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Revista CEFAC

Print version ISSN 1516-1846On-line version ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.20 no.2 São Paulo Mar./Apr. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0216201820214317 

ARTIGOS DE REVISÃO

Imagética motora e deglutição: uma revisão sistemática da literatura

Ada Salvetti Cavalcanti Caldas1 

Weldma Karlla Coelho1 

Roberta Ferreira Gomes Ribeiro1 

Daniele Andrade da Cunha2 

Hilton Justino da Silva2 

1Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira - IMIP, Recife, Pernambuco, Brasil

2Universidade Federal de Pernambuco - UFPE, Recife, Pernambuco, Brasil

RESUMO

Objetivo:

identificar na literatura os estudos que abordem o uso da imagética motora da deglutição.

Métodos:

uma revisão sistemática nas bases de dados SCOPUS, Science Direct e MedLine, com os descritores e termos livres: “Motor Imagery”; “Swallow”; “Feeding”; “Stomatognathic System”; “Mastication”, “Chew”; “Deglutition”; “Deglutition Disorders”; e “Mental Practice”. Incluídos artigos originais, com o uso da imagética motora da deglutição. Excluídas as revisões. Para análise dos dados, na primeira e segunda etapas foram realizadas a leitura dos títulos e dos resumos dos estudos. Na terceira etapa, todos os estudos que não foram excluídos foram lidos na íntegra.

Resultados:

foram selecionados 4 manuscritos. O uso da imagética motora na reabilitação da deglutição suscita ser uma proposta recente (2014 - 2015). A amostra foi reduzida e composta majoritariamente por indivíduos saudáveis. A Eletromiografia dos músculos supra-hioides foi utilizada em dois manuscritos. A técnica de neuroimagem mais utilizada foi o Near-Infrared Spectroscopy, demonstrando a ocorrência de mudanças hemodinâmicas durante a imagética motora e execução motora da deglutição.

Conclusão:

identificou-se que a imagética motora produz resposta cerebral na área motora do cérebro, sugerindo que a mentalização das ações relacionadas à deglutição é eficaz. No entanto, são necessários novos estudos para aplicação desta abordagem na reabilitação da deglutição.

Descritores: Sistema Estomatognático; Deglutição; Mastigação; Alterações da Deglutição; Alimentação

Introdução

A deglutição é uma função essencial para a manutenção da vida, fundamental na ingestão e absorção de nutrientes pelo organismo. Assim, durante a deglutição a passagem suave e segura dos alimentos e saliva da cavidade oral até à orofaringe acontece através de uma sequência coordenada de contrações musculares. E dessa forma, a deglutição pode ser classificada em fase oral, faríngea e esofágica a depender da localização do bolo alimentar 1. Esta atividade programada pode ser iniciada voluntariamente ou despertada por movimentos sinérgicos desencadeados por impulsos sensoriais da faringe posterior 2.

Todo este processo tem subjacentes mecanismos neurofisiológicos complexos que exigem a ativação de 55 músculos através de seis pares de nervos cranianos 3 e embora possa inicialmente ser ora consciente ou inconsciente, a fase final da deglutição ocorre através de mudanças pressóricas e de contrações da musculatura contrátil da faringe1. Essas alterações fazem parte de uma sequência motora pré-programada que sofre modulações específicas que dependem do feedback sensorial advindo da orofaringe, considerando-se a consistência e tamanho do alimento 4.

No córtex, a deglutição pode ser representada nas áreas da ínsula, do córtex pré-motor e do córtex sensoriomotor 5. Essa é uma função complexa, integrando inúmeros sistemas: sensorial (tátil, olfativo, gustativo e proprioceptivo); motor (coordenação motora-oral-faríngea; integração entre a respiração e componentes da mastigação; tônus; amplitude de movimento; força muscular), bem como componentes cognitivos 6.

A inabilidade ou dificuldade de deglutir pode ser comumente detectada em pacientes com alterações neurológicas 4 e requer treinamentos motores que favoreçam a recuperação funcional 6.

Nos últimos anos intensificaram-se as pesquisas com técnicas inovadoras, além das abordagens convencionais, principalmente no campo das afecções neurológicas 7,8, destacando-se a imagética motora (IM).

A IM pode ser conceituada como um estado dinâmico durante o qual a representação de uma ação motora específica é internamente ativada dentro de uma memória de trabalho sem que haja nenhuma resposta motora 9, ou seja, o indivíduo imagina uma ação a ser realizada, descrevendo a sequência de movimentos necessária para executar essa tarefa sem de fato realizar qualquer movimento. Esta técnica, portanto, é uma estratégia cognitiva que pode beneficiar a aquisição de habilidades motoras e a performance funcional de indivíduos em fase de reabilitação 10-12, ainda pouco utilizada para facilitar a atividade da alimentação.

A literatura sugere que a IM pode ser um instrumento terapêutico importante para facilitar a recuperação motora de indivíduos após lesão neurológica 9,12. Uma vez que a IM permite ativar o repertório motor em todos os níveis de reabilitação, a saber fase aguda, sub-aguda ou crônica da doença 9, pode ser usada como estratégia de treinamento para o reaprendizado de Atividades de vida diária (AVD) 13. Este tipo de abordagem é considerado um ensaio mental de propriedades cinestésicas e/ou visuais dos movimentos 9, estando relacionada diretamente à ativação da área motora e áreas do córtex somatossensorial 12.

Estudos demonstram que a IM gera modificações no desempenho motor 10,11 e que pode ser usada como uma abordagem preparatória, uma vez que aumenta a eficiência do treinamento físico subsequente 9. A hipótese destas modificações no desempenho funcional pode estar relacionada à possibilidade do treinamento neural estabelecer, na primeira fase de treinamento muscular, o aumento da força muscular, causado por mudanças adaptativas nos processos centrais e não por hipertrofia muscular, sugerindo que os ganhos observados após a IM são devidos a mudanças neurais nos níveis de programação e planejamento do sistema motor 10.

Do ponto de vista neurológico, já é bem difundido na literatura que a área motora primária, principal responsável pela motricidade, e a área suplementar motora, envolvida no planejamento de sequências complexas, são ativadas durante a execução do movimento 14.

Estudos sugerem que o córtex pré-motor e motor primário são cruciais durante a IM como também na execução motora. Propõem ainda que o córtex motor primário cause mais mudanças em áreas motoras durante a execução motora (EM) do que na IM devido a interação com área motora suplementar 15) -(17. Em resumo, os resultados de diferentes estudos demonstraram que a IM pode aumentar a performance de tarefas motoras e que este aumento pode estar associado a mudanças fisiológicas e plásticas do Sistema Nervoso Central.

Nesse contexto, a IM direcionada a função de deglutição pode ser pensada a partir da compreensão da neuroplasticidade. Estudo sobre a plasticidade do Sistema Nervoso Central após lesões isquêmicas ou mecânicas descreve que a recuperação neurológica na disfagia é discorrida a partir do recrutamento de neurônios adjacentes à área cerebral lesionada, bem como através da ativação de áreas distantes do foco principal, com organização e alinhamento neuronal ipsi- e contralateralmente 18, já que a representação cortical da deglutição normal é bilateral 19.

Diante disso, a literatura sinaliza que a ativação cerebral compartilhada pelas áreas de deglutição e de elevação de língua sugerem a possibilidade de usar a imagética motora do movimento de protrusão da língua como um meio de praticar a imagética motora da deglutição, revelando ainda que o input sensorial da língua e deglutição são semelhantes 6. Desta forma, a IM da deglutição é pautada nos princípios da neuroplasticidade, considerando-se ainda a fase oral da deglutição, na qual ocorre o posicionamento do bolo alimentar na língua e a ejeção deste para faringe de forma voluntária, numa sequência coordenada de contrações musculares 2.

A compreensão da associação entre a IM e a atividade da alimentação pode potencializar o processo de reabilitação da deglutição de indivíduos após Acidente Vascular Encefálico (AVE), contribuindo com a prática clínica de profissionais, e em destaque os fonoaudiólogos, envolvidos no tratamento desses sujeitos. Nesse contexto, este estudo objetiva identificar na literatura os estudos que abordem o uso da imagética motora durante a função da deglutição.

Métodos

A revisão sistemática da literatura foi realizada a partir das bases de dados SCOPUS, Science Direct e Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MedLine), através da plataforma PUBMED. A busca de dados foi realizada por três pesquisadores independentes, tendo ocorrido no período de setembro de 2016 a janeiro de 2017. Foi elaborada uma estratégia específica para o cruzamento dos descritores (DeCS/MeSH) - palavras-chaves para recuperação de assuntos da literatura científica e termos-livres (TL) - termos não encontrados no DeCS e MeSH, mas de relevância para a pesquisa.

Em todas as bases de dados foi realizada uma estratégia de busca com a sintaxe: “Motor Imagery”(TL) AND “Swallow”(TL); “Motor Imagery”(TL) AND “Feeding” (DeCS); “Motor Imagery”(TL) AND “Stomatognathic System”(MESH); “Motor Imagery”(TL) AND “Mastication”(MESH); “Motor Imagery”(TL) AND “Chew”(TL); “Motor Imagery”(TL) AND “Deglutition”(MESH); “Motor imagery”(TL) AND “Deglutition Disorders”(MESH).  Os cruzamentos acima também foram realizados com o termo livre “Mental Practice” substituindo o termo “Motor Imagery” (TL).

Os critérios de inclusão dos estudos encontrados pe las buscas nas bases de dados foram: ser artigos originais; abordar o uso da imagética motora na reabilitação da deglutição, da atividade da alimentação e/ou de componentes do sistema estomatognático relacionados a essa atividade, sem restrição de idioma e período. Foram excluídas revisões sistemáticas, bem como artigos que abordavam a tentativa de reabilitação de outras partes do corpo, sem focar na atividade da deglutição, da alimentação ou em componentes do sistema estomatognático.

Esta revisão seguiu a metodologia adotada pela Cochrane Brasil, não tendo sido adicionados filtros durante a busca de manuscritos, não havendo qualquer restrição de faixa etária, gênero ou ano de publicação. De acordo com os critérios seguidos pela Cochrane, uma revisão sistemática deve ter uma busca ampla na literatura com o objetivo de identificar o maior número possível de estudos relacionados à questão, reunindo-se dados semelhantes e avaliando-se criticamente a metodologia empregada, promovendo a prática baseada em evidências 20.

Os artigos deveriam preencher os critérios de seleção, permitindo-se, por parte dos avaliadores, três respostas: sim, não e talvez. O artigo que obteve apenas respostas "sim" e/ou "talvez" de dois avaliadores foi incluído. Por outro lado, a publicação com resposta “não” por dois avaliadores excluiu o artigo da análise. Os resultados dos dois avaliadores foram comparados e, em caso de divergência quanto à seleção do artigo, foi solicitado que o artigo fosse avaliado por um terceiro avaliador (juiz).

A seleção dos artigos encontrados foi realizada em três etapas. Na primeira etapa, foi realizada a leitura dos títulos e excluídos aqueles que não se enquadravam a qualquer um dos critérios de seleção. Na segunda etapa, foi realizada a leitura dos resumos dos estudos e na terceira etapa, todos os estudos que não foram excluídos foram lidos na íntegra para seleção dos que seriam incluídos nesta revisão.

Revisão da Literatura

Na base de dados MedLine, via PubMed, cruzando-se as palavras-chaves e termos livres, foram encontrados 387 artigos, dos quais 57 trabalhos foram excluídos por repetição. Já na base SCOPUS foram encontrados 476 artigos (119 artigos repetidos). Na base de dados Science Direct encontrou-se 77 artigos, excluindo-se 13 por repetição.

Considerando os critérios de inclusão e de exclusão, 04 artigos foram selecionados para esta revisão sistemática 6,21-23. O fluxograma, que mostra de forma detalhada este processo, segue o modelo do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) 24 (Figura 1).

Figura 1: Fluxograma e critérios de seleção e inclusão dos artigos 

Para melhor apresentação dos resultados optou-se por con siderar as seguintes variáveis dos artigos selecionados: autor (ano); país (setor); objetivo; sujeitos; idade; critérios de inclusão; critérios de exclusão; patologia (tempo, área e lado da lesão encefálica); avaliações funcionais; técnica (imageamento); estratégia (imagética motora); principais áreas cerebrais estudadas; e resultados (Figuras 2 e 3).

Legenda: EM: Execução Mortora; IM: Imagética Motora; NIRS: Near-Infrared Spectroscopy Study; AVE:Acidente Vascular Encefálico; Oxy-Hb: Oxiemoglobina; Desoxy-Hb: Desoxiemoglobina;Pctes: Pacientes; MEEM: Mine-Exame do Estado Mental; P:população de estudo; H: Homens: M: Mulheres; mL/s: Mililitro por segundo

Figura 2: Quadro com caracterização dos estudos que realizaram a imagética motora da atividade da deglutição 

Legenda: EMG: Eletromiografia de superfície; IM: Imagética motora; EM: Execução motora; NIRS: Near-Infrared Spectroscopy Study; mm: milímetros; L: Litro; s: segundos; Oxy-Hb: Oxiemoglobina; Desoxy-Hb: Desoxiemoglobina; EEG: Eletroencefalograma; AVE: Acidente Vascular Encefálico; Pcte/Pctes: Paciente(s);mL: mililitro; NF: Neurofeedback; min: minutos; MIQ-R: Questionário de Imaginação Motora na versão revisada

Figura 3: Quadro com detalhamento das avaliações funcionais, das técnicas de neuroimagem, da imagética motora e das áreas cerebrais estudadas nos artigos selecionados 

Na busca de dados na literatura, os estudos eleitos propuseram pesquisar a imagética motora da deglutição através de metodologias distintas, não sendo possível o agrupamento de dados por meio de análise estatística. Diante dessa heterogeneidade, o resultado deste estudo será em forma de revisão sistemática sem metanálise.

O uso da imagética motora na reabilitação da deglutição suscita ser uma proposta recente, já que os quatro artigos selecionados estão entre os anos de 2014 e 2015 6,21-23. A literatura aponta claramente a eficácia do uso da IM como adjuvante na reabilitação motora do membro superior em indivíduos com alguma disfunção neurológica 25-27. Porém é incipiente o número de artigos que sugerem correlacionar essa técnica com movimentos de língua e, ainda assim, tais pesquisas não focam na reabilitação da deglutição 28,29.

Os países onde foram publicadas as pesquisas em questão são distintos, no entanto estudiosos da Aústria e Holanda dão sinais de que estão envolvidos em pesquisa longitudinais, aperfeiçoando a temática 21-23. Em 2014 21 esses pesquisadores abordaram o uso da IM através de técnica de neuroimagem, verificando mudanças na hemodinâmica cerebral. Em 2015 23, esse mesmo grupo aprofunda a metodologia com estratégias de neurofeedback, com treinamento da modulação dos níveis de oxigênio cerebral durante a IM da deglutição. Já autores de Singapura 6 propuseram investigar a detecção da IM da deglutição como proposta de reabilitação através da IM dos movimentos de língua (protrusão).

De certo é presumível que em países sul-americanos, como o Brasil, em que a reabilitação da disfagia já é consolidada 30,31, possivelmente ainda não foi despertada a intenção de introduzir a abordagem da IM na prática clínica para o tratamento das alterações da deglutição. Talvez o número limitado de estudos seja uma barreira para a expansão dessa técnica nos países latinos.

Acredita-se que o entendimento da proposta terapêutica da IM pelo profissional de fonoaudiologia potencializaria novas perspectivas na reabilitação da disfagia, considerando que o envolvimento de complexas funções cerebrais e do conhecimento do campo da deglutição requer uma ação interdisciplinar. Isso é outro ponto a ser refletido quando se observa os departamentos em que os quatro estudos dessa revisão foram subordinados (reabilitação e psicologia).

Tal questão também se ancora na complexidade dos caminhos metodológicos traçados em cada manuscrito, diferentes desde a seleção da amostra à escolha dos instrumentos e etapas de execução da IM.

Na amostragem, o número de participantes nos estudos variou de 6 a 20 sujeitos, compostos majoritariamente por indivíduos saudáveis e com idade de até 35 anos. Supõe-se que por ser uma técnica recente na reabilitação da deglutição, houve o interesse de estudar inicialmente uma população saudável, na tentativa de melhor entendimento dessa proposta terapêutica.

Dois estudos envolveram disfunção neurológica 6,21, caracterizada por 05 indivíduos com AVE, subdivididos em lesão de tronco encefálico (03 - 60%) e lesões na artéria cerebral média (02 - 40%). O tempo após o evento foi descrito com variação de 71 a 254 dias no estudo série de casos 22, e, então, considerando-se uma amostra ainda na fase subaguda da doença. Já no manuscrito com um único caso de AVE 6, o paciente apresentava lesão crônica há um ano.

Lesões na região do tronco encefálico comumente trazem alterações na deglutição, bem como a interrupção do fluxo sanguíneo na artéria cerebral média pode acarretar em diversas alterações sensório motoras, afetando face e a movimentação dos membros superiores e inferiores no lado contralateral a lesão encefálica 32. Em ambos os estudos o foco permeou investigar o comportamento cerebral de pessoas com disfagia durante a IM e EM da deglutição, comparando-os aos indivíduos sem disfunções neurológicas.

Na elegibilidade, para os indivíduos saudáveis foram descartadas quaisquer alterações neurológicas e psiquiátricas, bem como déficit sensorial ou motor. Além disso, não seria possível admissão de pessoas com desordens na deglutição 6,21-23. Já no grupo de participantes com AVE, houve a exigência da disfagia 6,22, no entanto sem outras desordens neurológicas e psiquiátricas, com capacidade preservada para compreensão e comunicação 22.

Para verificar a função da deglutição, apenas um artigo utilizou a avaliação padronizada Bogenhausen Dysphagia Score (BODS) 22 para determinar o grau de disfagia dos 04 participantes com sequela de AVE, classificando-os em leve (escore 4), moderado (escore 5-6), moderado-severo (escore 9) e grave (escore 11).

O BODS consiste numa avaliação alemã utilizada por terapeutas da fala na Europa, que avalia a capacidade de deglutir saliva e de ingestão de alimentos 33. A estratificação da população em grau de comprometimento da disfagia, além de se identificar a variabilidade da amostra, suscita preocupação do pesquisador na análise de riscos, remetendo a escolha de estratégias seguras de intervenção para trabalhar a reabilitação da deglutição. Na pesquisa em questão a água não foi utilizada.

A Eletromiografia de superfície (EMG) dos músculos supra-hioides foi utilizada em dois manuscritos durante a IM da deglutição, trazendo dados quantitativos sobre a atividade elétrica dessas musculaturas 6,21. Essas informações foram utilizadas como um controle do movimento ativo (motor) durante a IM na fase oral da deglutição.

Na análise dos músculos supra-hioides 21, os pesquisadores identificaram que a atividade elétrica dessa musculatura aumentou durante a execução do movimento em comparação com a IM e o repouso. Houve ainda um aumento numérico (não estatisticamente significativo) na atividade elétrica durante IM quando comparado ao repouso. Em discussão, cita a hipótese de que a redução da magnitude do sinal elétrico durante a IM tenha raiz na inibição cortical do movimento (comando motor) durante a IM.

Estudos mostram similaridade na ativação de áreas cerebrais durante EM e IM, destacando o Motor Primário (M1), Área motora Suplementar (SMA), Pré-Motor e córtex somatosensorial no lobo parietal 15,16. No entanto, a supressão exercida pelo SMA ao M1 durante IM também vem sendo relatada em outros estudos 15,17. Acredita-se que esse efeito inibitório seja um mecanismo fisiológico para impedir que haja o movimento durante a IM.

Para saber se a população de estudo compreendia a técnica da imagética motora, um único artigo utilizou o Questionário de Imaginação Motora na versão revisada - MIQ-R 23. Esse questionário é o mais utilizado para verificar, através de escores, a capacidade de imaginar um movimento por meio de uma estratégia visual ou cinestésica, envolvendo movimentos da perna, braço e de todo o corpo 34.

A técnica de neuroimagem mais utilizada foi o Near-Infrared Spectroscopy - NIRS (03 - 75%) 21-23 pelo grupo de pesquisadores da Áustria e Holanda. A espectroscopia por infravermelho (NIRS) é uma das principais técnicas utilizadas para observar a oxigenação tecidual, mais especificamente o fluxo da oxiemoglobina (Oxy-Hb) e desoxiemoglobina (Desoxy-Hb) em regiões musculares e cerebrais 35. A mudança de oxigenação sanguínea em resposta a um estímulo reflete num maior nível de ativação cerebral, ou seja, na área em que ocorre maior ativação cortical há alteração no fluxo e volume sanguíneo, podendo ser monitorado, através do NIRS, as concentrações de oxi- e desoxiemoglobina. Nesta revisão, esses autores propuseram verificar essa mudança da hemodinâmica cerebral nas áreas de Brodmann, focando no giro frontal inferior, durante a execução e imaginação dos movimentos deglutitórios.

Com indivíduos saudáveis 21, os resultados do NIRS corroboram outros estudos de neuroimagem sobre a ativação de áreas pré-motoras e SMA durante a EM e IM 15,17. Houve aumento da oxy-Hb durante a EM (deglutir água) e a Desoxy-Hb teve maior concentração durante as tarefas do que no repouso. Durante a execução motora já seria esperado um aumento do fluxo de oxy-Hb e o mecanismo inibitório durante a IM, discutido acima, pode ser uma hipótese para essas mudanças hemodinâmicas. Em contrapartida, não foi possível diante desses resultados fazer inferências para a população com alterações neurológicas e nem propor formas de tratamento.

A modulação do fluxo de oxigênio foi objetivada através do uso do NIRS e neurofeedback 23. Os participantes foram divididos em dois grupos (oxy- e desosy-Hb) e instruídos a observar um ponto branco numa tela de computador com listras de cores verde e cinza. O voluntário deveria imaginar deglutir água a depender da cor da listra em que o ponto branco se posicionasse.

Para o treino de neurofeedback, diferentes valores de oxy- ou desoxy-Hb (respectivamente em cada grupo) foram alcançados no giro frontal inferior, sendo representados por mudanças na orientação vertical do ponto branco na tela. Os resultados apontaram que os níveis de oxy- e desoxy-Hb aumentam tanto durante a IM e EM. No grupo de indivíduos que treinaram a modulação da desoxy-Hb, obtiveram um aumento no nível de desoxy-Hb no giro frontal inferior. Esse estudo propôs intervenção e a possibilidade de reorganização cortical, embora tenha sido realizado com indivíduos saudáveis.

Em 2013, um estudo piloto utilizou o NIRS com a proposta de neurofeedback na imagética motora de pacientes pós-AVE, corroborando ser possível a reorganização cortical em pacientes neurológicos, com potencialização da recuperação funcional durante reabilitação. No entanto, neste estudo os movimentos imaginados foram restritos ao membro superior, não tendo sido ainda analisada a função da deglutição 36.

Já o estudo com NIRS em pacientes neurológicos 22 mostrou a ocorrência de mudanças hemodinâmicas na IM e EM da deglutição em pacientes com disfagia e de forma mais pronunciada, no giro frontal inferior, reforçando a possibilidade de reabilitar essa função através da IM. No giro frontal inferior está localizada a área de Broca, grande responsável pela linguagem, e também está situado o controle dos movimentos sensório motores orofaciais não relacionados à fala, havendo ativação durante a deglutição 37.

Os autores de Singapura 6 corroboram a ideia de reabilitar disfagia através da IM da deglutição. Nesse estudo com eletroencefalograma (EEG), a IM dos movimentos de língua foi utilizada como modelo para detecção da IM da deglutição. O estudo propôs que as áreas cerebrais responsáveis pela deglutição são ativadas durante o movimento de elevação da língua e cita o córtex cingulado e a área motora suplementar.

A literatura aponta que a extensão e distribuição de ativações cerebrais podem diferir na IM e EM, no entando tanto na IM quanto na execução de atividades, as redes neurais que envolvem áreas motoras centrais são ativadas. Essas áreas participam do planejamento, iniciação e execução de comandos motores 38. A área motora suplementar juntamente com o córtex pré motor mandam impulsos neuronais ao córtex motor primário e são constantemente ativados durante a IM e EM. Além disso, na sincronização e coordenação de movimentos da deglutição, já é evidente na literatura a associação das áreas corticais como ínsula e córtex pré motor 5 .

Em conssonância, estudo sobre a ativação cerebral e conexões que ocorrem durante a imagética motora, aponta que o córtex primário motor, área motora suplementar e o córtex pré-frontal desempenham papel crucial durante a IM e a EM. A interação entre áreas cerebrais e rede de conectividade efetiva mostra a importância da relação de tratamentos como a prática mental e terapias físicas durante a reabilitação motora 39.

Na ocorrência de afecções neurológicas, a IM associada a EM fortalece a ocorrência de conexões na área motora cortical no lado cerebral afetado e reorganiza a conectividade da rede neural do hemisfério cerebral contralateral a lesão 40, tratando-se de uma estratégia efetiva na reabilitação da disfagia, já que a representação cortical da deglutição normal é bilateral 19.

No estudo em questão 6, sugere-se que na prática clínica, a IM da deglutição ou da língua podem ser utilizadas na reabilitação da deglutição em situações comuns, tais como deglutições fracas, a exemplo em pacientes com disfagia pós-Acidente Vascular Encefálico, bem como naqueles indivíduos que tem atraso em iniciar a deglutição, reduzindo o tempo de latência no início da fase faríngea e precavendo situações relacionadas a escape e a aspiração.

No entanto, sinaliza a dificuldade de realizar a IM da deglutição diante da complexidade do movimento que envolve processamento sensorial, coordenação dos movimentos de mastigação, respiração e atenção. Tal como o estudo realizado com NIRS, necessita de um número maior de participantes para suscitar inferência para a população geral e viabilizar a incorporação da técnica de forma adjuvante na reabilitação convencional da deglutição 22.

Conclusão

Os estudos sugerem que a imagética motora pode ser capaz de ocasionar alguma resposta cerebral na área motora do cérebro, sugerindo que a mentalização das ações relacionadas à deglutição possa ser eficaz para melhorar o desempenho motor dessa função e consequentemente repercutindo também na atividade da alimentação. No entanto, ainda são necessários novos estudos com um maior número de participantes que possibilite introduzir essa técnica na intervenção clínica dos profissionais envolvidos na reabilitação da deglutição.

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Recebido: 17 de Setembro de 2017; Aceito: 21 de Março de 2018

Endereço para correspondência: Ada Salvetti Cavalcanti Caldas, Pós-graduação em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento - Universidade Federal de Pernambuco - UFPE, Av. Prof. Moraes Rego, s/n Cidade Universitária, CEP: 50670-420 - Recife, Pernambuco, Brasil, E-mail: adasc@hotmail.com

Conflito de interesses: Inexistente

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