste, na frequência de 250Hz na orelha direita. Desta forma é possível dizer que a associação estatística encontrada entre o fumo e os limiares auditivos, representada graficamente nas Figuras 2 e 3, foi independente da idade e do tempo de exposição.

Tabela 3 Variáveis relacionadas à audiometria 

Limiares Via Aérea Amostratotal Nuncafumou Fumante/Ex-fumante p* p**
(n=153) (n=121) (n=32)

Md (P25 – P75) Md (P25 – P75) Md (P25 – P75)
250 Hz          
OD 15 (10 – 20) 15 (10 – 20) 15 (15 – 20) 0,054 0,033
OE 15 (10 – 20) 15 (10 – 20) 17 (15 – 20) 0,166 0,226

500 Hz          
OD 10 (10 – 15) 10 (10 – 15) 15 (10 – 20) 0,079 0,062
OE 15 (10 – 15) 10 (10 – 15) 15 (10 – 15) 0,422 0,419

1.000 Hz          
OD 10 (5 – 10) 10 (5 – 10) 10 (5 – 15) 0,286 0,211
OE 10 (5 – 15) 10 (5 – 15) 10 (5 – 15) 0,585 0,416

2.000 Hz          
OD 10 (5 – 15) 10 (5 – 15) 10 (5 – 10) 0,665 0,510
OE 10 (5 – 15) 10 (5 – 15) 10 (5 – 15) 0,756 0,755

3.000 Hz          
OD 10 (5 – 15) 10 (5 – 15) 10 (10 – 15) 0,297 0,123
OE 10 (5 – 15) 10 (5 – 15) 10 (5 – 19) 0,680 0,585

4.000 Hz          
OD 15 (10 – 20) 15 (10 – 15) 15 (10 – 20) 0,034 0,048
OE 15 (10 – 20) 15 (10 – 20) 20 (15 – 24) 0,021 0,036

6.000 Hz          
OD 15 (10 – 20) 15 (10 – 20) 20 (15 – 25) 0,018 0,041
OE 15 (10 – 25) 15 (10 – 20) 22 (15 – 25) 0,001 0,009

8.000 Hz          
OD 10 (5 – 20) 10 (5 – 20) 15 (10 – 20) 0,432 0,499
OE 15 (5 – 20) 15 (5 – 20) 15 (10 – 20) 0,246 0,354

Figura 2 – Avaliação dos limiares auditivos da orelha direita em cada frequência, por grupo em estudo. A linha central representa a mediana e os limites inferior e superior da caixa representam os percentis 25 e 75, respectivamente. As barras de erro representam os valores mínimo e máximo 

Figura 3 – Avaliação dos limiares auditivos da orelha esquerda em cada frequência, por grupo em estudo. A linha central representa a mediana e os limites inferior e superior da caixa representam os percentis 25 e 75, respectivamente. As barras de erro representam os valores mínimo e máximo 

DISCUSSÃO

A partir dos resultados encontrados é possível perceber que a maior parte da amostra (45,1%) da pesquisa exercia suas funções nos setores evisceração e expedição, que apresentam nível de ruído igual a 88 e 91 dBA respectivamente. Apesar dos níveis de ruído encontrados nesses setores ultrapassarem os 85 dBA recomendados, os mesmos ainda encontram-se abaixo dos encontrados em demais setores da empresa, onde foi possível observar níveis de até 109dB.

Alguns autores afirmam que a intensidade do ruído parece ser o principal fator de risco para perda auditiva, independentemente da banda de frequência16.

De acordo com a NR 15, o trabalhador não poderá ficar exposto a um nível de ruído superior a 85 dBA em 8 horas de trabalho, necessitando nesse caso, fazer uso de protetor auditivo15. Isso pode explicar o fato de que em ambos os grupos houve limiares alterados (acima de 25 dBA), uma vez que os não-fumantes também se mantêm expostos a ruídos muito intensos.

Na realidade, o ideal seria reduzir a fonte de ruído e implementar o uso de protetores, uma vez que para que o uso dos mesmos seja eficaz, há necessidade de educação e treinamento dos funcionários continuamente17, bem como supervisão do uso dos mesmos, verificando a efetividade dos treinamentos efetuados. Nos casos em que não é possível reduzir o ruído na fonte sonora, se faz necessário o uso de protetores. Um estudo recente mostrou efetividade em ações educativas de treinamento sobre o uso dos protetores para funcionários expostos a ruído ocupacional, desde que bem aplicadas18.

Ao relacionar os resultados da audiometria com o uso ou não de fumo, pôde-se constatar que no grupo de fumantes/ex-fumantes houve um aumento significante nos limiares auditivos de via aérea para as frequências de 4 e 6KHz, as quais definem e caracterizam uma perda auditiva como sendo induzida por ruído15. Apesar dos indivíduos fumantes/ex-fumantes não exercerem suas funções nos setores de maior nível de ruído, apresentam limiares auditivos piores para as frequências que indicam PAIR.

Um estudo realizado no ano de 2005 no Japão com 2267 indivíduos corrobora com as informações encontradas neste estudo, onde encontrou um aumento significante dos limiares auditivos na frequência de 4KHz em indivíduos fumantes comparado aos não-fumantes12.

Outro estudo realizado no Brasil no ano de 2009 com fumantes e não-fumantes, apontou que o grupo de fumantes apresentou limiares auditivos piores em altas frequências (12500 e 14000Hz), bem como nível de resposta pior em emissões otoacústicas para as frequências de 4KHz na orelha esquerda, e maior número de casos com disfunção coclear10. Alguns autores sugerem o uso das emissões otoacústicas evocadas transientes a fim de identificar mínimas alterações cocleares em indivíduos expostos a ruído associados com outro fator de risco a perda auditiva, prevenindo o dano ao sistema auditivo19-21.

Este estudo indica que não basta o uso do protetor auditivo para prevenir a perda auditiva, se houver fatores de risco associados. Além das campanhas de conscientização contra o fumo já existentes, percebe-se a necessidade de campanhas por parte dos empregadores, a fim de orientar os indivíduos para os malefícios advindos do uso de tabaco, não só os já conhecidos e tão comentados pela mídia, mas também os prejuízos auditivos. Talvez seja necessário um treinamento mais específico com monitoramento mais criterioso para esses trabalhadores que assumem outro risco além daquele a que já estão expostos, no caso, o ruído.

Apesar dos resultados deste trabalho apontarem para uma relação entre uso de tabaco e perda auditiva induzida por ruído, deve-se ressaltar que ele apresenta um caráter subjetivo, uma vez que não levou em consideração o tempo e quantidade de fumo utilizado pelo trabalhador, e mesmo que isso fosse observado, não seria possível mensurar a quantidade de nicotina e monóxido de carbono absorvidos pelo indivíduo. Talvez um estudo com uma maior população de indivíduos fumantes (com tempo de uso e quantidade de fumo aproximados) expostos e não expostos ao ruído pudesse ajudar a elucidar a questão.

CONCLUSÃO

Este estudo sugere que o uso do tabaco pode potencializar os danos causados pelo ruído à audição, agravando os casos de PAIR, uma vez que o grupo de fumantes/ex-fumantes apresentou maior agravo nas frequências características.

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Recebido: 16 de Maio de 2012; Aceito: 04 de Fevereiro de 2013

Endereço para correspondência: Eliziane Gai Menin, Av. Porto Alegre, 1155, Alvorada, Francisco Beltrão – PR, CEP: 85.601-480, E-mail: eliziane_gai@hotmail.com

Conflito de interesses: inexistente

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