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Revista CEFAC

On-line version ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.18 no.6 São Paulo Nov./Dec. 2016

https://doi.org/10.1590/1982-021620161862216 

ARTIGOS ORIGINAIS

Compreensão oral e leitora e consciência sintática nas alterações de leitura e escrita

Bruna Sana Teixeira1 

Ana Maria Schiefer1 

Carolina Alves Ferreira de Carvalho1 

Clara Regina Brandão de Àvila1 

1Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina - UNIFESP/EPM - São Paulo (SP), Brasil.


RESUMO

Objetivo:

investigar a presença de déficits de habilidades metassintáticas em escolares com dificuldades de aprendizagem e analisar possíveis correlações entre essas habilidades e as de leitura e a compreensão oral.

Métodos:

foram avaliadas 29 crianças, indicadas por seus professores, por não apresentarem queixas relacionadas à aprendizagem escolar - Grupo I (GI) e com queixas de comunicação, oral e/ou mediada pela escrita, que constituiram o Grupo II (GII). As idades das crianças variaram entre 9 anos e 11 anos e 7 meses, de 4º e 5º ano do Ensino Fundamental. As crianças foram avaliadas por meio de testes de compreensão oral, consciência sintática e morfossintática, taxa e acurácia de leitura e compreensão leitora. Para a análise estatística foram utilizados: teste não paramétrico de Mann-Whitney, para caracterização da amostra e comparação dos grupos com e sem queixa escolar quanto às variáveis, e Coeficiente de correlação de Spearman, usado para medir o grau de associação entre as variáveis em cada grupo.

Resultados:

observaram-se diferenças significantes entre os grupos, nas tarefas de compreensão oral, consciência sintática e morfossintática, de maneira geral, taxa e acurácia de leitura e na prova de compreensão leitora, com melhor desempenho do do GI em todas as tarefas.

Conclusão:

com estes resultados, enfatiza-se a relevância da estimulação de habilidades metassintáticas para o desenvolvimento da leitura e a inclusão de provas metassintáticas na avaliação da leitura, tanto quanto a utilização de atividades metassitáticas como recurso terapêutico.

Descritores: Leitura; Aprendizagem; Linguagem; Fonoaudiologia

ABSTRACT

Purpose:

it was investigated deficits in syntactic awareness in students with learning disabilities and were analyzed correlations between these reading and listening comprehension skills.

Methods:

29 children were assessed, nominated by their teachers for not having any academic learning problems - Group I (GI) and with oral and/or writing communication disabilities, who formed the Group II (GII). The children's ages fluctuated from 9 years to 11 years and seven months and they were in fourth and fifth grade of elementary school. The assessment was composed by listening comprehension tests, syntactic and morphosyntactic awareness, reading average and accuracy and reading comprehension. Were used for the statistical analysis: non-parametric Mann-Whitney test for sample characterization and comparison of patients with and without problems and Spearman's correlation coefficient, used to measure the degree of association between the variables in each group.

Results:

were observed significant differences between the groups. Listening and reading comprehension, syntactic and morphosyntactic awareness in general, average and accuracy of reading tests were better in GI.

Conclusion:

these results show the importance of stimulating metasyntactic skills to reading development and the inclusion of metasyntactic tests in the reading assessment, as well as the use of related activities as a therapeutic resource.

Keywords: Reading; Learning; Language; Speech, Language and Hearing Sciences

Introdução

A literatura tem apontado, enfaticamente, as relações entre o bom desenvolvimento da linguagem oral e o aprendizado e desenvolvimento da leitura e da escrita1. Até o momento, a maior parte das pesquisas sobre a leitura fundamenta seus pressupostos e hipóteses na Simple View of Reading2 segundo a qual a finalidade da leitura é compreender o que se lê. Para isso, concorrem o desenvolvimento de dois componentes da linguagem oral: um, relacionado a componentes de informação fonológica, que permitem a associação fonema-grafema, para o aprendizado do princípio alfabético; e outro, relacionado ao desenvolvimento semântico-lexical, e morfossintático, com itens fundamentais a compreensão oral ou escrita. Sob outro aspecto, pode-se entender a leitura como uma atividade complexa que requer o desenvolvimento de habilidades linguísticas - que proverão o suporte para processamentos automáticos de informação, e metalinguísticas - que permitem pensar sobre a linguagem, representante do que foi lido, tomando-a como objeto de reflexão3. As habilidades linguísticas, inconscientes e não intencionais, são aprendidas naturalmente ao passo que as metalinguísticas são intencionais, conscientes, monitoradas e, muitas vezes, para seu desenvolvimento pleno, são necessárias instruções explícitas4. O adequado desenvolvimento linguístico e metalinguístico são imprescindíveis para o desenvolvimento da leitura e da escrita e consequentemente para o rendimento escolar. É de se esperar, então, a presença subjacente de déficits de componentes e/ou funcionamento da linguagem oral quando prejuízos de aprendizagem são observados.

Do ponto de vista das habilidades metalinguísticas que importam para a leitura e a escrita podem-se considerar a Consciência Fonológica4-7 e a Consciência Metassintática. Esta permite refletir sobre a estrutura sintática da linguagem oral4), (5), (8-11 e, possivelmente, prejuízos dessa habilidade metacognitiva estão associados a déficits encontrados na leitura e na escrita. A primeira, relacionada a alterações da alfabetização e, posteriormente, a baixos valores de taxa e acurácia leitora1,12, dentre outros. A relação entre Consciência Fonológica e o desenvolvimento do aprendizado do código alfabético é bem conhecida e parece ser característica universal4-7. A percepção da natureza segmentada da fala permite que se identifique um som cuja representação mental, baseada em informação de memória auditiva, possa sediar a letra percebida visualmente. Embora segmentos menores que a palavra sejam percebidos em idades pré-escolares (ou seja, a percepção é oral e não escrita) essa associação precisa de instrução para ser aprendida, formalmente, no ensino fundamental.

Quanto à Consciência Metassintática, estudos demonstram a presença de correlação positiva entre o desempenho em consciência sintática e o posterior desempenho na leitura4,13-16 e escrita15 principalmente de palavras com irregularidades ortográficas, isto é, que não podem ser lidas corretamente com o uso exclusivo da decodificação ou rota fonológica. Outro aspecto relevante da consciência sintática para a leitura e a escrita consiste na importância do uso das pistas gramaticais para a compreensão de frases e textos17,18. Assim, como ocorre na relação entre a escrita e a consciência fonológica, há outros elementos da linguagem que podem ser percebidos, na idade escolar. Por exemplo, a percepção de palavras e sentenças, enquanto elementos gramaticais e não apenas como portadores de sentido. Da mesma forma que com a Consciência Fonológica, a relação entre a linguagem escrita e a consciência sintática parece ser recíproca, sendo que os comportamentos epissintáticos no ensino infantil predispõem ao sucesso na aprendizagem da leitura, o que, por sua vez, promove maior desenvolvimento da reflexão sobre a sintaxe19.

Sendo assim, além de contribuir para o reconhecimento de palavras, a capacidade de refletir sobre a sintaxe é essencial para o entendimento do texto. A apreensão do significado depende não só da soma dos significados dos elementos lexicais individuais, como também da forma pela qual esses elementos se articulam sintaticamente. E, da mesma forma que com informações fonológicas ou fonêmicas, os elementos do discurso gramaticais podem ser percebidos como objetos de análise. Essa capacidade, como outras metalinguísticas, associa-se à habilidade de monitorar a compreensão do que é lido17. Os automatismos de desempenhos gramaticais e a percepção dos componentes sintáticos e morfossintáticos devem mostrar correlação com o nível de compreensão do texto lido20.

É importante reconhecê-las e conhecer suas características e abrangências para poder evitá-las precocemente, uma vez que têm início antes mesmo do aprendizado da leitura e da escrita. A hipótese de que escolares com queixas ou dificuldades de leitura e escrita possam apresentar déficits de consciência sintática guiou este estudo.

O objetivo do presente estudo é investigar a presença de déficits de habilidades metassintáticas em escolares com dificuldades de aprendizagem identificadas por seus professores e analisar possíveis correlações entre essas habilidades e as de leitura e a compreensão oral.

Métodos

A presente pesquisa obedeceu o delineamento de estudo prospectivo transversal e foi desenvolvida no Departamento de Fonoaudiologia da instituição de origem. O estudo teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da institução de origem, CCAE 49351215.6.0000.5505.

A amostra foi composta por 29 crianças indicadas por seus professores, por não apresentarem queixas relacionadas à aprendizagem escolar - Grupo I (GI), ou com queixas de comunicação oral ou mediada pela escrita, que constituíram o Grupo II (GII). Todas foram recrutadas em em uma única escola do Ensino Fundamental da rede municipal de São Paulo (SP) no segundo semestre do ano letivo de 2015.

O GI foi composto por 15 crianças (10 meninas) e o GII por 14 crianças (7 meninas) de 4º e 5º ano do Ensino Fundamental. As idades das crianças variaram entre 9 anos e 11 anos e 7 meses (média = 126 meses).

Para seleção dos participantes, foram definidos os seguintes critérios gerais de inclusão na amostra: matrícula regular no 4º ou 5º ano do Ensino Fundamental em escola pública; ausência de evidência de déficits sensoriais, doenças neurológicas e/ou psiquiátricas ou queixas e indicadores de qualquer dessas condições.

Participaram do estudo as crianças que atenderam aos critérios de inclusão. Os responsáveis pelas crianças da amostra assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A escola também assinou o Termo de Anuência Institucional.

Procedimentos

Em ambos os grupos foi realizada uma entrevista com o professor responsável, para coleta de dados de identificação, e a informação sobre a presença, ou não, de queixa relacionada a fala/linguagem e/ou leitura/escrita, bem como à audição. Após selecionados, segundo essa indicação e a observância dos critérios de inclusão, os participantes foram avaliados por meio dos seguintes testes:

- Prova de compreensão oral: texto "O Urubu e as Pombas"21,22 constituído por uma história sem ilustração, composta por 14 nodos. Estes estão distribuídos em três episódios, considerando que cada episódio apresenta uma parte introdutória, o desenvolvimento e seu fim. A avaliadora contou a história e após ouvi-la, o escolar respondeu oralmente a oito perguntas abertas que lhe foram feitas, também oralmente, sobre o texto.

- Leitura oral: as crianças foram instruídas a ler um texto ("A coruja e a águia", para o 4º ano e "O pequeno engraxate", para o 5º ano) em voz alta, o mais rápido e corretamente que conseguissem. As leituras foram gravadas para o cálculo dos valores de taxa (palavras/minuto) e acurácia (palavras lidas corretamente/minuto).

- Compreensão leitora: as crianças receberam o texto explicativo "O tamanduá"23 - e, após o terem lido, responderam a 14 questões abertas que lhe foram formuladas oralmente. Essas questões permitem avaliar a compreensão literal, as de inferência por coesão textual e as de gap filling24,25. As respostas foram gravadas e transcritas para análise.

- Prova de Consciência Morfossintática26: consiste de dois subtestes: a) Composição, composta por cinco itens, que demandam flexão verbal ou de número e gênero a partir da palavra primitiva; b) Decomposição, composta por 14 itens de teste, que exigem identificar a palavra primitiva a partir da derivada. Em ambos os subtestes as palavras são apresentadas oralmente em sentenças.

- Prova de Consciência Sintática (PCS)27: consiste de quatro subtestes, que totalizam 55 itens: a) Julgamento Gramatical (JG), avalia a habilidade da criança de julgar a gramaticalidade. b) Correção Gramatical (CG) avalia a habilidade da criança corrigir frases agramaticais, tornando-as corretas. c) Correção Gramatical de Frases com Incorreções Gramatical e Semântica (FA) avalia a habilidade da criança de, tendo ouvido frases com anomalias tanto sintáticas quanto semânticas, pronunciar novamente as frases corrigindo as anomalias sintáticas, mas preservando as anomalias semânticas. d) Categorização de palavras (CP) avalia a habilidade da criança de classificar, em três colunas adjetivos, substantivos, e verbos, 15 palavras escritas em fichas.

O total das avaliações durou em média 30 minutos para cada criança e foram feitas individualmente, em horário e sala indicados pela direção e professoras da escola.

Os resultados foram classificados de acordo com a pontuação de cada teste e tabulados para a análise estatística.

Método Estatístico

Para o tratamento estatístico foram utilizados: teste não paramétrico de Mann-Whitney, para caracterização da amostra e comparação dos grupos com e sem queixa escolar quanto às variáveis, e Coeficiente de correlação de Spearman, usado para medir o grau de associação entre as variáveis em cada grupo.

Fixaram-se em p < 0,05 os valores de significância estatística.

Resultados

Na comparação dos dois grupos com relação ao desempenho em cada teste (Tabela 1) observaram-se diferenças significantes entre os grupos, nas tarefas de compreensão oral (valor de p = 0,023), subtestes de Julgamento Gramatical (JG), Frases com Incorreções Gramatical e Semântica (FA) e Categorização de Palavras (CP) e na pontuação geral da PCS (valor de p < 0,001), subteste de composição da prova de Consciência Morfossintática (valor de p < 0,001), taxa e acurácia de leitura (valor de p < 0,001) e na prova de compreensão leitora (valor de p < 0,001), com melhor desempenho do GI em todas as tarefas.

O subteste de Correção Gramatical da PCS, não mostrou diferença entre os grupos (valor de p = 0,112). Na prova de Consciência Morfossintática, subteste de decomposição, também não houve diferença entre os grupos (valor de p = 0,051), com valor bem próximo ao considerado significante.

Tabela 1: Comparação dos grupos gi (sem queixa) e gii (com queixa) para as variáveis estudadas 

* Valores estatisticamente significantes (p< 0,05) - Teste de Mann-Whitney (p)

Legenda: N = número de sujeitos; PCS = Prova de Consciência Sintática; PCMS = Prova de Consciência Morfossintática

As correlações entre as variáveis demonstraram diferenças significantes em cada grupo, conforme esperado. No grupo sem queixa (GI), algumas variáveis demonstraram correlações positivas, de moderadas a ótimas (Tabela 2). A prova de compreensão oral correlacionou-se com o subteste de Julgamento Gramatical da PCS. O subteste de Categorização de Palavras da PCS correlacionou-se com os valores de taxa e acurácia de leitura de texto. A taxa e a acurácia de leitura correlacionaram-se com a compreensão leitora.

Tabela 2: Correlação entre as variáveis do grupo sem queixa (gi) 

(*) Valores estatisticamente significantes (p< 0,05) - correlação de Spearman

Legenda: N = número de sujeitos; PCS = Prova de Consciência Sintática; PCMS = Prova de Consciência Morfossintática

No grupo com queixa (GII) também foram encontradas correlações positivas (p < 0,05). Entretanto, nenhuma correlação entre variáveis de leitura ou a compreensão oral e o desempenho nas provas de Consciência Morfossintática. Os subtestes da prova de Consciência Morfossintática, composição e decomposição correlacionaram-se entre si com a pontuação geral da PCS. A taxa e a acurácia de leitura de texto correlacionaram-se com a compreensão leitora.

Tabela 3: Correlação entre as variáveis do grupo com queixa (gii) 

(*) Valores estatisticamente significantes (p< 0,05) - correlação de Spearman

Legenda: N = número de sujeitos; PCS = Prova de Consciência Sintática; PCMS = Prova de Consciência Morfossintática

Discussão

A investigação das características de habilidades leitoras, metassintáticas e de compreensão oral evidenciou o pior desempenho do grupo de escolares com dificuldades de aprendizagem apontadas por seus professores. Piores valores de taxa e acurácia de leitura descreveram o desempenho do GII (Tabela I) o que mostrou que os professores envolvidos na pesquisa souberam indicar escolares com dificuldade de leitura, conforme indica a literatura28.

Déficits metalinguísticos relacionados à sintaxe geralmente se mostram associados a prejuízos do aprendizado ortográfico (tanto para a escrita quanto para a leitura) e deveriam expressar-se como baixos valores de acurácia leitora. Neste estudo, as comparações entre GI e GII mostraram pior desempenho em acurácia de leitura dos escolares com queixas de aprendizado. Estes também erraram mais nas tarefas que avaliaram consciência sintática, com exceção da tarefa de Correção Gramatical, que mostrou semelhança de desempenho entre os grupos. A simples correção gramatical, não parece ter sido tarefa difícil, mesmo para os escolares com dificuldade. O mesmo foi observado na tarefa decomposição morfossintática, provavelmente de mais fácil execução que os itens de composição de uma palavra a partir de um dado radical26.

De uma maneira geral, é possível pensar que os piores valores de acurácia possam estar associados a prejuízos sintáticos em nível metalinguístico. Porém, somente no GI, grupo sem queixas, a análise indicou a presença de correlação positiva moderada entre uma das variáveis de consciência sintática - a Categorização de Palavras e a taxa e acurácia leitoras, conforme esperado (Tabela II). Ou seja, quanto mais acertos ao categorizar sintaticamente as palavras, mais rápida e acurada se mostrou a leitura de oral de texto. Estes resultados corroboram com pesquisas anteriores4,13-16 que demonstraram em seus estudos que há correlação positiva entre o desempenho em consciência sintática e o posterior desempenho na leitura. Nenhuma correlação foi encontrada entre consciência sintática e acurácia leitora no grupo com queixas, o que parece mostrar que o prejuízo em consciência sintática não permite a utilização dessa habilidade enquanto recurso ou suporte para a leitura ortográfica como fazem os escolares sem queixa, dessa faixa de escolaridade4,13,15,16.O perfil de desempenhos do GII permitiu observar a presença de correlações positivas de boas a fortes somente entre variáveis da mesma natureza ou prova.

No GI, ao contrário, foi possível observar correlações entre algumas variáveis de diferentes dimensões da linguagem. A Prova de Compreensão Oral correlacionou-se com o subteste de Julgamento Gramatical da PCS. Essa correlação pode ser explicada pela hipótese de que habilidades metalinguísticas decorrem do desenvolvimento da linguagem oral, e promovem o aprendizado do código alfabético e a aquisição e desenvolvimento da leitura e da escrita. Ou seja, essas condições são decorrentes das características de desenvolvimento linguístico (ligadas a mecanismos cognitivos de baixa ordem cognitiva) tanto quanto das habilidades metalinguísticas, de alta ordem cognitiva3.

Os resultados encontrados neste estudo também mostraram que as crianças com queixa escolar relatada pelo professor, mostraram pior desempenho na prova de compreensão leitora. A hipótese de que as duas formas principais de conhecimentos linguísticos que sustentam a compreensão, a semântica (relacionada ao significado das palavras) e a gramática (morfemas combinados transmitem um significado) possam apresentar déficits associados aos de leitura e escrita1,29. Outros estudos também enfatizam a importância do uso de pistas gramaticais para a compreensão de frases e textos17,18. Apesar de esperadas, ao menos no GI, não foram encontradas correlações positivas entre os testes de compreensão leitora e provas sintáticas, em nenhum dos grupos.

Em ambos os grupos, a taxa e a acurácia de leitura se correlacionaram com a compreensão leitora. A relação entre a velocidade e precisão da leitura com a compreensão da informação lida é conhecida e amplamente estudada2,30.

Embora de uma maneira geral seja possível afirmar que os dois grupos diferem quanto ao desempenho em provas de compreensão oral e leitora e de habilidades metassintática, devem-se observar possíveis restrições de análise impostas pelo tamanho da amostra.

Conclusão

O grupo com queixas (GII) apresentou desempenho inferior ao GI tanto em tarefas metassintáticas, como de leitura e compreensão oral. Apenas o grupo sem dificuldades mostrou associação entre tarefa de consciência metassintática e taxa e acurácia leitora. Com estes resultados, enfatiza-se a relevância da estimulação de habilidades metassintáticas para o desenvolvimento da leitura e a inclusão de provas metassintáticas na avaliação da leitura, tanto quanto a utilização de atividades metassintáticas como recurso terapêutico.

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Trabalho realizado no Núcleo de Estudos, Assistência e Pesquisa em Escrita e Leitura do Departamento de Fonoaudiologia, Escola Paulista de Medicina Universidade Federal de São Paulo - EPM/UNIFESP - São Paulo (SP), Brasil.

Recebido: 04 de Abril de 2016; Aceito: 28 de Junho de 2016

Endereço para correspondência: Bruna Sana Teixeira, Rua Botucatu, 802, Vila Clementino, São Paulo (SP), Brasil, CEP: 04023-062, E-mail: bruna_sana@hotmail.com

Conflito de interesses: inexistente

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