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Revista Brasileira de Zootecnia

On-line version ISSN 1806-9290

Rev. Bras. Zootec. vol.30 no.1 Viçosa Jan./Feb. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35982001000100034 

Predição da Composição Corporal por Intermédio de Método Indireto

 

Marcelo de Andrade Ferreira1, Sebastião de Campos Valadares Filho2, Antonia Sherlânea Chaves Veras1, Gherman Garcia Leal Araújo3, Ricardo Dias Signoretti4

 

 


RESUMO - O objetivo deste trabalho foi desenvolver equações de predição da composição química corporal de bovinos mestiços F1 Simental x Nelore, por intermédio da análise química da amostra representativa da carcaça. Utilizaram-se 29 animais, não- castrados, com idade média de 17 meses e peso vivo inicial de 354 kg. Cinco animais foram abatidos ao início do experimento e os demais, distribuídos, inteiramente ao acaso, nos tratamentos que foram definidos de acordo com o nível de concentrado na ração (25; 37,5; 50; 62,5; e 75%). Os conteúdos corporais de proteína, gordura, energia e minerais foram determinados analisando-se amostras de seção da carcaça incluindo a 9a, 10a e 11a costelas, de acordo com HANKINS E HOWE (1946) (seção HH), e dos demais tecidos corporais. Os teores de proteína, gordura, energia e minerais, com exceção do magnésio, da seção HH, mostraram-se altamente correlacionados com a composição química do corpo vazio.

Palavras-chave: bovinos, composição corporal, equações de predição

Use of Indirect Method to Predict Chemical Body Composition

ABSTRACT - The objective of the research was to develop equations to predict the chemical body composition of F1 Simmental x Nellore, based on the chemical composition of rib joints. Twenty-nine F1 Simmental x Nellore bulls, averaging 17 months of age and initial live weight of 354 kg, were used. Five animals were slaughtered at the beginning of the experiment and the others were randomly allotted to the treatments designed according to the concentrate levels in the diet (25, 37.5, 50, 62.5, and 75%). Body contents of protein, fat, energy and ash were determined from the analysis of carcass joint, including the 9th, 10th and 11th ribs, according to HANKINS E HOWE (1946) (HH joint), and the remaining body tissues. The contents of protein, fat, energy and ash, except magnesium, from the HH joint, were closely correlated to the chemical empty body composition.

Key Words: body composition, cattle, prediction equations


 

 

Introdução

As proporções de gordura, músculos e ossos, em determinado estádio de desenvolvimento de animais de corte, são de interesse do produtor e, especialmente, do consumidor. O teor de gordura da carcaça afeta a aceitabilidade por parte do consumidor, e sabe-se que o período de terminação é o mais dispendioso. Dessa forma, é importante que métodos rápidos e econômicos, para estimar a composição física e química da carcaça e de seus cortes, estejam disponíveis para produtores e pesquisadores (HANKINS e HOWE, 1946).

HANKINS e HOWE (1946), em um trabalho clássico sobre a utilização de cortes da carcaça para predição da composição física e química da carcaça de bovinos, definiram uma metodologia para obtenção de uma amostra da carcaça compreendendo a 9a, 10a e 11a costelas (Seção HH), bem como equações de predição, que, atualmente, são amplamente utilizadas por pesquisadores norte-americanos e brasileiros. Estas equações tiveram sua validade confirmada por COLE et al. (1962), POWELL e HUFFMAN (1968) e LANNA (1988).

Com relação à composição química da carcaça de bovinos, HANKINS e HOWE (1946) observaram correlações significativas de 0,83; 0,91; e 0,53 entre os teores de proteína, gordura e cinzas da seção HH e aqueles obtidos por análise química da carcaça. Recentemente, NOUR e THONNEY (1994), em um trabalho com bovinos das raças Angus e Holandês, concluíram que a composição da seção HH pode ser utilizada com precisão na predição da composição da carcaça, salvo pequenos ajustes em relação à raça.

Outro método que tem sido utilizado para estimar a composição corporal de bovinos é o da gravidade específica da carcaça ou de partes da mesma.

SALVADOR (1980) e TEIXEIRA (1984), comparando a composição da carcaça estimada por análise química da seção HH e por gravidade específica da carcaça, não observaram diferenças significativas entre os dois métodos. Contrariamente, LANNA (1988) observou baixas correlações entre a gravidade específica da carcaça e os teores de água, gordura e proteína na seção HH (0,49; -0,61; e 0,65, respectivamente).

PERON et al. (1993) obtiveram resultados não-satisfatórios, para animais magros, utilizando-se a gravidade específica da carcaça. Da mesma forma, GIL et al. (1970) observaram que a precisão do método é questionável, quando bovinos apresentam menos de 20% de gordura na carcaça. Já PRESTON et al. (1974), em revisão de literatura, relataram que o teor mínimo de gordura no corpo vazio estaria entre 12 e 15%.

Mesmo admitindo-se que o método mais acurado para determinação da composição corporal de bovinos é a análise química do corpo inteiro após a eliminação do conteúdo do trato digestivo e bexiga (HANKINS e HOWE, 1946), o objetivo deste trabalho foi obter equações de predição da composição corporal, a partir da composição química de secção da carcaça, em função da praticidade e economia proporcionadas pelo método.

 

Material e Métodos

O experimento foi conduzido nas dependências do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Viçosa, no período de fevereiro a outubro de 1996.

Foram utilizados 29 bovinos, não-castrados, F1 Nelore x Simental, com idade média de 17 meses e peso vivo médio inicial de 354 kg. Após um período de adaptação de 45 dias, em que os animais receberam o mesmo tratamento, cinco animais foram abatidos, servindo como referência no estudo da composição corporal inicial dos animais; o restante (24 animais) foi distribuído inteiramente ao acaso nos tratamentos, de acordo com o nível de concentrado na ração (25; 37,5; 50; 62;5; e 75%). No tratamento com 62,5% de concentrado na ração, foram usados quatro animais. Os animais foram alimentados à vontade, sendo a ração distribuída uma vez por dia, pela manhã, ajustando-se sobra diária de aproximadamente 10% do oferecido. A quantidade de alimentos fornecida foi registrada diariamente, enquanto as sobras, semanalmente. Como volumoso, foram utilizados os fenos de coast-cross (Cynodon dactilum) e braquiária (Brachiaria decumbens). As rações experimentais (feno + concentrado) foram formuladas de acordo com o Cornell Net Carbohydrate and Protein System -CNCPS (BARRY et al., 1994) e sua composição encontra-se na Tabela 1.

Os animais foram pesados ao início do experimento e a cada 28 dias, adotando-se pesagens intermediárias, para que fosse obtido peso de abate preestabelecido de 500 kg. Antes da pesagem, os animais passaram por jejum prévio de 16 horas. De cada animal abatido, pesaram-se e coletaram-se amostras de cabeça, couro, pés, rúmen, retículo, omaso, abomaso, intestino grosso, intestino delgado, mesentério, gordura interna (pélvica e renal), coração, rins, fígado, baço, pulmão, língua, sangue, esôfago, traquéia e aparelho reprodutor. As duas meia-carcaças foram pesadas no dia do abate e, posteriormente, levadas à câmara fria a -5oC, durante um período de 18 horas. Após esse período, foram retiradas da câmara fria, coletando-se uma amostra representativa da meia-carcaça esquerda, correspondendo à secção compreendida entre a 9a e 11a costelas (seção HH), de acordo com HANKINS e HOWE (1946), para posteriores pesagens, dissecações, avaliações dos componentes físicos das carcaças e análises laboratoriais. Na seção HH, foram determinadas as proporções de músculo, tecido adiposo e ossos, estimando-se as proporções correspondentes na carcaça, por meio das seguintes equações preconizadas por HANKINS e HOWE (1946):

Músculo: Y = 16,08 + 0,80X;
Gordura: Y = 3,54 + 0,80X; e
Ossos: Y = 5,52 + 0,57X

em que X é a porcentagem do componente na seção HH.

As amostras de rúmen, retículo, omaso, abomaso, intestino delgado, intestino grosso, gordura interna e mesentério foram agrupadas de forma proporcional, constituindo-se em amostras de vísceras. Semelhantemente, as amostras de fígado, coração, rins, pulmão, língua, baço, carne industrial (diafragma), esôfago, traquéia e aparelho reprodutor foram agrupadas proporcionalmente, constituindo-se amostras compostas de órgãos.

As amostras de sangue (400 g) foram coletadas, imediatamente após o abate, acondicionadas em pirex e levadas à estufa de ventilação forçada, a 55-60oC, durante 48 horas, para determinação da matéria seca, sendo, a seguir, moídas em moinho de bola. As amostras de carne (150 g), gordura (200 g), vísceras (200 g) e órgãos (200 g), depois de moídas, e as de couro, ossos e cauda (100 g), após seccionadas, foram colocadas em vidros de 500 mL e levadas à estufa, a 105oC, durante um período de 48 a 72 horas, dependendo do teor de gordura, para determinação da matéria seca gordurosa (MSG). Em seguida, foram submetidas a um processo de extração de gordura com éter de petróleo, obtendo-se a matéria seca pré-desengordurada (MSPD). As amostras pré-desengorduradas foram, posteriormente, moídas em moinho de bola, antes de se proceder às análises de laboratório.

As determinações de nitrogênio total, extrato etéreo, cinzas, minerais e FDN foram feitas segundo SILVA (1990).

Os conteúdos corporais de gordura, proteína e minerais foram determinados em função das concentrações percentuais destes nas vísceras, nos órgãos, couro, sangue, cauda, cabeça, pés (gordura e osso) e componentes separados - músculos, gordura e osso da seção HH. O peso de corpo vazio aproximado dos animais foi determinado pela soma dos pesos de carcaça, sangue, cabeça, couro, cauda, pés, vísceras e órgãos.

O conteúdo corporal de energia foi determinado a partir dos conteúdos corporais de proteína e gordura e dos respectivos equivalentes calóricos, conforme a equação abaixo (AGRICULTURAL RESEARCH COUNCIL - ARC, 1980):

CE (Mcal) = 5,6405X + 9,3929Y

em que CE é conteúdo de energia; X, proteína corporal (kg); e Y, gordura corporal (kg).

Equações de regressão para predição da composição química corporal (proteína, gordura, energia e minerais) foram ajustadas em função da composição química da secção HH.

 

Resultados e Discussão

Os parâmetros das equações de predição das porcentagens de proteína e gordura e do conteúdo de energia no corpo vazio, em função das porcentagens de proteína e gordura e do conteúdo de energia na seção HH, são apresentados na Tabela 2. Pode-se verificar que os teores de proteína, gordura e energia na seção HH mostraram-se altamente correlacionados (P<0,01) com os teores dos mesmos componentes no corpo vazio, como pode ser observado pelos altos valores dos coeficientes de correlação e pelos baixos valores dos coeficientes de variação. De maneira semelhante, PERON et al. (1993) verificaram correlações significativas de 0,93 e 0,99 para proteína e gordura, respectivamente. JORGE et al. (1998), utilizando a mesma metodologia, obtiveram equações de predição de proteína, gordura e energia com r2 = 0,84; 0,88; e 0,88, respectivamente. HENRIQUE et al. (1999) e ALLEONI et al. (1999) também concluíram que a porcentagem de extrato etéreo na seção HH se mostrou altamente correlacionada com a composição química do corpo vazio, porém o mesmo não ocorreu para o teor de proteína.

Os parâmetros das equações de predição das porcentagens de cálcio, fósforo, magnésio, potássio e sódio no corpo vazio, em função das porcentagens dos mesmos na seção HH, são apresentados na Tabela 3. Com exceção do magnésio, a concentração de todos os outros elementos minerais na seção HH mostrou-se altamente correlacionados (P<0,01) com a concentração dos mesmos no corpo vazio, como pode ser verificado pelos valores dos coeficientes de correlação e variação. Da mesma forma, JORGE et al.(1998) também verificaram, com exceção do magnésio, estreita relação entre os teores de cálcio, fósforo, potássio e sódio na seção HH e aqueles verificados no corpo vazio. Por outro lado, ALHASSAN et al. (1975), HENRIQUE et al. (1999) e ALLEONI et al. (1999) não obtiveram equações para estimar, com precisão, o conteúdo de minerais no corpo vazio a partir da concentração dos mesmos na seção HH.

Vale ressaltar que a seção HH serviu de base para a determinação da composição do corpo vazio, o que pode explicar, em parte, os altos valores de correlação obtidos no presente trabalho.

 

Conclusões

Os teores de proteína, gordura, energia e macroelementos minerais, com exceção do magnésio, na seção HH, mostraram-se altamente correlacionados com aqueles verificados no corpo vazio.

 

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Recebido em: 10/11/99
Aceito em: 19/10/00

 

 

1 Professor Adjunto do Depto. de Zootecnia da UFRPE. E.mail: mcelo@yahoo.com; sherlanea@uol.com.br

2 Professor Titular do Depto. de Zootecnia da UFV. E.mail: scvfilho@mail.ufv.br

3 Pesquisador da EMBRAPA/CPATSA. E.mail: ggla@cpatsa.embrapa.br

4 Engenheiro-Agrônomo, Doutor em Zootecnia. E.mail: rsignoretti@axtnet.com.br