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Revista CEFAC

versão impressa ISSN 1516-1846versão On-line ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.17  supl.1 São Paulo mar. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0216201517s120811 

Artigos Originais

Medidas de biossegurança adotadas por profissionais atuantes em audiologia

Ana Paula Ferreira Rocha 1  

Bárbara Antunes Rezende 1  

Flávia Aparecida Felipe de Lima 1  

Marina Garcia de Souza Borges 1  

Rafaella Cristina Oliveira 1  

Juliana Nunes Santos 2  

1Faculdade de Estudos Administrativos FEAD - MG, Belo Horizonte, MG, Brasil.

2Departamento de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil.

RESUMO

OBJETIVO:

explicitar as práticas de biossegurança adotadas por fonoaudiólogos atuantes na área de Audiologia e relacioná-las com a educação continuada e o tempo de formação dos profissionais.

MÉTODOS:

participaram deste estudo 70 fonoaudiólogos atuantes na área de Audiologia, nos municípios de Belo Horizonte e Contagem. Foi aplicado um questionário sobre biossegurança em Audiologia, com base na Norma Regulamentadora 32, composto por 27 perguntas fechadas, abordando os aspectos de higienização das mãos, equipamentos de proteção individual e organização e higienização dos artigos e do ambiente.

RESULTADOS:

a maioria dos fonoaudiólogos relatou que adota as seguintes medidas de biossegurança: higienização das mãos antes dos atendimentos (71%), uso de jaleco com mangas longas (74%) e abotoado (91%), cabelos presos (79%), unhas limpas e cortadas (91%), separação e desinfecção dos artigos usados (83%) e organização do ambiente (97%). No entanto somente 40% dos profissionais referiram higienizar as mãos entre os atendimentos e 9% referiram o uso de luvas na realização da meatoscopia. Observou-se que a destinação dos artigos para desinfecção é uma prática mais rotineira para profissionais com especialização (p< 0,05). Os profissionais com maior tempo de formação aderiram melhor à prática de higienização das mãos.

CONCLUSÃO:

higienizar as mãos antes dos atendimentos, vestir-se corretamente, destinar os artigos para desinfecção e organizar o ambiente de trabalho são práticas de biossegurança adotadas pela maioria dos fonoaudiólogos. Fatores como tempo de formação e educação continuada influenciam de maneira positiva na adoção de corretas medidas de biossegurança.

Palavras-Chave: Audiologia; Exposição a Agentes Biológicos; Fonoaudiologia; Educação Continuada; Saúde Ocupacional

Introdução

Biossegurança compreende o conjunto de ações voltadas para prevenir e eliminar, ou minimizar, os riscos inerentes às atividades de pesquisa, produção, ensino, desenvolvimento tecnológico e prestação de serviços, objetivando preservar a saúde do homem, dos animais e do meio ambiente1. Na área da Saúde, especialmente, as práticas de biossegurança são essenciais ao controle de infecções e à diminuição dos riscos intrínsecos às atividades de assistência2 , 3. Os profissionais da área da saúde são os responsáveis pela prevenção e controle de doenças e pela promoção de saúde, mas nem sempre estão conscientes da importância da adoção de medidas de biossegurança e propensos a seguir de forma correta os passos necessários para eliminar e/ou diminuir os riscos para seus pacientes, para si próprios e para sua equipe4, o que aumenta a chance de acidentes e o risco de infecções.

Todos os setores das instituições de assistência a saúde apresentam riscos potenciais para contaminações biológicas3 , 5, sendo que nesses ambientes, as grandes causas de acidentes, geralmente, estão relacionadas à: instrução inadequada, supervisão ineficiente, mau uso dos equipamentos de proteção individual, não observação de normas e práticas inadequadas, entre outros fatores6.

A Portaria 485 do Ministério do Trabalho e Emprego, de 11 de novembro de 2005, que aprova a Norma Regulamentadora 32 (NR32), é responsável por implementar as medidas básicas de proteção à segurança e à saúde dos trabalhadores dos serviços de saúde7. O fonoaudiólogo, sendo um profissional de atuação autônoma e independente, que exerce suas atividades em diferentes ambientes de assistência à saúde, deve ter conhecimento sobre biossegurança e sua importância, a fim de aplicá-la em sua prática diária6 , 8. Na atividade clínica deste profissional, o contato direto com pacientes possivelmente infectados constitui-se em um potencial risco à saúde, o que demanda, portanto, a adoção de procedimentos de controle de infecção, especialmente a higienização das mãos, em suas diversas áreas de atuação e locais de trabalho.

O objetivo deste estudo consistiu em identificar as práticas de biossegurança adotadas por fonoaudiólogos atuantes na área de Audiologia e relacionar a presença de tais práticas com a educação continuada e o tempo de formação.

Métodos

Esta pesquisa consiste em um estudo de caráter transversal com amostra aleatória. Participaram deste estudo os profissionais que atendiam os seguintes critérios de inclusão: a) fonoaudiólogos atuantes na área de audiologia, b) fonoaudiólogos atuantes nos municípios de Belo Horizonte e Contagem, c) fonoaudiólogos que autorizaram previamente sua participação na pesquisa mediante a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido.

A coleta de dados foi realizada entre outubro de 2010 e janeiro de 2011, por meio da aplicação de questionário sobre biossegurança em Audiologia (Figura 1), estruturado pelas autoras, com base nos aspectos da Norma Regulamentadora 32 (NR32) do Ministério do Trabalho, que dispõe sobre "a Segurança e Saúde no Trabalho em Serviços de Saúde" 7. O instrumento foi previamente testado, em versão piloto, com dez fonoaudiólogos, e as questões de difícil entendimento foram reformuladas.

Figura 1: Questionário de Biossegurança em Audiologia 

Os participantes responderam o questionário nos locais de trabalho e/ou em locais previamente agendados com os pesquisadores e tiveram liberdade de expressar suas dúvidas e de fazerem perguntas, as quais foram esclarecidas.

O questionário foi composto por 27 perguntas fechadas, referentes ao tema "Biossegurança em Audiologia", as quais foram divididas de acordo com os itens: 1) lavagem das mãos; 2) equipamentos de proteção individual e profissionais da saúde; 3) organização e higienização dos artigos; e 4) organização e higienização do ambiente. Os fonoaudiólogos deveriam assinalar "Sim" para a presença da conduta ou prática de biossegurança; "Não" para a ausência desta; "Às vezes" para as práticas de biossegurança ora realizadas ora não realizadas; ou "Não se aplica" para as práticas de biossegurança que não fazem parte de sua rotina de trabalho específica de Audiologia.

Este estudo foi previamente aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFMG sob número ETIC 0380.0.203.000-10.

Após a análise dos dados, um banco de dados foi estruturado especificamente para este estudo no software estatístico EPI INFO versão 6.04. Para fins de análise descritiva, procedeu-se à distribuição de frequência das variáveis categóricas envolvidas no estudo e à análise das medidas de tendência central e de dispersão das variáveis contínuas. Os dados foram previamente conferidos, sendo que aqueles considerados inconsistentes e as informações excluídas foram tratados adequadamente. Para as respostas assinaladas como "Às vezes", os dados foram interpretados como "Não", pois as práticas de biossegurança, de acordo com a Norma Regulamentadora 32 (NR 32), devem estar presentes sempre na rotina do profissional da saúde. Para a análise estatística, foi utilizado o teste Qui-Quadrado. O nível de significância adotado foi de 5% (p < 0.05).

Resultados

Esta pesquisa foi realizada com 70 sujeitos adultos situados na faixa etária de 23 a 44 anos, com idade média de 26,2 anos (±4,6), sendo 66 (94,3%) do sexo feminino e 4 (5,7%) do sexo masculino. Os fonoaudiólogos entrevistados encontram-se em um tempo médio de formado de 2 anos e 8 meses, com mínimo de 6 meses e máximo de 14 anos (± 9,5).

Quanto à formação acadêmica, 23 (32,8%) são graduados e cursam especialização em Audiologia; 13 (18,6%) são graduados e possuem especialização concluída em Audiologia; 11 (15,7%) são graduados e possuem especialização concluída em outra área; 2 (2,9) são graduados e possuem mais de uma especialização e 21 (30%) são graduados e não possuem especialização. Todos trabalham com Audiologia nas cidades de Belo Horizonte e Contagem (MG).

As práticas de biossegurança realizadas pelos fonoaudiólogos em sua rotina de trabalho na Audiologia podem ser visualizadas na Figura 2.

Figura 2: Práticas de biossegurança adotadas por 70 fonoaudiólogos de Belo Horizonte e Contagem em sua rotina de trabalho na Audiologia, 2011 

A relação entre as práticas de biossegurança adotadas pelos fonoaudiólogos e a educação continuada pode ser observada na Tabela 1.

Tabela 1: Práticas de biossegurança adotadas pelos fonoaudiólogos e a educação continuada 

Legenda: N = número de profissionais; %: porcentagem de profissionais; P = p-valor

*p<0,05; Teste Qui-quadrado

Fonte: Dados da pesquisa

A Tabela 2 apresenta a relação entre as práticas de biossegurança adotadas pelos fonoaudiólogos e seu tempo de formação.

Tabela 2: Relação entre as práticas de biossegurança adotadas pelos fonoaudiólogos e seu tempo de formação 

Legenda: N = número de profissionais; %: porcentagem de profissionais; P = p-valor

*p<0,05; Teste Qui-quadrado

Fonte: Dados da pesquisa

Discussão

Este trabalho pretendeu investigar e analisar as práticas de biossegurança adotadas por fonoaudiólogos atuantes na área de Audiologia. Por não existir no Brasil uma legislação federal específica para biossegurança em saúde, o instrumento de pesquisa utilizado baseou-se na Norma Regulamentadora 32 (NR 32) 7, que dispõe sobre Segurança e Saúde no Trabalho em Serviços de Saúde, apresentando as diretrizes básicas para a implementação de medidas de proteção à segurança e à saúde dos trabalhadores em estabelecimentos de assistência à saúde, bem como daqueles que exercem atividades de promoção e assistência à saúde.

Um dos aspectos abordados por essa Norma e investigados neste estudo refere-se à lavagem, ou higienização, das mãos. Sabe-se que esta é a ação reconhecida como mais básica para a prevenção e o controle de infecções dentro e fora dos serviços de saúde2 , 8 - 11, uma vez que as mãos são consideradas as principais ferramentas dos profissionais de saúde, as quais podem ser colonizadas por micro-organismos patogênicos2. Neste estudo, observou-se que 50 profissionais (71%) afirmaram que lavam as mãos antes de iniciar os atendimentos. Contudo, apenas 28 (40%) relataram lavar as mãos entre os atendimentos. Tal porcentagem é considerada baixa, tendo em vista a importância deste procedimento para a redução da disseminação de micro-organismos entre pacientes e profissionais. Tais achados corroboram com a literatura, que cita que a adesão dos profissionais de saúde às práticas recomendadas varia entre 5% e 81%, sendo, em média, em torno de 40%2 , 3. Entretanto, em estudo que abordou as medidas de biossegurança realizadas por profissionais de enfermagem em uma Unidade de Terapia Intensiva constatou-se que a lavagem de mãos é um procedimento incorporado na rotina de trabalho, ocorrendo em alta frequência12. Tal discordância de resultados pode ser explicada pelo tipo de ambiente de trabalho, bem como pelo tipo de paciente assistido na terapia intensiva em relação à clínica audiológica.

Segundo a literatura, a realização da lavagem com água e sabão é indicada quando as mãos estiverem visivelmente sujas ou contaminadas com sangue, secreções e/ou outros fluidos corporais, ao iniciar e terminar turno de trabalho, antes e após o contato com paciente13, entre procedimentos diferentes com o mesmo paciente, após qualquer contato com artigo ou equipamento contaminado, antes de calçar luvas e imediatamente após sua retirada2 , 6 - 8 , 10 ou quantas vezes forem necessárias durante o atendimento a um paciente11.

Quando os fonoaudiólogos foram questionados sobre a retirada de anéis, pulseiras e relógios para higienizar as mãos, 46 (66%) relataram fazê-lo, contra 24 (24%) que não. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) 2, todo e qualquer adorno das mãos e antebraços, como relógios, anéis e pulseiras, devem ser retirados antes do início da higienização das mãos, uma vez que podem acumular micro-organismos2 , 6 , 10. Os achados deste estudo podem estar relacionados à falta de conhecimento do fonoaudiólogo sobre a importância de se retirar tais adornos e ao fato de o uso destes ser uma questão habitual, a qual não foi devidamente trabalhada na formação profissional.

Ainda segundo a ANVISA2, os lavatórios para higiene das mãos devem ser utilizados exclusivamente para esta finalidade, sendo providos de: papel toalha descartável, sabonete líquido e lixeira com tampa de acionamento por pedal ou com os cotovelos. Dos 70 profissionais que participaram da pesquisa, 50 (71%) referiram trabalhar em clínicas audiológicas cujos lavatórios seguem tal padronização. Outros manuais e artigos da literatura também reafirmam a importância de um lavatório exclusivo, com acesso facilitado aos profissionais e com materiais adequados para a realização do correto procedimento de lavagem das mãos7 - 9 , 11. O descumprimento dessas orientações, como a falta ou a localização não acessível de equipamentos necessários à higienização das mãos e a não disponibilização de produtos e suprimentos como sabonetes e papel toalha, é apontado na literatura como fator de não adesão às corretas práticas de higienização das mãos2 , 3.

Neste estudo, 40 fonoaudiólogos (57%) relatam que têm o hábito de realizar higienização antisséptica com álcool. Preconiza-se a utilização de produtos antissépticos para a higienização das mãos, devido a sua ação antimicrobiana imediata e ao seu efeito residual ou persistente. As soluções à base de álcool que contêm etanol (álcool etílico) são recomendadas para a higiene das mãos por terem efeito antimicrobiano. No Brasil, são os produtos antissépticos mais utilizados2. Outros produtos que também possuem a função antisséptica e podem ser utilizados na higiene das mãos são: clorexidina, iodóforos (PVPI - polivinilpirrolidona iodo) e triclosan2. Ressalta-se que tal procedimento não exclui a necessidade de higienização das mãos com água e sabão, mas pode ser uma solução viável nas clínicas de Audiologia que não possuem lavatórios adequados (28%).

Outra forma de medida de biossegurança é o uso de equipamento de proteção individual (EPI), que é um dispositivo destinado a proteger a integridade física e a saúde do trabalhador. Tal prática constitui uma das precauções básicas que auxiliam os profissionais nas condutas técnicas adequadas à prestação dos serviços14 . Para os profissionais de saúde, o uso de barreiras de proteção deve ser priorizado, uma vez que em grande parte das situações é impossível ou inviável o controle das fontes dos agentes biológicos ou do ambiente como um todo15, além de que, deve-se ter em mente que nem sempre há meios de se saber se o paciente que se atende é portador, ou não, de alguma enfermidade infecciosa13. Quanto a este aspecto, verificou-se que 62 (89%) dos profissionais que atuam em Audiologia fazem uso do jaleco como equipamento de proteção. O emprego de práticas seguras como esta reduz significantemente o risco de acidente ocupacional4, e deve ocorrer independente da vestimenta branca ou uniforme, pois constitui uma barreira de proteção física para as roupas pessoais16. Neste estudo, apenas seis profissionais (8%) deixam o EPI no local de trabalho, incluindo o jaleco. Estudo anterior demonstrou que uniformes e jalecos brancos tornaram-se progressivamente contaminados durante atendimentos clínicos e que a contaminação alcança um nível de saturação, sugerindo a hipótese de que são um veículo potencial para transmissão de micro-organismos17. Por isso, o jaleco deve ser trocado por período ou diariamente e/ou sempre que sujo6 e retirado toda vez que o profissional sair do ambiente de trabalho7 , 9. Além disso, neste estudo 52 (74%) dos profissionais informaram o uso de jaleco de manga longa e 64 (91%) de jalecos abotoados, o que corrobora com a literatura pesquisada, que aponta que o jaleco deve ter mangas compridas e ser mantido fechado16 , 18.

Com relação ao uso de luvas, 69 fonoaudiólogos (99%) não fazem uso deste tipo de EPI na prática em Audiologia. A literatura descreve que as luvas são usadas como barreira protetora para evitar o contato com líquidos corporais, secreções e objetos contaminados9. Seu uso é indicado durante a realização dos exames audiológicos8 , 19 e na manipulação dos espéculos e olivas, como forma de minimizar os riscos de infecção cruzada9. Além disso, a literatura sugere a utilização de luvas durante a realização da meatoscopia8, prática também não realizada pela maioria dos profissionais deste estudo (91%). Isso pode acontecer devido à falta de informação quanto a estas recomendações específicas ou a negligência devido a uma percepção fraca de riscos, o que leva a não adesão de tais medidas15. Este fato não foi observado em outras áreas, como na Enfermagem e Odontologia, em que o uso de luvas para a manipulação do paciente é mais frequente12. Quanto às práticas de usar o cabelo preso e de manter as unhas limpas e cortadas, verificou-se que 55 (79%) e 64 (91%), respectivamente, dos entrevistados mantêm tais hábitos, o que é preconizado pela literatura, que sugere o uso de cabelo preso e unhas curtas mantidos com regularidade6 , 19.

A higienização dos artigos diz respeito aos cuidados com os artigos utilizados na área da Saúde e inclui sua limpeza. O processo de limpeza constitui a remoção de sujeira ou de matéria orgânica, que precede as ações de esterilização ou desinfecção6 , 16. Falhas neste processo facilitam a proliferação microbiana e, consequentemente, favorecem a transmissão de infecções16. Cerca de 80% dos profissionais encaminham os artigos para desinfecção e os separam dos demais. No entanto, 61% afirmaram que, apesar de realizarem a limpeza preconizada, não acondicionam adequadamente as olivas, os espéculos e demais artigos, potencializando o risco de contaminação destes antes mesmo do contato direto com o paciente. Ressalta-se que, de acordo com a literatura, os espéculos e as olivas devem ser, preferencialmente, descartáveis19. Na impossibilidade disso acontecer, esses artigos devem ser destinados à desinfecção8.

Durante a realização de exames audiológicos pelo profissional fonoaudiólogo, são utilizados artigos não críticos, aqueles destinados ao contato com pele íntegra do paciente e que requerem limpeza ou desinfecção6 , 13, por exemplo, eletrodos, cuba, fones e cânula para irrigação8 e artigos semicríticos, aqueles destinados ao contato com a pele não intacta ou mucosas íntegras e que requerem desinfecção de alto nível ou esterilização6 , 13 por exemplo, espéculos e olivas8. Neste estudo, 62 (93%) profissionais relataram que os fones e os vibradores usados no ambiente de trabalho não são limpos entre os atendimentos. Tal prática aumenta consideravelmente a chance de contaminação de pacientes e profissionais por micro-organismos presentes, especialmente, na mucosa auditiva8.

Dos 70 profissionais entrevistados, 30 (43%) relataram que o material que reveste a cabine audiométrica não permite fácil higienização. Os materiais internos e externos para revestimento de paredes, teto e piso das cabines audiométricas, geralmente, são selecionados de forma a elevar a absorção sonora. Mas é imprescindível observar se esses materiais permitem higienização rotineira20.

Em relação às práticas do profissional no ambiente de trabalho, observa-se que a grande maioria (96%) não fuma ou manuseia lentes de contato no ambiente de trabalho, conforme prescreve a NR 32. No entanto, 40% (n = 28) da população investigada afirmou que consome alimentos e bebidas no ambiente de trabalho, prática vedada, assim como o armazenamento de alimentos em locais não destinados a esse fim7.

A manutenção na organização do ambiente de trabalho é importante não apenas pela questão da biossegurança, mas também para tornar o ambiente agradável tanto para o profissional como para o paciente. Neste estudo, 68 (97%) entrevistados relataram que mantêm o ambiente sempre organizado.

As empresas devem estar atentas para seguir as normas de biossegurança, oferecendo ao funcionário um local para armazenar alimentos e objetos pessoais e instruindo-os sobre a utilização dos equipamentos, entre outras recomendações. A maioria dos profissionais - 55 (79%) e 37 (53%), respectivamente - relatou que a empresa na qual trabalham atende a essas duas recomendações. A empresa também deve atentar-se ao critério de revestimento das paredes, pisos e tetos, que devem ser resistentes à lavagem e ao uso de desinfetante16. O estudo mostrou que 58 (83%) profissionais atuam em locais que atendem a esse critério.

Ao analisar a influência da educação continuada sobre a execução das práticas corretas de biossegurança (Tabela 1), observou-se que os fonoaudiólogos com especialização concluída ou em curso apresentavam melhores práticas de biossegurança quando comparados aqueles sem especialização. Na pergunta referente à destinação dos artigos (olivas e espéculos) para desinfecção observou-se diferença estatisticamente significante (p= 0,01) ao comparar as respostas dos fonoaudiólogos que possuem especialização com aqueles que não possuem. Tal resultado corrobora com a literatura, que diz que a educação permanente é um tipo de intervenção que pode levar à adoção e implantação das medidas de biossegurança no dia a dia do trabalhador da área da Saúde12 , 21. Estudos relatam que a biossegurança é uma ação educativa, devendo ser representada por um sistema de ensino-aprendizagem22 , 23, ocorrendo de forma contínua.

Entretanto, nas questões 2 e 21 - "Você retira anéis, pulseiras e relógios para higienizar as mãos?" e "Você usa adornos como brincos, pulseiras ou colares no ambiente de trabalho?", respectivamente -, observa-se que um maior número de profissionais sem especialização afirmou ter como prática a retirada de adornos tanto durante a rotina de trabalho, quanto para higienização das mãos, quando comparados ao número de profissionais que relataram a mesma prática e que têm especialização. Tal resultado não era esperado, uma vez que se acredita que a especialização funciona como um espaço de ensino de melhores práticas. Tal fato pode ser justificado por um déficit que ainda há entre a formação acadêmica e a rotina de trabalho, no que se refere à biossegurança24 , 25.

Ao analisar a influência do tempo de formação na adoção das práticas de biossegurança (Tabela 2), verificou-se melhor adesão à prática de higienização das mãos pelos profissionais com maior tempo de formado (p = 0,011). Acredita-se que tal resultado deve-se à melhoria nas práticas que ocorre ao longo do tempo, em que o profissional da área da Saúde adquire formação e passa a observar a necessidade da realização de tais medidas em seu dia a dia. Tal fato corrobora com a literatura, que relata melhoria das práticas com o aumento do tempo de formação26.

Observa-se que a lavagem de mãos, o uso de EPI e a organização e higienização dos artigos e ambientes são medidas de biossegurança conhecidas pela quase totalidade dos profissionais de saúde e pelos fonoaudiólogos entrevistados neste estudo. Contudo, ainda assim, percebe-se que há profissionais que não incorporaram tais práticas em sua rotina de trabalho ou que as realizam de forma errada.

A NR 32 é reconhecida nacionalmente como uma das maiores conquistas dos profissionais da saúde em relação à segurança e saúde no trabalho. A eficácia desta Norma está relacionada diretamente ao amplo conhecimento de todos os seus aspectos pelos profissionais. Entretanto, parte considerável destes profissionais, sejam eles Fonoaudiólogos, Enfermeiros ou Médicos apresenta déficits de conhecimento relacionados aos cuidados com suas atividades laborativas, cercadas de alto grau de periculosidade27. Desta forma, as instituições de ensino devem promover a capacitação de seus alunos para que estes estejam devidamente qualificados para promover procedimentos capazes de minimizar e/ou eliminar os riscos reais para a saúde dos empregados e clientes27 - 29. O profissional que se omite quanto à implementação e execução da NR-32 estará infringindo o Código de Ética profissional, que recomenda expressamente a obediência às leis do país, no qual se enquadra a Norma.

A mudança comportamento (desenvolvimento de habilidades e alteração de atitudes) e a implantação de práticas melhores são necessárias para a prevenção da transmissão cruzada entre pacientes e profissionais de doenças relacionadas ao trabalho em Saúde. Além de instrução nos cursos de graduação e de campanhas que mantenham o profissional orientado, um programa de capacitação profissional em biossegurança como o realizado no Instituto Oswaldo Cruz é imprescindível30.

Novos estudos no âmbito da Fonoaudiologia que enfoquem as práticas realizadas, não apenas na Audiologia, mas também nas demais áreas, devem ser desenvolvidos. Há, também, necessidade de incluir questionamentos sobre a imunização do fonoaudiólogo, segundo o que é determinado para o profissional da área da Saúde, tema não abordado neste estudo.

Conclusão

Conclui-se que a maioria das práticas de biossegurança é seguida pelos fonoaudiólogos atuantes da área de Audiologia.

Os fatores como tempo de formação e educação continuada influenciam de maneira positiva à adoção de corretas medidas de biossegurança.

Os dados apontam para a necessidade de incrementar a adesão dos fonoaudiólogos atuantes na área de Audiologia às medidas de biossegurança, visando à prevenção e à redução das infecções, bem como à promoção da segurança de pacientes, profissionais e demais usuários dos serviços de saúde.

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Recebido: 17 de Novembro de 2011; Aceito: 31 de Janeiro de 2012

Endereço para correspondência: Ana Paula Ferreira Rocha, Av. do Contorno, 9.939 sala 404, Prado - Belo Horizonte - MG, CEP: 30110-067, E-mail: annypaul@gmail.com

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Conflito de interesses: inexistente

Conflict of interest: non-existent

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