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Revista CEFAC

versão On-line ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.16 no.3 São Paulo maio/jun. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1982-021620148713 

ARTIGOS ORIGINAIS

Análise perceptiva e nasométrica da hipernasalidade após a veloplastia intravelar para correção da insuficiência velofaríngea: efeitos a longo prazo

Renata Paciello Yamashita 1  

Andressa Sharllene Carneiro da Silva 2  

Ana Paula Fukushiro 3  

Inge Elly Kiemle Trindade 4  

1Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo – HRAC-USP, Bauru, São Paulo, Brasil

2Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo – HRAC-USP, Bauru, São Paulo, Brasil

3 Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo - FOB-USP e Laboratório de Fisiologia do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo - HRAC-USP, Bauru, São Paulo, Brasil

4 Departamento de Ciências Biológicas da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo - FOB-USP e Laboratório de Fisiologia do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo - HRAC-USP, Bauru, São Paulo, Brasil

RESUMO

Objetivo

investigar o efeito, a longo prazo, da veloplastia intravelar realizada para a correção cirúrgica da insuficiência velofaríngea (IVF) residual, sobre a hipernasalidade de indivíduos com fissura de palato reparada.

Métodos

foram avaliados 60 pacientes com fissura de palato±lábio operada e IVF residual, de ambos os sexos, com idade entre 4 e 52 anos, os quais foram submetidos à palatoplastia secundária com veloplastia intravelar. A avaliação perceptivo-auditiva da fala foi realizada para classificação da hipernasalidade, durante a conversação espontânea e a repetição de vocábulos e frases, utilizando-se escala de 6 pontos, onde 1=ausência e 6=hipernasalidade grave. A nasometria foi utilizada para determinação do escore de nasalância (correlato acústico da nasalidade), durante a leitura de 5 sentenças contendo sons exclusivamente orais, utilizando-se como limite de normalidade o escore de 27%. As avaliações foram realizadas 4 dias antes e 16 meses, em média, após a cirurgia e o sucesso cirúrgico foi analisado com base na proporção de redução e eliminação/normalização da hipernasalidade e da nasalância.

Resultados

verificou-se, após a cirurgia, redução da hipernasalidade e da nasalância em 75% e 52% dos pacientes, respectivamente. Proporções menores foram identificadas quando utilizado o critério mais rigoroso de análise (eliminação/normalização), ou seja, 32% de eliminação da hipernasalidade e 38% de normalização da nasalância, respectivamente.

Conclusão

aveloplastia intravelarmostrou ser um procedimento efetivo, a longo prazo, na redução do sintoma mais significante da IVF residual e deve ser considerada como uma primeira opção no tratamento cirúrgico da IVF residual.

Palavras-Chave: Fissura Palatina; Insuficiência Velofaríngea; Palato; Fala; Procedimentos Cirúrgicos Operatórios

INTRODUÇÃO

Os distúrbios de fala associados às fissuras de palato decorrem das alterações anatômicas das estruturas velofaríngeas, em que a inserção dos músculos do palato, em particular, do músculo levantador do véu palatino, encontra-se anteriorizada, estabelecendo uma posição sagital, inserido na borda posterior do palato duro, o que, desta forma, compromete a integridade da cinta muscular necessária ao fechamento velofaríngeo1-3.

A cirurgia primária tem a finalidade de reparar o palato, anatômica e funcionalmente, possibilitando, deste modo, um fechamento velofaríngeo adequado, fundamental para a produção normal da fala4,5. Entretanto, em muitos casos, mesmo após a palatoplastia primária, os sintomas de fala característicos da insuficiência velofaríngea (IVF) tais como a hipernasalidade, a emissão de ar nasal, a fraca pressão intraoral e os distúrbios articulatórios compensatórios, podem persistir6-8. Isto porque, embora o palato esteja completamente fechado e longo em extensão, a inserção dos músculos levantadores do véu palatino permanece anteriorizada. Nesses casos se torna necessária a correção cirúrgica secundária do palato9.

Dentre as diferentes cirurgias empregadas para a correção da IVF, destaca-se o procedimento conhecido como veloplastia intravelar, que se baseia na total liberação da musculatura do palato e o deslocamento posterior do feixe muscular, a fim de que as fibras alcancem uma posição mais transversal de modo a favorecer a mobilidade do véu palatino e, por consequência, promover o fechamento velofaríngeo10-12. A técnica foi descrita, inicialmente, por Braithwaite e Maurice13 e posteriormente, por Kriens14 como um procedimento cirúrgico anatomofuncional utilizado para o fechamento primário da fissura de palato mole15. A partir de então, o procedimento se popularizou e passou a ser incorporado a várias técnicas cirúrgicas tanto para a correção primária do palato quanto para a correção da IVF residual.

O principal critério para indicação da veloplastia intravelar é a inserção anteriorizada da musculatura do palato. A veloplastia intravelar é indicada, principalmente, nos casos em que o palato apresenta boa extensão e mobilidade e a falha no fechamento velofaríngeo é pequena8,16-18.

Uma vez que o objetivo da cirurgia é restaurar a anatomia normal ou modificar a anatomia existente para melhorar a função velofaríngea1, é esperado que o uso deste procedimento, também nos pacientes que apresentam falhas médias e grandes do fechamento velofaríngeo, possa levar a melhora dos sintomas de fala.

Em estudo recente realizado no Laboratório19 no qual essa pesquisa foi realizada, verificou-se que a veloplastia intravelar favoreceu a melhora da fala em parcela considerável dos pacientes que apresentavam falhas pequenas no fechamento velofaríngeo. Por outro lado, os pacientes que apresentavam IVF grave, também se beneficiaram com a cirurgia, embora em menor grau. Isto se deve, provavelmente, ao fato de que, naquele estudo, as avaliações pós-operatórias foram realizadas no período inferior a um ano após a cirurgia, considerado relativamente curto, do ponto de vista clínico, para o resultado definitivo da cirurgia sobre a fala. Com base nisso, o presente estudo teve por objetivo investigar o efeito, a longo prazo, da veloplastia intravelar realizada para a correção cirúrgica da insuficiência velofaríngea (IVF) residual, sobre a hipernasalidade de indivíduos com fissura de palato reparada.

MÉTODOS

Este estudo foi desenvolvido no Laboratório de Fisiologia do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC-USP), com a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição (nº295/2009).

Foram avaliados 60 indivíduos com fissura de palato já reparada, com ou sem fissura de lábio associada, com idade entre 4 e 52 anos (17 anos, em média). Os pacientes foram selecionados dentre aqueles com indicação para correção cirúrgica da IVF, atendidos de rotina no Hospital, num período de dois anos. Todos os pacientes apresentavam IVF residual e tinham indicação para palatoplastia secundária com veloplastia intravelar, conforme julgamento perceptivo e nasofaringoscópico realizado pelo fonoaudiólogo e cirurgião plástico. Não foram incluídos no estudo pacientes com síndromese/ouevidentesproblemas neurológicos,fístulas de palato residuais esintomas respiratóriosalérgicos agudos que levassem àcongestão nasal durante oexame.

Todos os pacientes, ou o seu responsável, assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. Os pacientes foram submetidos à avaliação perceptiva e nasométrica da fala 4 dias, em média, antes da cirurgia (avaliação pré-cirúrgica – PRÉ) e 16 meses, em média, após a cirurgia (avaliação pós-cirúrgica – PÓS). A veloplastia intravelar foi realizada na técnica de Furlow, na técnica de von Langenbeck ou, ainda, na palatoplastia posterior secundária com manobra de Braithwaite.

Os pacientes foram submetidos à avaliação perceptivo-auditiva da fala, realizada de rotina no Laboratório de Fisiologiado HRAC-USP, sendo que, no presente estudo, foram utilizados os resultados de hipernasalidade. As avaliações perceptivo-auditivas pré e pós-operatórias foram realizadas de modo presencial, conforme descrito na literatura20, por um único avaliador com experiência de mais de 20 anos em fissura labiopalatina.

A hipernasalidade foi classificada durante a conversa espontânea e repetição de lista de vocábulos e frases contendo fones exclusivamente orais, utilizando-se uma escala de 6 pontos, onde: 1=ausente, 2=leve, 3=leve para moderada, 4=moderada, 5=moderada para grave e 6=grave. Apenas os pacientes que apresentaram hipernasalidade a partir de leve (escore=2) foram incluídos no estudo.

Os pacientes foram, também, submetidos à nasometria para medida da nasalância. A nasalância foi determinada utilizando-se um Nasômetro (modelo 6200-3 IBM, software versão 30-02-3.22, Kay Elemetrics, Lincoln Park, NJ)21 durante a leitura de um conjunto de 5 sentenças contendo sons exclusivamente orais22. Foi considerado como limite de normalidade o escore de 27%, ou seja, valores superiores a 27% foram considerados como sugestivos de hipernasalidade23. Mudanças individuaisforam consideradas clinicamente significantes quando superiores a8 pontos percentuais, com base em observaçãoanterior, onde95%das medidas seriadas de nasalâncianãovariaram maisdo que 8%em indivíduos saudáveis, testados e retestadosno mesmo diaa intervalos de1,6e 12 meses(I.T., comunicação pessoal, 2010). A Figura 1 mostra de forma esquemática a configuração do sistema.

Figura 1 Esquema representativo da instrumentação para medida da nasalância (Nasômetro 6200-3 IBM, Kay Elemetrics Corp. Lincoln Park, NJ, USA) 

A análise do sucesso cirúrgico foi baseada em função das seguintes observações pós-operatórias24.

Hipernasalidade: 1) redução, definida como diminuição do escore de hipernasalidade em um ou mais pontos em relação ao pré-operatório, incluindo casos de eliminação; 2) eliminação, definida como diminuição da hipernasalidade até o escore 1 (ausência de hipernasalidade).

Nasalância: 1) redução, definida como diminuição do escore de nasalância em mais de 8 pontos percentuais em relação ao pré-operatório, incluindo os casos de normalização; 2)normalização, definida como diminuição do escore de nasalância até o valor normal (nasalância ≤27%).

A significância estatística das diferenças pré e pós-operatórias foi investigada por meio do teste t de Student para amostras pareadas. Diferençasperceptivasforam investigadas por meio do teste de Wilcoxon. Foram aceitos como significantes valores de p<0,05.

RESULTADOS

Os 60 pacientes analisados apresentavam escores de hipernasalidade igual ou maior que 2 antes da cirurgia. A Tabela 1 mostra que, de acordo com a avaliação perceptivo-auditiva da fala, houve redução do grau de hipernasalidade em 75% (45/60) dos casos; em 20% (12/60) não houve alteração e em 5% (3/60) houve aumento. A análise estatística mostrou que a prevalência de redução dos escores foi estatisticamente significante. Na Tabela 2 está demonstrado que a completa eliminação da hipernasalidade foi observada em 32% (19/60) dos pacientes.

Tabela 1 Resultado da veloplastia intravelar de acordo com a avaliação perceptivo-auditiva da fala (hipernasalidade) e a avaliação instrumental (nasalância). Os valores representam a porcentagem (número) de pacientes com resultados positivos (redução/melhora), negativos (aumento/piora) e sem alteração na avaliação pós-cirúrgica realizada (PÓS) 

VARIÁVEIS Resultado Pós-Cirúrgico % (n) Pacientes
PÓS
HIPERNASALIDADE Redução 75 (45)*
Piora 5 (3)
(n=60) Sem alteração 20 (12)

NASALÂNCIA Redução 52 (31)*
Piora 10 (6)
(n=60) Sem alteração 38 (23)

*p < 0,05 diferença estatisticamente significante – teste de Wilcoxon

Tabela 2 – Resultados de resolução daveloplastiaintravelar deacordo com a avaliação perceptivo-auditiva da fala(hipernasalidade) e avaliação instrumental (nasalância). Os valores representama porcentagem (número) de pacientes com resultadospositivos (eliminação/normalização)na avaliação pós-cirúrgica realizada (PÓS) 

VARIÁVEIS % (n) Pacientes
PÓS
HIPERNASALIDADE 32 (19)
(n=60)
NASALÂNCIA 38 (23)
(n=60)

Todos os pacientes apresentavam escores médios de nasalância maior que 27% antes da cirurgia. Após a cirurgia, o escore médio de nasalância diminuiu significantemente de 41±8% para 33±15% (Tabela 3).

Tabela 3 Valores médios de nasalância, acompanhados do desvio padrão, obtidos na avaliação nasométrica, realizada antes (PRE) e após (PÓS) a veloplastia intravelar 

  PRE PÓS
NASALÂNCIA 41±8 33±15*
(n=60)

*p < 0,05 diferença estatisticamente significante(PRÉ X PÓS) – teste t de Student

A análise individual dos dados mostrou que, após a cirurgia, houve redução da nasalância em 52% dos pacientes (31/60), sugerindo melhora; em 38% (23/60) não se observou alteração significante e, em 10% (6/60) ocorreu aumento da nasalância, sugestivo de piora. A análise estatística mostrou que a redução observada foi estatisticamente significante. Do total de pacientes analisados, 38% (23/60) passaram a apresentar valores normais de nasalância após a cirurgia.

DISCUSSÃO

A veloplastia intravelar é um procedimento que vem sendo cada vez mais empregado na correção da IVF residual pelo fato de proporcionar uma condição mais favorável à mobilidade velofaríngea com menor risco de morbidade, quando comparado às demais cirurgias secundárias, como o retalho faríngeo e a esfincteroplastia25. Ao longo dos anos, a veloplastia intravelar foi sofrendo modificações e adaptações tendo sido incorporada a diferentes técnicas cirúrgicas como as de von Langenbeck e Furlow, usadas no presente estudo. A escolha da técnica cirúrgica depende das condições velofaríngeas identificadas na avaliação pré-operatória e da preferência do cirurgião plástico10,17. Na verdade, existe uma considerável variação, quanto à interpretação do termo veloplastia intravelar, o qual tem sido usado para descrever qualquer grau de dissecção muscular, desde a liberação parcial dos músculos até as formas mais radicais de dissecção e posteriorização da musculatura velar10,12,26. Além disso, o procedimento cirúrgico varia, também, entre os cirurgiões e, de certa forma, entre as cirurgias realizadas por um mesmo cirurgião.

De fato é consenso na literatura que a veloplastia intravelar é a manobra indicada nos casos com gap velofaríngeo pequeno. Entretanto, estudos têm sugerido que tal procedimento é, também, efetivo na presença de IVF grave8,19. No presente estudo, 60 pacientes com gaps de extensões variáveis, elegíveis para a veloplastia intravelar, foram avaliados. De modo geral, verificou-se que a cirurgia levou à melhora da hipernasalidade (redução dos escores), a longo prazo, em parcela significante dos pacientes avaliados (75%). Estes resultados foram similares aos relatos da literatura, que variam entre 75% e 85%9,10,18,26. Recentemente, melhores resultados a longo prazo também foram relatados em um caso de fissura labiopalatina reparada e IVF grave, que obteve expressiva melhora da hipernasalidade após a veloplastia intravelar, chegando à eliminação completa do sintoma 18 meses após a cirurgia27.

Em termos de resolução do sintoma, os resultados do presente estudo foram menos expressivos, com 32% dos pacientes apresentando ressonância equilibrada após a cirurgia. Resultados superiores, de 85% dos casos de eliminação da hipernasalidade, foram relatados na literatura25. Por outro lado, outros autores11 encontraram 39% de eliminação de hipernasalidade, proporção semelhante ao do presente estudo, cerca de 14 meses após a cirurgia em um estudo em que, à semelhança do presente estudo, também incluiu pacientes com gaps grandes em sua amostra. Há que se considerar que a avaliação perceptivo-auditiva, neste estudo, foi realizada de modo presencial e por um único avaliador com experiência de mais de 20 anos no tratamento de indivíduos com fissura labiopalatina. Esta pode ser uma limitação do presente estudo, pois, a despeito da grande experiência do profissional, em estudos desta natureza, cada vez mais se faz necessário a participação de mais de um avaliador para a classificação dos sintomas de fala. Atualmente, outros estudos estão sendo conduzidos no Laboratório de Fisiologia, utilizando amostra de fala gravada e análise perceptiva de, no mínimo, três avaliadores para o julgamento da fala.

O efeito da veloplastia intravelar sobre a fala dos pacientes também foi analisado utilizando-se metodologia instrumental. Os resultados mostraram que, embora, em média, o escore de nasalância não tenha atingido o limite de normalidade após a cirurgia, a redução observada foi estatisticamente significante. Individualmente, verificou-se que a cirurgia levou à redução da nasalância em 52% dos casos e à normalização em 38%. Porcentagens superiores, de 87% de redução e 58% de normalização da nasalância foram relatadas na literatura9.Entretanto, as diferenças entre esses resultados podem ser devido à amostra de fala utilizada pelos autores daquele estudo, a qual constou de emissão de vogal alta isolada e de sílaba contendo vogal alta. É importante destacar que a proporção de normalização verificada pelo exame instrumental confirmou os achados da avaliação perceptiva, ainda que esta última tenha sido realizada por um único avaliador.

Uma vez que a nasoendoscopia faz parte da avaliação pré-operatória realizada de rotina nestes pacientes, analisaram-se, separadamente, os pacientes do presente estudo que apresentavam gaps velofaríngeo pequenos (29/60), constatou-se maior proporção de sucesso cirúrgico. Nesses casos, melhora da hipernasalidade ocorreu em 83% dos pacientes e eliminação do sintoma foi observada em 55% dos casos. A nasometria mostrou 66% de redução e 52% de normalização da nasalância nesses pacientes. Nos pacientes com gaps grandes, contudo, observou-se 67% de melhora da hipernasalidade e somente 10% de eliminação do sintoma e na nasometria, verificou-se 40% de redução e 23% de normalização dos escores de nasalância. Esses achados confirmam a maior eficácia da veloplastia intravelar em pacientes com gaps velofaríngeos pequenos, como observado, a curto prazo, em outros estudos16,19.

Por outro lado, a veloplastia intravelar foi menos eficiente na redução da nasalância do que a cirurgia de retalho faríngeo empregada para o tratamento cirúrgico da IVF7,24,28,29. Ocorre, no entanto, que em alguns estudos foi, também, constatado que o retalho faríngeo levou ao aparecimento de hiponasalidade e escores subnormais de nasalância na produção de sons nasais como consequência da hipercorreção7, efeito, este, não esperado em pacientes submetidos à veloplastia intravelar, em função da própria condição da técnica. Recentemente, um estudo comparativo entre as duas técnicas conduzido em no Laboratório no qual a presente pesquisa foi conduzida, confirmou a superioridade do retalho faríngeo na correção da IVF, em termos de eliminação da hipernasalidade30.

Em suma, os resultados do presente estudo demonstraram que, a longo prazo, a veloplastia intravelar foi bem sucedida em melhorar a ressonância da fala de parcela considerável dos pacientes. Mesmo aqueles pacientes, em que não se observou resolução completa dos sintomas de fala, puderam se beneficiar da cirurgia. Esses achados reforçam as afirmações de que, o reposicionamento da musculatura do palato favorece o movimento velar, reduzindo os sintomas e melhorando a inteligibilidade da fala, mesmo sem ser alcançado o fechamento velofaríngeo completo11,26. Embora a análise individual dos pacientes baseada no tamanho do gap velofaríngeo tenha reveladomelhores resultados na presença de gaps pequenos, os resultados obtidos nos pacientes comgapsgrandes não devem serconsiderados como insucesso cirúrgico, uma vez que uma alta proporção demelhora dahipernasalidadefoi observada. Acredita-se que estes pacientes possam ser submetidos a intervenções subsequentes menos agressivas, evitando-se, por exemplo, a indicação de retalhos muito largos e seus efeitos indesejáveis8,16. É importante enfatizar, que a indicação da veloplastia intravelar nestes casos baseia-se nas condições velofaríngeas pré-operatórias, principalmente a inserção anteriorizada da musculatura velar e a presença de diástase da musculatura do palato. Sob diferentes condições, outros procedimentos cirúrgicos tais como, o retalho faríngeo, a esfincteroplastia ou, ainda, a adaptação de prótese de palato podem ser indicados seguindo critérios já definidos na literatura. Todavia, fatores como idade, gravidade dos sintomas pré-cirúrgicos, tamanho do gap velofaríngeo, falha no diagnóstico pré-operatório, técnica cirúrgica, habilidade do cirurgião, ou, ainda, problemas de cicatrização tecidual podem influenciar negativamente estes resultados24.

CONCLUSÃO

Com base no presente estudo, foi possível demonstrar por meio de avaliação perceptiva e instrumental que a veloplastia intravelar teve um efeito positivo, a longo prazo, sobre a melhora do principal sintoma de fala causado pela IVF, o que nos leva a concordar com os relatos da literatura que defendem a realização da veloplastia intravelar como uma primeira tentativa para a correção da IVF.

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Recebido: 29 de Maio de 2013; Aceito: 18 de Setembro de 2013

Endereço para correspondência: Renata Paciello Yamashita Laboratório de Fisiologia, Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais Universidade de São Paulo Rua Silvio Marchione 3-20 Bauru, São Paulo, Brasil CEP: 17012-900 E-mail: rezeyama@usp.br

Trabalho desenvolvido no Laboratório de Fisiologia – Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, Universidade de São Paulo (HRAC-USP) com bolsa concedida pela Pró-Reitoria de Pesquisa da USP.

Conflito de interesses: inexistente

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