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Revista CEFAC

Print version ISSN 1516-1846On-line version ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.18 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1982-021620161816715 

ARTIGOS ORIGINAIS

Visão dos graduandos do curso de Fonoaudiologia acerca da Fonoaudiologia Educacional a partir de suas experiências teórico-práticas

Gilberto Sanabe Júnior1 

Ana Cristina Guarinello1 

Ana Paula Santana2 

Ana Paula Berberian1 

Giselle Massi1 

Kyrlian Bartira Bortolozzi3 

Simone Farinha1 

1Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, PR, Brasil.

2Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.

3Universidade Estadual do Centro Oeste do Paraná UNICENTRO, Irati, Paraná, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

discutir, sob a ótica dos graduandos de alguns cursos de Fonoaudiologia do Brasil, sua percepção acerca das ações fonoaudiológicas voltada à educação, bem como verificar o conhecimento e as experiências teórico/práticas que estes estudantes tiveram durante seus cursos de graduação em Fonoaudiologia.

Métodos:

78 acadêmicos do último ano do curso de graduação em Fonoaudiologia, pertencentes a cinco diferentes universidades brasileiras responderam a um questionário com perguntas abertas sobre sua formação com enfoque na Fonoaudiologia Educacional.

Resultados:

a maior parte dos acadêmicos percebe que seus cursos propiciaram conhecimentos acerca da Fonoaudiologia Educacional, sendo que 27,63% relataram que os conhecimentos adquiridos partem de um viés clínico e apenas 14,47% dos graduandos apresentaram um conhecimento voltado para uma atuação fonoaudiológica que preconize a promoção da linguagem e do aprender. Quanto à função que deve ser exercida pelos fonoaudiólogos educacionais, 43,59 % citaram a atuação clínica, 25,64% relatam que a função que devem exercer é de promoção da linguagem e 14,10% citaram as duas formas de atuação.

Conclusão:

pode-se perceber por meio dos relatos de graduandos em Fonoaudiologia que os cursos de graduação nesta área ainda tendem a discutir a Fonoaudiologia Educacional apenas sob um enfoque clínico dentro da escola. Apesar disso, já se percebe uma minoria que discorre a respeito da atuação do fonoaudiólogo educacional por meio de ações de promoção da linguagem e da educação.

Descritores: Fonoaudiologia; Educação; Educação Continuada

Introdução

Os primeiros cursos de Fonoaudiologia no Brasil, no início da década de 1960, tiveram como base um trabalho educacional pautado no modelo clínico1. É a partir deste modelo que o fonoaudiólogo identifica problemas em geral, relacionados a linguagem oral e/ou escrita, e após triá-los define medidas normativas para serem aplicadas na escola. Tais medidas, principalmente durante as décadas de 1960 a 1990 foram pautadas em um enfoque médico-terapêutico.

Devido a essa tendência clínica de atuação, é comum ainda nos dias atuais que tanto o professor quanto o fonoaudiólogo identifiquem os problemas escolares dos alunos, em geral, a partir de uma visão que compreende a linguagem apenas por seus aspectos formais e a aprendizagem por meio de parâmetros biológicos, individuais e patológicos2),(3. Desta forma, as práticas da fonoaudiologia, na escola, realizadas por boa parte dos fonoaudiólogos brasileiros baseiam-se em algumas medidas, tais como triagens, orientações e encaminhamentos, voltadas a grupos restritos da população considerados propensos a algum risco para doenças ou distúrbios. Seguindo essa tendência de atuação clínica, diversas pesquisas ainda focam-se na detecção e discussão sobre distúrbios em escolares4)-(8 e não na promoção da saúde fonoaudiológica e do letramento.

Paralelamente a essa visão, fundamentada na atuação clínica dos ditos distúrbios escolares, desde o final do século passado, vinculada às pesquisas sobre promoção de saúde e letramento, pode-se destacar uma segunda tendência teórico-metodológica, a partir da qual o fonoaudiólogo é concebido como mediador e co-autor na elaboração e no desenvolvimento de ações voltadas a promoção da linguagem no contexto educacional,3)-(10.

A partir dessa vertente, os fonoaudiólogos passam a pensar sua atuação na escola por meio de ações que contemplem a parceria entre eles e os professores, reconhecendo o papel social e conhecimentos próprios do professor e se inserindo no projeto politico-pedagógico das escolas, permitindo uma reflexão mais profunda e conjunta sobre os aspectos educacionais envolvidos, especialmente, com a apropriação da linguagem oral e escrita. Com base nessa segunda tendência, os fonoaudiólogos deixam de enfatizar aspectos clínicos em suas atuações no contexto escolar e passam a propor atividades para socialização dos conhecimentos práticos e teóricos entre os profissionais da fonoaudiologia e os educadores. Assim, novas abordagens que possam contemplar a complexidade dos processos de linguagem passam a ser desenvolvidas, e, além disso, são criadas condições favoráveis para que a escola e as famílias participem do processo de escolarização seja dentro ou fora do contexto escolar2),(9.

Devido à importância do trabalho fonoaudiológico nas instituições escolares entende-se que a formação do profissional da saúde e da educação é um importante fator de transformação de um processo marcado pelas dificuldades, diagnósticos e pela estigmatização dos escolares em um processo saudável de aprendizagem11.

A partir das possibilidades de atuação do fonoaudiólogo no contexto educacional e da resolução que regulamenta a profissão do fonoaudiólogo, em âmbito escolar, CFFa n° 387 de 201012; percebe-se que a formação desse profissional requer um conjunto cada vez mais complexo de saberes que contemplem não apenas as diversidades de demandas das comunidades escolares, mas, também, uma constante atualização desses conhecimentos. Dessa forma, o papel dos cursos de graduação deve ser estratégico, privilegiando aspectos relevantes para a formação do profissional fonoaudiólogo13.

Cabe ressaltar que a formação inicial dos fonoaudiólogos também teve um modelo biomédico e organicista sem levar em conta os contextos sócio-históricos da educação e da saúde. Atualmente, essa visão mais ampla acerca de determinantes envolvidos na promoção da saúde e da linguagem, começa a se fazer presente nos documentos que regulamentam a formação do fonoaudiólogo. Na resolução CNE/CES 5/200214, por exemplo, embora não apresente especificações quanto à formação do fonoaudiólogo na educação.

Encontra-se nas diretrizes para a formação do fonoaudiólogo a importância de se considerar os contextos sociais, ações individuais e coletivas integradas a outros profissionais, promoção de saúde, dentre outros aspectos. Contudo, estar nos documentos oficiais não implica necessariamente que isso ocorra na prática, desse modo, para garantir que esse conteúdo seja ministrado é necessário que as ementas dos cursos contemplem tais ações. E mais ainda, que os estudantes tenham acesso a esse conhecimento e sejam capacitados para realizarem ações fonoaudiológicas na área da educação a partir de um modelo histórico-social e não mais médico-terapêutico.

Observando a necessidade de que a prática fonoaudiológica na área educacional deve ser contemplada de maneira mais abrangente nos cursos de graduação em fonoaudiologia, o objetivo desse trabalho é discutir, sob a ótica dos graduandos de alguns cursos de Fonoaudiologia do Brasil, sua percepção acerca das ações fonoaudiológicas voltada à educação, bem como verificar o conhecimento e as experiências teórico/práticas que estes estudantes tiveram durante seus cursos de graduação.

Métodos

A aprovação da pesquisa foi realizada pelo Comitê de Ética da Universidade Tuiuti do Paraná, por meio do protocolo n°000134/2009.

Para realizar essa pesquisa foi elaborado e aplicado um questionário (Figura 1) contendo sete questões a respeito da formação dos Fonoaudiólogos voltada à atuação no contexto educacional . O questionário foi respondido por 78 acadêmicos do último ano do curso de graduação em Fonoaudiologia, inseridos em cinco instituições de ensino superior situadas em diferentes: uma no estado de Santa Catarina, três no Paraná e uma em São Paulo. Para identificação das instituições foi atribuída uma sigla referente ao estado ao qual pertencem e um número para identificar as universidades do mesmo estado.

Figura 1: Questionário acerca da Fonoaudiologia Educacional 

O critério para inclusão dos estudantes na pesquisa foi que estes estivessem frequentando o último período do Curso de Fonoaudiologia, pois espera-se que, até este período todos os estudantes já cursaram alguma disciplina acadêmica relacionada à área da Fonoaudiologia educacional.

Cabe esclarecer que todos os estudantes responderam ao questionário individualmente e por escrito, nas próprias dependências das instituições de origem, em horário estipulado pela coordenadora do curso. Após a explanação sobre os objetivos da pesquisa, todos os estudantes que aceitaram participar da mesma assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.

A análise dos resultados é descritiva, com apresentação de frequência dos resultados em proporções. Os resultados, analisados foram organizados nas seguintes categorias temáticas: - Formação Teórica e Prática acerca da temática Fonoaudiologia e Educação; - Conhecimentos proporcionados pelas disciplinas sobre a Fonoaudiologia Educacional;,- Experiências em Fonoaudiologia Educacional durante a graduação; - Motivos para inserção do Fonoaudiólogo no quadro de funcionários das escolas; - Função que o fonoaudiólogo deve exercer nas escolas; - Diferença entre a atuação do Fonoaudiólogo Clínico e Educacional.

Resultados

Tabela 1: Formação teórica e prática na temática Fonoaudiologia e Educação* 

Legenda: PR (Paraná), SC (Santa Catarina), SP (São Paulo).

Com relação a formação teórico/prática na temática Fonoaudiologia Educacional, 76 (97,44%) dos 78 alunos responderam que o seu curso de graduação em Fonoaudiologia propiciou conhecimentos acerca da Fonoaudiologia educacional e somente dois alunos pertencentes a duas universidades diferentes disseram que não (2,56%), que seus cursos de graduação não propiciaram os conhecimentos relativos a esta área, conforme pode-se averiguar na Tabela 1.

Tabela 2: Conhecimentos proporcionados pelas disciplinas sobre a Fonoaudiologia Educacional* 

Como se pode observar na Tabela 2, para 27,63% dos participantes, os conhecimentos proporcionados na graduação a respeito da Fonoaudiologia Educacional ocorrem em torno da atuação Clínica, ou seja, correspondem a primeira tendência de atuação explanada na introdução do trabalho; para 14,47% dos estudantes, os conhecimentos obtidos durante o curso de graduação possuem um foco educacional, ou seja, um foco voltado para a atuação na escola por meio de ações que contemplem seu papel social e da parceria, conforme a segunda tendência apresentada na introdução deste trabalho, e 3,95% dos participantes citaram conhecimentos que se referiam às duas tendências teórico-metodológicas apresentadas anteriormente.

Outros 10,53% dos participantes citaram outros conhecimentos, como por exemplo, a atuação do fonoaudiólogo na escola e/ou as diferentes formas de se fazer esse trabalho, porém tais relatos não foram explicitados a ponto de se conseguir incluí-los nas outras categorias de análise mais específicas.

Pode-se ainda observar que 43,42% dos participantes citaram o nome das disciplinas, as quais discutiram a respeito da Fonoaudiologia educacional, porém, não explicitaram quais foram os conhecimentos adquiridos.

Tabela 3: Experiências em Fonoaudiologia Educacional durante a graduação 

Quanto às experiências obtidas no período de graduação a respeito da Fonoaudiologia Educacional, verifica-se, na Tabela 3, que 35,90% dos entrevistados citaram a atuação Clínica, sendo essa atuação vivenciada em estágios clínicos ou mesmo dentro de instituições escolares. 7,69% dos participantes relataram que suas experiências ocorreram por meio da atuação educacional de promoção da linguagem propriamente dita e 14,10% relataram que não possuem nenhuma experiência.

Outros 7,69% dos participantes não citaram ou não responderam acerca de suas experiências e 34,62% relataram outros tipos de experiência, tais como o local onde obtiveram as experiências, a "qualidade" de tais experiências. Porém, não evidenciaram nenhum aspecto que pudesse fazer com que fossem incluídas em outras categorias mais específicas. Foram incluídos nesse grupo, também, aqueles que relataram possuir somente experiências teóricas, já que nesse estudo considerou-se como experiência aquilo que foi vivenciado na prática acadêmica.

Por meio da descrição dos resultados pode-se perceber que as respostas por um viés clínico/preventivo, no âmbito da Fonoaudiologia Educacional, foram mais citadas do que qualquer uma das outras respostas.

Cabe ressaltar, que quando questionados se o fonoaudiólogo deveria fazer parte do quadro de funcionários da escola, 100% da amostra respondeu que esse profissional deve ser inserido nesse contexto.

Tabela 4: Motivos para inserção do fonoaudiólogo no quadro de funcionários das escolas* 

# Cada participante pôde citar mais de um motivo

Ao responderem a respeito dos motivos pelos quais entendem que o fonoaudiólogo deve fazer parte do quadro de funcionários da escola, observa-se na Tabela 4, que 43,59% dos participantes enfatizaram que este profissional deve realizar práticas de detecção, diagnóstico e encaminhamentos, 19,23% dos entrevistados responderam que o fonoaudiólogo pode realizar um trabalho multidisciplinar, 12,82% que este profissional deve realizar ações de auxílio e orientação aos professores, outros 12,82% dos estudantes responderam que o fonoaudiólogo deve participar do planejamento escolar, e apenas 8,97% dos respondentes entendem que o fonoaudiólogo, em âmbito escolar, deve realizar ações de promoção de leitura e escrita e/ou letramento.

No item outros 16,67% dos discentes citaram a necessidade do fonoaudiólogo melhorar a qualidade de ensino e auxiliar no desenvolvimento e trabalho com a leitura e a escrita. Cabe destacar, porém, que tais respostas não são claras o suficiente para serem adicionadas às outras categorias.

Tabela 5: Função que o fonoaudiólogo deve exercer nas escolas* 

Legenda: PR (Paraná), SC (Santa Catarina), SP (São Paulo).

Quando questionados sobre qual deveria ser a função do fonoaudiólogo no contexto educacional, 34 participantes, ou seja, 43,59% dos participantes citaram que a função é clínica. Outros 20 participantes, ou seja, 25,64% citaram que o fonoaudiólogo tem uma função de promoção da linguagem. Dentre os respondentes, 14,10% referiram que o fonoaudiólogo deve atuar tanto clinicamente como promovendo a linguagem e 16,67% não responderam ou não foram claros em suas respostas, impossibilitando a categorização das mesmas.

Tabela 6: Diferença entre a atuação do fonoaudiólogo clínico para o educacional* 

Quando questionados se percebem diferenças entre a atuação clínica e a educacional, 12,82% dos graduandos responderam que não há diferenças entre ambas as atuações, e 87,18% percebem diferenças na atuação do fonoaudiólogo nessas áreas, conforme pode-se notar na Tabela 6.

Dentre os 68 participantes que relataram que existem diferenças entre o fonoaudiólogo clínico e o educacional, 76,47% citaram que a função exercida na clinica deve ser de detecção, diagnósticos e terapias individuais focadas nos distúrbios e dificuldades escolares, os outros 23,53% não explicitaram as funções do fonoaudiólogo dentro da clínica fonoaudiológica.

Dentre esses mesmos 68 entrevistados, quando explanaram como deveria ser a atuação educacional do fonoaudiólogo, 32,35% citaram funções clínicas para a função do fonoaudiólogo atuante nas escolas, corroborando com a tendência medico-terapêutica que historicamente acompanha a Fonoaudiologia. Outros 27,94% citaram a atuação com foco educacional, 20,59% citaram ambas as atuações, enquanto 19,12% não citaram a atuação do fonoaudiólogo educacional.

Tabela 7: Motivos dos participantes para atuar na área de Fonoaudiologia Educacional* 

# Cada participante pôde escolher mais de um motivo para sua justificativa

**Porcentagem calculada sobre os 42 participantes que desejam atuar na área

***Porcentagem calculada sobre os 36 participantes que não desejam atuar na área

Quando questionados se atuariam como fonoaudiólogos no contexto da educação, 42 participantes, ou seja, 53,85% citaram que desejam atuar na área, sendo que dentre esses, 38,10% justificaram suas respostas dizendo que se identificam com a área, 26,19% citaram a importância desse profissional dentro do âmbito escolar, 16,67% disseram que atuariam nesta área pelo mercado de trabalho, 9,52% responderam que já possuem experiência na área e que por esse motivo continuariam trabalhando neste âmbito. Outros 14,29% relatam que atuariam nessa área por outros motivos, como por exemplo, para promover o trabalho da Fonoaudiologia, para fazer concursos e para ajudar com as dificuldades dos alunos.

Dos 78 entrevistados, 36 (46,15%) responderam que não atuariam na área da Fonoaudiologia educacional, sendo que dentre esses, 47,22% justificaram que não se identificam com a área, 25,00% acreditam que faltam conhecimentos para poderem atuar, 22,22% não justificaram o motivo e 5,56% citaram outros motivos, como por exemplo, a falta de reconhecimento que este profissional possui e o retrato da atuação da Fonoaudiologia Educacional atualmente.

Discussão

A partir dos dados obtidos no grupo pesquisado, percebe-se que a formação dos alunos dos cursos de graduação ainda está voltada para uma visão clínico-terapêutica. Assim como as práticas fonoaudiológicas que se dão na interface saúde e educação tiveram por mais de três décadas influência por visões reducionistas distantes da necessária compreensão ampliada dos processos saúde-doença, das possibilidades terapêuticas15 e de atuação institucional que vão além da visão curativa, as disciplinas curriculares voltadas à formação do fonoaudiólogo no âmbito educacional ainda são assim dimensionadas. Ou seja, há falhas na formação, visto que, em geral, as disciplinas curriculares, desconsideram as dimensões social, histórica, cultural, econômica, politica e pedagógica na compreensão ampliada dos processos que envolvem a saúde e a educação. Além disso, a compreensão restrita destes não possibilita ao aluno, em seu processo formativo, ampliar e aprofundar seus conhecimentos acerca da realidade educacional brasileira, dos documentos que norteiam o ensino e das politicas que regem a Educação do país, que possibilitariam o enfrentamento do "fracasso escolar" e das restritas condições de letramento da nossa população. A formação do fonoaudiólogo voltada à área educacional, requer o estabelecimento de uma relação entre campos que exige um deslocamento e redimensionamento da atuação tradicional do profissional da saúde e deve se pautar em opções teórico-metodológicas que possibilitem aos alunos o desenvolvimento crítico-reflexivo e a participação ativa quanto a inserção/atuação do fonoaudiólogo no contexto educacional.

Até mesmo os graduandos que consideram que adquiriram conhecimentos sobre essa área durante o curso, ressaltam que esses conhecimentos foram insuficientes para sua formação. Uma pesquisa realizada, sobre o perfil de formação na área de Fonoaudiologia Educacional oferecido pelas IES16, percebe que ainda é restrita a quantidade de carga-horária relacionada a esse tema para que o aluno se considere capacitado para atuar na área. A média de disciplinas nos cursos de graduação é de 60 horas. Ou seja, esta área de especialidade da fonoaudiologia é contemplada nas grades curriculares com uma quantidade mínima de horas.

Percebe-se por meio das respostas da maioria dos alunos que suas experiências na área da Fonoaudiologia Educacional obtidas durante o curso de graduação em Fonoaudiologia, basearam-se na realização de triagens e detecções de distúrbios em escolares, ou seja, parece haver uma preocupação maior com a detecção dos distúrbios do que com a promoção da linguagem e do letramento.

Além desta visão aparecer de forma preponderante nas respostas dos discentes, é notável que, para alguns deles, a Fonoaudiologia Educacional é atrelada apenas ao atendimento na clínica de Fonoaudiologia, já que alguns graduandos ao serem questionados sobre suas experiências na área da Fonoaudiologia Educacional, relataram suas experiências clínicas em estágios clínicos nos quais atendem pacientes encaminhados por questões de aprendizagem, e que por essa razão precisam fazer um contato com a escola dos mesmos. Ou seja, suas respostas evidenciam que os mesmos não configuram a escola como um espaço de trabalho profissional.

Apesar de respostas dessa natureza permitirem considerar que os discentes estão afastados do âmbito educacional, as mesmas são coerentes com o trabalho do fonoaudiólogo educacional, tradicionalmente, desenvolvido nesse contexto, o qual objetiva a classificação entre o normal e o patológico e a normatização da linguagem oral e escrita. Para alcançar esses objetivos utiliza-se, em geral, de triagens, diagnósticos e encaminhamentos de crianças com problemas de linguagem para atendimento especializado. Objetiva também a instrumentalização do profissional que atua nas escolas, transmitindo informações e técnicas, por meio de palestras, orientações, cursos de capacitação, descrevendo sintomas e causas de tais distúrbios de linguagem para que possam obter estratégias para lidar com "crianças problemas"13. Tais práticas, pautadas na normatização de comportamentos, são, ainda hoje, hegemônicas13) revelando ações mais voltadas a esfera clínica, do que propriamente aos objetos e necessidades do sistema educacional.

Com relação às respostas dos graduandos quanto à função que deve ser exercida pelo fonoaudiólogo nas escolas, apresentadas na Tabela 5, percebe-se novamente uma tendência a um fazer clínico por parcela significativa dos graduandos. Cabe destacar novamente que esse tipo de atuação, voltada para a identificação de supostos déficits em escolares e o encaminhamento para um trabalho clínico fazem com se transfira demandas de aprendizagem do aluno, para um trabalho clínico. E essa atuação voltada a orientação/formação de docentes, na qual o Fonoaudiólogo apenas transmite seus conhecimentos de forma fragmentada acerca de seu objeto de estudo, desvinculado do saber e das práticas desses profissionais e das demandas educacionais, delega aos professores a condição de audiência passiva, não oferecendo elementos para atuarem de maneira transformadora sobre a realidade escolar17.

A articulação entre fonoaudiólogos e docentes deve ser realizada, principalmente por discussões aprofundadas sobre políticas públicas educacionais, e a promoção de uma parceria efetiva, mais consistente e voltadas à realidade escolar.

Ainda se referindo à função do fonoaudiólogo educacional, percebem-se respostas favoráveis ao atendimento clínico dentro de instituições escolares, apesar dessa forma de atuação ser vetada nessa área de atuação.

A diversidade de posições acerca da atuação do fonoaudiólogo educacional fica nítida ao se observar na tabela 6 a respeito das opiniões dos graduandos acerca da diferenciação da atuação do Fonoaudiólogo clínico do educacional. No que diz respeito à atuação clínica, a maior parte dos entrevistados citou que dentre as funções estão detecção de problemas, diagnósticos e a terapia, voltadas a um atendimento individualizado focado na queixa. E para atuação do fonoaudiólogo educacional nota-se que a tendência clínica ainda é a mais citada entre os entrevistados, atuação essa focada na normatização de problemas/distúrbios e deslocadas da atuação com foco educacional propriamente dito. Cabe destacar, também, que mais da metade dos graduandos entrevistados já pensaram em atuar como fonoaudiólogos educacionais, e muitos citaram a importância desse profissional auxiliar com as dificuldades dos escolares, se referindo novamente a questões de patologias/distúrbios.

A atuação fonoaudiológica focada somente na patologia e desarticulada de reflexões sobre os determinantes histórico-sociais envolvidos no processo de ensino-aprendizagem, quase sempre leva a um pré-diagnóstico em escolares. Na maioria das vezes, as crianças encaminhadas para o atendimento clínico para resolver dificuldades escolares,chegam a clínica com sentimentos de incapacidade. Dessa forma, as crianças e familiares responsabilizam-se pela culpa do chamado "fracasso escolar", isentando o sistema educacional de suas responsabilidades e desconsiderando os fatores sociais, econômicos e políticos relacionados a esse fracasso18.

Como demonstrado na Tabela 7, sujeitos que não atuariam justificam tal posição em função do pouco reconhecimento da profissão no contexto educacional. Grupos de professores a exemplo de grupos fonoaudiólogos também entendem o trabalho principal do fonoaudiólogo como sendo a detecção de problemas e/ou distúrbios e a realização de encaminhamentos dos alunos para atendimento clínico. Dessa forma, a resolução dos problemas escolares esta por um lado atrelada aos professores que identificam os "alunos-problemas", e por outro, pelos fonoaudiólogos que legitimam, em grande parte, essa indicação e realizam os encaminhamentos para clínicas fora da escola e, por fim, ao aluno, cabe se submeter ao tratamento.

Um outro olhar para essa problemática, resulta na formulação de ações conjuntas entre professor e fonoaudiólogo que procurassem promover a leitura e escrita da criança e, ainda, ações integradas entre profissionais da escola, família e fonoaudiologia, visando modificar as barreiras atitudinais que possam contribuir para a consolidação do aluno como sendo um sujeito "com dificuldades" que só podem ser superadas fora da escola. Nota-se que o conhecimento referente à atuação do fonoaudiólogo educacional é ainda contraditório mesmo para aqueles que estudam e que podem futuramente atuar nessa área. Foi comum entre as respostas apresentadas a afirmação de que o curso de graduação em Fonoaudiologia não oferece conhecimentos necessários para atuação nesta área.

Apesar da recorrência da atuação com foco clínico dentro da escola, pode-se notar que alguns alunos possuem um olhar voltado para área educacional, já que parecem partir de uma visão mais crítica sobre o sistema educacional brasileiro. Tal posição possibilita ao fonoaudiólogo atuar sem um olhar de quem procura no aluno, quando o mesmo não atende às expectativas de comportamento e aprendizado da escola, um problema orgânico para ser tratado, mas com uma visão que reconhece nesse aluno um sujeito com múltiplas experiências socioculturais e que possui plenas condições de aprendizagem.

Nos discursos dos formandos também fica explícita a ideia de que um profissional realmente comprometido com a melhoria da qualidade do ensino pode contribuir para a concretização de importantes mudanças que possibilitem o acesso e a apropriação da linguagem escrita por parte da população brasileira17. Portanto, para que a Fonoaudiologia se afaste de seu caráter normatizador conforme historicamente perpetuado na atuação educacional, é necessário que haja uma mudança no olhar do fonoaudiólogo perante o aluno, a escrita e a aprendizagem, considerando a diversidades constitutivas dos sujeitos, seja na escrita, nos modos de pensar, expressar-se e ser.

Para que isso aconteça, é necessário que os cursos de graduação em Fonoaudiologia propiciem uma visão mais ampla acerca da Fonoaudiologia, pois nota-se por esse trabalho que este conhecimento ainda é circunscrito ao saber clínico. Muitos participantes da pesquisa relatam que não possuem conhecimentos suficientes para atuar na área da Fonoaudiologia Educacional. A falta de conhecimento e a insegurança, mencionadas nas respostas dos participantes, referem-se também as mudanças que estão ocorrendo no trabalho fonoaudiológico na escola. Se o aluno chega para estagiar na escola e o professor espera que ele "detecte e trate" os distúrbios encontrados, muitas vezes os alunos passam a ter de lidar com uma contradição e a buscar respostas às seguintes questões: o que devo fazer? O que os profissionais esperam de minha atuação?

A formação do Fonoaudiólogo, portanto, deve proporcionar conhecimentos acerca de ambas as tendências citadas nesse trabalho, para que o aluno possa ter opções de escolha e que pelo menos possa ter um pensar crítico acerca da educação e de como a Fonoaudiologia se relaciona com a mesma. Dessa forma, talvez em um futuro próximo, os novos fonoaudiólogos poderão sair da universidade com uma visão menos restrita e estigmatizadora a qual interfere de forma decisiva na história da Fonoaudiologia Educacional brasileira até o momento.

As ações da fonoaudiologia no contexto educacional devem ser interdisciplinares, e objetivar promover mudanças no sistema educacional brasileiro, enfim, devem estar comprometidas com o conhecimento das políticas de educação e com a discussão acerca das várias formas de aperfeiçoamento das diretrizes que norteiam tal sistema educacional, além disso, os profissionais envolvidos devem estar dispostos a estabelecer interlocuções multidisciplinares focadas nas demandas educacionais15.

Conclusão

Por meio dos resultados desta pesquisa, nota-se que ainda se tem um longo caminho a percorrer para que princípios teórico e práticos norteadores das atuações fonoaudiológicas se modifiquem e se voltem às demandas do sistema educacional vigente no país.

Pode-se perceber nas respostas fornecidas pelos graduandos em Fonoaudiologia que os cursos de graduação ainda tendem a discutir a atuação fonoaudiologica no contexto educacional apenas sob um enfoque clínico, razão pela qual triagens, orientações e encaminhamentos são as formas de atuação mais comumente citadas. Apesar disso, já se percebe uma minoria que discorre a respeito da atuação do fonoaudiólogo educacional por meio de ações de promoção da linguagem e da educação as quais pressupõe que o fonoaudiólogo faça parte da equipe e do planejamento escolar.

Para que aja um crescimento na área da Fonoaudiogia no que diz respeito às ações desenvolvidas na escola é fundamental que os cursos de graduação em Fonoaudiologia aprofundem seus ensinamentos acerca da Fonoaudiologia Educacional, principalmente com relação ao seu contexto histórico e as tendências de atuação nesta área. Por meio de reflexões teóricas e do fazer prático, e da definição de critérios e parâmetros que garantam um ensino de qualidade em torno de tal conteúdo.

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Errata

Neste artigo, publicado no periódico Revista Cefac, volume 18(1):198-208,inclua-se a seguinte autora:

Simone Farinha.

Recebido: 07 de Maio de 2015; Aceito: 06 de Outubro de 2015

Endereço para correspondência: Ana Cristina Guarinello, Rua Alexandre Eduardo Klat, 66/2, Curitiba - PR - Brasil, CEP: 82130-120, E-mail: ana.guarinello@utp.br

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