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Revista CEFAC

versão impressa ISSN 1516-1846versão On-line ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.20 no.3 São Paulo maio/jun. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0216201820320117 

ARTIGOS ORIGINAIS

Efeitos de um programa de reabilitação vestibular em trabalhadores no ambiente de trabalho: estudo piloto

Isadora Altero Longo1 

Ariane Diane Morais Nunes1 

Clayton Henrique Rocha1 

Fabiana Mara Branco2 

Renata Rodrigues Moreira2 

Ivone Ferreira Neves-Lobo1 

Raquel Aparecida Casarotto1 

Alessandra Giannella Samelli1 

1Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - São Paulo, SP, Brasil.

2Hospital Universitário da Universidade de São Paulo - São Paulo, SP, Brasil.

RESUMO

Objetivo:verificar o efeito de um programa de reabilitação vestibular em trabalhadores com tonturas da Divisão de Nutrição e Dietética de um Hospital Universitário.

Métodos:

participaram 13 trabalhadores, um do sexo masculino e 12 do feminino, com idades entre 42 e 65 anos. Todos foram avaliados pré e pós programa de reabilitação vestibular por meio do Dizziness Handicap Inventory, Índice de Capacidade para o Trabalho e Escala Visual Analógica. O programa foi realizado em grupos no local de trabalho. Na análise estatística foram utilizados o teste análise de variância para um fator pareado e o Qui-quadrado.

Resultados:

na comparação pré e pós reabilitação vestibular foram verificadas diferenças significantes na pontuação do Dizziness Handicap Inventory e da Escala Visual Analógica. Na análise qualitativa do Índice de Capacidade para o Trabalho observou-se aumento do número de trabalhadores que passaram a considerar melhor sua capacidade para o trabalho.

Conclusão:

a reabilitação vestibular realizada em grupos e no próprio ambiente de trabalho mostrou-se efetiva para a melhora na queixa de tontura nos trabalhadores da Divisão de Nutrição e Dietética. Acredita-se que a experiência positiva deste programa possa ser estendida para outros setores.

Descritores: Trabalho; Trabalhadores; Tontura; Reabilitação; Qualidade de Vida

Introdução

Os benefícios de ações voltadas para a saúde do trabalhador já foram amplamente demonstrados devido suas positivas implicações para o trabalhador e, consequentemente, para a empresa. Embora seja uma prática universal promover atividades que contribuam para a promoção da saúde e a melhora da qualidade de vida no local de trabalho, estas ações estão mais voltadas para os sintomas osteomusculares.

A tontura é considerada uma das queixas mais frequentes na prática clínica, estando presente entre 5% a 10% da população mundial. Do mesmo modo, em trabalhadores, estima-se que a prevalência da tontura está entre 12 a 13% 1. A tontura pode ser definida como ilusão de movimento do próprio indivíduo ou do ambiente que o cerca 2. Pode ser caracterizada como rotatória e não rotatória. A primeira geralmente é de origem vestibular e é denominada vertigem, já a segunda, pode ou não ser de origem vestibular 3.

Indivíduos com tontura podem apresentar queixas associadas, tais como dificuldade de concentração, perda de memória, fadiga, insegurança física e psíquica, irritabilidade, ansiedade, perda da autoconfiança, depressão e pânico, além de sudorese, náusea e vômitos2. Tais dificuldades podem levar a restrições sociais e das atividades diárias, interferindo inclusive no desempenho do trabalho e, consequentemente, afetando a qualidade de vida 4. Estudo realizado em trabalhadores com queixa de tontura verificou que 27% referiram mudar de emprego e 21% pararam de trabalhar. Do grupo de trabalhadores que continuou exercendo as mesmas atividades laborais, mais de 50% perceberam que a sua eficiência no trabalho diminuiu consideravelmente. Além disso, foi estimado que, em seis meses, o número médio de dias de afastamento devido à tontura foi de 7,15 dias 5.

Embora a vertigem seja uma queixa bastante frequente, muitas vezes não são encontradas alterações nos exames vestibulares. A justificativa para este fato está na hipersensibilidade do labirinto para as alterações em outros órgãos ou sistemas do corpo, gerando as alterações vestibulares secundárias e pouco comprometimento do aparelho vestibular, mesmo na presença do sintoma da vertigem. Sendo assim, a aplicação de questionários validados e a obtenção por meio de anamnese de dados da história clínica e familiar são fundamentais para a hipótese diagnóstica e definição de tratamento 6.

A reabilitação vestibular (RV) tem se mostrado um método efetivo para a eliminação ou diminuição das queixas de tontura ou vertigem em diferentes populações, com ou sem alteração vestibular identificada em exames vestibulares 7,8.

A RV consiste em um conjunto de exercícios que visam a estimulação dos reflexos vestibulococlear, vestibulocervical e vestibuloespinal com o objetivo de acelerar o processo de recuperação funcional do equilíbrio 9. O elemento central desse tratamento é um programa de exercícios no qual são estimulados movimentos dos olhos, cabeça e corpo, projetados para estimular o sistema vestibular 10.

Estudos recentes com RV demonstraram a melhora sensível do sintoma da tontura em populações de idosos e outras populações com alterações vestibulares crônicas 11,12. Não foram encontrados na literatura compulsada estudos sobre a efetividade da RV especificamente em trabalhadores ou que tenha sido realizada por meio de ações de promoção da saúde do trabalhador em grupo e no ambiente de trabalho.

O Índice de Capacidade para o Trabalho (ICT), já testado e validado para o português, é um instrumento que tem sido frequentemente utilizado no intuito de avaliar quão bem está um trabalhador e quão capaz ele está em executar suas tarefas em função das exigências, de seu estado de saúde e capacidades físicas e mentais 13. A presença de sintomas e doenças e a autopercepção do estado de saúde é considerada como a base da capacidade para o trabalho 14,15.

Sabendo dos efeitos da tontura na qualidade de vida do trabalhador e considerando a efetividade de programas de RV, sendo um método de baixo custo e sem necessidade de equipamentos especializados, acredita-se que uma ação voltada para a estimulação do sistema vestibular possa contribuir na melhora do sintoma da tontura e, consequentemente, na qualidade de vida e capacidade para o trabalho. Espera-se que a análise dos efeitos deste programa possa contribuir para que futuras ações em grupo possam ser desenvolvidas no próprio ambiente de trabalho.

Este relato de experiência teve como objetivo analisar o efeito de um programa de reabilitação vestibular (RV) em trabalhadores com queixas de tontura no próprio ambiente de trabalho e verificar a sua influência na percepção para a capacidade de trabalho.

Métodos

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo - HUUSP, segundo o parecer nº 346.064, respeitando a Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.

Casuística

Trata-se de um estudo quase-experimental (sem grupo controle), com a participação de 13 indivíduos com queixas de tonturas, sendo um do sexo masculino e 12 do feminino, todas na função de auxiliares de cozinha, com idades entre 42 e 65 anos, da Divisão de Nutrição e Dietética (DND) de um Hospital Universitário. Todos os participantes, após os esclarecimentos a respeito da pesquisa, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

A DND é a divisão responsável pela preparação das refeições para os pacientes internados e seus acompanhantes, e para os funcionários, estagiários e residentes do hospital. Possui 120 trabalhadores que exercem as funções de nutricionistas, técnicos de nutrição, cozinheiros e auxiliares de cozinha; com carga horária de trabalho de 8 horas, divididos em três turnos (manhã, tarde e noite), e plantões de 12 horas nos fins de semana e feriados.

A DND existe há mais de 40 anos, e muitos funcionários estão desde sua criação. Por serem atividades pesadas, pelo envelhecimento e por doenças crônicas, alguns destes funcionários adquiriram restrições para a execução de algumas de suas tarefas. Essa restrição foi o motivo da solicitação da diretoria do DND para a avaliação do setor e desenvolvimento de ações que pudessem melhorar as situações de trabalho.

Durante esta avaliação, 23 trabalhadores que exerciam as funções de cozinheiros e auxiliares de cozinha apresentavam restrições para a realização do trabalho. Para a grande maioria, a restrição estava relacionada com queixas músculos-esqueléticas, mas a tontura e episódios de quedas, no trabalho e em casa, também foram relatados. Assim, observou-se a necessidade de trabalhar a reabilitação do equilíbrio com este grupo, para diminuir as crises de tontura e os episódios de quedas.

A seleção de trabalhadores para participação no estudo foi realizada em etapas. Na primeira, foi feita uma triagem prévia por meio de anamnese destes 23 trabalhadores da DND, para verificar a presença de tontura nos últimos 12 meses dentro e/ou fora do ambiente de trabalho. Foram excluídos 10 trabalhadores que não apresentavam este sintoma ou que não poderiam participar do programa por estarem em período de férias. Vale ressaltar que os trabalhadores realizam acompanhamento médico periodicamente.

Na segunda etapa, foram incluídos os 13 trabalhadores que apresentavam queixas de tonturas nos últimos 12 meses, não realizavam tratamento para vertigem e não apresentavam doenças neurológicas ou psiquiátricas evidentes. Além disso, foi realizada a manobra de Dix Hallpike para descartar a Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB) 10.

Procedimentos

Os trabalhadores envolvidos foram orientados a respeito de cada procedimento, destacando que todas as atividades seriam realizadas na área de conforto do setor, em horário pré-estabelecido e combinado com a chefia e o funcionário, durante a jornada de trabalho. Como a proposta do estudo foi realizar a RV no local de trabalho, foram selecionados procedimentos simples e de fácil aplicação e reprodução. Os funcionários que relatavam tonturas frequentes foram orientados a procurar o serviço de otorrinolaringologia do hospital, para avaliação e conduta médica.

Todos os participantes foram avaliados pré aplicação do programa de RV e ao término com os seguintes instrumentos:

1. Dizziness Handicap Inventory (DHI), traduzido e validado para o idioma português brasileiro, o qual avalia a percepção dos efeitos provocados pela tontura, e aborda os aspectos físico, emocional e funcional. Sua pontuação varia de zero a 100 e são classificadas da seguinte forma: sem handicap de zero a 25; de 26 a 50 com handicap leve; de 51 a 75 com handicap moderado e de 76 a 100 com handicap severo 16. Quanto maior for o Handicap, maior será o prejuízo ocasionado pela tontura;

2. Índice de Capacidade para o Trabalho (ICT), traduzido e validado para o idioma português brasileiro, o qual avalia as capacidades física, mental e social para o trabalho de acordo com a percepção do indivíduo 13,17. A pontuação varia de zero a 49, sendo classificado de sete a 27 como baixa capacidade, de 28 a 36 como capacidade moderada, de 37 a 43 como boa capacidade e de 44 a 49 como ótima capacidade para o trabalho. Quando ocorre redução de 18 pontos na soma das escalas, é considerada como critério de melhora.

3. Escala Visual Analógica (EVA) do sintoma de tontura, em que o sintoma foi graduado pelo trabalhador de zero a 10, onde zero correspondia à ausência de tontura e 10 à maior tontura que já sentiu.

O programa de RV foi aplicado pelos fonoaudiólogos e fisioterapeutas residentes do hospital, com base nos protocolos de Cawthorne (1944) 18 e Cooksey (1946) 19. Os protocolos de exercícios buscam associar movimentos de olhos, cabeça e corpo em diferentes posturas, velocidades e alternando a presença da compensação visual 18-20. O programa consistiu em oito sessões, com duração média de vinte minutos. O número de sessões foi definido de acordo com a média dos estudos revisados 4,10; já o tempo de cada encontro foi de acordo com o disponibilizado pela coordenação da divisão, pois os atendimentos foram realizados no horário e local de trabalho.

Foram formados grupos de dois ou três trabalhadores, com grau da queixa parecidos, nos turnos matutino e vespertino da divisão. Todos os trabalhadores se submeteram ao mesmo programa de exercícios e em cada sessão, era avaliado o grau de dificuldade para a realização dos exercícios, passando um novo exercício quando o anterior era completado adequadamente. Os participantes foram orientados sobre a importância de comparecer em todas as sessões, além de realizar os exercícios em casa, pois isto implicaria na efetividade do programa de RV.

Foi entregue aos trabalhadores um folder com a explicação dos exercícios, além de orientações para realizar diariamente os exercícios em casa. Para acompanhar a realização dos exercícios em casa, os trabalhadores receberam um caderno para anotações, onde deveriam anotar se realizaram os exercícios, e o grau da tontura que sentiram, sendo este grau classificado de 0 a 4, onde 0 equivale a “sem tontura” e 4 equivale a “tontura insuportável”. O trabalhador foi orientado a interromper o exercício em casa, caso o grau fosse superior a 2. Essa classificação foi utilizada com o objetivo de direcionar os exercícios realizados a cada semana de acordo com a percepção de tontura relatada pelo grupo, sem outra finalidade a não ser servir de parâmetro dos exercícios realizados em casa.

Ao final da realização dos oito encontros, além dos questionários já mencionados, aplicou-se uma autoavaliação da tontura a partir da seguinte pergunta: “Você acha que participar do programa melhorou sua tontura?” As respostas foram dadas de acordo com as alternativas: “não melhorou”, “melhorou”, “melhorou pouco”, “melhorou muito”; por último foi deixado um espaço aberto para críticas e/ou sugestões.

Foram realizadas análises descritivas, obtendo os valores de média e desvio padrão, e as porcentagens para os questionários pré e pós RV. Foi aplicada a análise de variância para um fator pareado e o teste Qui-quadrado (Teste Exato de Fisher), considerando-se como estatisticamente significantes valores de p≤0,05. Além disso, foram realizadas análises qualitativas por meio de questão aberta sobre a melhora da tontura após o programa de RV.

Resultados

Na Tabela 1 estão descritas a caracterização da amostra e as queixas de tontura relatadas pelos participantes do estudo.

Tabela 1: Perfil da amostra e prevalência e caracterização das queixas de tonturas relatadas 

Participante Sexo Idade Função Rotatória Não rotatória Escurecimento da visão Instabilidade/Desequilíbrio Sensação de desmaio Estocomas/Fosfena
P01 F 42 Auxiliar de cozinha Sim Sim Sim Sim
P02 M 56 Cozinheiro Sim Sim
P03 F 48 Auxiliar de cozinha Sim Sim Sim
P04 F 46 Auxiliar de cozinha Sim Sim Sim
P05 F 51 Auxiliar de cozinha Sim Sim Sim
P06 F 49 Auxiliar de cozinha Sim Sim Sim
P07 F 65 Auxiliar de cozinha Sim Sim
P08 F 51 Auxiliar de cozinha Sim Sim
P09 F 52 Auxiliar de cozinha Sim Sim Sim
P10 F 51 Auxiliar de cozinha Sim Sim
P11 F 51 Auxiliar de cozinha Sim Sim
P12 F 43 Auxiliar de cozinha Sim Sim
P13 F 46 Auxiliar de cozinha Sim Sim
Média de idade 50,08 - - - - - - -
Prevalência (%) - - 84,6% 15,4% 23,1% 92,3% 15,4% 23,1%

Legenda: Pn: Participante; F: Feminino; M: Masculino.

Pelo DHI nota-se diminuição, para a maior parte dos participantes, nas três subescalas dos handicaps após a realização da RV, com diferença estatisticamente significante na comparação da pontuação pré e pós RV nas três subescalas (Tabela 2).

Tabela 2: Resultados obtidos pela análise de variância para um fator pareado comparando os valores obtidos no Dizziness Handicap Invertory (DHI) (subescalas física, funcional e emocional e escala total) pré e pós o programa de reabilitação vestibular 

DHI Subescalas Avaliação Média DP Valor de p
Física Pré 12,33 4,96 0,041*
Pós 9 4,78
Funcional Pré 15,5 8,66 0,001*
Pós 10 7,43
Emocional Pré 9,83 10,3 0,046*
Pós 5,33 8,28
Escala Total Pré 37,66 21,12 0,003*
Pós 24,33 18,44

Legenda: DHI: Dizziness Handicap Invertory; DP: desvio padrão; Pré: avaliação pré-programa de reabilitação vestibular; Pós: avaliação pós programa de reabilitação vestibular. Foi adotado como valor de significância de 5%. *diferença estatisticamente significante.

Na Tabela 3, foi observada diferença estatisticamente significante entre as pontuações pré e pós RV para a EVA e, para o questionário ICT, não foi observada diferença estatisticamente significante.

3: Resultados obtidos pela análise de variância para um fator pareado comparando os valores obtidos na Escala Visual Analógica (EVA) e no Índice de Capacidade para o Trabalho (ICT) pré e pós o programa de reabilitação vestibular 

Avaliação Média DP Valor de p
EVA Pré 5,89 1,55 0,0001*
Pós 2,8 2,13
ICT Pré 32,83 3,66 0,201
Pós 43,91 6,41

Legenda: EVA: escala analógica visual; ICT: índice de capacidade para o trabalho; DP: desvio padrão; Pré: avaliação pré-programa de reabilitação vestibular; Pós: avaliação pós programa de reabilitação vestibular. Foi adotado como valor de significância de 5%. *diferença estatisticamente significante.

Na análise qualitativa do ICT e DHI (Tabela 4), foram agrupadas as categorias “baixa” e “moderada” e “boa” e “ótima” do questionário ICT; e os handicapssem” e “leve” e “moderado” e “severo” do DHI, pois o número de ocorrências em algumas das categorias era muito pequeno, o que inviabilizaria a análise estatística. Para essa análise, não foram encontradas diferenças estatisticamente significantes no que se refere à classificação inicial e final do ICT e do DHI.

Tabela 4: Resultado do teste Qui-quadrado (teste exato de Fisher) comparando os escores iniciais e finais do Índice de capacidade para o trabalho e do Dizziness Handicap Inventory 

Índice Inicial Final Valor de p
ICT Baixa/Moderada 91,66% 75% 0,590
Boa/Ótima 8,43% 25%
DHI Sem/Leve 66,66% 83,33% 0,640
Moderado/Severo 33,34% 16,67%

Legenda: ICT: Índice de capacidade para o trabalho; DHI: Dizziness Handicap Inventory. Foi adotado como valor de significância de 5%. *diferença estatisticamente significante.

Com relação à realização de exercícios em casa durante o programa, 66,7% realizaram entre 1 a 3 dias por semana e 33,3% entre 4 a 7 dias por semana. Ao comparar esses dados com a pontuação inicial e final do DHI, observou-se que não houve diferença estatisticamente significante (p= 0,81).

Quanto à percepção da tontura após a realização do programa, quando questionados: “Você acha que participar do programa melhorou sua tontura?”, 50% dos participantes referiu que “melhorou muito”, 25% “melhorou” e 25% “melhorou pouco”. Nenhum participante apresentou resposta negativa.

Discussão

Neste estudo, foi encontrado maior número de trabalhadores do gênero feminino (92%) do que do masculino (8%) com queixas de tontura. Esse dado esteve de acordo com o encontrado na literatura, em que a queixa de tontura é mais predominante no gênero feminino. A justificativa para maior ocorrência de tontura em mulheres tem sido, principalmente, por variações hormonais e maior incidência de migrânea. Embora esta justificativa seja válida para a amostra estudada, o maior número de participantes do gênero feminino também esteve relacionado ao tipo de trabalho envolvido no estudo, pois todos pertenciam à divisão de nutrição e dietética, onde geralmente há maior número de mulheres atuando 21.

Com relação ao programa de RV realizado em 13 trabalhadores da DND e com queixas de tonturas, foi possível observar, principalmente, o seu efeito benéfico com a diminuição dos sintomas, verificada principalmente por meio do DHI e da escala analógica EVA.

O DHI tem sido um dos instrumentos mais utilizados na avaliação da efetividade da RV em diversas populações clínicas e foi um dos índices recomendado pelo Barany Society Ad Hoc Committee on Vestibular Rehabilitation Therapy na avaliação pré e pós reabilitação 22. A redução maior ou igual a 18 pontos nos escores do DHI, antes e após a intervenção, é indicativa de obtenção de benefícios 23.

No presente estudo, notou-se esta diminuição em 42% dos participantes e redução de 13 pontos na média total final. Além disso, foi possível observar diferença estatisticamente significante entre as pontuações iniciais e finais das subescalas e da pontuação total, indicando a melhora do sintoma de tontura após a RV. Esses resultados estiveram de acordo com o encontrado em estudo realizado em indivíduos com vestibulopatia periférica, no grupo em que foram utilizados os exercícios de Cawthorne e Cooksey, sendo que 50% dos participantes apresentaram redução do DHI maior que 18 pontos 8. Assim como em outros estudos, este índice é indicativo de melhora na qualidade de vida 8,16.

Como não foram encontrados estudos sobre a aplicação da RV em trabalhadores da DND, os resultados deste estudo reforçam não apenas o que já foi demonstrado em outros estudos sobre a efetividade destes programas, mas, principalmente, que por meio de exercícios simples, facilmente executáveis no ambiente de trabalho, pode haver a diminuição do sintoma da tontura do trabalhador e, consequentemente, minimizar seus efeitos nocivos à qualidade de vida como falta de concentração, cansaço, irritabilidade, etc 4,5,11,12. Pode-se considerar que a diferença estatisticamente significante nas subescalas do DHI foi o resultado mais objetivo e expressivo deste estudo, sinalizando positivamente para a possível implementação deste programa em outros grupos de trabalhadores.

A melhora significante do sintoma da tontura, após a realização do programa de RV, pôde ser notada também por meio da escala visual analógica (EVA), índice também utilizado frequentemente em outros estudos com RV 11,24. Além do DHI e do EVA, verificou-se que na questão aplicada após o programa de RV (“Você acha que participar do programa melhorou sua tontura?”), nenhum dos participantes referiu que “não melhorou“, confirmando o efeito positivo na percepção da tontura pelos participantes. A autopercepção de melhora por parte dos trabalhadores, embora mais subjetiva, não deixa de ter importância para o tipo de proposta deste estudo, o qual visa em última análise melhora da qualidade de vida no ambiente de trabalho. Apesar de não ser possível uma análise objetiva e estatística, não se deve desconsiderar na análise dos efeitos do programa de RV que, sob a perspectiva do trabalhador, 100% consideraram que contribuiu para a melhora dos sintomas. Considerando a autopercepção dos trabalhadores envolvidos neste estudo, as atividades propostas no programa de RV e aplicadas no ambiente de trabalho foram efetivas para a diminuição do grau da tontura, sendo mais um reforço para a aplicação em outras áreas. Os casos em que não se observou melhora podem ter sofrido influência de outras variáveis, tais como: existência de doenças associadas; possibilidade de não realização dos exercícios em casa, na periodicidade prescrita, por parte de alguns indivíduos; características individuais; utilização de um protocolo genérico para todos os casos, entre outras. Desta forma, sugere-se que estas variáveis sejam consideradas em futuros estudos.

Segundo a percepção dos trabalhadores, a melhora da tontura identificada pelos instrumentos DHI e EVA não influenciou significantemente na capacidade para o trabalho. Não foram encontrados na literatura estudos que relacionassem a queixa de tontura com a capacidade de trabalho; no entanto alguns relataram a influência da tontura na qualidade de vida 12,24.

Neste estudo, acredita-se que a não relação entre a melhora da queixa de tontura com o ICT possa ser justificada pelo fato de que esse índice reflita o estado de saúde geral do trabalhador, sendo este constituído por múltiplos fatores 25. Apesar da melhora evidente da tontura e desta afetar diretamente no bem-estar físico e mental, o ICT pode não ter apresentado mudanças significantes por se tratar de trabalhadores com restrição laboral. Em artigo de revisão da literatura 14 autores relataram que a saúde é, sem dúvida, o fator que mais interfere na capacidade para o trabalho, sendo que a condição cardiorrespiratória e o funcionamento musculoesquelético são os aspectos que exercem maior impacto sobre a capacidade funcional, pois estão diretamente relacionados ao desempenho das demandas do trabalho 14,26,27.

Por fim, deve-se mencionar a importância da realização de programas de reabilitação em trabalhadores no próprio ambiente de trabalho, uma prática voltada para a saúde do trabalhador e amplamente defendida atualmente. Um dos aspectos que deve ser ressaltado, neste sentido, foi a adesão ao programa, pois pelo fato de ter sido realizado no ambiente de trabalho, todos os indivíduos com queixas de tonturas selecionados participaram de todas as sessões do programa de RV e a maioria realizou atividades em casa, contribuindo para a melhora do sintoma da tontura.

Embora, neste estudo, não se tenha identificado influências do programa de RV sobre o ICT, foi possível verificar a sua efetividade na melhora da sintomatologia da tontura em trabalhadores por meio dos instrumentos DHI, EVA e autopercepção, sugerindo que este programa possa ser direcionado a outros locais de trabalho.

A identificação e atuação precoce em indivíduos com tontura, no próprio ambiente de trabalho, pode auxiliar os serviços de saúde ocupacional a prevenir e minimizar esta queixa, contribuindo para a melhora das condições de saúde do trabalhador, bem como da qualidade de vida.

O estudo apresentou algumas limitações como a não realização de avaliações objetivas do sistema vestibular, o número reduzido de trabalhadores e a existência de comorbidades, como a presença de doenças osteomusculares. Como o foco do estudo foi realizar todas as avaliações e o programa de RV no ambiente de trabalho e durante as jornadas de trabalho, por meio de instrumentos simples, de baixo custo e factíveis, foi possível verificar a diminuição dos sintomas e a efetividade do programa. A análise deste estudo piloto sugere que a aplicação da RV em grupos de trabalhadores com queixas de tonturas e no ambiente de trabalho pode ser efetiva; no entanto acredita-se que a avaliação objetiva do sistema vestibular para um diagnóstico mais preciso e que grupos com características de saúde mais homogêneos possam contribuir para o aprimoramento do programa.

Considerando que se tratava de estudo piloto voltado para a saúde do trabalhador e melhoria na qualidade de vida, o programa utilizado proporcionou a redução do sintoma da tontura, verificada por meio do DHI e da EVA. Apesar das evidências de melhora do sintoma, não foi verificada mudança estatisticamente significante com relação ao ICT após a RV. Sendo assim, o estudo sinaliza que programas deste tipo podem ser benéficos para o trabalhador e que novos estudos com outros grupos de trabalhadores no próprio ambiente de trabalho devem ser desenvolvidos.

Conclusão

No presente estudo piloto foi possível observar a efetividade de um programa de reabilitação vestibular, realizado no próprio ambiente ocupacional, em trabalhadores da Divisão de Nutrição e Dietética de um hospital público com queixas de tontura.

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Recebido: 20 de Dezembro de 2017; Aceito: 29 de Março de 2018

Endereço para correspondência: Dra Ivone Ferreira Neves-Lobo, Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Rua Cipotânea, 51. Cidade Universitária, CEP: 05360-160 - São Paulo, São Paulo, Brasil, E-mail: ifneves@usp.br

Conflito de interesses: Inexistente

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