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Revista CEFAC

versão impressa ISSN 1516-1846versão On-line ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.17 no.5 São Paulo sept./out. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0216201517519014 

ARTIGOS DE REVISÃO

Fatores na infância e adolescência que podem influenciar o processamento auditivo: revisão sistemática

Nádia Giulian de Carvalho1 

Carolina Verônica Lino Novelli1 

Maria Francisca Colella-Santos2 

1Centro de Investigação de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, Campinas, São Paulo, Brasil.

2 Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, Campinas, São Paulo, Brasil.

Resumo:

Há consenso na literatura da importância do sistema auditivo para o desenvolvimento da linguagem oral e escrita. O Distúrbio do Processamento Auditivo refere-se à dificuldade no processamento de informações auditivas, não sendo devido à perda auditiva, nem ao déficit intelectual. O objetivo desta revisão sistemática da literatura foi analisar quais fatores ocorridos na infância e adolescência podem influenciar no processamento auditivo, não necessariamente sendo a causa ou consequência do distúrbio. Foram utilizadas as bases SciELO e PUBMed por duas pesquisadoras de forma independente. Os descritores utilizados foram: processamento auditivo; percepção auditiva; crianças; adolescentes, em combinações variadas. Dentre os 205 artigos identificados, 30 artigos corresponderam aos critérios de inclusão, sendo analisados. Apenas dois estudos demonstraram fatores positivos influenciando a habilidade do processamento auditivo: a influência da estimulação musical na infância e o uso de Metilfenidato, como tratamento doTranstorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. As influências são, em sua maioria, negativas ao processamento auditivo, destacando-se a relação do distúrbio com a dislexia, dificuldades escolares, distúrbio específico de linguagem, nível socioeconômico baixo, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, nascimento pré-termo, desvio fonológico, deficiência visual, respiração oral, gagueira, otite média, fissura labiopalatina, anemia, exposição ao mercúrio metálico, síndrome da apnéia/hipopnéiaobstrutiva do sono, acidente vascular cerebral, crianças em vulnerabilidade social e crianças disfônicas. O Processamento Auditivo mostra-se sensível as influências negativas de fatores ambientais, químicos, condições socioeconômicas, alterações de linguagem, auditivas, e neurológicas. A exposição à música e o uso de Metilfenidato foram os únicos fatores, com influência positiva nas habilidades do processamento auditivo.

Descritores: Testes Auditivos; Percepção Auditiva; Criança; Adolescente

Introdução

A função auditiva e sua estreita relação de interdependência com a linguagem ainda é envolvida por mistérios ontogênicos, como a sensibilidade diferencial do sistema auditivo no que se refere a melhor audibilidade nas frequências de formulação da fala1Estes autores ainda ressaltam que há muitas questões a serem desmembradas, como os mecanismos biológicos, mecânicos, neuroquímicos e elétricos.

O funcionamento adequado do sistema auditivo periférico e central é fundamental para o desenvolvimento da linguagem oral e escrita. Pode ser dividido em duas porções, o sistema auditivo periférico e o sistema auditivo central, que estão inter-relacionados. O sistema auditivo periférico compreende estruturas da orelha externa, média, interna e nervo vestibulococlear que são responsáveis pela captação, transmissão e transdução da onda sonora e seu processamento na cóclea e porção coclear do nervo vestibulococlear, localizados na região temporal da cabeça. A cóclea, em crianças sem acometimentos, já se apresenta funcional ao nascimento, diferentemente do sistema auditivo central que é imaturo; o desenvolvimento da percepção auditiva é um evento prolongado com início na fase pré-natal, sofrendo interferência em seu desenvolvimento na infância e na adolescência2.

O sistema auditivo é responsável pelo processamento da informação realizado por diversos centros de integração, com funções de detecção e discriminação do som, separação do ruído de fundo, compreensão e reconhecimento do som como familiares, dentre outros. Todo este processo envolve transmissão da informação auditiva pelas fibras do VIII nervo craniano para os núcleos cocleares, tronco encefálico, tálamo e córtex auditivo3.

O termo "Distúrbio do Processamento Auditivo" (DPA) é referido pela American Speech-Language-Hearing Association4como dificuldade no processamento de informações auditivas em uma ou mais habilidades auditivas, e representa uma limitação da transmissão, análise, organização, transformação, elaboração, armazenamento e/ou recuperação, e uso das informações de um evento acústico, não atribuídos à perda auditiva, nem ao déficit intelectual. Os indivíduos com suspeita de DPA, segundo a ASHA, frequentemente apresentam características comportamentais de dificuldade em compreender a linguagem falada em situação de ruído competitivo, pedem para repetir frequentemente a informação falada, apresentam dificuldade de prestar atenção, se distraindo facilmente, dificuldade em seguir comandos auditivos complexos, dificuldade de localização sonora e dificuldade de aprendizagem. No entanto, essas características não são exclusivas do DPA, podendo ser encontradas em outros diagnósticos como distúrbio de linguagem, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Síndrome de Asperger. Portanto, o DPA deve ser compreendido como um distúrbio auditivo que pode ser isolado ou associado a outras alterações corticais, como o distúrbio de aprendizagem, TDAH, entre outros. Entretanto, nem todas as dificuldades de aprendizagem, linguagem e déficits de comunicação são devido ao Distúrbio do Processamento Auditivo.

A avaliação do processamento auditivo pode ser realizada por meio de testes comportamentais e eletrofisiológicos. Os testes comportamentais são realizados em uma cabina acusticamente tratada por meio de uma bateria de testes, os quais avaliam a função auditiva central, mas demandam também cognição, atenção, memória e linguagem.

O DPA pode ser agravado em ambiente acústico desfavorável com repercussões nas habilidades acadêmicas. As principais queixas escolares em relação às crianças são: "vive distraído", "vive no mundo da lua", "só ouve quando quer", "não presta atenção na professora", "não consegue aprender"5. A autora ainda descreve que podem ser decorrentes de lesões neuromorfológicas cerebrais, distúrbios neurológicos ou atraso maturacional das vias auditivas do sistema nervoso central e cérebro; no entanto, não existem trabalhos epidemiológicos indicando a prevalência das causas. Desta forma, são necessários mais estudos para uma compreensão mais ampla sobre o tema.

O conhecimento dos fatores que podem influenciar o DPA é relevante como alerta para uma adequada investigação do histórico clínico do indivíduo (anamnese), assim como, para o desenvolvimento de ações de prevenção e promoção da saúde.

O objetivo deste estudo foi analisar quais fatores podem influenciar as habilidades do processamento auditivo na infância e adolescência, não os classificando como causa ou consequência do distúrbio.

Métodos

Foi realizada busca eletrônica nas bases de dados SciELO e PUBMed por duas pesquisadoras de forma independente, no mês de setembro de 2013. A escolha destes bancos de dados justifica-se pelo número expressivo de veiculação de estudos nacionais, com amostra da população brasileira, foco desta pesquisa.

A pesquisa foi realizada com o cruzamento dos seguintes descritores e seus correspondentes em inglês: processamento auditivo; percepção auditiva; crianças; adolescentes. Foram encontrados 170 artigos em cada base, totalizando 340, após a eliminação dos estudos duplicados nas bases, obteve-se um total de 205 artigos na íntegra. Foram digitalizados em uma planilha do Excel os dados relacionados ao título do estudo, periódico, ano de publicação, faixa etária, caracterização dos grupos estudados e testes aplicados.

Fez-se, então, a seleção dos estudos pertinentes, utilizando-se como critérios de inclusão: 1. artigos originais; 2. estudos observacionais analíticos (transversais de grupo controle); 3. estudos que utilizaram na metodologia procedimentos que possibilitassem a avaliação do Processamento Auditivo por métodos comportamentais padronizados para a versão português6e 4. estudos que contivessem na amostra crianças e adolescentes, com idade entre 4 e 19 anos (de acordo com a Organização Mundial de Saúde- OMS) com audição normal, com alguma condição de risco para o DPA (Figura 1). Critérios de exclusão: 1. estudos com crianças e adolescentes usuários de implantes ou aparelhos de amplificação sonora; 2. estudos que não utilizassem os testes comportamentais como método de avaliação; 3. estudos sem grupo controle; 4. estudos com mais de 10 anos de publicação; 5. estudos aos quais a amostra não era composta por crianças e adolescentes. Após aplicação dos critérios descritos, foram selecionados 30 artigos para análise; os respectivos estudos foram publicados no período de 2005 a 2013.A seleção dos testes da bateria de avaliação comportamental do PA determinou as habilidades a serem avaliadas. A maioria dos estudos não avaliaram todas as habilidades envolvidas, desta forma, não analisou a eficiência do processamento neural em diferentes níveis dentro do SNAC. Os testes utilizados são classificados como dióticos, monóticos e dicóticos.

Os testes dióticos são aqueles em que os estímulos auditivos são apresentados nas duas orelhas simultaneamente, em campo livre7; são eles: Teste de Localização Sonora e Testes de Memória Sequencial para Sons Verbais (MSSV) e Não-Verbais (MSNV), que avaliaram as habilidades de localização e memória para sons em sequência, e fazem parte da Avaliação Simplificada do Processamento Auditivo.

Os monóticos são os testes que utilizam a mensagem principal e a mensagem competitiva na mesma orelha, simultaneamente7. Os testes monóticos utilizados pelos estudos analisados foram: Teste de Logoaudiometria Pediátrica (PSI) com Mensagem Competitiva Ipsilateral (MCI) e Teste de Sentenças Sintéticas (SSI) com Mensagem Competitiva Ipsilateral (MCI) e, os Testes de Fala Filtrada (FF) e Fala com Ruído (FR).

Os testes dicóticos são aqueles que utilizam o estímulo principal em uma orelha e a mensagem competitiva na orelha contralateral simultaneamente através de um fone7. São eles: Teste Dicótico de Dígitos (DD), Teste Dicótico de Dissílabos Alternados (SSW), Teste Dicótico Não-Verbal (DNV) e Teste de Fusão Binaural (FB).

Além desses, utilizou-se também testes para avaliação do processamento temporal, sendo eles: Testes de Detecção de Intervalos Aleatórios (RGDT), Teste de Padrão de Frequência e Duração (PPS e DPS) e Gap In Noise (GIN).

Revisão da Literatura

Seguindo então, os critérios de inclusão, dos 30 artigos selecionados, 19 (63%) apresentaram amostra composta por crianças e adolescentes, 9 (30%) por crianças e dois artigos (7%) por adolescentes, conforme ilustrado no diagrama (Figura1).

Figura 1: Diagrama explicativo sobre o processo de seleção dos artigos 

Os resultados dos estudos estão agrupados de acordo com as semelhanças dos fatores e alterações abordadas, sendo eles: fatores externos, alterações neurológicas, alterações estruturais e/ou funcionais, alterações da linguagem oral e alterações da linguagem escrita.

Os estudos que abordaram a influência dos fatores externos nas habilidades auditivas, que envolvem o nível sócio- econômico, agentes químicos, psicoativos e música estão apresentados na Figura 2:

Figura 2: Influência dos fatores externos no Processamento Auditivo: Nível Sócio-econômico, Agentes Químicos, Psicoativos e Música 

Pesquisadores investigaram a possível influência do nível socioeconômico na habilidade do processamento auditivo de resolução temporal de escolares8, dividindo-os em três grupos: nível socioeconômico alto, médio e baixo. Houve diferença estatisticamente significante no desempenho entre os grupos, sendo o melhor desempenho o do grupo de nível socioeconômico alto, seguido do médio e pior no baixo. Os autores observaram que o nível socioeconômico pode influenciar a resolução temporal, entretanto, ressaltam que não se pode concluir que o nível socioeconômico baixo gere alterações na resolução temporal, visto que foram observados desempenho que se desviavam da normalidade nesta habilidade em todos os grupos; a amostra não foi separada por parâmetros de normalidade ou presença de alteração no processamento auditivo, sendo que os resultados foram similares ao de estudo que investigou aspectos relacionados ao processamento auditivo em grupos de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social9 e observaram que estes sujeitos tiveram desempenho significantemente pior em relação ao grupo controle. As habilidades auditivas avaliadas nos referidos estudos foram: resolução temporal, fechamento auditivo, figura-fundo e memória para sons em sequência. A influência do nível socioeconômico no desenvolvimento de linguagem foi a segunda variável mais estudada nos últimos anos, demonstrando um melhor desempenho de linguagem em crianças de famílias com maior renda, o que, de acordo com a revisão sistemática, sugere que a renda familiar influencia a quantidade de estímulos fornecidos e consequentemente no desenvolvimento da criança10. Desta forma, considerando que a cognição, memória e linguagem são necessárias para a realização dos testes do PA, confirma-se a relação do fator nível socioeconômico com os resultados encontrados na avaliação.

Além dos fatores socioeconômicos, os agentes químicos presentes na sociedade, como o mercúrio metálico, também demonstraram ter efeito no Processamento Auditivo. A exposição ao mercúrio metálico, proveniente de áreas de mineração artesanal de ouro, é referida como um problema de saúde com efeitos no sistema nervoso central, afetando a substância negra e os lobos occipitais e temporais. Assim, foram observadas diferenças significantes em adolescentes expostos ao mercúrio nos testes comportamentais, em comparação aos que não tiveram exposição, com prejuízos estatisticamente significante nos testes MSNV, testes PPS e DPS e para o teste SSW em Português, com alterações na percepção de sons breves e sucessivos11. Portanto, as habilidades alteradas neste estudo foram de memória para sons em sequência, ordenação temporal e figura-fundo. Outra substância química presente nos estudos é o Metilfenidato, utilizado como fármaco, prescrito aos portadores de TDAH; o uso desta substância se associou à melhora no resultado dos testes destes indivíduos, tendo sido avaliadas as habilidades de localização sonora, memória para sons em sequência, fechamento auditivo e figura-fundo. Os autores atribuíram tal resultado à melhora na atenção, não permitindo estabelecer relação entre o uso do medicamento e à melhora no desempenho12.

Além dos fatores externos já mencionados, a experiência musical teve interferência positiva no processamento auditivo, pesquisadores investigaram as relações entre experiência musical e as habilidades de processamento auditivo e de consciência fonológica13. As crianças com experiência musical obtiveram desempenho superior na habilidade de memória para sons em sequência, avaliada nos testes de memória sequencial verbal e não verbal com quatro instrumentos, com desempenho semelhante ao esperado para crianças de seis anos de idade, determinado pela sua experiência musical. A experiência musical tem se destacado não só na contribuição ao processamento auditivo, conforme elucidado, mas demonstra interferências no desenvolvimento global infantil, com relações positivas entre habilidades comunicativas, metalinguísticas e auditivas14.

As alterações neurológicas, como o Transtorno do Défict de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Acidente Vascular Cerebral (AVC) e Prematuridade, com possíveis influências no PA também foram estudadas, e estão apresentadas na Figura 3:

Figura 3: Influência das alterações neurológicas no Processamento Auditivo: TDAH, AVC e Prematuridade 

O TDAH demonstrou interferir negativamente nas habilidades de processamento auditivo; as crianças com TDAH apresentaram desempenho estatisticamente pior se comparado aos grupos de crianças do estudo com Dislexia e grupo controle sem alterações. As habilidades alteradas foram de fechamento auditivo, figura-fundo e ordenação temporal, sugerindo uma estreita relação entre as habilidades de atenção e as habilidades de processamento auditivo avaliadas15.

Dois estudos analisaram a presença do distúrbio do processamento auditivo em crianças nascidas pré-termo16 17. O primeiro estudo verificou a existência de correlação entre os resultados da avaliação do processamento auditivo com a avaliação comportamental realizada aos 12 meses, demonstrando, assim, a relação entre a habilidade de ordenação temporal e a habilidade de localização sonora. O segundo estudo utilizou o teste RGDT, para avaliar a habilidade de resolução temporal. Ambos os estudos verificaram diferenças significantes entre o grupo das crianças nascidas pré-termo e o grupo controle (a termo).

O acidente vascular cerebral também interferiu na habilidade auditiva de figura-fundo, sendo observado que o desempenho atencional foi pior no grupo estudo, composto por crianças e adolescentes com diagnóstico de AVC comprovado. A atenção auditiva foi avaliada por testes de separação binaural, DNV e consoante-vogal, e também de integração, SSW e dicótico de dígitos, sendo possível verificar a relação entre o AVC e o déficit na atenção seletiva tanto em tarefas com estímulos verbais como não verbais18.

O Distúrbio do Processamento Auditivo também pode ser influenciado por alterações estruturais e/ou funcionais na infância, como a Fissura Labiopalatina, Respiração Oral, Disfonia e Deficiência Visual, segundo os estudos indicados na Figura 4.

Figura 4: Influênciadas alterações estruturais e/ou funcionais no Processamento Auditivo: Fissura Labiopalatina, Respiração Oral, Disfonia e Deficiência Visual 

Na avaliação do PA de crianças Disfônicas, avaliaram-se as habilidades auditivas de Localização e de Ordenação Temporal, tendo sido observado diferença entre os grupos estudo e controle, no que diz respeito à memória sequencial para sons não-verbais. O estudo mostrou ainda que, para as crianças disfônicas, a habilidade de localização sonora melhorou com o aumentou da idade19.

Com relação ao estudo que analisou a presença do distúrbio do PA em crianças respiradoras orais, foi encontrada diferença no desempenho auditivo dessas crianças, com diferenças estatisticamente significante nas habilidades de figura-fundo, fechamento e ordenação temporal20visto que o sistema respiratório tem influência na oxigenação cerebral. O estudo que avaliou a população infantil com síndrome da apnéia/hipopnéia obstrutiva do sono, identificou alterações nas habilidades do processamento auditivo desta população, em especial a habilidade de figura-fundo, relacionando-as como decorrentes dos mesmos mecanismos que levam às alterações neurocognitivas, de maneira geral; os autores ressaltaram ainda o aumento da população pediátrica com obstrução parcial ou total de vias aéreas superiores, as quais ocasionam interrupções intermitentes da ventilação normal durante o sono21.

A relação da deficiência visual com o processamento auditivo central foi analisada por pesquisadores que encontraram desempenho desfavorável, mas não estatisticamente significante, nas crianças com deficiência visual em relação ao grupo controle, tanto na avaliação audiológica básica, como na bateria de testes do Processamento Auditivo, nas habilidades de figura-fundo, ordenação e resolução temporal22.

A fissura labiopalatina foi relacionada às habilidades auditivas foram avaliadas em dois estudos. Em um estudo investigaram a audição de 20 crianças com fissura labiopalatina com e sem histórico de otite média e encontraram nos dois grupos desempenho ruim na maioria dos testes. A população com história de otite apresentou resultados piores na avaliação do processamento auditivo nas habilidades de localização sonora, memória para sons em sequência e integração auditiva se comparado com a população sem história de otite; esta população teve piores desempenhos nas habilidades de fechamento e figura-fundo23. Do mesmo modo, em outro estudo, foi verificado desempenho inferior na habilidade de figura-fundo em crianças com fissura labiopalatina, por meio do teste dicótico de dígitos, em relação às crianças sem fissura24.

O processamento auditivo de indivíduos com alterações da linguagem oral (gagueira, distúrbio específico de linguagem (DEL), Desvio Fonológico), também foi investigado (Figura 5) e, apesar de demonstrarem a interferência destas alterações em determinadas habilidades auditivas centrais, a maioria dos estudos são singulares no aspecto estudado.

Figura 5: Influência das alterações da linguagem oral no Processamento Auditivo: Gagueira, DEL, Desvio Fonológico 

A habilidade de ordenação temporal de crianças com Distúrbio Específico de Linguagem - DEL demonstrou-se alterada e com correlação ao processamento linguístico; deste modo, quanto maior o comprometimento no processamento auditivo temporal encontrado nestas crianças, pior o desempenho nas tarefas de alta complexidade sintática25. As crianças com gagueira também apresentaram pior desempenho na habilidade de ordenação temporal com diferença estatisticamente significante em comparação às crianças sem gagueira, indicando relação entre este distúrbio da linguagem oral e processamento auditivo26. Em relação à interface entre desvio fonológico e habilidades do processamento auditivo, estudos corroboram que crianças com fala desviante apresentam desempenhos inferiores em comparação às crianças sem desvios fonológicos, sendo que, as principais habilidades desviantes são: resolução temporal, localização, memória para sons em sequência, figura-fundo e fechamento auditivo27 30.

Finalizando, observou-se que a maioria dos estudos buscou conhecer as influências das alterações de linguagem escrita (Dislexia, Déficit de Aprendizagem) nas habilidades auditivas, sendo a dislexia o principal enfoque - Figura 6.

Figura 6: Influência das alterações da linguagem escrita / aprendizagem no Processamento Auditivo: Dislexia, Déficit de Aprendizagem 

Os estudos apresentados foram diversificados quanto aos aspectos e/ou fatores correlacionados com o PA e suas habilidades. Observou-se concordância quanto ao baixo desempenho, na avaliação do processamento auditivo, de crianças com distúrbio de leitura/escrita e dislexia em comparação às crianças sem distúrbios, especialmente nas habilidades de processamento temporal15 31 37Crianças sem o diagnóstico de dislexia, mas com dificuldades escolares foram avaliadas por meio dos testes PSI, DNV e SSW, as crianças do grupo com dificuldades escolares apresentaram pior desempenho em todos os testes aplicados para as três faixas etárias, sugerindo atraso na maturação das habilidades de figura-fundo dos escolares com dificuldades38. Outro estudo que aplicou os testes de LS, MSSV, MSNV e o PSI encontraram maior frequência de alterações no grupo de crianças com dificuldade, em todos os testes, porém, sem diferenças estatisticamente significante39.

Em resumo, três estudos (10%) não encontraram relação entre a variável estudada e o Distúrbio do Processamento, concluindo que são necessárias novas pesquisas na área para melhor investigação desta relação. Em um desses estudos, a justificativa se baseia no fato de se ter realizado apenas um teste, o que limitou o resultado. No segundo estudo, observou-se limitação devido a aplicação de poucos testes para verificar a relação entre variável e distúrbio. Apesar de terem sido aplicados testes dióticos, monóticos e dicóticos, a bateria de testes selecionada não avaliou todas as habilidades auditivas.

Dos 30 artigos selecionados, apenas dois (7%) utilizaram todas as categorias de testes citados; sete (23%) utilizaram apenas testes de Resolução Temporal, três (10%) utilizaram apenas testes dicóticos e dois (7%) utilizaram apenas testes dióticos, ou seja, realizaram apenas a Avaliação Simplificada do Processamento Auditivo. Nenhum dos estudos realizou apenas testes monóticos. Além disso, seis estudos (20%) aplicaram apenas um teste.

O teste mais empregado foi o Teste Dicótico de Dígitos, sendo utilizado em 15 artigos, ou seja, 50%. Alguns testes foram utilizados apenas em um estudo, como é o caso do Teste de Fusão Binaural e do Teste SSI.

O teste SSW foi utilizado em alguns trabalhos com população na faixa etária abaixo dos 8 anos, entretanto, é recomendado ser utilizado a partir dos 9 anos de idade, considerando o efeito da neuromaturação em indivíduos saudáveis5.

As habilidades do processamento auditivo têm demonstrado forte correlação com tarefas que avaliam habilidades neuropsicológicas, com ênfase na atenção concentrada, percepção de faces, linguagem oral e memória, o que se justifica pelo compartilhamento de habilidades cognitivas40.

O diagnóstico do Distúrbio do Processamento Auditivo, diante de sua complexidade, inúmeras causas e repercussões no desempenho de crianças e adolescentes, requer uma equipe multiprofissional. Os estudos analisados demonstram que diversos fatores podem influenciar as habilidades do processamento auditivo avaliadas, sendo difícil afirmar se os fatores estudados e o baixo desempenho nos testes propostos demonstram uma disfunção primária, ou são comorbidades, em especial quando envolvem relação entre habilidades auditivas e cognitivas, como exposto neste estudo.

Os estudos apresentados são, em sua maioria, singulares nos fatores estudados, e as influências positivas e negativas encontradas não podem ser generalizadas. Do mesmo modo, não se deve afirmar que os sujeitos avaliados apresentam distúrbio, analisando somente os resultados de alguns testes aplicados de forma isolada. Apesar das limitações destes estudos, ressalta-se a relevância dos mesmos pois despertam a atenção para alguns fatores apresentados que podem influenciar o Processamento Auditivo. Faz-se necessário um esforço contínuo para confirmação dos achados que podem estar associados aos distúrbios de processamento auditivo, com objetivo de potencializar as ações clinicas e educacionais de profissionais envolvidos com esta população.

Conclusão

O Processamento Auditivo mostra-se sensível à influência negativa de vários fatores: condições ambientais, condições socioeconômicas, alterações de linguagem (fonologia, escrita, gagueira), alterações auditivas periféricas (otites média), químicos (mercúrio metálico) e alterações neurológicas (Dislexia, TDAH). A exposição à música foi a única influência positiva nas habilidades do processamento auditivo, e o uso do Metilfenidato por portadores de TDAH, indicou melhora no reteste, mas não permite estabelecer a relação entre o uso do medicamento e a melhora no desempenho.

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Recebido: 04 de Novembro de 2014; Aceito: 02 de Março de 2015

Endereço para correspondência/Mailing address: Nádia Giulian de Carvalho, Rua Dr. Alves do Banho, 666, apto. 101ª, bairro São Bernardo, Campinas - SP - Brasil, CEP: 13030-580, E-mail: nadiagiulian@gmail.com

Conflito de interesses: inexistente

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