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Revista CEFAC

Print version ISSN 1516-1846On-line version ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.17 no.5 São Paulo Sept/Oct. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0216201517513414 

ARTIGOS DE REVISÃO

Fonoaudiologia e estratégia de saúde da família: o estado da arte

Loise Elena Zanin1 

Izabelle Mont'alverne Napoleão Albuquerque2 

Daniel Hardy Melo3 

1Hospital Regional Norte, Sobral, Ceará, Brasil

2Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA, Sobral, Ceará, Brasil.

3Universidade Federal do Ceará, Sobral, Ceará, Brasil

Resumo:

A inserção da Fonoaudiologia na Estratégia de Saúde da Família é algo novo e estudos sobre este tema são escassos. À luz disto, o objetivo desta pesquisa foi de identificar, a partir da literatura nacional e internacional, o estado da questão sobre a atuação e inserção da Fonoaudiologia na Estratégia de Saúde da Família. Para isso, foi realizada uma pesquisa na Biblioteca Virtual em Saúde, anais do Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia, Teses e Dissertações. A partir do estudo, foi possível detectar que a deficiência na formação do fonoaudiólogo para o trabalho na Estratégia Saúde da Família é um dos principais fatores limitantes para a inserção e atuação desses profissionais neste cenário; Também identificou a falta de publicações científicas sobre o tema; E evidenciou que a Residência Multiprofissional em Saúde da Família, se tornou indispensável para diminuir a lacuna na formação do fonoaudiólogo sobre Atenção Básica. São muitos desafios para a categoria de Fonoaudiologia consolidar a sua atuação na Estratégia de Saúde da Família, mas, apesar das fragilidades, o seu fazer no território promove um cuidado que propicia mais qualidade de vida e saúde a essas pessoas.

Descritores: Fonoaudiologia; Estratégia Saúde da Família; Atenção Primária à Saúde; Saúde Pública

Introdução

A Atenção Básica tem a Saúde da Família como estratégia prioritária para sua organização. Caracterizada como a porta de entrada preferencial do sistema de saúde, com território adscrito, deve permitir, entre outros, o planejamento e a programação descentralizada, em consonância com princípio da equidade; efetivar a integralidade em seus vários aspectos; desenvolver relações de vínculo e responsabilização entre as equipes e a população, garantindo a continuidade das ações de saúde e a longitudinalidade do cuidado1. A Estratégia de Saúde da Família (ESF) é entendida como uma estratégia de reorientação do modelo assistencial, operacionalizada mediante a implantação de equipes multiprofissionais em Unidades Básicas de Saúde2. Ela integra categorias profissionais, objetivando enfrentar com mais resolubilidade os problemas detectados3.

Com a implementação do Programa de Saúde da Família (PSF) no ano de 1994 e a sua consolidação como uma ESF, foi possível ampliar a universalização do acesso à saúde, gerando a necessidade de mudanças e consolidando um novo modelo de atenção a saúde baseado nos princípios do SUS4.

Considerando a importância do tema, o Conselho Regional de Fonoaudiologia, com o apoio do Comitê de Saúde Pública da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, promoveu, em 2002, um fórum com o objetivo de elaborar um documento, de forma participativa, que definiu uma "Proposta de Inclusão da Fonoaudiologia na Estratégia de Saúde da Família"5, uma vez que o fonoaudiólogo se torna uma peça importante na equipe multidisciplinar, por ser um profissional capacitado para trabalhar com as alterações da comunicação da comunidade.

A comunicação humana tem um papel significativo na manutenção da saúde e qualidade de vida do ser humano. Ela é condição primordial para a inserção do homem na sociedade, permeando todas as relações, propiciando a participação social, aprendizagem e contribuindo para a integridade emocional6. Portanto, a habilidade e a efetividade da comunicação passam a ser relevantes nos conceitos de saúde e nas mudanças das políticas públicas7.

Com isso, pode-se observar que o olhar para Atenção Básica é um dos mais recentes no percurso histórico da Fonoaudiologia brasileira e se encontra em processo de conquista de suas especificidades, da (re)construção de sua identidade8. Sendo assim, a inserção da Fonoaudiologia na ESF é algo incipiente e ocorreu timidamente devido à falta de profissionais com formação voltada para atenção primária. Isto promoveu uma limitação sobre as concepções acerca de seu objeto de estudo e da amplitude de seu campo de atuação9.

Como a Fonoaudiologia é uma ciência recente, carece de estudos que possam produzir conhecimentos técnicos e científicos capazes de expandir seu domínio de atuação em Saúde Pública10. Infelizmente, as pesquisas no campo da atenção básica ainda são escassas, principalmente quando comparadas com a produção por áreas específicas da Fonoaudiologia. Por esse motivo, avanços nesta área são de extrema importância para fortalecer essa categoria baseada em evidências, comprovando o grande valor das suas ações na ESF. Sendo assim, a questão norteadora da presente pesquisa foi: Quais os principais avanços e desafios enfrentados pela Fonoaudiologia na sua inserção na Estratégia de saúde da Família?

Em vista disto, o objetivo foi identificar, a partir da literatura nacional e internacional, o estado da questão sobre os avanços e desafios na inserção da Fonoaudiologia neste palco de atuação. Para Nóbrega-Therrien e Therrien (2004, p.7)11, "a finalidade do estado da questão é de levar o pesquisador a registrar, a partir de um rigoroso levantamento bibliográfico, como se encontra o tema ou o objeto de sua investigação no estado atual da ciência ao seu alcance".

Métodos

Realizou-se uma busca na Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), incluindo resumos/abstracts de artigos publicados nos últimos 20 anos (de 1993 a 2013), sendo ou não de periódicos de acesso livre. Foram utilizadas as seguintes associações de palavras-chave para a busca na base de dados: "Fonoaudiologia e Saúde Pública", "Fonoaudiologia e Saúde da Família", "Fonoaudiologia e Estratégia de Saúde da Família" e "Fonoaudiologia e Atenção Primária a Saúde". Não foram utilizados descritores em inglês, pois a BVS os inclui automaticamente, por meio dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS). O critério de inclusão adotado para a seleção dos materiais bibliográficos foi abordar a Fonoaudiologia na Estratégia de Saúde da Família. Foram excluídos estudos que tangenciaram a temática.

A partir dessas buscas foram encontrados 124 dos quais foram selecionados para a análise posterior de textos completos os que atenderam aos critérios: a) inserção da Fonoaudiologia na Estratégia de Saúde da Família e b) avanços e/ou desafios da Fonoaudiologia na Estratégia de Saúde da Família. Foram excluídos artigos a) que se repetiam nas buscas pelos descritores e b) artigos que não abordavam a Fonoaudiologia na Estratégia de Saúde da família. Desses, 21 artigos completos foram selecionados, sendo os instrumentos utilizados nos estudos apresentados nessa revisão. O fluxo de seleção de artigos pode ser visualizado na Figura 1.

Figura 1: Fluxo de análise de resumos/abstracts e artigos completos selecionados nas bases de dados da Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) 

Também foi pesquisada a literatura cinza incluindo anais, dissertações e teses sobre o tema. Os resumos/abstracts das dissertações e teses foram pesquisados na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). Foram utilizadas as seguintes associações de palavras-chave para a busca na base de dados: "Fonoaudiologia e Saúde da Família". Os critérios de inclusão adotados para a seleção dos materiais bibliográficos foram: a) inserção da Fonoaudiologia na Estratégia de Saúde da Família e b) avanços e/ou desafios da Fonoaudiologia na Estratégia de Saúde da Família e c) teses e dissertações com acesso livre on-line do seu conteúdo na integra. Foram excluídos estudos que tangenciaram a temática e que não possuíam o trabalho na integra para o acesso on-line.

A partir dessa busca foram encontrados 6 teses e 33 dissertações dos quais foram selecionados para a análise posterior de textos completos os que atenderam aos critérios: a) inserção da Fonoaudiologia na Estratégia de Saúde da Família e b) atuação da Fonoaudiologia na Estratégia de Saúde da Família. Foram excluídas teses e dissertações que: a) trabalhos que não abordavam a Fonoaudiologia na Estratégia de Saúde da família. Desses, 8 dissertações foram selecionadas e nenhuma tese atendeu aos critérios de seleção dessa pesquisa. O fluxo de seleção de artigos pode ser visualizado na Figura 2.

Figura 2: Fluxo de análise de resumos/abstracts e trabalhos completos selecionados nas bases de dados na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) 

O levantamento bibliográfico dos trabalhos científicos publicados nos anais dos Congressos Brasileiros de Fonoaudiologia foi realizado on-line pelo site da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, no qual estavam liberados para acesso apenas os anais a partir do ano de 2008. Foram pesquisados os trabalhos da sessão de pôsteres, na área de Saúde Coletiva, Gestão em Saúde Coletiva e Atenção à Saúde. Os critérios de inclusão e exclusão foram os mesmos utilizados na pesquisa das teses e dissertações. A partir dessa busca foram encontrados 133 trabalhos referente ao tema nos últimos 6 anos. Desses, 76 trabalhos foram selecionados, sendo os instrumentos utilizados nos estudos apresentados nessa revisão. O fluxo de seleção dos trabalhos científicos pode ser visualizado na Figura 3

Figura 3: Fluxo de análise de resumos/abstracts e trabalhos completos dos trabalhos científicos publicados nos anais dos Congressos Brasileiros de Fonoaudiologiarealizado on-line pelo site da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia 

Revisão da Literatura

Figura 4: Quadro contendo informações sobre os artigos selecionados na pesquisa na Biblioteca Virtual de Saúde 

Figura 5: Quadro contendo informações sobre as dissertações selecionadas na pesquisa na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) 

Figura 6: Quadro contendo informações sobre os trabalhos encontrados nos anais do Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia 

1. Inserção da Fonoaudiologia na ESF - Avanços

Dentre as mudanças positivas, os autores concordam que a grande transformação na atuação da categoria nesse cenário foi a organização das suas ações de acordo com as necessidades da comunidade12. Muitos trabalhos demonstraram a preocupação e esforço dos fonoaudiólogos em realizar ações intrinsecamente ligadas às necessidades do seu território de atuação13.

A partir disso, a inserção do processo de territorialização no fazer da Fonoaudiologia possibilitou o conhecimento de alguns fatores determinantes no processo saúde-doença da população que refletiram sobre o planejamento das ações de saúde13 15, além de promover uma aproximação da categoria com a comunidade16.

O trabalho com conceitos epidemiológicos, objetivando o levantamento das doenças de maior ocorrência que acometem a saúde da comunicação e suas características foi outro marco do crescimento do trabalho17 19.

As pesquisas também evidenciam uma maior compreensão do fonoaudiólogo quanto ao seu papel na ESF6, sendo sua principal função a de promoção da saúde13. Além disso, a integração com outras categorias e o saber agir interdisciplinarmente foi outro aprendizado vivenciado na Atenção Básica 13 20 22.

A participação do Fonoaudiólogo em instâncias de controle social garantindo um maior zelo pela qualidade do atendimento aos usuários, fortalecendo a categoria e potencializando sua atuação diante das políticas públicas, também foi um espaço conquistado23.

Toda essa mudança promoveu uma desconstrução do saber fonoaudiológico e uma reconstrução de um novo perfil para atuar neste contexto11 21. Essa nova atuação mostrou-se efetiva para a população, uma vez que, houve a integração da categoria no quadro de profissionais do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF)24.

O Fonoaudiólogo, junto ao NASF, passou a desenvolver apoio matricial, junto com a organização territorial e educação permanente com os profissionais da saúde da família. Todo esse fazer, possibilitou detectar alterações fonoaudiológicas precoce no território e capacitou a equipe de saúde quando aos cuidados com saúde da comunicação humana22 25.

Diante de tantas transformações, houve a necessidade de adequar a formação do fonoaudiólgo de acordo com os princípios e diretrizes do SUS17 21 26. A inserção da categoria nos programas de Residência Multiprofissional em Saúde da Família (RMSF) contribuiu significativamente para construção e condução do fazer da Fonoaudiologia na Atenção Básica, assim como seu fortalecimento neste cenário de atuação20. A RMSF permitiu que o fonoaudiólogo desenvolvesse nos territórios de abrangência atividades como: diagnóstico situacional e institucional, acolhimento, visitas domiciliares, atendimentos de núcleo, inter ou transdiciplinares (individualmente e/ou em grupos), educação em saúde no interior (salas de espera) e/ou no entorno das unidades de saúde (grupos de atividades físicas, de cuidados em saúde e de convivência, de saúde mental, de artes [canto, dança, teatro, artesanato], entre outros), matriciamento e atividades que envolvem a organização dos serviços. Tais atividades são fundamentais para a compreensão da lógica do SUS, visto que grande parte das graduações ainda não formam profissionais com competências, habilidades e atitudes para trabalhar no SUS. O programa possibilita experiências singulares em relação ao trabalho em equipe (inter ou transdisciplinar) possibilitando que cada especialidade contribua com seus conhecimentos, facilitando o exercício da reciprocidade, e favorece o atendimento integral aos usuários dos serviços de saúde14 23 25.

Sobre a atuação desta categoria na ESF, os autores destacam que, o fonoaudiólogo pode atuar, direta ou indiretamente com a população, elaborando programas de orientação quanto ao desenvolvimento da linguagem e da audição, a importância do desenvolvimento das funções neurovegetativas na produção dos sons da fala, o uso adequado da voz, as modificações que ocorrem na linguagem e nas funções neurovegetativas e suas interferências na fala, além de realizar diagnóstico e tratamento precoce. Também, cabe ao fonoaudiólogo diagnosticar os problemas ambientais e detectar alterações, desenvolver atividades de promoção e proteção à saúde em geral (aleitamento materno, saúde auditiva, vocal, entre outras); realizar visitas domiciliares, atuar em escolas e creches, oferecendo assessoria e orientação; organizar grupos de promoção e prevenção de saúde (recém-nascidos, hipertensos, idosos, crianças); atender à demanda encaminhada para oficinas e terapias grupais, discutir os casos com a equipe, contribuir para o diagnóstico da situação de saúde da área de abrangência, incluindo aspectos que podem interferir na comunicação humana (ruído, poluição do ar, falta de vacinação, de pré-natal, presença de maus hábitos orais, respiração oral etc.); capacitar, orientar e acompanhar as ações dos agentes comunitários de saúde, visando à qualidade na coleta de dados, na orientação transmitida à comunidade e na detecção de possíveis distúrbios da comunicação humana, propor instrumentos de avaliação das ações fonoaudiológicas em consonância com as diretrizes da ESF; realizar e divulgar pesquisas referentes à atuação do fonoaudiólogo da ESF6 27.

Pesquisa mostrou que a atuação do fonoaudiólogo, em uma UBS, junto ao Programa de Observação do Desenvolvimento de Linguagem e Função Visual de Lactentes foi importante na detecção precoce de doenças, no acompanhamento do aleitamento materno e na redução de hábitos viciosos28. Além disso, a população que frequentou o programa reconheceu o profissional fonoaudiólogo e a importância deste na prevenção e promoção da saúde. Portanto, a inserção desta categoria nas Unidades Básicas de Saúde, mostra um novo modelo de gestão, valorizando atividades de promoção e prevenção como parte do processo do fazer saúde e incentivando a humanização do serviço28.

Em um município de Maceió, 86% das pessoas que passaram por triagem na UBS, apresentaram achado fonoaudiológico. Esses achados tiveram predomínio na área da linguagem e a faixa etária foi de 0a 6 anos 12. Outro estudo apresentou dados semelhantes, em que as crianças até 10 anos tiveram mais achados fonoaudiológicos, sendo o distúrbio de linguagem e fala mais prevalentes, assim como o uso de chupeta e/ou mamadeira após 24 meses de idade29. Isso é um reflexo das prováveis alterações de saúde da comunicação evidenciando a necessidade da atuação da Fonoaudiologia junto às equipes de saúde das UBS12.

As principais formas de atuação da Fonoaudiologia nos casos de linguagem na atenção primária à saúde ocorrem por meio de o uso de jogos, leitura compartilhada, oficinas em grupo e visitas domiciliares, entre outras abordagens. Desta forma, a intervenção com os pais resulta no melhor desenvolvimento das crianças, especialmente na área da linguagem, estejam elas em grupos com fatores de risco ou não. São ações com crianças antes de completarem 3 anos, pois a intervenção precoce implementada é determinante especialmente quando se pretende obter efeitos benéficos para essas e suas famílias. Enfatizam ainda, que o trabalho realizado com a linguagem interdisciplinarmente abrangeu todo desenvolvimento infantil 30.

O estudo comprovou que a atuação fonoaudiológica com crianças de faixa etária entre 2 aos 11 anos foi fundamental para a retirada de hábitos orais. A atuação ocorreu em uma UBS, no qual os fonoaudiólogos utilizaram uma abordagem lúdica para a conscientização das crianças e pais sobre os malefícios originados pela utilização prolongada de hábitos como mamadeira, chupeta e sucção digital. Esse trabalho teve um período de 30 dias, e as estratégias empregadas neste estudo alcançaram a remoção de todos os tipos de hábitos apresentados31.

A presença do fonoaudiólogo nos cursos de gestantes para fornecer orientações quanto aos cuidados com a audição é fundamental, verificando um aumento significante do número de encaminhamentos para o teste da orelhinha e exames realizados após a inserção da Fonoaudiologia na ESF. Sendo assim, acredita-se que a presença do fonoaudiólogo na atenção primária é fundamental no acompanhamento e monitoramento do diagnóstico precoce das alterações auditivas, a fim de propiciar melhoria na qualidade de vida das crianças no município32.

Pesquisa detectou conhecimento limitado dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) sobre o fazer da categoria de Fonoaudiologia, principalmente nos territórios onde não havia presença do fonoaudiólogo no NASF e Residência Multiprofissional em Saúde da Família, e que após um momento de educação permanente que abordava o que era a Fonoaudiologia, suas ações na Atenção Básica de Saúde e suas áreas de atuação, ficou evidente que os ACS conseguiram perceber os problemas da comunidade embora, muitas vezes, não soubessem agir diante das necessidades fonoaudiológicas. Isso mostrou a necessidade da atuação contínua de um fonoaudiólogo junto às equipes da ESF 4.

2. Inserção da Fonoaudiologia na ESF - Desafios

O motivo mais recorrente da restrição do trabalho fonoaudiológico foi à deficiência na formação deste profissional para atuação na atenção primária. O profissional fonoaudiólogo vem sendo incluído na ESF e NASF, porém muitas vezes sem o devido preparo, visto que sua formação, na maioria das vezes, é clínica e individual23. Assim, ao se inserir nos territórios, reflete o modelo clínico em que se formou, centrando sua atuação muitas vezes restrita ao paciente, favorecendo a concepção de doença enquanto fenômeno estritamente pessoal produzindo atuações pontuais, sem processo de vinculação, destituindo a necessidade do profissional e a importância do seu seguimento 6 11 22 33. Além disso, os fonoaudiólogos apresentam dificuldades de conceituar o NASF e a Saúde Coletiva, fato que pode implicar em um processo de trabalho distanciado da concepção de promoção da saúde 34.

Alguns programas estão sendo desenvolvidos para diminuir essa lacuna, como o programa do PET - Saúde, onde ocorre a participação de graduandos da Fonoaudiologia25, e a inclusão na grade curricular das graduações de disciplinas teórico-práticas desenvolvidas nas Unidades Básicas de Saúde 13 22 23. Entretanto, as pesquisas afirmam que essa vivência ocorre num período de curta permanência não causando impacto efetivo na formação do profissional13 23.

O resultado disso é um numero pequeno de fonoaudiólogos atuando na área da atenção básica24, que pode advir do preconceito do aluno causado por uma concepção "errônea" da atuação profissional neste campo, durante seu processo de formação35. Estudo realizado na região Sul do país mostrou uma carência de fonoaudiólogos na Saúde Pública, pois a maioria dos atuantes tende a realizar ações curativas e individualizadas, fato que restringe o acesso à área e, consequentemente, no reconhecimento social da Fonoaudiologia13.

Os trabalhos sinalizaram que o fonoaudiólogo tem encontrado poucas bases legais para atuar neste contexto7. Existe ainda uma visão estereotipada da Fonoaudiologia, com atuação restrita à reabilitação22, existindo uma grande procura por atendimento especializado22. Sendo vista, equivocadamente, como uma profissão de atenção especializada e diminuindo suas possibilidades de atuação dentro da Estratégia de Saúde da Família13.

Esse distanciamento gera um conhecimento incipiente dos gestores a respeito da importância da Fonoaudiologia na atenção primária, acarretando em pouca oferta de emprego neste cenário25 33 34.

Outra dificuldade enfrentada é a de integração com a equipe multidisciplinar. Mesmo não estando incorporada nas equipes multidisciplinar e interdisciplinar de uma Unidade Básica de Saúde, muitos profissionais percebem a necessidade do trabalho do fonoaudiólogo para o usuário, mas poucos vinculam a inserção deste serviço como contribuição e complementação do seu processo de trabalho6.

O desconhecimento do papel do fonoaudiólogo por parte da equipe de saúde e usuários, também implica negativamente na inclusão da categoria na ESF. Além disso, trabalhos sobre a temática identificaram que o profissional atuante neste contexto (médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem, agente comunitário) pouco investiga e aborda questões relativas à aquisição de linguagem oral, hábitos orais, desenvolvimento auditivo, vínculo mãe-bebê demonstrando um desconhecimento e uma falta de co-responsabilização referente à questões fonoaudiológicas13.

Existe um grau elevado de desinformação da população com relação às alterações fonoaudiológicas, aos saberes e fazeres do profissional fonoaudiólogo22. Estudo descreveu que alguns pais, mesmo percebendo que seus filhos possuíam algum tipo de distúrbio fonoaudiológico, não procuraram ajuda profissional. Isso demonstrou que os responsáveis desconhecem a importância do trabalho fonoaudiológico23. A alta demanda também foi sinalizada pelos autores como um fator que dificulta o fazer do fonoaudiólogo na ESF. Para reduzir a alta demanda é necessário adequar os serviços à realidade, contratar maior número de fonoaudiólogos preparados para lidar com a Saúde Pública e mais atenção do governo ao que se refere às políticas públicas em Fonoaudiologia24.

A ausência de espaço físico adequado, a carência de materiais educativos e informativos nas Unidades Básicas de Saúde também foram considerados fatores limitantes da atuação da Fonoaudiologia 23 34 36.

Além disso, há pouca publicação científica que possa fundamentar a importância das ações fonoaudiológicas neste palco de atuação. As produções científicas nos Congressos Brasileiros de Fonoaudiologia relacionadas às práticas de saúde do fonoaudiólogo no ESF ainda são bastante incipientes24 e o número de publicações relacionadas ao tema ainda é escasso 2012. Estudiosos acreditam que chegou o momento de se fazer um levantamento do que está sendo feito em termos de promoção e prevenção dos distúrbios da comunicação24, pois o investimento em pesquisas nesta área poderá superar a visão limitada sobre a Fonoaudiologia na atenção primária17.

Comentários Finais

A maioria dos estudos evidenciou deficiências que precisam ser corrigidas para o aumento da qualidade da atenção prestada pela Fonoaudiologia na ESF. Houve uma concordância, entre os trabalhos, quanto há deficiência na formação do fonoaudiólogo para atuação na ESF como o principal fator de limitação na inserção e atuação desses profissionais. O processo de graduação ainda é falho já que a grade curricular está centrada na visão de técnicas biomédica, com ênfase em procedimentos clínicos, não favorecendo o desenvolvimento de competências para atuação na atenção primária a saúde.

Além disso, o aspecto estrutural não favorece o desenvolvimento do trabalho fonoaudiológico, pois ocorre escassez de materiais, espaço físico e número restrito de fonoaudiólogos atuando junto às comunidades.

Os achados das pesquisas também demonstraram poucas publicações abordando este tema, evidenciando a necessidade de investir em pesquisas nessa área a fim de fundamentar a importância das ações fonoaudiológicas na ESF. E ainda, sinalizam que a Residência Multiprofissional em Saúde da Família se tornou indispensável para diminuir a lacuna na formação do fonoaudiólogo sobre Atenção Básica.

Apesar disso, os poucos trabalhos encontrados sobre essa temática mostraram que são muitos desafios para a categoria de Fonoaudiologia consolidar a sua atuação neste cenário, mas o seu fazer junto à comunidade promove um cuidado de qualidade que propicia mais qualidade de vida e saúde a essas pessoas.

Referências

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Recebido: 17 de Julho de 2014; Aceito: 27 de Abril de 2015

Endereço para correspondência/Mailing address: Loise Elena Zanin, Rua Francisca das Chagas Muniz, 1555, casa 10, Condomínio Milano, Bairro Renato Parente, Sobral - CE - Brasil, CEP: 62.034-090, E-mail: lo_zanin@yahoo.com.br

Conflito de interesses: inexistente

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