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Revista CEFAC

versão impressa ISSN 1516-1846versão On-line ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.16 no.5 São Paulo set./out. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1982-021620147713 

Artigos Originais

Relação entre a queixa auditiva e os achados audiológicos de um grupo de idosos ativos

Mariana Teixeira Duarte 1  

Ângela Leusin Mattiazzi 2  

Milena Manoel Azevedo 3  

Alexandre Hundertmarck Lessa 4  

Sinéia Neujahr dos Santos 5  

Maristela Julio Costa 6  

1Curso de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Santa Maria, RS, Brasil.

2Curso de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Santa Maria, RS, Brasil.

3Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Santa Maria, RS, Brasil.

4Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Santa Maria, RS, Brasil.

5Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Santa Maria, RS, Brasil.

6Curso de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Santa Maria pela UFSM, Santa Maria, RS, Brasil.


RESUMO

OBJETIVO:

investigar a presença de queixa auditiva em um grupo de idosos ativos e verificara possível relação entre a autopercepção da condição de escuta e os achados audiológicos.

MÉTODOS:

foram avaliados 55 idosos socialmente ativos, de ambos os sexos e faixa etária igual ou superior a 60 anos. As variáveis analisadas foram as respostas à três perguntas: "O(a) senhor(a) acha que escuta bem?", "O(a) senhor(a) escuta rádio ou televisão em volume muito alto?" e "O(a) senhor(a) tem dificuldade para escutar quando muitas pessoas conversam ao mesmo tempo?" que foram comparadas às médias tritonais dos limiares das frequências de 500, 1000 e 2000 Hz (MTT1) e de 3.000, 4.000 e 6.000 Hz (MTT2), Limiar de Reconhecimento de Fala (LRF) e Índice Percentual de Reconhecimento de Fala (IPRF).

RESULTADOS:

os idosos que referiram não escutar bem, apresentaram piores desempenhos nas médias de todas as variáveis analisadas. Os idosos que mencionaram aumentar o volume do rádio ou televisão não apresentaram diferença estatisticamente significante na análise da MTT2 em comparação aos que não o fazem, porém, houve esta diferença quando analisadas as variáveis MTT1, LRF e IPRF. Os sujeitos que referiram dificuldade de escutar quando muitas pessoas conversam ao mesmo tempo, não apresentaram diferença estatisticamente significante, mas as médias das variáveis evidenciaram piores desempenhos destes sujeitos, quando comparados àqueles sem a queixa.

CONCLUSÃO:

houve presença de queixa auditiva em todas as questões e foi verificada relação entre a autopercepção da condição de escuta e os resultados da avaliação audiológica.

Palavras-Chave: Idoso; Audição; Percepção Auditiva; Perda Auditiva; Presbiacusia; Questionários

ABSTRACT

PURPOSE:

to investigate the presence of complaint and hearing loss in a group of active older people and verify the relation between self-perceived hearing condition and audiologic findings.

METHODS:

55 older people, aged 60 or more, of both sexes, socially active, were evaluated. The analyzed variables were the answers to three questions: “Do you think that your hearing is good?”, “Do you listen to radio or television on high volume?” and “Do you have difficulty to comprehend when many people are talking at the same time?”, which were compared to the tritonal average of 500, 1,000 and 2,000 Hz frequencies (TA1) and of 3,000, 4,000 and 6,000 Hz frequencies (TA2), Speech Recognition Threshold (SRT) and Speech Recognition Percentage Index (SRPI).

RESULTS:

the individuals, who reported not listen well, had worst performance in the averages of all analyzed variables. The older people, who mentioned increasing the volume of the radio or television showed no statistically significant difference in the analysis of TA2 compared to those who do not, but there was this difference when analyzed TA1, SRT and SDT variables. The subjects who reported difficulty hearing, when many people talk at the same time, showed no statistically significant difference, but the averages of these individuals showed worst performance, when compared to those without this complaint.

CONCLUSION:

there was a relation between self-perceived hearing condition and the audiologic findings.

Key words: Aged; Hearing; Hearing Perception; Hearing Loss; Presbycusis; Questionnaires

Introdução

O envelhecimento se refere a um processo dinâmico e progressivo, onde modificações funcionais, fisiológicas e psicológicas ocorrem no indivíduo com o passar do tempo1.Porém, chegar à velhice não é mais privilégio de poucos, é uma realidade até mesmo nos países pobres2. Portanto, esta temática é cada vez mais abordada no cenário científico global, pela necessidade em gerar conhecimento sobre a saúde do idoso, em busca da promoção de modos de viver mais saudáveis na velhice3.

O desafio do envelhecimento populacional advém da redução do número de crianças e jovens e da elevação da expectativa média de vida. O fenômeno é mundial, porém, nos países em desenvolvimento, como o Brasil, o mesmo ocorre de forma mais acentuada 1 , 3 - 5.

Embranquecimento e queda dos cabelos, enrugamento da pele e redução da memória são características da senilidade, porém, tais mudanças não impossibilitam a participação do sujeito idoso na sociedade, em questões econômicas, culturais e religiosas, conforme seu desejo e capacidade3. Este é o idoso socialmente ativo, que desfruta vasta agenda social, como participação nos grupos de terceira idade6.

Estudos6 , 7 apontam que com a elevação da proporção de pessoas com 60 anos ou mais, haverá aumento nos índices da presbiacusia, que é a perda de audição associada ao envelhecimento7.É sabido que a deficiência auditiva causa uma série de efeitos negativos na qualidade de vida dos idosos, pois não provoca apenas uma privação sensorial - dificuldade em ouvir - e sim em compreender o que está sendo dito6 , 8. Dessa forma, a presença de perda auditiva nesta população pode provocar um afastamento destes do ambiente familiar e social e gerar ou agravar quadros de isolamento ou depressão9. Além destes impactos, a privação sensorial, dentre elas a auditiva, pode estar relacionada a processos demenciais, pela relação do processamento auditivo com funções associativas cerebrais6 , 10 , 11.

Assim, devido ao aumento substancial da população geriátrica e a alta prevalência da presbiacusia nesta faixa etária, estudos voltados para métodos de detecção precoce da perda auditiva são de extrema importância, visto que contribuem para o desenvolvimento de ações de prevenção e intervenção precoce, a fim de evitar ou minimizar as implicações psicossociais da dificuldade auditiva contribuindo para melhoria da qualidade de vida dos idosos6 , 8 , 12. Sabe-se que a audiometria é o teste que quantifica a audição, sendo padrão para avaliação da perda auditiva, porém, sua realização pode ser dificultada, principalmente por problemas de acesso à serviços que realizam o exame7. Assim, os questionários de autopercepção da dificuldade auditiva podem vir a ser instrumentos úteis, rápidos e baratos, capazes de serem usados na identificação precoce da perda auditiva e que, em conjunto com a audiometria, podem representar melhor a queixa auditiva do idoso. Portanto, faz-se necessário realizar estudos que busquem analisar a probabilidade de associação entre o que o paciente refere e os resultados da avaliação audiológica.

Dessa forma, o objetivo do referente estudo foi investigar a presença de queixa auditiva em um grupo de idosos ativos e verificara possível relação entre a autopercepção da condição de escuta e os achados audiológicos.

Métodos

Este estudo apresenta caráter observacional descritivo, retrospectivo, de corte transversal e originou-se de um projeto mais amplo denominado "Reconhecimento de sentenças com diferentes velocidades de fala",registrado no Gabinete de Projetos do Centro de Ciências da Saúde sob o nº 029457 e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) com certificado de nº 0098.0.243.000-11. Dessa forma, foi realizado com informações de um banco de dados deste projeto, sendo que os dados utilizados para este artigo de pesquisa ainda não tinham sido analisados. Salienta-se que todos os idosos selecionados para participarem deste projeto mais amplo eram socialmente ativos, e que através de uma entrevista inicial se traçou o perfil de ativo ou não. Todos os pacientes envolvidos no estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

O grupo estudado foi composto por 55 idosos socialmente ativos, não institucionalizados, de faixa etária igual ou superior a 60 anos (idosos para países em desenvolvimento, segundo a Organização Mundial de Saúde OMS) de ambos os sexos, advindos de Grupos de Terceira Idade e por idosos que aguardavam o recebimento de próteses auditivas do programa de concessão do Ministério da Saúde desenvolvido no Núcleo de Seleção e Adaptação de Próteses Auditivas (NUSEAPA) no SAF. Salienta-se que todos os idosos selecionados para participarem deste projeto mais amplo passaram por uma entrevista inicial onde se traçou o perfil de ativo ou não, bem como observada a presença de deficiências e/ou alterações de fala perceptíveis.

Os sujeitos cujos dados estavam incompletos, ou que apresentavam perdas auditivas unilaterais, ou ainda perdas assimétricas, foram excluídos do grupo de estudo.

As variáveis analisadas foram referentes a: média tritonaldos limiares das frequências de 500, 1.000 e 2.000 Hz (MTT1), média tritonaldos limiares das frequências de 3.000, 4.000 e 6.000 Hz (MTT2), Limiar de Reconhecimento de Fala (LRF) e Índice Percentual de Reconhecimento de Fala (IPRF). Foram analisados os resultados obtidos na orelha com melhor média tritonal.Os testes de fala foram realizados em viva voz pelo mesmo examinador.

A fim de investigar a relação entre a queixa auditiva e os achados audiológicos, as variáveis referidas foram comparadas às respostas de três perguntas de um questionário elaborado pelos pesquisadores (Figura 1): "O(a) senhor(a) acha que escuta bem?", "O(a) senhor(a) escuta rádio ou televisão em volume muito alto?" e "O(a) senhor(a) tem dificuldade para escutar quando muitas pessoas conversam ao mesmo tempo?". Tal instrumento continha as três perguntas objetivas, com duas possibilidades de respostas: "sim" ou "não".

Figura 1: Questionário 

Realizou-se a análise descritiva e estatística dos achados, sendo que para verificar a normalidade, foi utilizado o Teste ShapiroWilk. Para realizar comparação dos dados, foi utilizado o Teste-t, considerando como intervalo de confiança 95% (p<0,05). As análises foram realizadas com o software Statistica 7.0.

Resultados

Foram analisados dados de 55 sujeitos, sendo 38 (69%) do gênero feminino e 17 (31%) do gênero masculino, com faixa etária entre 60 e 84 anos, com média de 69,45 anos. Os dados referentes às variáveis quantitativas (MTT1, MTT2, LRF e IPRF) apresentaram distribuição normal.

Os dados referentes à análise descritiva estão dispostos na Figura 2, onde serão apresentados o número e porcentagem de idosos, conforme a resposta individual dos mesmos, nas três questões analisadas, segundo as variáveis média tritonal dos limiares das frequências de 500, 1.000 e 2.000 Hz (MTT1), média tritonal dos limiares das frequências de 3.000, 4.000 e 6.000 Hz (MTT2), Limiar de Reconhecimento de Fala (LRF) e Índice Percentual de Reconhecimento de Fala (IPRF).

Figura 2: Número e porcentagem de idosos com achados audiológicos normais e alterados em cada variável analisada nos questionamentos estudados 

A seguir, realizou-se análise estatística comparando as respostas do grupo de sujeitos que referiram queixa com o grupo de sujeitos que não referiram queixa nos três questionamentos estudados, sendo estas análises apresentadas nas Tabelas 1, 2 e 3.

Tabela 1: Distribuição dos sujeitos quanto à resposta ao questionamento "O(a) senhor(a) acha que escuta bem?" e análise comparativa das médias audiológicas - MTT1, MTT2, LRF e IPRF do grupo com queixa (Sim) e do grupo sem queixa (Não) 

MTT1 - Média tritonal dos limiares das frequências de 500, 1.000 e 2.000 Hz; MTT2 - Média tritonal dos limiares das frequências de 3.000, 4.000 e 6.000 Hz; LRF - Limiar de reconhecimento de fala; IPRF - Índice percentual de reconhecimento de fala;*Diferença estatisticamente significante de acordo com Teste-t(p≤ 0,05);

Tabela 2: Distribuição dos sujeitos quanto à resposta ao questionamento "O(a) senhor(a) escuta rádio ou televisão em volume muito alto?" e análise comparativa das médias audiológicas - MTT1, MTT2, LRF e IPRF- do grupo com (Sim) e sem (Não) queixa 

MTT1 - Média tritonal dos limiares das frequências de 500, 1.000 e 2.000 Hz; MTT2 - Média tritonal dos limiares das frequências de 3.000, 4.000 e 6.000 Hz; LRF - Limiar de reconhecimento de fala; IPRF - Índice percentual de reconhecimento de fala;*Diferença estatisticamente significante de acordo com Teste-t (p≤0,05).

Tabela 3: Distribuição dos sujeitos quanto à resposta ao questionamento "O(a) senhor(a) tem dificuldade para escutar quando muitas pessoas conversam ao mesmo tempo?" e análise comparativa das médias audiológicas - MTT1, MTT2, LRF e IPRF dos grupos com (Sim) e sem (Não) queixa 

MTT1 - Média tritonal dos limiares das frequências de 500, 1.000 e 2.000 Hz; MTT2 - Média tritonal dos limiares das frequências de 3.000, 4.000 e 6.000 Hz; LRF - Limiar de reconhecimento de fala; IPRF - Índice percentual de reconhecimento de fala;*Diferença estatisticamente significante de acordo com Teste-t (p≤0,05).

Na Tabela 1, é possível observar a MTT1, MTT2, LRF e o IPRF do grupo de sujeitos que referiram não escutar bem (com queixa) e do grupo de sujeitos que mencionaram escutar bem (sem queixa) frente ao questionamento "O(a) senhor(a) acha que escuta bem?" e suas respectivas médias.

A Tabela 2 apresenta uma melhor caracterização quanto às variáveis analisadas e às médias audiológicas, do grupo de sujeitos que apresentaram queixa auditiva (sim) e do grupo de sujeitos que não apresentaram queixa auditiva (não), frente ao questionamento "O(a) senhor(a) escuta rádio ou televisão em volume muito alto?".

Já, na Tabela 3, são apresentadas as variáveis relacionadas à pergunta "O(a) senhor(a) tem dificuldade para escutar quando muitas pessoas conversam ao mesmo tempo?" do grupo de sujeitos que apresentaram (sim) e não apresentaram (não) queixa.

Discussão

Na Figura 1, no primeiro questionamento "O(a) senhor(a) acha que escuta bem?", dos 40 sujeitos que referiram não escutar bem, 24 (60%) apresentaram MTT1 alterada e34 (85%) MTT2 também alterada, evidenciando perda auditiva. O LRF concordou com a MTT1, mas o IPRF não foi compatível com as outras variáveis, fato que já era previsto, pois é realizado em uma intensidade supraliminar e no silêncio, fazendo com que a dificuldade do indivíduo não seja evidenciada nesta situação. Por outro lado, todos os idosos que mencionaram escutar bem apresentaram MTT1, LRF e IPRF dentro da normalidade e apenas quatro sujeitos apresentaram MTT2 rebaixada. Com base nestes resultados, sugere-se que o idoso que referir não escutar bem, terá maior probabilidade de apresentar alguma alteração nos achados audiológicos do que o sujeito que não referir queixa.

Em relação aos 16 (40%) sujeitos que referiam não escutar bem, porém que apresentaram MTT1 dentro da normalidade, pode-se dizer, com base na literatura consultada13 , 14, que distúrbios do processamento auditivo, interferem no reconhecimento dos sons, principalmente da fala, mesmo quando os limiares auditivos se encontram dentro da normalidade.

Com relação ao segundo questionamento da Figura 1,"O(a) senhor(a) escuta rádio ou televisão em volume muito alto?", houve alto índice de relação entre a percepção auditiva e os achados audiológicos, pois mais de 80% dos 26 idosos que referiram escutar rádio ou televisão em volume elevado apresentaram MTT1 alterada, e o mesmo foi verificado com as variáveis MTT2 e LRF. O IPRF também esteve alterado, mas em um número menor de sujeitos - 15 (58%). Observou-se que os achados sobre a variável MTT2, referente à média das frequências de 3.000, 4.000 e 6.000 Hz, concordaram com os resultados de outra pesquisa15, de que o reconhecimento de fala no silêncio tem seu prognóstico baseado nas frequências de 500, 1.000 e 2.000Hz, mas que as frequências de 3.000, 4.000 e 6.000Hz também podem influenciar no reconhecimento, apesar de haver variação entre as respostas.

Por isso, acredita-se que existe uma série de fatores individuais a serem considerados em situações silenciosas, dentre eles a memória, inteligência, interesse e nível de estresse do sujeito16 , 17. Além disso, também, nota-se que quando o idoso escuta rádio ou assiste televisão em ambientes silenciosos, outros fatores podem estar envolvidos além do limiar de audibilidade, como a diminuição de pistas visuais, a velocidade de fala aumentada e a falta de contextualização do que é falado 18.

Dessa forma, pode-se dizer que quando o idoso referir aumentar o volume do rádio/televisão é muito provável que suas médias audiológicas já indiquem a presença de perda auditiva e, como consequência, já exista a necessidade de uma maior amplificação do volume destes aparelhos, a fim de compensar esta dificuldade.

Levando-se em consideração os resultados referentes ao terceiro questionamento da Figura 1, "O(a) senhor(a) tem dificuldade para escutar quando muitas pessoas conversam ao mesmo tempo?"pode-se verificar que dos 40 sujeitos que relataram dificuldade em locais ruidosos, 23 (57,5%) apresentaram MTT1 alterada, 24 (60%) o LRF alterado, concordando com a MTT1 e 31 (77,5%) apresentam limiares auditivos alterados nas frequências de 3.000, 4.000 e 6.000 Hz (MTT2), demonstrando a importância da preservação das frequências agudas para o entendimento de fala em ambientes desfavoráveis.

Por sua vez, quando analisado o IPRF, este novamente não foi compatível com os resultados das outras variáveis, pois verificou-se que 25 (62,5%) dos 40 sujeitos apresentam o IPRF com valores de reconhecimento entre 88 e 100%, mesmo referindo ter dificuldade para escutar quando muitas pessoas conversam ao mesmo tempo19.

Assim, pode-se dizer que para o presente estudo, o IPRF não foi um dado que mostrou relação entre a queixa e os achados audiológicos, pois mesmo na presença de certos graus de perda auditiva e/ou queixa, os indivíduos apresentaram bom desempenho, já que este é realizado em uma intensidade supraliminar e no silêncio, o que faz com que a dificuldade do indivíduo não seja evidenciada nesta situação.

Com base na análise descritiva destes três questionamentos simples, foi possível evidenciar que a maioria dos sujeitos que referiram queixa na primeira questão, apresentavam MTT1, MTT2 e LRF alterados e que o mesmo foi verificado para a questão três. Na questão dois, os idosos com queixa apresentaram, além destas três variáveis, o IPRF também alterado. Foi observado também, que o LRF, em todos os questionamentos, concordou com a MTT1.

Ao se analisar os dados da Tabela 1, que apresenta a distribuição dos sujeitos em dois grupos, com queixa e sem queixa, quanto à resposta ao questionamento, "O(a) senhor(a) acha que escuta bem?", observa-se que 40 sujeitos (73%) referiram não escutar bem e apenas 15 (27%) assinalaram escutar bem.

Os 40 (73%) idosos que referiram não escutar bem apresentaram piores desempenhos nas médias de todas as variáveis analisadas - MTT1, MTT2, LRF, IPRF - quando comparados aos 15 (27%) sujeitos que relataram escutar bem. Esta diferença foi estatisticamente significante, confirmando existir relação entre a percepção da queixa de dificuldade auditiva e os achados audiológicos.

Destaca-se que outras pesquisas também encontraram relação entre o autorrelato da dificuldade auditiva e os achados audiológicos, revelando ser alta a probabilidade da associação entre o que o paciente refere e a avaliação audiológica20 , 21, embora esta realidade não se aplique a todos os casos12. Entretanto, outros estudos evidenciaram não existir relação entre a queixa e a presença de perda auditiva 7 , 8 , 22 , 23. Isto pode ser explicado pela variabilidade da percepção da perda auditiva em decorrência do estilo de vida de cada idoso, ou também pela prevalência de perdas de menor grau, bem como a configuração da perda e o caráter progressivo da presbiacusia, que fazem com que os sujeitos ainda não percebam alterações auditivas.

Acredita-se que no presente estudo, o elevado número de sujeitos que referiram queixa pode ser explicado em decorrência do estilo de vida do grupo de idosos estudado, que por serem socialmente ativos, ou seja, ainda desfrutarem de vasta agenda social, encontros religiosos e grupos da terceira idade, necessitam da audição em diversas situações comunicativas e, portanto, apresentam maior percepção quando ocorre a diminuição desta. Idosos com menos atividades sociais, como os institucionalizados, apresentam menor percepção da dificuldade auditiva devido ao desinteresse pelas relações sociais e atividades comunicativas, causado pelo isolamento social24.

No que diz respeito ao questionamento "O(a) senhor(a) escuta rádio ou televisão em volume muito alto?", observa-se na Tabela 2, que 29 sujeitos (53%) referiram não escutar rádio ou televisão em volume muito alto e 26 (47%) idosos mencionaram que sim.

Não houve diferença estatisticamente significante na análise da MTT2 entre os 26 idosos que mencionaram dificuldade - sim (47%) - com relação àqueles 29 sujeitos que negaram aumentar o volume do rádio ou televisão - não (53%). No entanto, verificou-se diferença estatisticamente significante entre os dois grupos quando analisadas as variáveis MTT1, LRF e IPRF.

Em um estudo de Santiago e Novaes25, sobre o impacto psicossocial da perda de audição, dentre as queixas referidas pelos 35 idosos estudados, também estava a necessidade de elevar o volume dos aparelhos eletrônicos, principalmente dos idosos acima de 70 anos. Percebe-se que esta é uma característica de pessoas idosas para melhor compreensão das mensagens, visto a presença da perda auditiva associada ao envelhecimento, o que justifica a necessidade de amplificação dos sons 26.

Levando-se em consideração a Tabela 3, que relaciona os achados audiológicos com o questionamento "O(a) senhor(a) tem dificuldade para escutar quando muitas pessoas conversam ao mesmo tempo?", observa-se que 40 sujeitos (73%) referiram esta dificuldade, sendo que as médias das variáveis evidenciaram piores desempenhos destes sujeitos, quando comparados aos 15 sujeitos sem esta queixa (27%), mas sem diferença estatisticamente significante.

Do total dos sujeitos, 40 (73%) assinalaram ter dificuldade para escutar quando muitas pessoas conversam ao mesmo tempo e apenas 15 (27%) referiram não apresentar esta queixa.

Sabe-se que esta queixa de dificuldade para escutar em ambientes acusticamente desfavoráveis é frequente na população de idosos e compromete o processo de comunicação, pois a inteligibilidade de fala é reduzida26 , 27.

O fato de os limiares auditivos tonais estarem dentro da normalidade não é suficiente para assegurar um reconhecimento adequado da fala nas situações em que há ruído competitivo28. Autores27 referem que o processo de envelhecimento do sistema auditivo pode interferir no reconhecimento da fala, mesmo quando a audição periférica é normal. Assim, na avaliação audiológica de idosos, em muitos casos não há relação entre o grau da perda auditiva e a habilidade de reconhecimento da fala 16 , 17.

De acordo com alguns estudos25 , 29 a dificuldade para compreender a fala em locais ruidosos pode estar relacionada à inabilidade de processar eficientemente os sons e não necessariamente por diminuição da audição, sendo que a perda auditiva é apenas um fator agravante para esta dificuldade. Assim como a diminuição das funções cognitivas relacionadas à idade, como memória de trabalho, atenção seletiva e velocidade de processamento da informação, também apresentam importante efeito na compreensão de fala do idoso. Portanto, as dificuldades de compreensão de fala na população idosa podem não ser explicadas apenas pela perda auditiva periférica, mas também por distúrbios do processamento auditivo ou por declínio de habilidades cognitivas 13 , 14.

Sendo assim, é possível sugerir que o processo de envelhecimento acarreta mudanças no sistema auditivo, e como consequência tem-se um pior desempenho comunicativo em diversas situações, principalmente em ambientes ruidosos. Pode-se perceber que mesmo aquele idoso com a audição dentro dos padrões de normalidade tem dificuldades nesta situação. Dessa forma, fica clara a importância do encaminhamento de sujeitos idosos para avaliação audiológica e também para testes do processamento auditivo, principalmente em indivíduos com queixa de compreensão de fala. Essa atitude é essencial, pois a dificuldade auditiva afeta o processo de comunicação dos indivíduos, causa o afastamento social e familiar, gera isolamento e está associada ao agravamento de quadros depressivos22.

Este estudo ressaltou a importância do uso de questionários de autoavaliação, mesmo os formulados com questionamentos simples, como o utilizado na presente pesquisa, por estes serem instrumentos capazes de detectar alguma suspeita de perda auditiva e assim permitirem encaminhamentos aos serviços especializados, visto o grande aumento no número de pessoas com 60 anos ou mais e a alta prevalência da presbiacusia nesta população. Também, considera-se fundamental a utilização de questionários, pois estes completam a avaliação audiológica com dados que não são previstos a partir do audiograma, como por exemplo, a capacidade funcional do sujeito, o impacto psicossocial, entre outros 7 , 8 , 12 , 30 , 31.

Portanto, com os resultados encontrados neste estudo, torna-se útil a autopercepção do idoso em relação a sua audição, pois esta ação reflete as dimensões subjetivas da perda auditiva que não são evidenciadas no audiograma. Além disso, as atitudes de aceitação da deficiência, assimilação desta como parte do processo do envelhecimento e adaptação às possíveis dificuldades por meio da reorganização do ambiente, facilitam o processo de reabilitação auditiva 25.

Os idosos que referiram não escutar bem, apresentaram maior probabilidade de alterações nos achados audiológicos, quando comparados aos sujeitos que não referiram queixa.

Conclusão

Verificou-se presença de queixa auditiva em todas as questões, por um número significante de sujeitos.

Os resultados da presente pesquisa mostraram haver relação entre a autopercepção da condição de escuta e os achados audiológicos do grupo estudado.

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Fonte de auxílio: Fundação de Amparo à Pesquisa e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)

Recebido: 25 de Abril de 2013; Aceito: 02 de Setembro de 2013

Endereço para correspondência: Mariana Teixeira Duarte, Rua Barão do Itaqui, 720, Bagé - RS - Brasil, E-mail: mariduarte_@hotmail.com

Conflito de interesses: inexistente

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