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Revista CEFAC

Print version ISSN 1516-1846On-line version ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.17 no.6 São Paulo Nov./Dec. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1982-021620151764615 

Relatos de Casos

Linguagem e envelhecimento: práticas de escrita autobiográfica junto a idosos

Giselle Massi1 

Ana Paula Berberian1 

Ana Cristina Guarinello1 

Regina Celebrone Lourenço2 

Rita Tonocchi3 

José Stechman Neto1 

1Universidade Tuiuti do Paraná; UTP, Curitiba, Paraná, Brasil.

2Departamento de Psicologia da Universidade Tuiuti do Paraná; UTP, Curitiba, Paraná, Brasil.

3Departamento de Fonoaudiologia da Universidade Tuiuti do Paraná; UTP, Curitiba, Paraná, Brasil.

RESUMO:

O envelhecimento populacional está ocorrendo de forma acelerada em todo o mundo e o Brasil vem acompanhando essa tendência mundial. As políticas públicas brasileiras reconhecem que o crescimento da longevidade humana gera uma série de demandas para que seja oportunizado a toda população um envelhecimento com qualidade de vida e autonomia. A presente pesquisa objetiva analisar os efeitos que práticas de escrita autobiográfica desenvolvidas por sujeitos idosos podem gerar em sua autonomia e bem-estar. Participaram deste estudo cinco mulheres e três homens, com idades entre 60 e 87 anos. Trata-se de um relato de caso, cujos dados são analisados qualitativamente a partir da Análise do Conteúdo. O corpus de análise é composto por respostas elaboradas pelos sujeitos da pesquisa a uma entrevista semiestruturada. Tal entrevista, focou-se em questões sobre as atividades de leitura e de escrita desenvolvidas pelos sujeitos antes e depois de terem participado de práticas significativas com a linguagem. A partir da análise das respostas, é possível afirmar que a escrita autobiográfica pode constituir-se numa prática efetiva de letramento, capaz de proporcionar bem-estar, autoestima, realização pessoal, imortalização de experiências e relatos pessoais, resgate de lembranças e promoção de atitudes de cidadania. Esse estudo de caso indica que um trabalho fonoaudiológico voltado ao incremento de práticas de letramento junto a pessoas idosas atende a princípios e propostas das políticas públicas saudáveis voltadas à população que envelhece, pois promove autonomia e participação dos idosos na comunidade, ampliando suas possibilidades de vivenciar um envelhecimento saudável e bem-sucedido.

DESCRITORES: Linguagem; Envelhecimento; Saúde do Idoso; Fonoaudiologia

Introdução

O crescimento da longevidade populacional é fato que está avançando em todo o mundo1, e, de forma desigual, em todo Brasil2),(3. Tendo em vista tal crescimento, a Organização das Nações Unidas aprovou o Plano de Ação Internacional para o Envelhecimento Ativo4, o qual ressalta que os governos de todo o mundo devem enfrentar o envelhecimento populacional, promovendo mudanças políticas em todos os setores sociais, com o objetivo de concretizar as potencialidades dos idosos, no século XXI. Para dar conta dessa proposta, o governo brasileiro sancionou Leis, tais como a Política Nacional do Idoso5, o Estatuto do Idoso6) e a Política Nacional de Saúde do Idoso7, a partir das quais profissionais da saúde estão considerando a qualidade de vida e a autonomia que o idoso precisa ter frente a longevidade conquistada.

Nessa perspectiva, a Fonoaudiologia pode contribuir preponderantemente com a promoção de saúde e da cidadania dos idosos, resgatando o papel da linguagem como atividade constitutiva do sujeito e da própria realidade social. Pois, a propriedade fundamental da linguagem é a de constituição do homem em todos os ciclos de sua vida8. Estudos indicam que a interação social e o acesso à educação e à saúde dependem, essencialmente, de processos interlocutivos que se efetivam na linguagem9.

Dessa forma, as condições de leitura e de escrita, vivenciadas pelos sujeitos, assumem papel decisivo em seus processos de envelhecimento, sobretudo, ao ser considerado o fato de a sociedade mundial vigente ser grafocêntrica, isto é, estar fundamentada em atividades letradas10),(11. No Brasil, a cultura letrada está amplamente disseminada, mas de maneira desigual. Pois, embora 94% da população brasileira apresente-se alfabetizada, apenas 26% da população alcançou nível pleno, fazendo uso significativo da leitura e da escrita em diversas atividades sociais. E, entre os brasileiros mais velhos, há persistência na proporção de analfabetismo e de impossibilidade de uso funcional da leitura e escrita12.

Os baixos níveis de letramento de idosos também ocorrem em outros países. Um estudo desenvolvido nos Estados Unidos da América, com mais de duas mil e quinhentas pessoas idosas, aponta que o nível de letramento da população idosa daquele país está diretamente associado ao baixo nível sócio-econômico e à falta de acesso à saúde pública por parte da população pesquisada13.Outro estudo14 investigou mais de três mil pacientes norte-americanos com mais de 65 anos que estavam sob cuidados médicos e verificou que, quando os pacientes não sabem ler, eles apresentam dificuldades para tomar medicação de forma adequada e não desenvolvem atitudes necessárias para manterem-se saudáveis, concluindo que idosos incapazes de ler têm 50% a mais de chance de morrer de doenças cardíacas do que aqueles que sabem ler. Sobre essa questão, convém ressaltar a importância da alfabetização em saúde, a qual refere-se às habilidades das pessoas em entender aspectos do autocuidado, bem como às condições que apresentam para usufruir de ações promovidas no campo da educação em saúde. Pesquisas recentes indicam que os impactos da desigualdade social na saúde do brasileiro podem ser agravados pelo analfabetimo em saúde, o qual vem sendo observado em maior proporção em grupos constituídos por pessoas idosas, com baixa renda e baixa escolaridade15),(16.

Tais dados apontam para a urgência da implementação de políticas públicas capazes de garantir a promoção de práticas de letramento junto a pessoas idosas. Nessa direção, a presente pesquisa objetiva analisar, sob a perspectiva do letramento, os efeitos que práticas de escritas autobiográficas podem gerar na autonomia e no bem-estar de sujeitos idosos.

Apresentação do caso

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa vinculado à Universidade Tuiuti do Paraná-UTP, conforme o registro 102/2008; os sujeitos assinaram "o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido". Os nomes dos sujeitos apresentados neste artigo são fictícios, de forma a preservar suas identidades.

Nessa direção, o estudo contou com a participação de um grupo composto de 08 sujeitos idosos que fizeram parte de encontros semanais propostos para a realização de uma Oficina de Linguagem, realizada em Unidade Básica de Saúde situada na cidade de Curitiba, capital do Paraná.

Dentre as propostas desenvolvidas em tal UBS, consta a referida Oficina de Linguagem, cujo objetivo é promover o letramento entre idosos, sendo organizada da seguinte forma: durante quatro meses, são utilizados textos para desencadear discussões e diálogos entre os seus participantes. Esses textos são de gêneros discursivos diversos: letras de músicas, poemas, crônicas, reportagens, que abordam temas como velhice, família, mercado de trabalho, espiritualidade, entre outros.

Depois das leituras e discussões dos textos, as atividades da Oficina voltam-se ao incremento de narrativas orais acerca de momentos significativos da vida dos idosos, fatos marcantes de suas histórias. Na sequência, tais narrativas são registradas por escrito e o trabalho de reescrita dos textos autobiográficos se desenvolve por mais quatro meses.

A proposta é delineada tendo em vista que a maioria dos idosos participantes refere não ter capacidade para escrever narrativas de suas histórias de vida. Além disso, declaram não saber ler bem e não saber escrever. Eles afirmam ter baixo índice de escolaridade e, assim, ressaltam que escrever é tarefa a ser desenvolvida por quem tem alto nível de escolarização.

Especificamente no ano de 2007, participaram da Oficina uma fonoaudióloga como coordenadora e nove idosos. Os encontros ocorriam semanalmente, com a duração de uma hora e meia cada.

Dos nove idosos que participaram da Oficina, em 2007, oito compuseram o presente estudo, pois uma idosa não participou da coleta de dados, em função do falecimento de seu esposo. Dos oito sujeitos da pesquisa, cinco eram mulheres e três eram homens, com idades entre 60 e 87 anos. A renda mensal dos sujeitos variava de um a cinco salários mínimos por mês. Os participantes da pesquisa contavam com uma média de seis anos de escolaridade e eram aposentados ou pensionistas do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).

Para coleta dos dados foram realizadas entrevistas individuais junto aos idosos, que as responderam oralmente após terem escrito sua autobiografia, no período de fevereiro a março de 2008, nas dependências da própria UBS. A entrevista semi-estruturada continha 20 questões, sendo que seis tratavam da caracterização dos sujeitos e 14 indagavam acerca dos sentidos que a escrita autobiográfica assumiu para os idosos. As respostas foram gravadas, transcritas e revisadas pelos sujeitos. A organização e a discussão dos resultados foram embasadas em uma abordagem qualitativa, conforme a Análise de Conteúdo, proposta por Bardin17. Dessa forma, levando em consideração tal embasamento metodológico, o desenvolvimento da análise incluiu os cinco passos que seguem: atribuição de um nome fictício aos participantes da pesquisa; transcrição das respostas elaboradas pelos idosos; leitura inicial minuciosa e exaustiva do conteúdo das respostas dos participantes; categorização dessas respostas a partir do objetivo da pesquisa; discussão dos dados.

Resultados

Os resultados foram organizados em função de quatro categorias temáticas que emergiram das respostas dos participantes: 1) a posição assumida pelos idosos em relação à condição de leitor e escritor; 2) o papel do outro na condição de escrita dos idosos; 3) relações estabelecidas entre ampliação de condições de leitura/escrita e maior inserção social; 4) o papel da escrita autobiográfica no processo de envelhecimento.

Quanto à primeira categoria de análise, vinculada à posição dos idosos, participantes da pesquisa, em relação à condição de leitores e escritores, eles produziram os seguintes textos orais, a partir de questões em torno de lembranças que tinha sobre experiências de leitura e de escrita desenvolvidas ao longo de suas vidas.

Zulmira: Na minha infância eu não pude escrever mais, ler mais, porque o meu pai era um homem muito simples, ele também não estudou. Ele se esforçou. Também aprendeu sozinho a escrever. Em casa eu não podia pegar o livro. Tinha que ver escondido.

Dilma: A única coisa que me marcou é que eu não estudei. Nunca ninguém me disse que eu tinha que estudar para ser alguém. Eu quando fui ver, fui ler jornal, quando vi os outros lendo eu tinha vontade, eu prestava atenção. Tinha vontade de ler, aprender, falar, ver. Eu só assino meu nome. Tenho vergonha de escrever, de darem risada de mim [...] Tenho medo de verem o que eu escrevi errado e rirem de mim. Isto me deixa triste.

Ligia: Eu não tenho grande estudo. Eu sempre comento com as crianças: "estudem porque faz falta!". Quem não estudou não entende muito da gramática nem conhece os verbos. Quem estudou conhece a gramática. Eu tenho o conteúdo, falta a forma [..] Para ser um escritor tem que ter estudado.

Já, no que se refere à segunda categoria de análise, estabelecida em torno do papel desempenhado pelo outro na ampliação das condições de letramento dos idosos, as respostas deles foram elaboradas em função de questões acerca dos fatores que os motivaram a escrever parte de suas histórias de vida, na Oficina da Linguagem.

Zulmira:É maravilhoso ter participado deste grupo. Inesquecível saber que eu posso deixar registrada uma parte de minha vida. [...] O grupo da um incentivo muito forte. Eu sinto uma ajuda muito forte, que levanta a gente. A gente fica mais forte. Uma ajuda moral.

Oscar: Para mim foi uma surpresa. [...] Foi uma surpresa muito agradável. Vim para o grupo porque era tímido para conversar com estranhos. Achei que fosse me abrir, me expandir, perder a vergonha de falar. Levei um susto ao saber que além de falar iria escrever um livro. Foi muito mais surpresa ainda e uma alegria maior quando nós completamos o livro. [...] O grupo me fez avançar, progredir, avançar no tempo e no espaço.

Dilma: Eu tinha tudo guardado em mim. Ainda tenho muita coisa guardada. Daria livros e livros se eu fosse escrever tudo. (...) eu posso falar e ninguém esta dando risada. Quando eu entrei no grupo, foi ali que eu me soltei.

Valdete: Eu tinha vontade de escrever, mas nunca tinha começado. O incentivo de fora me fez ir buscar dentro de mim o meu sonho. A partir do grupo que a gente criou esta vontade de escrever. O grupo incentiva, estimula a escrever. O estímulo faz a gente se sentir além da gente, capaz e importante, valorizado.

Ligia: Me sinto importante com o livro, com a dedicação e o empenho de vocês. Sem este empenho este livro não seria feito. Um dia vocês vão dizer que participaram de um grupo no Ouvidor Pardinho com um grupo de idosos que tinha o prazer de aprender com vocês.

Quanto à relação estabelecida entre ampliação de condições de leitura/escrita e maior inserção social, correspondente à terceira categoria de análise, as respostas dadas pelos idosos foram elaboradas a partir de questões relacionadas à contribuição do grupo nas suas possibilidades de leitura/escrita e ao impacto de tais contribuições nas suas formas de participação social.

Zulmira:Escrever este livro e participar do grupo é um jeito de cuidar de mim, me ajudar para poder ajudar os outros. [...] Eu acho muito importante ter escrito estas histórias porque me faz bem e eu espero poder fazer bem para as outras pessoas. Eu espero poder ajudar as outras pessoas com o que eu vou deixar registrado. Eu espero poder passar coisas boas, importantes para as pessoas poderem envelhecer melhor.

Oscar: Escrever este livro significa que eu estou participando com outras pessoas das historias de vida delas. A convivência com cada um da muito prazer para a gente. Fazer um livro assim neste sentido é gostoso. A gente se joga de cabeça, participa do assunto para tirar o máximo possível da sua memória para fazer um bom livro do qual eu não me arrependa depois e ache que não deveria ter feito.

Ester: Tem ajudado a desenvolver a leitura. Estou lendo e escrevendo mais. Antes não escrevia tanto quanto agora. Tenho vontade de escrever mais sobre a vida. Passar para a frente o meu estado de ânimo, convivência com os outros, amizades.

João: Depois de escrever a gente foi incentivado a fazer mais coisas como leitura e participação. A gente levava uma vida assim, mais ou menos. A gente sente mais vontade, se sente acompanhado, mais incentivado a escrever. Cada um quer fazer a sua parte, mostrar o seu saber com mais vontade.

Otto: Através da escrita podemos aprender, dialogar com pessoas do passado. As gerações aprendem através da escrita. Eu tenho escrito mais. Escrever uma autobiografia muda a pessoa, a pessoa se relaciona. As pessoas vêem a gente com mais respeito. Em relação a mim mesmo, me sinto digno. Dignidade é quando a pessoa olha a gente com mais respeito. Estou me respeitando e me dando mais valor.

Ligia: Eu caminho para o fim da vida. Isto não me passava pela cabeça a algum tempo (escrever o livro). [...] Imagine um dia os meus filhos, os meus netos, irem em uma prateleira e ver que a avó deles, aos 82 anos, escreveu sobre músicas que embalaram sua infância.

Por fim, no que se refere ao papel da escrita autobiográfica no processo de envelhecimento, vinculada à quarta categoria de análise desse estudo, convém esclarecer que os textos apresentados na sequência foram produzidos pelos idosos em função de questões feitas durante a entrevista acerca do papel que a escrita autobiográfica exerceu nas relações dos idosos com o próprio envelhecer.

Oscar: Parece que recomecei, fiquei mais jovem. [...] Fiquei mais jovem com a escrita deste livro, cabeça mais arejada na maneira de pensar, de agir, ser mais solidário, mais amigo. A escrita possibilita que o jovem que existiu dentro de mim retorne à minha memória agora na velhice.

João: Achei interessante que lembrei muitas coisas que fiz e deixei de fazer. O que deixei escrito estou sempre me lembrando.

Otto: A escrita faz parte deste aprendizado de como vencer na vida. Foi um grande significado escrever. Um exemplo para os netos, para mostrar que a vida não são só momentos bons, tem momentos difíceis também. Tem grande significado escrever

Valdete: Significa muito. Escrever dá um novo significado para a velhice. (...) Escrever e fazer parte deste grupo ajuda na velhice. Só de sair de casa e ir até o grupo, a gente já está saindo de dentro de um caramujo. Às vezes a gente se fecha em casa com os afazeres, e uma oportunidade destas passa.

Ligia. Quando eu imaginava um dia estar em uma sala rodeada por pessoas autografando um livro? As vezes eu pego as fotos da noite de autógrafo, fico olhando e não acredito que sou eu porque eu nunca imaginei que fosse possível chegar a esse momento de ter um instante tão bom, tão gratificante. [...] A escrita da autobiografia é essa coisa de boa na velhice.

Quanto à posição dos idosos acerca de suas condições de leitura e escrita, pode-se apreender que os mesmos estabeleceram uma relação causal entre tais condições e suas trajetórias escolares. Relatos que evidenciam que os idosos não se consideravam habilitados para ler e escrever em função de restrições em seus processos de escolarização foram recorrentes ao iniciarem suas participações na Oficina de Linguagem. A incapacidade e dificuldades para ler e escrever foram relacionadas pelos idosos à pouca escolaridade que apresentam, bem como ao não domínio dos aspectos formais da língua.

O fato de eles referirem limitações para ler e escrever, em função de uma escolarização considerada insuficiente, remete a sentidos produzidos pelo discurso social vigente. Tal discurso está atrelado à noção de que o acúmulo de estudo formal garante o aprendizado dos aspectos gramaticais da língua e, portanto, a constituição de leitores e escritores competentes, com alto nível de letramento10.

Contudo, importa analisar como a posição dos idosos apresentada nesses discursos foi relativizada após a participação dos mesmos na Oficina. Se os sujeitos deste estudo, inicialmente, afirmavam-se incapazes de ler e escrever, após a leitura de gêneros textuais diversos e da produção da escrita autobiográfica passaram a se reconhecer como capazes. A visão de si mesmos, enquanto leitores e escritores, mudou. Pôde-se verificar que essa mudança ocorreu simultaneamente à ressignificação dos conceitos formulados pelos idosos acerca do que é ler e escrever, antes focados no domínio da gramática e depois na possibilidade da leitura e da produção de textos significativos, capazes de contemplar suas histórias de vida.

Discussão

O trabalho fonoaudiológico desenvolvido em uma Oficina de Linguagem, apresentado neste estudo, direcionou reflexões acerca das relações dos sujeitos com a linguagem escrita. O trabalho voltado às atividades de letramento, portanto, operou mudanças nas suas relações com as atividades de leitura e de escrita. Antes do referido trabalho tomavam tais atividades como marcas da falta de estudo formal, do desconhecimento da convenção ortográfica, do medo e da vergonha de escrever. Depois, passaram a tomar a própria escrita como possibilidade de reconhecimento pessoal e social, valorização da própria história.

É recorrente nas respostas dos idosos, a relevância dos componentes do grupo na mudança de posição que assumiram enquanto leitores e escritores. Se, antes de ingressarem na Oficina da Linguagem, desqualificavam sua própria fala e escrita, as práticas de letramento desenvolvidas durante os encontros da Oficina, proporcionou-lhes novas situações discursivas, as quais valorizaram seus discursos e suas experiências. Assim, a partir de atividades de leitura e de escrita, pautadas na perspectiva do letramento, os idosos puderam perceber a linguagem como um trabalho capaz de organizar seus relatos pessoais e não mais como instrumento a lhes causar constrangimento em função de uma dita falta de domínio ortográfico.

Os fragmentos dos textos dos idosos evidenciam o papel decisivo que um trabalho voltado à promoção do letramento pôde desempenhar na (re)constituição das suas histórias de vida com e a partir da linguagem9. As respostas fornecidas pelos idosos indicam que práticas significativas de letramento, como foi a escrita autobiográfica, levou-os a se reconhecerem sujeitos da história, como cidadãos, apontando maior participação social e autonomia. Após a leitura de diferentes gêneros textuais e da escrita de relatos pessoais, os idosos passaram a valorizar suas histórias de vida e a suas próprias velhices, ressaltando a escrita como atividade capaz de imortalizá-los para as gerações vindouras. Escrever seus relatos autobiográficos permitiu-lhes, não só o resgate de lembranças de acontecimentos e experiências vivenciadas no passado, mas, sobretudo, a ressignificação dos mesmos8.

Foi possível apreender, nas respostas dos idosos, o desejo de escrever e de serem autores de suas histórias, não só como uma forma de atualizar a memória, mas, fundamentalmente, como possibilidade de elaboração dos processos de envelhecimento vivenciados por eles. Assim, permitem afirmar que a atividade com a linguagem escrita proporcionou-lhes bem-estar, autoestima, realização pessoal, resgate de lembranças e integração social. A partir do reconhecimento da autoria de seus relatos pessoais, os idosos da pesquisa indicam que podem se perceber como recursos sociais, autorizando-se a superar estereótipos que os apontam como problema sócio-econômico.

Eles evidenciam que a escrita autobiográfica apresentou-se como uma alternativa para atender aspectos que os dispositivos legais brasileiros e internacional buscam contemplar4)-(7. Ou seja, um trabalho voltado para atividades de letramento, como o desenvolvido na Oficina da Linguagem, pode promover autonomia de pessoas idosas, garantindo-lhes dignidade, bem como integração à sociedade letrada, a qual acaba por promover atitudes de cidadania.

Cabe destacar aqui a importância da Fonoaudiologia no sentido de criar possibilidades para a constituição do sujeito idoso como integrante ativo na sociedade, assegurando-lhe melhor qualidade de vida. Tal fato vem ao encontro da preocupação governamental em proporcionar programas vinculados à saúde e à educação, ao trabalho, à assistência e ao lazer da população que envelhece, conforme proposto nas Leis voltadas à população idosa, tais como a Política Nacional do Idoso5, o Estatuto do Idoso6) e a Política Nacional de Saúde do Idoso7. Além disso, práticas de leitura e de escrita, podem contribuir de forma significativa com a alfabetização em saúde voltada a pessoas mais velhas, incentivando-as a buscar, compreender e partilhar informações capazes de promover e manter condições saudáveis de vida16.

Considerações Finais

Esse estudo indica que um trabalho fonoaudiológico voltado ao incremento de práticas de letramento, focado em relatos autobiográficos, junto a pessoas idosas pode atender aos princípios e propostas das políticas públicas saudáveis voltadas à parcela da população que envelhece, pois tal trabalho promoveu a autonomia e participação ativa dos idosos na comunidade, assim como ampliou suas possibilidades de vivenciar um envelhecimento saudável e bem-sucedido.

Nessa direção, é preciso ressaltar a necessidade e a importância de novos estudos e pesquisas direcionadas à população idosa no sentido de consolidar o papel do fonoaudiólogo na área da Gerontologia e sua participação na promoção de saúde e da cidadania dos idosos, resgatando o papel da linguagem como constitutiva do sujeito.

Agradecimentos

Agradecimento

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pelo apoio financeiro concedido a esta pesquisa, em forma de Bolsa Produtividade em Pesquisa, sob processo n. 310542/2011-01.

Referências

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Fonte de auxílio: trabalho financiado pelo CNPq - sob processo n. 310542/2011-01. Bolsa Produtividade em Pesquisa/ PQ 2011 .

Recebido: 13 de Abril de 2015; Aceito: 16 de Junho de 2015

Endereço para correspondência/Mailing address: Giselle Massi, Rua Benjamin Lins, 750, ap. 61 - Batel, Curitiba PR - Brasil, CEP: 80.420-100, E-mail :giselle.massi@utp.br

Conflito de interesses: inexistente

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