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Revista CEFAC

Print version ISSN 1516-1846

Rev. CEFAC vol.16 no.3 São Paulo May/June 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0216201410612 

ARTIGOS ORIGINAIS

Aleitamento: relação com hábitos de sucção e aspectos socioeconômicos familiares

Aline Prade Neu 1  

Ana Maria Toniolo da Silva 2  

Carolina Lisbôa Mezzomo 3  

Angela Ruviaro Busanello-Stella 4  

1 Programa de Pós-Graduação em Distúrbios da Comunicação Humana da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Santa Maria, RS, Brasil

2Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Santa Maria, RS, Brasil

3Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Santa Maria, RS, Brasil

4 Programa de Pós-Graduação em Distúrbios da Comunicação Humana da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Santa Maria, RS, Brasil

RESUMO

Objetivo

caracterizar o tipo e o tempo de aleitamento e verificar a relação entre essas variáveis e os hábitos de sucção e aspectos socioeconômicos familiares.

Métodos

aplicou-se questionário aos pais de 195 crianças de cinco anos a oito anos e 11 meses. Coletaram-se dados referentes ao tipo e tempo de aleitamento e aspectos socioeconômicos familiares. Investigou-se também, os hábitos de chupeta e sucção digital. Os dados foram analisados de forma descritiva e estatística, sendo esta por meio do teste Qui-quadrado, considerando nível de significância de 5%.

Resultados

verificou-se predomínio do tipo misto de aleitamento, porém a oferta de aleitamento materno superou a do artificial. Houve relação entre tipo de aleitamento e o hábito de chupeta e o tempo da mesma; tempo de aleitamento materno e chupeta e tempo de permanência da mesma; e entre o tempo de aleitamento artificial e chupeta e tempo da mesma. Quanto aos aspectos socioeconômicos, houve significância apenas entre tipo de aleitamento e renda familiar mensal.

Conclusão

observou-se que o tipo misto de aleitamento predominou, porém verificou-se que o aleitamento materno exclusivo surge em detrimento do artificial, entretanto, quando o aleitamento artificial ocorre, este permanece por período prolongado. Ainda, o tipo e o tempo de aleitamento foram determinantes para a aquisição do hábito de chupeta e os níveis sociais de renda baixos podem ser considerados preditores da inserção de formas de aleitamento artificial.

Palavras-Chave: Aleitamento Materno; Hábitos; Renda; Escolaridade; Criança

INTRODUÇÃO

Atualmente, tem-se enfatizado a importância do aleitamento materno, uma vez que, o leite da mãe é o alimento mais adequado para o recém-nascido 1. Sabe-se que esse alimento possibilita o aumento de anticorpos para o bebê, o ganho de peso, o adequado desenvolvimento do Sistema Estomatognático (SE), além de desempenhar papel importante no desenvolvimento intelectual e emocional da criança. Influencia também no relacionamento afetivo com as mães, porém, a sua interrupção precoce ainda pode ser observada2-5.

Esta interrupção do aleitamento materno, além de acarretar alterações no SE, pode favorecer o aparecimento de hábitos de sucção, como a mamadeira, havendo a possibilidade da introdução do dedo na boca, ou da utilização da chupeta6,7. Isso ocorre, pois ao utilizar a mamadeira, a musculatura perioral não é tão estimulada como acontece na sucção do leite materno, assim, com frequência a criança tende a buscar outro tipo de sucção, como dedo e chupeta, a fim de se satisfazer nutricional e/ou emocionalmente3.

Desta forma, a presença dos hábitos de sucção pode comprometer o equilíbrio da musculatura orofacial e o crescimento e desenvolvimento craniofacial, dependendo do período, intensidade e frequência com que é realizado8.

O desmame precoce e a consequente introdução da mamadeira ainda estão presentes entre as mães que amamentam, o que pode estar ligado a várias causas, dentre elas, fatores culturais como o mito do leite fraco ou insuficiente 9,10. Além destes fatores, os aspectos socioeconômicos como renda familiar, grau de escolaridade da mãe, falta de informação sobre as vantagens do aleitamento materno, término da licença maternidade e retorno ao trabalho podem estar ligados ao desmame precoce11-13.

Partindo-se do exposto acima, e tendo em vista a importância do aleitamento materno para a criança, o objetivo do presente estudo foi caracterizar o tipo e tempo de aleitamento e verificar a relação entre essas variáveis e os hábitos de sucção e os aspectos socioeconômicos familiares.

MÉTODOS

Esta pesquisa foi realizada com crianças de oito escolas públicas e particulares do município de Agudo – Rio Grande do Sul. A amostra foi constituída por participantes, de ambos os sexos, na faixa etária entre cinco anos e oito anos e 11 meses. Os responsáveis assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), após a adesão ao termo, os responsáveis por 220 crianças preencheram um questionário previamente elaborado.

O critério de inclusão neste estudo foi estar na faixa etária entre cinco anos e oito anos e 11 meses de idade. Os questionários com respostas incompletas foram excluídos da pesquisa, fazendo com que apenas 195 fossem aproveitados para análise dos dados.

No que se refere aos questionamentos realizados, foram coletados dados de identificação das crianças, bem como dados referentes ao tipo e tempo de aleitamento recebidos, hábitos orais deletérios (chupeta e sucção digital) e aspectos socioeconômicos (renda familiar mensal e escolaridade da mãe).

Quanto ao tipo de aleitamento, as crianças da amostra foram distribuídas em três categorias: aleitamento materno exclusivo (consideraram-se as crianças que receberam aleitamento materno e não mamadeira, independente da oferta de outros alimentos); aleitamento artificial exclusivo (consideraram-se as crianças que receberam mamadeira e não aleitamento materno, independente da oferta de outros alimentos) ou misto, quando os dois foram ofertados. Entende-se por oferta de outros alimentos a introdução de papas, chás, sucos, água, entre outros.

Quanto ao tempo de aleitamento, foram consideradas também três categorias para aleitamento materno e artificial: nenhum ou pouco, quando a criança foi amamentada até seis meses de idade; até dois anos, quando a criança recebeu aleitamento entre seis meses e dois anos de idade; e além de dois anos, quando foi ofertado aleitamento por mais de dois anos. Para o cálculo dos tempos de aleitamento materno e artificial, considerou-se o que ocorreu de modo exclusivo e misto.

Para os hábitos de sucção, consideraram-se o uso e o tempo da chupeta e da sucção digital. Assim como nos tipos de aleitamento (materno e artificial), para esses hábitos, as crianças foram divididas nas três faixas (0 a 6 meses; 6 meses e 1 d a 2 anos; mais de 2 anos).

Quanto aos aspectos socioeconômicos (renda familiar mensal e escolaridade da mãe), para a renda familiar mensal consideraram-se as seguintes faixas adaptadas do IBGE14: sem renda ou até 1 salário mínimo; de 1.1 salário mínimo até 5 salários mínimos; de 5.1 salários mínimos até 10 salários mínimos e mais de 10 salários mínimos. Para a escolaridade da mãe foram consideradas as condições: analfabeta; com ensino fundamental incompleto ou completo; com ensino médio incompleto ou completo e com ensino superior incompleto ou completo.

Este estudo recebeu aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria – CEP/UFSM, sob o protocolo de número 0223.0.243.000-10.

As variáveis estudadas foram analisadas de forma descritiva e estatística. O Software Statistical Package for Social Science 15.0 (SPSS) foi utilizado para a realização da análise estatística dos dados. Utilizou-se o teste Qui-Quadrado para as relações entre as variáveis tipo de aleitamento, tempo de aleitamento materno, tempo de aleitamento artificial, hábitos de sucção, renda familiar mensal e escolaridade da mãe. Nas análises estatísticas foi utilizado nível de significância de 5% (p< 0,05).

RESULTADOS

Observam-se os dados descritivos referentes às variáveis tipo de aleitamento, tempo de aleitamento materno, tempo de aleitamento artificial, chupeta, tempo de chupeta, sucção digital, tempo de sucção digital, renda familiar mensal e escolaridade da mãe.

O tipo de aleitamento foi relacionado com as variáveis tempo de aleitamento materno, tempo de aleitamento artificial, chupeta, tempo de chupeta, sucção digital, tempo de sucção digital, renda familiar mensal e escolaridade da mãe.

O tempo de aleitamento materno foi relacionado neste estudo com as variáveis tempo de aleitamento artificial, chupeta, tempo de chupeta, sucção digital, tempo de sucção digital, renda familiar mensal e escolaridade da mãe.

O tempo de aleitamento artificial também foi relacionado com as variáveis tempo de aleitamento artificial, chupeta, tempo de chupeta, sucção digital, tempo de sucção digital, renda familiar mensal e escolaridade da mãe.

DISCUSSÃO

Nesta pesquisa constatou-se que houve prevalência do tipo misto de amamentação, porém observou-se que o uso exclusivo do aleitamento materno foi maior que o artificial exclusivo (Tabela 1), este predomínio do aleitamento misto também foi observado por outros autores8.

Tabela 1 Distribuição de frequência dos valores absolutos (n) e relativos (%) das variáveis, tipo de aleitamento, tempo de aleitamento materno, tempo de aleitamento artificial, uso de chupeta, tempo de chupeta, presença de sucção digital, tempo de sucção digital, renda familiar mensal e escolaridade da mãe 

Variáveis n %
Tipo de Aleitamento Aleitamento Materno Exclusivo 41 21,0
Aleitamento Artificial Exclusivo 26 13,3
Aleitamento Misto 128 65,7

Tempo de Aleitamento Materno 0 - 6m 90 46,2
6m – 2a 55 28,2
+ 2a 50 25,6

Tempo de Aleitamento Artificial 0 - 6m 43 22,0
6m – 2a 23 11,8
+ 2a 129 66,2

Chupeta Presente 118 60,5
Ausente 77 39,5

Tempo de Chupeta 0 - 6m 83 42,6
6m – 2a 31 15,9
+ 2a 81 41,5

Sucção Digital Presente 18 9,2
Ausente 177 90,8

Tempo de Sucção Digital 0 - 6m 179 91,8
6m – 2a 4 2,0
+ 2a 12 6,2

Renda Familiar Mensal 0 - 1 salário 85 43,6
1.1 - 5 salários 96 49,2
5.1 - 10 salários 12 6,2
+ 10.1 salários 2 1,0

Escolaridade da Mãe Analfabeta 4 2,1
Ens. Fund. I/C 129 66,2
Ens. Méd. I/C 48 24,6
Ens. Sup. I/C 14 7,1

Legenda: 0 – 6m – não recebeu/usou ou por até 6 meses; 6m – 2a – recebeu/usou de 6 meses a 2 anos; + 2a – recebeu/usou além dos 2 anos; Ens. Fund. I/C – Ensino Fundamental Incompleto ou Completo; Ens. Méd. I/C – Ensino Médio Incompleto ou Completo; Ens. Sup. I/C – Ensino Superior Incompleto ou Completo

Tabela 2 Distribuição dos valores absolutos (n) e relativos (%) das relações entre tipo de aleitamento e as variáveis tempo de aleitamento materno, tempo de aleitamento artificial, uso de chupeta, tempo de chupeta, presença de sucção digital, tempo de sucção digital, renda familiar mensal e escolaridade materna 

Variáveis Tipo de Aleitamento
 
p – valor
Aleitamento Materno Exclusivo Aleitamento Artificial Exclusivo Aleitamento Misto

n (%) n (%) n (%)
Tempo de Aleitamento Materno 0 - 6m 1 (2,4)** 26 (100,0)** 63 (49,2) 0,000*
6 m – 2a 13 (31,7) 0 (0,0)** 42 (32,8)**
+ 2a 27 (65,9)** 0 (0,0)** 23 (18,0)**

Tempo de Aleitamento Artificial 0 - 6m 41 (100,0)** 0 (0,0)** 2 (1,6)** 0,000*
6 m – 2a 0 (0,0)* 3 (11,5) 20 (15,6)**
+ 2a 0 (0,0)** 23 (88,5)** 106 (82,8)**

Chupeta Presente 9 (22,0)** 23 (88,5)** 86 (67,2)** 0,000*
Ausente 32 (78,0)** 3 (11,5)** 42 (32,8)**

Tempo de Chupeta 0 - 6m 32 (78,0)** 4 (15,4)** 47 (36,7)** 0,000*
6 m – 2a 3 (7,4)** 4(15,4) 24 (18,8)**
+ 2a 6 (14,6)** 18 (69,2)** 57 (44,5)**

Sucção Digital Presente 3 (7,3) 3 (11,5) 12 (9,4) 0,840
Ausente 38 (92,7) 23 (88,5) 116 (90,6)

Tempo de Sucção Digital 0 - 6m 38 (92,7) 24 (92,3) 117 (91,4) 0,483
6 m – 2a 2 (4,9) 0 (0,0) 2 (1,6)
+ 2a 1 (2,4) 2 (7,7) 9 (7,0)

Renda Familiar Mensal 0 - 1 salário 19 (46,3) 16 (61,5)** 50 (39,0) 0,002*
1.1 - 5 salários 19 (46,3) 6 (23,1)** 71 (55,5)**
5.1 - 10 salários 3 (7,4) 2 (7,7) 7 (5,5)
+ 10.1 salários 0 (0,0) 2 (7,7)** 0 (0,0)**

Escolaridade da Mãe Analfabeta 2 (4,9) 1 (3,8) 1 (0,8) 0,602
Ens. Fund. I/C 29 (70,7) 17 (65,4) 83 (64,9)
Ens. Méd. I/C 7 (17,1) 6 (23,1) 35 (27,3)
Ens. Sup. I/C 3 (7,3) 2 (7,7) 9 (7,0)

Legenda: 0 – 6m – não recebeu/usou ou por até 6 meses; 6m – 2a – recebeu/usou de 6 meses a 2 anos; + 2a – recebeu/usou além dos 2 anos; Ens. Fund. I/C – Ensino Fundamental Incompleto ou Completo; Ens. Méd. I/C – Ensino Médio Incompleto ou Completo; Ens. Sup. I/C – Ensino Superior Incompleto ou Completo; * Nível de Significância de 1% p<0,01; ** Análise de resíduos pelo teste Qui-quadrado

Tabela 3 Distribuição dos valores absolutos (n) e relativos (%) das relações entre tempo de aleitamento materno e as variáveis tempo de aleitamento artificial, uso de chupeta, tempo de chupeta, presença de sucção digital, tempo de sucção digital, renda familiar mensal e escolaridade materna 

Variáveis Tempo de Aleitamento Materno
 
p – valor
0 – 6m 6m – 2a + 2a

n (%) n (%) n (%)
Tempo de Aleitamento Artificial 0 - 6m 1 (1,1)** 14 (25,5) 28 (56,0)** 0,000*
6 m - 2a 12 (13,3) 9 (16,4) 2 (4,0)**
+ 2a 77 (85,6)** 32 (58,1) 20 (40,0)**

Chupeta Presente 73 (81,1)** 34 (61,8) 11 (22,0)** 0,000*
Ausente 17 (18,9)** 21 (38,2) 39 (78,0)**

Tempo de Chupeta 0 - 6m 21 (23,3)** 23 (41,8) 39 (78,0)** 0,000*
6 m - 2a 18 (20,0)** 10 (18,2) 3 (6,0)**
+ 2a 51 (56,7)** 22 (40,0) 8 (16,0)**

Sucção Digital Presente 9 (10,0) 4 (7,3) 5 (10,0) 0,839
Ausente 81 (90,0) 51 (92,7) 45 (90,0)

Tempo de Sucção Digital 0 - 6m 83 (92,2) 51 (92,8) 45 (90,0) 0,352
6 m - 2a 0 (0,0) 2 (3,6) 2 (4,0)
+ 2a 7 (7,8) 2 (3,6) 3 (6,0)

Renda Familiar Mensal 0 - 1 salário 36 (40) 30 (54,5) 19 (38) 0,245
1.1 - 5 salários 44 (48,9) 23 (41,8) 29 (58,0)
5.1 - 10 salários 8 (8,9) 2 (3,7) 2 (4,0)
+ 10.1 salários 2 (2,2) 0 (0,0) 0 (0,0)

Escolaridade da Mãe Analfabeta 1 (1,1) 2 (3,6) 1 (2,0) 0,356
Ens. Fund. I/C 53 (58,9) 38 (69,1) 38 (76,0)
Ens. Méd. I/C 27 (30,0) 12 (21,8) 9 (18,0)
Ens. Sup. I/C 9 (10,0) 3 (5,5) 2 (4,0)

Legenda: 0 – 6m – não recebeu/usou ou por até 6 meses; 6m – 2a – recebeu/usou de 6 meses a 2 anos; + 2a – recebeu/usou além dos 2 anos; Ens. Fund. I/C – Ensino Fundamental Incompleto ou Completo; Ens. Méd. I/C – Ensino Médio Incompleto ou Completo; Ens. Sup. I/C – Ensino Superior Incompleto ou Completo; * Nível de Significância de 1% p<0,01; ** Análise de resíduos pelo teste Qui-quadrado

Tabela 4 Distribuição dos valores absolutos (n) e relativos (%) das relações entre tempo de aleitamento artificial e as variáveis uso de chupeta, tempo de chupeta, presença de sucção digital, tempo de sucção digital, renda familiar mensal e escolaridade materna 

Variáveis Tempo de Aleitamento Artificial
 
p – valor
0 – 6m 6m – 2a + 2a
n (%) n (%) n (%)
Chupeta Presente 9 (20,9)** 18 (78,3)** 91 (70,5)** 0,000*
Ausente 34 (79,1)** 5 (21,7)** 38 (29,5)**

Tempo de Chupeta 0 - 6m 34 (79,0)** 8 (34,8) 41 (31,8)** 0,000*
6 m – 2a 3 (7,0)** 10 (43,5)** 18 (14,0)**
+ 2a 6 (14,0)** 5 (21,7)** 70 (54,2)**

Sucção Digital Presente 3 (7,0) 4 (17,4) 11 (8,5) 0,339
Ausente 40 (93,0) 19 (82,6) 118 (91,5)

Tempo de Sucção Digital 0 - 6m 40 (93,0) 19 (82,6) 120 (93,0) 0,194
6 m – 2a 2 (4,7) 1 (4,4) 1 (0,8)
+ 2a 1 (2,3) 3 (13,0) 8 (6,2)

Renda Familiar Mensal 0 - 1 salário 20 (46,5) 11 (47,8) 54 (41,9) 0,634
1.1 - 5 salários 20 (46,5) 9 (39,1) 67 (51,9)
5.1 - 10 salários 3 (7,0) 3 (13,0) 6 (4,6)
+ 10.1 salários 0 (0,0) 0 (0,0) 2 (1,6)

Escolaridade da Mãe Analfabeta 2 (4,7) 0 (0,0) 2 (1,6) 0,769
Ens. Fund. I/C 30 (69,8) 14 (60,9) 85 (65,9)
Ens. Méd. I/C 8 (18,6) 7 (30,4) 33 (25,6)
Ens. Sup. I/C 3 (7,0) 2 (8,7) 9 (7,0)

Legenda: Ens. Fund. I/C – Ensino Fundamental Incompleto ou Completo; Ens. Méd. I/C – Ensino Médio Incompleto ou Completo; Ens. Sup. I/C – Ensino Superior Incompleto ou Completo; 0 – 6m – não usou ou por até 6 meses; 6m – 2a – usou de 6 meses a 2 anos; + 2a – usou além dos 2 anos;* Nível de Significância de 1% p<0,01; ** Análise de resíduos pelo teste Qui-quadrado

Quanto aos tempos de aleitamento, houve relação entre os mesmos. Das crianças que receberam mamadeira por período superior a dois anos, a maioria não recebeu aleitamento materno ou o fez por um curto período. Por outro lado, as crianças que tiveram maior oferta de aleitamento materno fizeram pouco uso de mamadeira.

Várias razões podem levar a introdução da mamadeira, a preocupação com a nutrição do bebê, seu choro, opiniões de que o leite é fraco e insuficiente9,10 e a falta de informação sobre os benefícios da amamentação são algumas delas11. Além desses aspectos, o término da licença maternidade, o retorno da mãe ao trabalho, a renda e o grau de escolaridade12,13, geralmente, relacionam-se a este momento.

O uso prolongado da mamadeira, explícito neste estudo como aleitamento artificial, pode ser verificado nesta pesquisa, uma vez que 66,2% das crianças usaram-na por mais de dois anos (Tabela 1). Sabe-se que por meio da sucção na mama ocorre o movimento de ordenha, que favorece o adequado vedamento labial e a correção do retrognatismo mandibular fisiológico. Além disso, beneficia o correto posicionamento da língua, por meio da adequação da tonicidade devido a sua intensa atividade muscular2,15. Quando a mamadeira é introduzia e permanece por longo período, esse movimento fica prejudicado, interferindo no desenvolvimento das funções e estruturas orofaciais16,17.

Além disso, a introdução de mamadeiras pode incentivar o surgimento de outros hábitos orais deletérios, uma vez que, a criança não supre suas necessidades de sucção e acaba adquirindo hábitos de sucção não nutritiva como chupeta e sucção digital2,3,6. Neste estudo, o uso da mamadeira, além dos dois anos de idade, pode ter sido determinante para a presença de chupeta na maioria das crianças, a qual foi usada por tempo prolongado (Tabela 1). Quanto à sucção digital, a minoria das crianças teve esse hábito, provavelmente, porque grande parte delas já utilizava a chupeta, satisfazendo sua vontade de sucção. Assim, mesmo que o hábito de sucção digital não tenha sido frequente entre as crianças, a maioria utilizou a chupeta, o que pode interferir no crescimento e desenvolvimento facial e da arcada dentária, podendo influenciar de forma negativa na morfologia do palato duro e na mobilidade e tensão da língua e dos lábios18.

No que se refere aos aspectos socioeconômicos, observou-se que grande parte das famílias não possuía renda ou recebia até um salário mínimo por mês. Corroborando com estes resultados, outro estudo, analisando o desmame precoce, evidenciou que a renda familiar mensal da maioria das famílias era de até um salário mínimo19. Esse estudo também verificou que houve predomínio de mães com o primeiro grau incompleto ou completo, indo ao encontro da presente pesquisa. Esse predomínio também foi verificado em outro estudo20.

A escolaridade elevada das mães tem sido associada ao sucesso do aleitamento materno21, o que pode estar relacionado ao grau de instrução das mesmas, pois aquelas com alto grau de escolaridade, geralmente, são bem instruídas quanto aos benefícios do aleitamento materno e os prejuízos do artificial.

No que se refere às relações pesquisadas, houve relação entre as variáveis tipo de aleitamento, tempo de aleitamento materno e artificial entre si; bem como, dessas com as variáveis renda familiar, chupeta e tempo da mesma.

Observou-se, neste estudo, que as crianças que receberam aleitamento materno por pouco tempo, assim como aquelas que tiveram aleitamento artificial ou misto prolongado, desenvolveram o uso da chupeta por mais tempo. Já aquelas que foram amamentadas no peito por mais tempo e que não tiveram a inserção de mamadeira não desenvolveram o hábito de chupeta.

O aleitamento materno, além de alimentar o bebê, tem a função de satisfazer a sucção, devido ao esforço que os músculos exercem durante a amamentação. A não satisfação das necessidades psicoemocionais, devido ao tempo inadequado de amamentação natural e a introdução e prolongamento do uso de mamadeiras, pode levar a criança a suprir tais necessidades utilizando artifícios como chupetas ou o próprio polegar 3,22.

Várias pesquisas encontraram relação entre a presença de hábitos e o desmame precoce, bem como com o prolongamento da amamentação artificial17,23, 24, o que corrobora com os resultados deste estudo.

Quando se relacionou tipo e tempo de aleitamento materno com os aspectos socioeconômicos familiares verificou-se que não houve significância estatística, exceto a relação entre tipo de aleitamento e renda familiar. Pôde-se observar que a maioria das mães que ofertaram a mamadeira, seja de forma exclusiva ou mista, encontrava-se em uma faixa de renda mensal baixa.

Alguns autores relatam que as mães pertencentes a classes sociais mais elevadas, com nível educacional maior, bem como maior poder aquisitivo realizam o aleitamento natural com maior frequência25, devido a maior facilidade de acesso às informações sobre o assunto. Isto pode ser observado em estudo realizado com 30 mães, onde as que amamentaram seus filhos por mais tempo, foram aquelas com maior grau de escolaridade e maior renda familiar mensal26.

CONCLUSÃO

Pode-se concluir que o tipo misto de aleitamento predominou, porém verificou-se que o aleitamento materno exclusivo já começa surgir em detrimento do artificial, entretanto, quando esse ocorre ainda permanece por período prolongado. Além disso, o tipo e o tempo de aleitamento foram determinantes para a aquisição do hábito de chupeta e os níveis sociais de renda mais baixos podem ser considerados preditores da inserção de outras formas de aleitamento, que não o natural.

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Recebido: 25 de Abril de 2012; Aceito: 31 de Agosto de 2012

Endereço para correspondência: Aline Prade Neu Rua Doutor Bozano, nº 1094/06 – Centro Santa Maria - RS CEP: 97015-002 E-mail: alineprade@gmail.com

Conflito de interesses: inexistente

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