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Revista CEFAC

versão On-line ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.18 no.5 São Paulo set./out. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0216201618520615 

ARTIGOS ORIGINAIS

Vigilância do desenvolvimento da linguagem da criança: conhecimentos e práticas de profissionais da atenção básica à saúde

Raquel Aparecida Pizolato1 

Luciana Mara Monti Fonseca2 

Roosevelt da Silva Bastos3 

Adriano Yacubian Fernandes1 

Fernando Lefévre4 

Luciana Paula Maximino5 

1Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo; FOB-USP, Bauru, SP, Brasil.

2Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, USP; Ribeirão Preto, SP, Brasil

3Departamento de Odontopediatria, Ortodontia e Saúde Coletiva da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo. FOB-USP; Bauru, SP, Brasil.

4Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. USP, São Paulo, SP, Brasil.

5Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo. FOB-USP, Bauru, SP, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

analisar os conhecimentos e as práticas dos enfermeiros, médicos e cirurgiões-dentistas que atuam na Atenção Básica em relação ao desenvolvimento da linguagem da criança nos primeiros anos de vida.

Métodos:

tratou-se de uma pesquisa qualitativa com 30 profissionais de uma rede de Atenção Básica dentre eles, médicos, enfermeiros e cirurgiões-dentistas. Uma consulta individual foi realizada mediante um questionário semiestruturado. Empregou-se a técnica de análise temática de discurso, utilizando-se três figuras metodológicas: a Ideia Central, as Expressões-Chaves e o Discurso do Sujeito Coletivo.

Resultados:

os conhecimentos que os profissionais têm sobre o desenvolvimento da linguagem da criança estavam ancorados às ideias centrais de conhecer alguns marcos do desenvolvimento, a linguagem da criança depende do estímulo do meio, da família e da audição normal, saber muito pouco ou não saber nada sobre o assunto. Os profissionais relataram que gostariam de obter mais informações sobre o assunto em relação aos marcos do desenvolvimento da linguagem da criança, desvios da normalidade e orientações para pais de forma a aprimorar o atendimento da saúde infantil.

Conclusão:

o conhecimento dos profissionais sobre o assunto apresentou-se limitado, havendo necessidade de ampliar práticas de educação em saúde pela Fonoaudiologia, em parceria com as Instituições de Ensino e os profissionais dos Núcleos de Apoio Saúde da Família, junto aos profissionais da Equipe de Estratégia Saúde da Família, destacando-se o trabalho sobre os marcos do desenvolvimento da linguagem da criança.

Descritores: Atenção Básica; Comunicação Interdisciplinar; Saúde da Criança; Fonoaudiologia

Introdução

A vigilância do desenvolvimento é um eixo integrador da atenção à saúde da criança, compreendendo as atividades relacionadas à promoção do desenvolvimento normal e à detecção de desvios nesse processo. O acompanhamento da aquisição e desenvolvimento da linguagem é um dos eixos que devem ser observados pelos profissionais da saúde em ações de vigilância da saúde infantil, além das características do desenvolvimento neuropsicomotor1-3.

A Vigilância em Saúde tem sido definida como a postura ativa dos profissionais e serviços de saúde diante das situações de risco e vulnerabilidade, trançando planejamento e ações específicas para minimizar os danos e realizar adequado acompanhamento à saúde da população4.

Na Atenção Básica à saúde (AB) no Brasil, o modelo da Vigilância em Saúde foi intensificado durante o processo de reorganização do Sistema Único de Saúde (SUS), recentemente foi incorporado ao modelo assistencial da Estratégia Saúde da Família (ESF). Esta, por sua vez, busca a integralidade da atenção para o cuidado do indivíduo e famílias ao longo do tempo e respostas resolutivas para as necessidades da população e comunidade5.

Reconhece-se que cabe aos enfermeiros, médicos e cirurgiões-dentistas da AB realizarem ações de cunho administrativo e assistencial. Contudo, refletindo sobre tal aspecto, considerou-se relevante conhecer como esses profissionais concebem e desenvolvem tais ações em sua prática cotidiana nas unidades de saúde da família (USF), com vistas a analisar sua contribuição profissional para atenção integral a saúde da criança6.

Sabe-se que a vigilância do desenvolvimento da linguagem infantil está relacionada com a atenção integral a saúde da criança e que precisa ser observado pelos profissionais que atuam na Equipe Estratégia Saúde da Família como uma forma de promover ações de prevenção, promoção e diagnóstico precoce de alterações nos primeiros anos de vida. Estima-se que uma em cada oito crianças apresenta alterações do desenvolvimento que interferem de forma significativa em sua qualidade de vida e inclusão na sociedade5. O diagnóstico e a intervenção precoce nos primeiros anos de vida são decisivos para o prognóstico de desenvolvimento dessas crianças6,7. É importante que o acompanhamento seja realizado pelos profissionais da saúde e que estes tenham conhecimentos sobre os principais marcos do desenvolvimento da linguagem infantil a fim de orientar pais e também como forma de auxiliar na tomada de decisão na realização de encaminhamentos para outras áreas8-10.

A Atenção Básica conhecida como porta de entrada preferencial do Sistema Único de Saúde, a equipe de saúde deverá conhecer os aspectos mais relevantes do desenvolvimento e estar preparada para fazer algumas intervenções, se necessário, mas principalmente identificar com clareza aquelas crianças que devem ser referidas para tratamentos especializados 11.

Quando se discute com profissionais de diversas áreas sobre desenvolvimento infantil, várias são as respostas, uma vez que, de fato, o desenvolvimento humano é perpassado por conceitos heterogêneos das mais diversas origens. Acredita-se que isso se deva ao fato do desenvolvimento poder ser definido ou entendido, dependendo do referencial teórico que se queira adotar e de quais aspectos se queira abordar. Pode ser que, para o médico, a definição de desenvolvimento é o aumento da capacidade do indivíduo na realização de funções cada vez mais complexas. O neuropediatra pensará na maturação do sistema nervoso central e na integridade dos reflexos. O enfermeiro preocupar-se-á mais com o exame físico, orientação com a vacinação e também com os cuidados da alimentação da criança12.

Na Atenção Básica, com a inserção dos profissionais de Saúde na Equipe Estratégia Saúde da Família (ESF) e nos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF), o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento da criança não se baseia apenas na anotação de dados das habilidades pertencentes a um determinado sistema, mas na complexa teia que envolve todo o desenvolvimento da criança, bem como a relação dela com seu ambiente, pais e família. Considerando a importância da atenção integral à saúde da criança, o Ministério da Saúde criou a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (PNAISC), a qual um conjunto de ações programáticas e estratégicas para garantir o pleno desenvolvimento da criança e todas as etapas do ciclo de vida, considerando as diferentes culturas e realidades, com foco na promoção da saúde, prevenção de doenças e agravos, assistência e reabilitação à saúde e defesa dos direitos da criança. Cada contato entre a criança e os serviços de saúde, independente do motivo, deve ser tratado como uma oportunidade para a análise integrada de sua saúde e para uma ação resolutiva de promoção da saúde com forte caráter resolutivo. O acompanhamento do crescimento da criança deve ocorrer de uma forma sistemática, constituindo como eixo central da atenção integral 13.

Dentre os eixos a qual a PNAISC caminha está a atenção à saúde do recém-nascido e o incentivo e qualificação do acompanhamento do crescimento e desenvolvimento sendo de total importância a capacitação da Equipe Estratégia Saúde da Família sobre temas voltados ao desenvolvimento e crescimento da criança. Conhecer as fases do desenvolvimento da linguagem infantil nos primeiros anos de vida pelos profissionais da Atenção Básica, especificamente pelos profissionais da Equipe Estratégia Saúde da Família, que fazem avaliação e acompanham o desenvolvimento da criança, é de extrema importância para a prevenção, promoção da saúde da comunicação humana e também na detecção precoce de algum tipo de anormalidade não correspondente com o desenvolvimento normal esperado11.

A avaliação do desenvolvimento e crescimento da criança deve ser realizada pelos profissionais da saúde da Atenção Básica de forma global e compartilhada, pois representa um processo educativo, promovendo uma oportunidade para os profissionais auxiliarem os pais a compreenderem aspectos relacionados ao desenvolvimento, ressaltando características do processo típico e reformulando percepções desajustadas e inapropriadas sobre os comportamentos manifestados12. Entretanto, acredita-se que há uma carência de conhecimentos sobre o marcos do desenvolvimento da linguagem infantil pelos profissionais da saúde, principalmente pelos enfermeiros, médicos e os cirurgiões-dentistas da Equipe de Estratégia Saúde da Família que atuam na Atenção Básica, o que dificulta, na maioria das vezes, orientações adequadas para os pais durante as rotinas de consulta e também na identificação de alterações em idade precoce e encaminhamentos necessários para os centros de especialidades12.

Este estudo teve como objetivo realizar um estudo exploratório sobre os conhecimentos relacionados à vigilância do desenvolvimento da linguagem da criança nos primeiros anos de vida por médicos, enfermeiros e cirurgiões-dentistas que atuam na Equipe de Estratégia Saúde da Família em um Município do interior do Estado de São Paulo, a fim de propor estratégias de Educação para à Saúde que aprimorem os conhecimentos destes profissionais.

Métodos

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto-USP (protocolo nº 814.561 aprovado na data de 01 de outubro de 2014). A tipologia da pesquisa é de natureza qualitativa, descritiva. Foram convidados a participarem deste estudo 44 profissionais, dentre eles médicos, enfermeiros, e cirurgiões-dentistas de 10 Equipes Estratégias Saúde da Família do Distrito Oeste, sendo 5 Distritos de Saúde que compõem a cidade do Interior do Estado de São Paulo pesquisada. Concordaram em participar desta pesquisa, 30 profissionais, dentre eles dezesseis médicos, onze enfermeiros e três cirurgiões-dentistas das Unidades de Saúde visitadas. Neste estudo, não foram inseridos os Agentes Comunitários de Saúde, apenas os profissionais com formação superior de forma a homogeneizar a amostra e evitar viés no estudo, considerando como critério de elegibilidade a formação acadêmica. Os profissionais que concordaram em participar foram orientados sobre os riscos e benefícios sobre a participação na pesquisa e todos assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

O método empregado foi de corte qualitativo a partir de um estudo descritivo. Para a coleta de dados utilizou-se um questionário semiestruturado (Anexo 1) e para a análise qualitativa adotou-se a abordagem do Discurso do Sujeito Coletivo. As questões do questionário foram autorespondidas pelos participantes. Para a realização da análise dos dados qualitativos foi utilizada a técnica do Discurso do Sujeito Coletivo14,15. Esta técnica é uma proposta de organização e tabulação de dados qualitativos do depoimento, seja na forma oral ou redigida, por cada participante, tendo como fundamento a teoria da Representação Social e seus pressupostos sociológicos; a proposta consiste basicamente em analisar o material escrito ou extraído de cada um dos depoimentos14,15.

O Discurso do Sujeito Coletivo é uma modalidade de apresentação de resultados de pesquisas qualitativas, que tem depoimentos como matéria-prima, sob a forma de um ou vários discursos-síntese escritos na primeira pessoa do singular, expediente que visa expressar o pensamento de uma coletividade, como se esta coletividade fosse o emissor de um discurso 15. Esta técnica consiste em selecionar, de cada resposta individual a uma questão, as Expressões-Chaves, que são trechos mais significativos destas respostas. A essas Expressões-Chaves correspondem Ideias Centrais que são a síntese do conteúdo discursivo manifestado nas Expressões Chave. Com o material das Expressões Chave das Ideias Centrais constroem-se discursos-síntese, na primeira pessoa do singular, que são discursos dos sujeitos coletivos, onde o pensamento de um grupo ou coletividade aparece como se fosse um discurso individual 16.

Os procedimentos para a análise do Discurso do Sujeito Coletivo envolvem, basicamente, as seguintes operações sobre os discursos coletados:

  • Seleção das expressões-chave de cada resposta a uma questão. As expressões-chave são segmentos contínuos ou descontínuos de discurso que revelam o principal do conteúdo discursivo; é uma espécie de "prova discursivo-empírica" da "verdade" das ideias centrais.

  • Identificação da ideia central de cada uma dessas expressões-chave: a síntese do conteúdo dessas expressões, ou seja, o que elas querem efetivamente dizer.

  • Identificação das ideias centrais semelhantes ou complementares

  • Reunião das expressões-chave referentes às ideias centrais e síntese em expressões que revelam o discurso do sujeito coletivo (DSC).

O DSC representa, portanto, um expediente ou recurso metodológico destinado a tornar mais clara e expressiva as representações sociais, permitindo que um determinado grupo social (profissionais de saúde da Atenção Básica, no caso deste estudo) possa ser visto como autor e emissor de discursos comuns compartilhando entre seus membros. Com o sujeito coletivo, os discursos não se anulam ou se reduzem a uma categoria comum unificadora, já que o que se busca fazer é precisamente o inverso, ou seja, reconstruir, com pedaços de discursos individuais, como em um quebra-cabeça, tantos discursos-síntese quantos se julgue necessário para expressar uma dada "figura", um dado pensar ou uma representação social sobre um fenômeno16.

Para a análise dos dados utilizou-se o Programa QualiquantiSoft.

Resultados

Na amostra avaliada, 73,33% (22) dos sujeitos eram do sexo feminino e 26,66% (8) do sexo masculino. Dentre os profissionais, 53,33% (16) eram médicos, 36,66% (11) enfermeiros e 10% (3) eram cirurgiões-dentistas. A média de idade foi de 36,86 com desvio padrão de 9,97 anos. A maioria dos profissionais atuava na profissão há menos de 10 anos (66,66%) e apenas 33,33% tinham mais de 10 anos de atuação na profissão.

Todos os profissionais da equipe de saúde participantes relataram que o desenvolvimento da fala está relacionado com a saúde auditiva da criança e com o estímulo do meio familiar. Ao ser observado sobre uma suspeita de que a criança tenha algum problema de comunicação, 75% dos médicos participantes discutem o caso com a equipe, 72,72% dos participantes enfermagem e 66,66% dos cirurgiões-dentistas tem o mesmo procedimento.

Durante as rotinas de vacinas, atendimentos clínicos, visitas domiciliares e atividades educativas de puericultura, 81,25% dos profissionais da área da medicina relataram que orientam os pais a estimularem a linguagem da criança, 72,72% dos profissionais da área da enfermagem também orientam a família e 66,66% dos cirurgiões-dentistas relataram que tem a mesma atitude.

Todos os cirurgiões-dentistas desta amostra afirmaram que não sabem identificar alterações de linguagem da criança.

Todos os profissionais demonstram interesse em aprofundar e aprimorar os conhecimentos sobre o assunto por meio de um curso de aperfeiçoamento.

A Tabela 1 apresenta a porcentagem dos participantes que sabem identificar alterações da linguagem infantil nos primeiros anos de vida. A Tabela 2 apresenta o conhecimento que os profissionais da Equipe Estratégia Saúde da Família têm sobre os marcos do desenvolvimento e aquisição da linguagem infantil nos primeiros anos de vida.

As Figuras 1 e 2 apresentam a análise do Discurso do Sujeito Coletivo frente à temática investigada.

Tabela 1: O saber sobre identificar alterações do desenvolvimento da linguagem infantil nos primeiros anos de vida pelos profissionais da Equipe Estratégia Saúde 

% Porcentagem

N: número de sujeitos da amostra

Tabela 2: Conhecimentos sobre os marcos da aquisição e desenvolvimento da linguagem infantil nos primeiros anos de vida pelos profissionais da Equipe Estratégia Saúde da Família 

% Porcentagem

N: número de sujeitos da amostra

Figura 1: Ideia central e discurso do sujeito coletivo de 30 profissionais da rede de atenção básica, em resposta à pergunta: "O que você sabe sobre aquisição e desenvolvimento da linguagem infantil na idade de 0 a 24 meses ?" 

Figura 2: Ideia central e discurso do sujeito coletivo dos 30 profissionais da rede de atenção básica, em resposta à pergunta: " Ao participar de um curso sobre aquisição e desenvolvimento da linguagem infantil, o que você gostaria de saber ?" 

Discussão

Conhecer a ótica dos profissionais de saúde que atuam na Atenção Básica do Sistema Público de Saúde sobre a Vigilância do Desenvolvimento da Linguagem da Criança é uma etapa importante para o processo de Educação em Saúde, a fim de propor estratégias facilitadoras que contribuam para o processo de aprimoramento dos conhecimentos aos cuidados à saúde infantil pelos profissionais de saúde 17.

Os dados descritivos quantitativos das tabelas mostraram que apenas 53,33% dos participantes sabem identificar alterações da linguagem nos primeiros anos de vida da criança. Estes dados revelam que há uma necessidade da área da fonoaudiologia realizar parceria entre os outros profissionais da Equipe de Estratégia Saúde da Família, a fim de compartilhar conhecimentos sobre o assunto, contribuindo para as ações de saúde em que estes profissionais possam realizar no que dizem à prevenção e promoção da Comunicação Humana nos primeiros anos de vida da criança. A dificuldade em saber identificar, de forma correta, os marcos do desenvolvimento da linguagem infantil nos primeiros anos de vida ficou evidenciada nos dados apresentados na Tabela 2. É importante destacar que cada um dos participantes pensa nos aspectos em que vivencia na prática profissional podendo ter mais experiência que o outro e por isso menos dificuldade, mas pensando no sentido de equipe de saúde, todos devem conhecer os marcos do desenvolvimento a fim de facilitar e propor ações de saúde de forma conjunta 11. Considerando que o enfermeiro, o médico e o cirurgião-dentista da Equipe de Estratégia Saúde da Família são responsáveis em fazer avaliações e acompanhamento do crescimento e desenvolvimento da criança durante as consultas de rotina na Unidade de Saúde, é de grande relevância que estes profissionais ampliem os seus conhecimentos sobre o marcos do desenvolvimento da linguagem infantil para que possam identificar fatores de risco, intervenções necessárias e encaminhamentos necessários para outros profissionais.

Embora, os profissionais tenham dificuldades em identificarem crianças com alterações do desenvolvimento da linguagem infantil nos primeiros anos de vida, ficou evidente que uma boa parte dos participantes tem preocupação em discutir com a sua equipe sobre algum caso suspeito de alteração. Desse modo, é necessário que o profissional esteja preparado para solicitar ajuda a outro colega (se for o caso, pelo apoio matricial), ou para esclarecer ao usuário que o problema não pode ser solucionado naquela instância (da Atenção Básica), e então providenciar a referência para outro nível, por exemplo, ambulatórios médicos de especialidades e centro de especialidade fonoaudiológicas. O importante é mostrar-se solidário ao problema e não se esquecer da responsabilidade da Equipe de Saúde da Família no tocante à saúde da população de seu território18.

A análise comparativa entre os profissionais não foi evidenciada visto à disparidade do número de participantes em cada grupo, além de não ser recomendada a dissociação dos profissionais que atuam no âmbito da Atenção Básica, uma vez que são considerados como membros de uma equipe integrada - a Estratégia Saúde da Família.

Considerando à análise qualitativa, da primeira ideia central, "Conheço alguns marcos do desenvolvimento da linguagem" (Figura 1), há destaque para o fato de que o desenvolvimento da linguagem da criança surge com o balbucio, evolui para a emissão de palavras, do oitavo ao décimo segundo mês de vida, e de que a criança passa a formar frases a partir do vigésimo quarto mês. Evidenciou-se que os profissionais participantes têm conhecimentos sobre aquisição e desenvolvimento da linguagem infantil, embora pouco aprofundados e com algumas incertezas em definir as etapas do desenvolvimento da linguagem. O conhecimento do padrão normal de aquisição da linguagem é imprescindível para que seja possível compará-lo com o patológico e, assim, realizar orientações para pais e cuidadores em atividades interativas educativas em saúde, bem como proceder a encaminhamentos para tratamento especializados o mais precocemente possível 2,19.

Por outro lado, a ideia central "Sei muito pouco sobre a linguagem " (Figura 1) mostra dificuldades e falhas no domínio de conhecimentos dos participantes sobre o desenvolvimento da linguagem infantil, embora considerem a linguagem como um fator importante na aprendizagem da criança que precisa ser avaliado periodicamente. Resultados semelhantes foram encontrados no estudo de outros autores e indicaram que médicos que atuam em Unidades Básicas de Saúde (UBS) apresentaram índices de erros e dificuldades quanto à aquisição e desenvolvimento da linguagem infantil10. O conhecimento sobre o desenvolvimento normal da linguagem e as práticas de acompanhamento deveriam fazer parte das consultas de rotina, especialmente dos médicos, mas também pelos enfermeiros e cirurgiões-dentistas.

A ideia central, "A linguagem infantil depende do estímulo do meio, da família e da audição normal" (Figura 1) aponta que os profissionais da saúde fazem associação do desenvolvimento da linguagem da criança com o estímulo que ela recebe do meio e da família. Segundo os participantes, o ambiente no qual a criança desenvolve-se é influenciado tanto pela relação sócio afetiva, quanto pelas formas verbais e experiências que lhe são proporcionadas. Ficou evidente que toda criança que é estimulada pela família e inserida em creche poderá se desenvolver de forma mais precoce quando não expostas a tais estímulos. Autores 20 relatam que os estímulos em casa como, por exemplo, o incentivo à leitura, presença de livros e conversas com as crianças inseridas nas práticas familiares tem uma grande importância no fator de associação ao desenvolvimento da linguagem infantil. O principal incentivo para promover o desenvolvimento da comunicação na infância é identificar fatores de proteção e o apoio social que devem ser considerados como uma das melhores alternativas de estratégias de intervenção, sendo de grande importância que os profissionais da saúde orientem as famílias quanto ao estímulo da linguagem da criança nos primeiros anos de vida21,22.

Além disso, os modelos de comunicação que o meio fornece à criança influenciam na linguagem pela quantidade, qualidade e pelas situações vividas pela criança22. O fator biológico como audição e a mudança de comportamento frente ao estímulo auditivo pela criança deve ser observado pelos profissionais de saúde durante as consultas de rotinas. Os profissionais relataram que é importante que seja realizado uma observação do comportamento da criança frente a estímulos sonoros a fim de verificar se a criança apresenta alguma alteração na audição. Os primeiros anos de vida são considerados os mais importantes para o desenvolvimento das habilidades auditivas e de linguagem, sendo que os profissionais de saúde da atenção básica devem ficar atentos quanto aos sinais de possíveis alterações e necessidades de uma intervenção precoce 21.

A ideia central "Não sabe" evidencia que os profissionais não têm o domínio sobre os marcos do desenvolvimento da linguagem infantil, mas gostariam de adquirir conhecimentos para poder sentir segurança em realizar avaliação da criança nos atendimentos de rotina. Na literatura, outro trabalho também buscou avaliar o conhecimento de médicos em relação ao desenvolvimento da linguagem e foi constatadas insuficiências e necessidade de capacitação de forma continuada que pudessem ampliar os conhecimentos que estavam faltando sobre o assunto12.

Na Figura 2 estão apresentadas as ideias centrais a respeito do que os participantes gostariam de saber, caso viessem ser convidados a participarem de cursos sobre o assunto. As sugestões relatadas pelos participantes focaram sobre as características principais do desenvolvimento da linguagem para cada idade, orientações para pais e familiares e também saber sobre algo referente à triagem da linguagem infantil na rotina de trabalho. Foi possível observar um grande interesse por parte dos profissionais de saúde em conhecer melhor sobre o assunto referente à área da fonoaudiologia. Considera-se que é de grande relevância o desenvolvimento de estratégias de Educação em Saúde para o trabalho e que ações em conjunto precisam ser pensadas, a fim de reforçar o trabalho interdisciplinar. O termo interdisciplinaridade pressupõe um trabalho coordenado com objetivo comum, partilhado por vários ramos do saber, de forma integrada e convergente, o que nos reporta imediatamente à base de atuação de uma Equipe Estratégia Saúde da Família. No entanto, a prática leva a uma realidade totalmente distinta, em que o trabalho em equipe se aproxima mais do que se pode rotular como pluridisciplinar, já que os conhecimentos profissionais dos componentes das equipes não se interagem, reproduzindo o que foi aprendido nos cursos de graduação. Essa falta de integração e comunicação entre os profissionais tem certamente a sua origem na graduação, pois cada profissional se forma sem interagir com outros profissionais da saúde, sem um espaço comum de atuação que permita a troca de conhecimentos e possibilite a ação coordenada para atingir um objetivo comum 23.

Considerando-se que os profissionais da saúde que fazem parte de uma Equipe de Estratégia Saúde da Família devam buscar conhecimentos a respeito do fazer de cada profissional que atua na Atenção Básica, através da ação interdisciplinar para que possam atuar na promoção da saúde, prevenção de doenças e agravos para a melhoria da qualidade de vida da comunidade assistida e que o usuário de saúde possa ser visto como um todo. O conhecimento sobre a aquisição e o desenvolvimento da linguagem infantil nos primeiros anos de vida pelos profissionais da Equipe Estratégia Saúde da Família deve ser de grande relevância no processo de Educação Permanente compartilhada entre os profissionais da equipe com a área da fonoaudiologia.

Os cursos de capacitação por meio da educação à distância ou semipresencial podem contribuir para a Educação Permanente dos profissionais da saúde da Atenção Básica, favorecendo na ampliação e a troca dos conhecimentos e entre eles. Desta forma, as ações de prevenção, promoção da saúde, diagnóstico e reabilitação podem ser mais bem direcionadas para a saúde infantil com o fortalecimento dos conhecimentos e dissipação de troca dos mesmos pelos profissionais da saúde. Espera-se que por meio de suporte pedagógico realizados por fonoaudiólogas dos Núcleos de Apoio Saúde da Família e cursos de educação à distância realizados por Instituições de Ensino Superior possam contribuir ao acompanhamento da Aquisição e Desenvolvimento da Linguagem Infantil pela Equipe Estratégia Saúde da Família. Desta forma, favorecer no aprimoramento do atendimento da saúde infantil para as ações de prevenção e promoção da saúde, quanto à identificação de distúrbios do desenvolvimento não esperados para a idade, orientações para cuidadores e pais e, dessa forma, promove-se o diálogo entre as áreas 24.

Considerando a importância da comunicação humana para o desenvolvimento integral do indivíduo, o fonoaudiólogo é profissional imprescindível na Atenção Básica à saúde, pois ele sabe do papel da linguagem como instrumento de formação do indivíduo e pode ajudar os outros profissionais de áreas distintas a entenderem melhor sobre a aquisição e desenvolvimento da linguagem infantil 25.

Enfatiza-se o papel dos profissionais da Atenção Básica, uma vez que o contato com a criança nos primeiros anos de vida acontece de forma contínua durante os atendimentos de rotina, é primordial a orientação dos pais para a promoção da saúde, prevenção, também na detecção de déficits visando à intervenção precoce e também na busca ativa dos casos, favorecendo a premissa em Vigilância da Saúde Infantil. Acredita-se que a troca de conhecimentos entre os profissionais de saúde da Atenção Básica em interface com o profissional da Fonoaudiologia possa acrescentar novos conhecimentos advindo destes profissionais e propiciar ao profissional de saúde condições de perceber o homem como um todo, tomando o processo de desenvolvimento da comunicação humana como importante no desenvolvimento infantil.

Conclusão

Os conhecimentos dos médicos, enfermeiros e cirurgiões-dentistas da Equipe Estratégia da Família sobre aquisição e desenvolvimento da linguagem infantil nos primeiros anos demonstraram-se restritos. Há necessidade de estratégias de Educação para a Saúde para os profissionais das Equipes Estratégia Saúde da Família, desenvolvidas por fonoaudiólogos dos Núcleos de Apoio Saúde da Família, em parceria com as Instituições de Ensino, destacando-se trabalho sobre os marcos do desenvolvimento da linguagem.

Agradecimentos

Agradecimentos ao CNPQ pelo apoio financeiro e a bolsa de Pós-Doutorado.

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Apoio: CNPQ (processo 150022/2015-8)

Anexo 1: Questionário Sobre Conhecimentos de Aquisição da Linguagem Infantil nos Primeiros Anos de Vida

Recebido: 17 de Dezembro de 2015; Aceito: 08 de Maio de 2016

Endereço para correspondência: Raquel Aparecida Pizolato, Rua Miguel Martini nº 101, Jaboticabal -SP - Brasil, CEP: 14871-415, E-mail: raquelpiz@yahoo.com.br

Conflito de interesses: inexistente

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