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Revista CEFAC

versão On-line ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.16 no.4 São Paulo jul./ago. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1982-021620143913 

ARTIGOS ORIGINAIS

Ocorrência de ceceio em fricativas vozeadas e não vozeadas em crianças com fissura labiopalatina operada

Melina Evangelista Whitaker 1  

Jeniffer de Cássia Rillo Dutka 2  

Rita de Cássia Moura Carvalho Lauris 3  

Maria Inês Pegoraro-Krook 4  

Viviane Cristina de Castro Marino 5  

1Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo, USP, Bauru, SP, Brasil.

2Curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru, Universidade de São Paulo, USP, Bauru, SP, Brasil.

3Programa de Pós-Graduação do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo, USP, Bauru, SP, Brasil.

3Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo, USP, Bauru, SP, Brasil.

4Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo, USP, Bauru, SP, Brasil.

5Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista, UNESP, Marília, SP, Brasil.

RESUMO

Objetivo

investigar se o ceceio, quando identificado, difere entre as fricativas alveolares não vozeadas e vozeadas produzidas por crianças com fissura labiopalatina operada.

Métodos

estudo prospectivo, em que frases constituídas pelas consoantes [s] e [z] produzidas por 32 crianças com fissura labiopalatina operada (idade média, 8 anos, 8 meses) foram selecionadas de um banco de dados e posteriormente julgadas auditivamente. Todas as crianças apresentavam relação inter-arcos alteradas, conforme avaliação ortodôntica realizada por três ortodontistas (concordância inter-juiz quase perfeita, kappa= 0.81), a partir da análise de modelos de gesso. Três fonoaudiólogas julgaram auditivamente as produções áudio gravadas. A concordância inter-juízes variou entre 56% e 78% e entre 59% e 93% para as frases constituídas de [s] e [z], respectivamente.

Resultados

o ceceio foi identificado em 69% das crianças e, particularmente, em 72% e 50% das produções envolvendo [s] e [z], respectivamente. Houve diferença significante entre os julgamentos para as fricativas [s] e [z], com maior ocorrência de ceceio em [s].

Conclusões

deformidades dentofaciais podem favorecer a ocorrência do ceceio na população com fissura labiopalatina. A maior ocorrência do ceceio em [s] em comparação à [z], a partir da identificação auditiva, pode ser justificado por razões acústicas e/ou articulatórias. Sugere-se que o ceceio é dependente do contexto fonético-fonológico da frase devendo o mesmo ser considerado para fins clínicos e de pesquisa.

Palavras-Chave: Fala; Fissura Palatina; Má Oclusão

INTRODUÇÃO

Vários estudos reportam que alterações oclusais podem resultar em alterações na produção das consoantes fricativas alveolares1-6. Em condições morfológicas e/ou funcionais normais, estas consoantes são produzidas com constrição parcial da corrente aérea entre o ápice da língua e o alvéolo, podendo ser vozeada (com vibração das pregas vocais, [z]) ou não-vozeada (sem vibração das pregas vocais, [s]). Acusticamente, as fricativas vozeadas são caracterizadas pela presença de duas fontes, a fonte glótica (responsável pelo vozeamento) e a fonte de ruído (resultante da constrição do trato vocal) enquanto as fricativas não vozeadas (ou surdas) são formadas por uma única fonte de ruído7.

Modificações morfológicas e/ou funcionais podem resultar em um som distinto do esperado durante a produção das fricativas8,9 condição também conhecida como ceceio (anterior ou lateral)8. Estudos prévios envolvendo sujeitos sem malformações craniofaciais indicaram que alterações oclusais podem resultar em um prejuízo na produção das consoantes fricativas alveolares1,8-12 embora esta relação nem sempre seja observada13 ou, ainda, não esteja diretamente relacionada à severidade da alteração oclusal14. Alguns destes estudos investigaram a ocorrência do ceceio quando produzido em palavras ou outras amostras de fala constituídas pelas consoantes alveolares ([s] e/ou [z])8,9,12,13. No entanto, nestes estudos, não foi investigado se a produção e/ou o julgamento perceptivo-auditivo do ceceio difere entre as fricativas alveolares vozeadas e não vozeadas.

Particularmente, ao se considerar alterações na produção da fala em sujeitos com fissura labiopalatina (FLP)15,16, há relatos de que deficiências no crescimento médio-facial podem resultar em distorções/ceceio na produção das fricativas15,17. De forma geral, a literatura reporta que quando a mandíbula encontra-se protruída em relação à maxila, a língua pode posicionar-se anteriormente durante a posição de repouso, provocando mudanças no direcionamento do fluxo de ar durante a produção das fricativas alveolares, o que resultaria em distorção na produção destas consoantes. No entanto, alguns estudos18,19 indicam que ao investigar uma possível associação entre ceceio (identificado por meio de análise áudio-video durante a produção de frase constituída por recorrência de [s]) e relação inter-arcos (verificada pela análise do índice oclusal dos modelos de gesso), não encontrou uma associação direta entre estes dois aspectos em 106 crianças com fissura labiopalatina operada, o que levou os autores a concluírem que outros fatores (morfológicos, funcionais e/ou sensoriais) podem influenciar na produção dos sons fricativos.

De forma geral, observa-se na literatura um grande interesse em se investigar possíveis relações entre ceceio e alterações morfológicas na cavidade oral em crianças com e sem malformações craniofaciais. No entanto, informações sobre possíveis distinções na produção e/ou percepção do ceceio, ao comparar as fricativas alveolares (vozeada ou não vozeada), são restritas na literatura nacional.

Informações sobre as características acústicas e articulatórias das fricativas alveolares vozeadas e não vozeadas reportadas na literatura internacional apontam diferenças entre estas consoantes, quando produzidas por sujeitos com fala normal. Tais descrições acústicas indicam que as fricativas vozeadas apresentam menor intensidade e menor duração, além de maior amplitude no intervalo de fricção, quando comparadas aos seus correspondentes não vozeados20. Estas diferenças são decorrentes do acoplamento da fonte glótica à fonte friccional que ocorre na produção das fricativas vozeadas20.Presume-se que as pregas vocais abduzidas durante a produção das fricativas não vozeadas permitem que um maior volume de fluxo de ar passe através da glote em direção à cavidade de oral. Já as interrupções ou restrições da passagem do fluxo de ar nas fricativas vozeadas reduzem o volume de fluxo de ar e, portanto, a intensidade da turbulência no ponto de constrição. Até o presente momento, porém, não se investigou se estas características acústicas podem influenciar no julgamento perceptivo-auditivo do ceceio na fala de sujeitos com malformações craniofaciais, tornando sua identificação menos audível nas fricativas vozeadas quando comparado com as fricativas não vozeadas.

Ainda, descrições articulatórias resultantes da eletropalatografia indicaram distinções entre a produção das fricativas alveolares [s] e [z] em sujeitos com fala normal. A literatura reporta que, de forma geral, a produção das fricativas [s] e [z], em condições normais, é caracterizada pelo contato lateral da língua ao longo do palato, além de um contato incompleto da língua na parte anterior do rebordo alveolar, resultando em um sulco nesta região21. No entanto, por meio da eletropalatografia, estudiosos21 identificaram variabilidade inter e intra-sujeitos nas produções de [s] e [z] em adultos com fala normal. Também evidenciam um maior contato linguo/palatal para [z] do que para [s] nas medidas eletropalatográficas realizadas, bem como um maior estreitamento no sulco em [z] quando produzido na posição inicial da palavra. Para os estudiosos, uma possível explicação para esta diferença seria a necessidade de um maior volume de ar para a produção de [s], o que empurraria a língua lateralmente, numa tentativa de criar uma passagem mais ampla para o fluxo aéreo. Estudos envolvendo ressonância magnética também encontraram diferenças no posicionamento da língua durante a produção de fricativas não vozeadas e vozeadas. De forma geral, observou-se uma tendência da raiz/base da língua estar mais anteriorizada nas fricativas vozeadas em relação aos correspondentes desvozeados22.

Considerando que diferenças entre as fricativas [s] e [z] são esperadas na fala normal, quando procedimentos acústicos e/ou articulatórios são utilizados, é de interesse verificar se o ceceio, quando julgado auditivamente, também se diferencia diante das fricativas alveolares vozeadas e não vozeadas produzidas por crianças com fissura labiopalatina operada. Um estudo preliminar envolvendo pré-escolares com má-oclusão (porém, sem malformações craniofaciais) indicou maior ocorrência do ceceio na fricativa [s] do que [z], quando a avaliação perceptivo-auditiva foi empregada19. Até o presente momento, porém, não há informações sobre possíveis distinções nas características articulatórias das fricativas [s] e [z] na presença do ceceio em crianças com fissura labiopalatina e, ainda, se tais características podem ser percebidas e/ou mesmo influenciar o julgamento perceptivo-auditivo do ceceio. A hipótese inicialmente adotada neste estudo é de que o ceceio, quando presente, apresenta-se de forma distinta em função das fricativas alveolares não vozeadas e vozeadas, com maior ocorrência para as alveolares não vozeadas do que para as vozeadas. Assim, o objetivo deste estudo foi investigar se o ceceio, quando presente, difere entre as fricativas alveolares não vozeadas e vozeadas produzidas por crianças com fissura labiopalatina operada.

MÉTODOS

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital de Reabilitação de Anomalias sob o ofício no 111/2009.

Trata-se de um estudo prospectivo, em que amostras de fala armazenadas em um banco de dados, depois de selecionadas, foram julgadas por fonoaudiólogos quanto à ocorrência de ceceio em fricativas vozeadas e não vozeadas. Tais amostras foram obtidas de 32 crianças com fissura transforame unilateral operada, com faixa etária entre 6 e 11 anos (média de 8 anos e 8 meses), de ambos os gêneros. Todas as crianças incluídas no estudo apresentavam, na ocasião da coleta de dados, dentadura mista e relação inter-arcos alteradas, conforme avaliação ortodôntica realizada por três ortodontistas (concordância inter-juiz quase perfeita, kappa=0.81), a partir da análise de modelos de gesso, seguindo os critérios propostos por Mars et al (1987)23.

Embora a classificação de Angle seja uma das mais conhecidas e utilizadas para avaliação da má-oclusão em sujeitos sem malformações craniofaciais, esta classificação preconiza somente a posição dentária inter-arcos no sentido sagital, além de ser considerada como um indicador qualitativo e não um índice quantitativo de má oclusão24. Assim, neste estudo, optou-se por utilizar o índice oclusal “Goslon Yardistick” que permite classificar a severidade da má-oclusão e inferir o grau da dificuldade na correção desta, em sujeitos com fissura labiopalatina. Este índice oclusal tem sido aplicado em muitos centros de reabilitação de indivíduos com malformações craniofaciais uma vez que é um índice confiável e fácil de ser reproduzido, capaz de discriminar a qualidade dos resultados cirúrgicos inter-centros, permitindo o diagnóstico precoce da relação entre os arcos dentários, em todas as dimensões: anteroposterior, vertical e transversal, além de identificar o prognóstico do caso, o que possibilita a mudança precoce no protocolo cirúrgico, sem ter que aguardar a fase da dentadura permanente25.

A classificação “Goslon Yardistick” inclui cinco índices oclusais distintos. No entanto, neste estudo foram incluídas somente crianças que apresentavam índice de Goslon categorizados como 4 e 5. Particularmente, o índice 4 constitui- se por (a) trespasse horizontal negativo, com inclinação dos incisivos normal ou vestibularizados; (b) tendência à mordida cruzada unilateral/bilateral e (c) tendência à mordida aberta na área da fissura (Figura 1). Já o índice 5 constitui-se por (a) trespasse horizontal negativo, com incisivos vestibularizados; (b) mordida cruzada bilateral e (c) morfologia do arco dentário superior e anatomia do palato pobre (Figura 2). Vale ressaltar que a seleção dos índices oclusais 4 e 5 no presente estudo justifica-se pelo maior comprometimento nas relações inter-arcos esperados (prognóstico pobre ou muito pobre) nas crianças selecionadas, o que poderia favorecer a identificação do ceceio nas fricativas de interesse, caso o mesmo estivesse presente.

Figura 1 – Paciente com fissura transforame incisivo unilateral do lado direito com Goslon Yardstick 4. Relação entre os arcos dentários pobre com trespasse horizontal negativo e inclinação dos incisivos superiores normal, mordida cruzada bilateral, tendência à mordida aberta na área da fissura e a face tendendo a classe III de Angle, com deficiência maxilar evidente 

Figura 2 – Paciente com fissura transforame incisivo unilateral do lado esquerdo com Goslon Yardstick 5. Relação entre os arcos dentários muito pobre com trespasse horizontal acentuadamente negativo, mordida cruzada total, morfologia do arco dentário superior e anatomia do palato pobre. Face excessivamente côncava com prognóstico ortodôntico-cirúrgico muito pobre 

Foram excluídas do estudo as crianças com história ou presença de hipernasalidade, escape de ar nasal, fraca pressão intra-oral ou articulações compensatórias, a fim de controlar, pelo menos em parte, variáveis que afetassem a identificação de distorções dos sons da fala. Nenhuma das crianças selecionadas recebeu tratamento ortodôntico ou ortopédico previamente à data da coleta de dado.

As produções da fala analisadas foram extraídas de um banco de dados, o qual, para a sua constituição, foi solicitado a cada criança, na ocasião das gravações, duas repetições consecutivas de duas frases distintas, uma constituída pela fricativa [s] e uma constituída pela fricativa [z] (“O saci saiu cedo” e “Zizi pousou na casa da Zezé”, respectivamente). Optou-se pelo uso de frases com recorrência de um mesmo fone, uma vez que tal recorrência poderia favorecer a identificação perceptivo-auditiva da presença ou da ausência da distorção na fala.

As produções das crianças foram gravadas de forma aleatória e em um mesmo dia, numa cabine acústica instalada na própria instituição, utilizando equipamento digital de alta fidelidade. Foi posicionado um microfone de cabeça, condensado/ unidirecional, modelo AKG C420, posicionado a aproximadamente 5 cm da comissura labial. Este microfone foi conectado a uma placa de captura de áudio Sound Blaster Audigy 2, instalado em um computador, onde as gravações em audio foram salvas em arquivos no formato WAV, por meio do programa Sony Sound Forge, versão 8.0.

As gravações de interesse para o presente estudo foram editadas, utilizando-se o mesmo software Sony Sound Forge, versão 8.0. e posteriormente armazenadas em um DVD. Neste DVD, as frases produzidas pelas 32 crianças foram distribuídas aleatoriamente. No total, foram selecionadas inicialmente 128 frases para o presente estudo, sendo 64 correspondentes as duas repetições consecutivas da frase constituída pela fricativa [s] e 64 correspondentes as duas repetições consecutivas da frase constituída pela fricativa [z], produzidas pelos 32 sujeitos.

Após, os julgamentos foram feitos independentemente, por três fonoaudiólogas com experiência na área em avaliar alterações de fala associadas à fissura labiopalatina, incluindo as classificadas como distorções dento-oclusais, utilizando o programa Windows Media Player (Microsoft), em um computador de uso pessoal e fones de ouvido. As fonoaudiólogas foram instruídas a julgar auditivamente se, durante as duas repetições consecutivas de cada frase, pelo menos um dos segmentos fricativos inseridos nestas duas repetições foi produzido conforme o alvo (ausência de ceceio) ou se ocorreu ceceio (ou seja, quando o segmento fricativo foi produzido com algum tipo de distorção/ruído). Ao final, um único julgamento foi obtido para cada uma das duas frases, repetidas consecutivamente, resultando num total de 64 julgamentos (32 referentes à frase constituída por [s] e 32 referentes à frase constituída por [z]).

Exemplos de produções com e sem ceceio foram oferecidos aos fonoaudiólogos previamente aos julgamentos do estudo para efeito de calibração dos fonoaudiólogos. Após ouvirem cada frase, as fonoaudiólogas marcaram uma das alternativas (alvo ou ceceio) para cada uma das amostras de fala avaliadas, em uma planilha pré-elaborada para este fim. Vale ressaltar que não foi solicitada aos fonoaudiólogos a caracterização do tipo de ceceio, mas sim a identificação da presença ou ausência do mesmo, em pelo menos um segmento fricativo que constituía cada uma das duas frases, a partir de seu julgamento auditivo.

Os julgamentos realizados foram então compilados e um único julgamento foi obtido para cada criança indicando presença ou a ausência do ceceio nas frases com fricativas vozeadas e não vozeadas, utilizando para isso do critério de concordância da maioria dos juízes. Ou seja, a produção da criança foi considerada como apresentando ceceio durante a produção de [s] ou [z] quando pelo menos dois fonoaudiólogos identificaram o ceceio em pelo menos uma das consoantes fricativas que constituíram cada frase. A concordância entre os três juízes para as frases constituídas de [s] variou entre 56% e 78%, com 17 amostras das 32 julgadas com 100% de concordância. Para as frases constituídas de [z], a concordância variou entre 59% e 93%, com 19 amostras do total julgadas com 100% de concordância.

Aplicou-se o teste exato binomial com o intuito de verificar diferenças entre as categorias de fricativas estudadas (não vozeadas x vozeadas) produzidas pelo total de criança. Para a averiguação das suposições, foi adotado o nível de significância de 5 % (p<0,05).

RESULTADOS

Após três fonoaudiólogas julgarem as frases constituídas pelas fricativas, verificou-se ocorrência do ceceio (independentemente da fricativa alveolar) num total de 23 (72%) crianças. Particularmente, ao investigar diferenças na ocorrência de ceceio entre as fricativas vozeadas e não vozeadas, verificou-se que na fricativa [s], o ceceio ocorreu em 23 (72%) das 32 crianças enquanto que na fricativa [z] o ceceio esteve presente em 16 (50%) destas crianças. A Tabela 1 mostra a ocorrência do ceceio nas fricativas alveolares, vozeada e não vozeada, nas crianças investigadas. Ao comparar os julgamentos do ceceio entre as fricativas produzidas, observou-se aumento significante do ceceio para a fricativa alveolar [s] comparada à fricativa alveolar [z].

Tabela 1 Distribuição das frequências da ausência (produção alvo) e presença do ceceio nas fricativas alveolares, não vozeada e vozeada, produzidas por 32 crianças 

Variável Não vozeada Vozeada Significância (p)

N % N %
Ceceio 23 72 16 50 0,020 (*)
Alvo 9 28 16 50

Total 32 100 32 100 -

*Teste exato binomial

DISCUSSÃO

Os resultados do presente estudo mostraram que, a partir do julgamento perceptivo-auditivo, o ceceio foi identificado na maioria (72%, N=23) das crianças com fissura labiopalatina operada e alterações na relação inter-arcos significantes. Particularmente, quando as crianças produziram frases constituídas de [s] o ceceio foi identificado na fala de 72% das crianças. Já quando estas mesmas crianças produziram frase constituída da fricativa [z], o ceceio foi identificado na fala de 50% da população. De forma geral, estes achados indicam que deformidades dentofaciais favorecem a percepção auditiva das distorções (ceceio) na fala de crianças com fissura labiopalatina operada, confirmando descrições prévias para esta população15,17.

Vale ressaltar que nem todas as crianças do presente estudo apresentaram distorção/ceceio nas fricativas investigadas, ainda que todas apresentassem deformidades dento-faciais desfavoráveis, com prognóstico para tratamento ortodôntico pobre ou muito pobre, conforme apontado pelos critérios propostos na literatura23. Estes dados confirmam estudo prévio que observou uma não associação direta entre ceceio e índices oclusais (com variação no grau de severidade, ou seja, índice de Goslon entre 1 e 5) durante a produção de [s], quando a avaliação perceptiva auditiva e visual (simultânea) foi utilizada para investigar a fala de 106 crianças, (idade média de 8 anos, 8 meses) com fissura labiopalatina operada18. Os achados do presente estudo ainda vão de encontro com informações prévias reportadas na literatura10,14 para crianças sem malformações craniofaciais, em que o ceceio não foi observado em todas os pré-escolares com má-oclusão. Nestes estudos a presença da alteração morfológica (má-oclusão) foi considerada como um fator que favorece a presença do ceceio, mas que não deve ser considerada como determinante para o mesmo.

De forma geral, os resultados encontrados para crianças com ou sem malformações craniofaciais indicam que outros fatores, além das alterações dento-faciais, devem ser considerados ao investigar a ocorrência do ceceio na população infantil, tais como: imaturidade sistema sensório motor oral26; tônus de língua reduzido, em decorrência de respiração oral obstrutiva no caso da fissura palatina27; diferenças sensoriais devido à manipulação do tecido (cicatrizes) no caso da fissura labiopalatina28 e perdas auditivas frequentemente observadas na população infantil, em especial daquelas com história de fissura palatina29,30. Por outro lado, a possibilidade das crianças em realizar adaptação eficiente as diferentes condições estruturais31 pode resultar em uma fala menos distorcida, o que dificultaria a percepção auditiva do ceceio na presença de uma deformidade facial.

No presente estudo observou-se que a seleção das consoantes fricativas interferiu na percepção auditiva do ceceio, com maior ocorrência do ceceio na fricativa alveolar [s] em comparação à [z]. Esta mesma tendência foi observada em um estudo preliminar envolvendo pré-escolares com alterações oclusais em que o ceceio foi mais percebido diante de [s] em condições de fala controlada19. A maior ocorrência do ceceio, a partir da avaliação perceptivo-auditiva, em [s] pode ser justificada por vários fatores. Primeiramente, descrições acústicas indicam que as fricativas alveolares vozeadas apresentam menor intensidade e duração do que seus correspondentes desvozeados devido ao acoplamento da fonte glótica à fonte friccional20. Presume-se que as pregas vocais abduzidas durante a produção das fricativas não vozeadas permitem que um maior volume de fluxo de ar passe através da glote em direção à cavidade de oral. Já as interrupções ou restrições da passagem do fluxo de ar nas fricativas vozeadas reduzem o volume de fluxo de ar e, portanto, a intensidade da turbulência no ponto de constrição. Tal fato pode ter contribuído para a maior identificação auditiva do ceceio em fricativas alveolares não vozeadas.

Ainda, estudos envolvendo eletropalatografia indicam diferenças no contato da língua/palato durante a produção de [s] e [z] em sujeitos com fala normal, com maior contato linguo/palatal para [z], além de um maior estreitamento no sulco em [z], quando produzido na posição inicial da palavra21. Frente às estas considerações, pode-se sugerir que diferenças articulatórias entre [s] e [z] também podem ocorrer na presença do ceceio, porém em menor grau para o [z], permitindo maior percepção auditiva do mesmo diante de [s]. Além disso, a ocorrência de [z] em posição inicial da palavra é restrita para o português brasileiro, o que pode influenciar na produção e percepção do ouvinte de desvios da produção deste som.

Assim como na eletropalatografia, dados obtidos por meio da ressonância magnética também indicaram diferenças entre as consoantes fricativas não vozeadas e vozeadas (incluindo as fricativas alveolares), produzidas por adultos norte-americanos que apresentam fala normal. Por meio desta avaliação, observou-se uma tendência da raiz/base da língua (tongue root) em encontrar-se mais anteriorizada nas fricativas vozeadas, em relação aos correspondentes desvozeados22. Considerando a ocorrência de diferenças no posicionamento da raiz da língua entre fricativas vozeadas e não vozeadas na produção de falantes normais, espera-se que esta diferença também seja encontrada, ainda que de forma menos marcada, na presença do ceceio (em que ocorre variabilidade na produção das fricativas).

De forma geral, a comparação dos achados do presente estudo com informações prévias torna-se difícil devido à escassez de estudos na literatura, em nível nacional e internacional, que tratam da presença de ceceio em sujeitos com fissura labiopalatina. Além disso, informações sobre possíveis distinções na produção e/ou percepção do ceceio, ao comparar as fricativas alveolares vozeada ou não vozeada, são restritas na literatura nacional, mesmo para sujeitos com má-oclusão, na ausência de fissura labiopalatina. No entanto, em um estudo prévio que envolveu pré-escolares com presença de má-oclusão (mas sem histórico de malformações craniofaciais)19 foi observada uma maior ocorrência do ceceio em [s] do que em [z]. Ainda que derivados de população distinta (pré-escolares sem malformações craniofaciais), os dados deste estudo preliminar apontam para a mesma tendência daquela observada no presente estudo. Futuras investigações são necessárias a fim de ampliar o conhecimento da presença do ceceio em fricativas vozeadas e não vozeadas em sujeitos com e sem malformações craniofaciais.

As informações derivadas do presente estudo podem contribuir na prática clínica uma vez que apontam que o ceceio pode ser mais facilmente percebido pelo falante e/ou avaliador, quando o mesmo ocorre na fricativa alveolar não vozeada, quando comparado com a fricativa alveolar vozeada. Verifica-se, então, que a fricativas [s] favorece a identificação do ceceio por parte do avaliador, podendo ser utilizada tanto em triagens quanto as avaliações clínicas fonoaudiológicas. Os resultados ainda indicam que palavras constituídas pela fricativa alveolar não vozeada podem favorece o início da terapia (por possibilitar maior percepção do desvio da produção), sendo que palavras constituídas por fricativa alveolar vozeada pode ser utilizada em um momento posterior, por serem contextos silábicos que parecem mais difíceis de serem monitoradas durante o processo terapêutico, uma vez que minimizam o efeito auditivo do ceceio. Ainda, a seleção do contexto fonético-fonológico da palavra pode propiciar, ao paciente, uma melhor percepção do ceceio, o que pode favorecer o processo terapêutico, quando se busca um contraste entre a presença e a ausência deste desvio na sua fala.

Além das contribuições derivadas do presente estudo, investigações futuras que forneçam informações sobre a produção de consoantes fricativas alveolares, não vozeadas e vozeadas, a partir de medidas acústicas podem ampliar ainda mais os conhecimentos sobre a fala de crianças com ceceio. Estudos prévios mostraram a importância da análise acústica para o entendimento da fala patológica22,26. Além disso, medidas articulatórias (ultrassonografia/eletropalatografia) podem colaborar no entendimento da produção de consoantes fricativas (vozeadas e não vozeadas) produzidas por adultos e crianças com e sem ceceio. A literatura reporta a importância da ultrassonografia32 e da eletropalatografia33-35 para um maior entendimento da fala patológica envolvendo consoantes fricativas, incluindo aquelas relacionadas à FLP 33.

CONCLUSÃO

Os achados do presente estudo sugerem que condições dento-faciais desfavoráveis podem favorecer a ocorrência do ceceio em fricativas alveolares vozeada e não vozeada, quando identificado por meio do julgamento perceptivo-auditivo. Ainda mostra a influência da seleção da amostra de fala no julgamento perceptivo-auditivo, uma vez que a fricativa [s] tende a favorecer a identificação do ceceio, quando comparada com sua corresponde vozeada [z]. De forma geral estes achados apresentam informações adicionais sobre a influência do contexto fonético-fonológico na produção e na percepção dos fones fricativos alveolares que integram o sistema fonológico do Português Brasileiro. Tais informações podem contribuir para fins clínicos e de pesquisa na área da Motricidade Orofacial.

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Recebido: 19 de Fevereiro de 2013; Aceito: 02 de Julho de 2013

Endereço para correspondência: Melina Evangelista Whitaker. Rua Doutor Antônio Prudente, 4-152. Bauru – SP – Brasil. CEP: 17016-010. E-mail: mirian3m@uol.com.br

Conflito de interesses: inexistente

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