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Revista Brasileira de Zootecnia

Print version ISSN 1516-3598On-line version ISSN 1806-9290

Rev. Bras. Zootec. vol.30 no.4 Viçosa July/Aug. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35982001000500029 

Estimativa da Ingestão Voluntária a partir das Características de Degradação do Capim-Coastcross (Cynodon dactylon L. Pers.), sob pastejo, por Vacas em Lactação1

 

Telma Teresinha Berchielli2, 5, João Paulo Guimarães Soares3, Luiz Januário Magalhães Aroeira4,5, Cláudia Lopes Furlan3, Ana Karina Dias Salman3, Roselene Nunes da Silveira3, Euclides Braga Malheiros2,5

 

 


RESUMO - O consumo de matéria seca (CMS) do capim-coastcross, sob pastejo, de vacas lactantes mestiças (HPB x Gir) e Gir, foi calculado a partir da relação entre a digestibilidade in vitro da MS (DIVMS) da forragem (extrusa colhida com animais esôfago- fistulados) e a produção fecal obtida com auxílio do cromo mordante por meio de um modelo não-linear. A pastagem foi manejada com uma taxa de lotação de 1,6 e 3,2 animais/ha, respectivamente para as épocas seca e chuvosa do ano, num sistema de pastejo rotativo com três dias de ocupação e 27 dias de descanso. Quatro diferentes equações baseadas em variáveis de degradação ruminal foram utilizadas para predizer o consumo de MS: CMS = -1,19 + 0,035 (a+ b) + 28,5c (1), CMS = -0,822 + 0,0748 (a+ b) + 40,7c (2), CMS = -8,286 + 0,266a + 0,102b +17,696c (3) e CMS = [%FDN na MS]* [consumo de FDN ] / [(1-a-b)/KP +b/(c+ kp)]/24] (4). Os dados observados utilizando as equações 1 e 2 (12,2 e 12,7 kg/vaca/dia respectivamente) foram similares entre si e superiores aos resultados obtidos na equação 4 (7,8 kg/vaca/dia). Já o resultado obtido pela equação 3 (5,5 kg/vaca/dia) foi menor do que aqueles determinados pelas outras equações, subestimando o CMS calculado a partir do cromo mordante (6,3 kg/vaca/dia). A predição do consumo de forrageiras tropicais sob pastejo, utilizando equações baseadas nas variáveis de degradação, constitui um importante potencial para estas avaliações. Entretanto, mais estudos devem ser realizados antes de se usarem estas equações na prática.

Palavras-chave: cromo mordente, degradabilidade, estimativa de consumo, equações de predição, forrageiras tropicais

Prediction of Dry Matter Intake Based on Ruminal Degradation from Milking Cows Grazing Coastcross Bermudagrass

ABSTRACT - Dry matter intake (DMI) of coastcross bermudagrass grazing by crossbred Holstein-Zebu and Zebu lactating cows was calculated using in vitro dry matter digestibility from extrusa (four esophageal fistulated cows) and fecal output estimate with mordent chromium by the non linear model. Pasture was managed in a rotational system with three days of occupation and 27 days of resting period, adopting a stocking rate of 1.6 and 3.2 cows/ha respectively during the dry and rainy season. Four different equations based on ruminal degradation were used to predict dry matter intake: DMI = -1.19 + 0.035 (a+ b) + 28.5c (1), DMI = -0.822 + 0.0748 (a+ b) + 40.7c (2), DMI = -8.286 + 0.266a + 0.102b +17.696c (3) and DMI = [%FDN na MS]* [FDN intake] / [(1-a-b)/KP +b/(c+ kp)]/24] (4). The coast-cross DMI predicted by the equations were different from results obtained with the model (6.3 kg of dry matter/cow/day). The data achieved using the equations 1 and 2 (12.2 and 12.7 kg/cow/day respectively) were similar and superior from results obtained by equation 4 (7.8 kg/cow/day). Those values overestimated the results obtained using mordent chromium. The data obtained by equation 3 (5.5 kg/cow/day) was lower than those determined by equations and underestimated the DMI calculated with external marker. The prediction of dry matter intake from cows grazing tropical forages using equations based in ruminal degradation parameters constitutes an important potential for those evaluations, but it should be still studied before being employed in practice.

Key Words: degradability, intake, mordanted chromium, prediction equations, tropical forages


 

 

Introdução

O baixo potencial produtivo da maioria das pastagens nas principais bacias produtoras de leite, no Brasil, constitui, sem dúvida nenhuma, uma das mais importantes limitações na produção de leite do rebanho bovino brasileiro (MARTINS et al., 1995). Entretanto, a utilização do capim-coastcross vem se tornando crescente, principalmente por ser capaz de fornecer forragem de alta qualidade, além de resistir aos fatores adversos de clima (ALVIM et al., 1996). Há evidências de que sistemas de pastejo rotativo devem ser associados a altas taxas de lotação, visando ao melhor aproveitamento do potencial de produção do pasto (DERESZ et al., 1994).

Nos trópicos, onde os ruminantes são alimentados com forragens de digestibilidade mais baixas, o controle físico do consumo é ainda mais pronunciado do que aquele proveniente de pastos de clima temperado. São, portanto, recomendadas, para as avaliações do consumo potencial das forrageiras, estimativas a partir do enchimento físico do rúmen provocado pelo volumoso estudado (MADSEN et al., 1997).

Devido às dificuldades para se determinar o consumo de matéria seca diretamente, usando-se animais em pastejo, vários métodos indiretos são utilizados, considerando a produção fecal e a digestibilidade da matéria seca consumida. A produção fecal dos animais, nestes casos, pode ser determinada baseando-se na relação entre a quantidade de um indicador administrado ao animal e sua concentração nas fezes. Em contraste com dosagem de um indicador empregado diariamente, a utilização do cromo mordante pode ser uma alternativa, sendo administrado em única dose (dose pulso), seguido por coletas sucessivas das fezes para se caracterizar a concentração de marcador encontrado nas mesmas fezes (POND et al., 1989).

Vários trabalhos vêm sendo realizados sobre predição do potencial de ingestão e digestibilidade dos alimentos a partir de seus componentes químicos. Este método, no entanto, é criticado pelo fato de a ingestão e a digestibilidade das alimentos, em ruminantes, serem influenciados não somente pela composição química dos alimentos, mas também pelas características do animal e do manejo alimentar (MERTENS, 1987).

O uso da técnica in situ para avaliar alimentos também tem se tornado um método alternativo devido a sua simplicidade e natureza direta, além de tornar possível a determinação das taxas de degradação (HOVELL, 1986). O AGRICULTURAL AND FOOD RESEARCH COUNCIL - AFRC (1993) vem adotando a técnica in situ como método padrão para caracterizar a degradabilidade ruminal do nitrogênio e por apresentar resultados semelhantes àqueles obtidos pela técnica in vivo.

Segundo VON KEYSERLINGK e MATHISON (1989), a técnica in situ poderia ser mais eficiente como método para estimar a digestibilidade e a ingestão voluntária de forragens, se as taxas de passagem e degradação fossem medidas e utilizadas para predizer estes fatores, além de apresentar alta correlação com a ingestão voluntária (R=0,82), quando comparada com a digestibilidade in vivo (CHENOST et al., 1970).

HOVEL et al. (1986), ØRSKOV et al. (1988), VON KEYSERLINGK e MATHISON (1989) e SHEM et al. (1995) usaram as variáveis a, b e c da fórmula: Y(t) = a + b (1- e-ct), para descrever a degradabilidade da MS ou da PB, incubadas em sacos de náilon no rúmen (ØRSKOV e McDONALD, 1979) e predizer consumo de alimentos. Este método, entretanto, apresenta limitações, já que alguns alimentos não ostentam padrões de degradação que sigam o modelo proposto. Para superar este problema, MADSEN et al. (1994) desenvolveram um método, no qual a taxa de degradação do alimento no rúmen é combinada com sua taxa de passagem, com o objetivo de se estimar o enchimento físico do órgão. Neste caso, o consumo potencial do alimento é descrito pelo seu enchimento do rúmen e a unidade usada é dia e a capacidade de um animal de ingerir o alimento é fornecida em kg. O consumo é, então, predito em kg/dia, dividindo-se a capacidade de ingestão do animal (kg) pelo enchimento do rúmen (dia). Como o enchimento do rúmen é principalmente causado pela fração fibrosa do alimento, as variáveis de degradação e taxa de passagem baseiam-se na FDN da forrageira avaliada (MADSEN et al., 1997).

Objetivou-se com este estudo comparar quatro equações de predição de consumo voluntário de matéria seca a partir dos parâmetros de degradação in situ com o método que considera a relação entre a digestibilidade in vitro da matéria seca da forragem e a produção fecal obtida por meio de modelo não-linear, utilizando vacas em lactação mestiças e Gir em pastagem de capim-coastcross.

 

Material e Métodos

Área experimental e manejo da pastagem

O pasto de capim-coastcross no período anterior ao início do experimento foi adubado com 200 kg de N/ha/ano e 66 kg de K/ha/ano, divididos em três aplicações. Na primeira quinzena de outubro de 1996, aplicaram-se 330 kg de adubo N-P-K (20-0-20) e, nos meses de dezembro de 1996 e março de 1997, o adubo foi aplicado na forma de sulfato de amônio 335 kg por aplicação em cada mês.

O experimento foi desenvolvido em quatro épocas, nos meses de julho e novembro de 1996; janeiro e abril de 1997, referentes ao final da seca; início; pico e final das águas, respectivamente. Durante as épocas, experimentais utilizou-se uma área total de 10 ha de capim-coastcross para o período seco do ano (julho) e 5 ha no chuvoso (janeiro a abril), num sistema de pastejo rotativo divididos em piquetes de 0,5 ha, com três dias de ocupação e 27 dias de descanso. A taxa de lotação adotada foi de 1,6 animal/ha no mês de junho e 3,2 animais/ha nos meses de novembro, janeiro e abril.

Animais e dietas

Foram utilizadas 16 vacas de 30 a 90 dias de lactação, com ordem de lactação superior a dois e peso vivo médio de 422 e 490 kg, subdivididas em dois grupos de oito vacas da raça Gir e oito vacas mestiças (Gir x Holandês), com produções leiteiras de 6,4 e 10,6 kg/vaca/dia, respectivamente, que recebiam, além do pasto, suplementação de concentrado na quantidade fixa de 3 kg/animal/dia, parcelados nas duas ordenhas. O concentrado oferecido era composto por 55,0% de milho, 28,7% de farelo de soja, 10,9% de soja-grão integral, 3,0% de mistura mineral e 2,4% de calcário.

Os animais foram agrupados por produção de leite na lactação anterior e durante todo período os mesmos permaneceram na pastagem de capim-coastcross, saindo apenas para as ordenhas.

Coleta de extrusas

Para a coleta de extrusas de cada piquete foram utilizados quatro vacas secas, fistuladas no esôfago, sendo duas mestiças (Gir x HPB) e duas Gir, colocadas na pastagem antes da entrada dos animais experimentais nos piquetes.

Os animais foram submetidos a jejum prévio de 12 horas e as coletas foram feitas durante 30 minutos. Coletaram-se as extrusas referentes a cada vaca, as quais foram misturadas e secas em estufa de circulação forçada de ar a 55ºC.

As amostras secas foram divididas em três porções: a primeira foi usada para determinação da digestibilidade in vitro da matéria seca (TYLLEY e TERRY, 1963), a segunda para o tratamento da fibra em detergente neutro com dicromato de sódio (Na2Cr2O7.2H2 O), COLUCCI (1984) e a terceira para a determinação da degradabilidade in situ da matéria seca (MEHREZ e ØRSKOV, 1977).

Preparação do indicador e excreção fecal

A produção fecal foi estimada, nos 16 animais em pastejo, usando-se a FDN da extrusa mordentada com dicromato de sódio. O alimento marcado foi pesado e colocado em cápsulas de gelatina, com aproximadamente 6 g. Cerca de 30 g desse material foram administrados a cada animal, em dose única, por via oral, com auxílio de uma sonda esofageana.

A coleta de fezes foi feita diretamente no reto às 6, 9, 12, 24, 32, 36, 48, 56, 72, 80, 96, 104 e 120 horas após a administração das cápsulas. A excreção fecal dos alimentos nos períodos experimentais foi obtida com base na relação:

Consumo de matéria seca

As amostras de fezes foram analisadas em laboratório, para determinação do teor de cromo. A partir dos resultados obtidos de cromo fecal foram confeccionadas as curvas de excreção para estimativas de consumo da dieta. As produções fecais e as taxas de passagem no rúmen foram calculadas usando-se as estimativas dos parâmetros do modelo proposto por POND et al. (1989), analisado estatisticamente usando-se o procedimento NLIN do programa SAS (SAS, 1990). Foram fornecidos valores iniciais para os parâmetros, dentro do espaço paramétrico de cada um e segundo os valores esperados para os mesmos. Estes foram estimados inicialmente utilizando-se o método Marquardt.

Tais valores, assim estimados, foram utilizados novamente no NLIN, adotando-se para os ajustes das curvas de excreção o método de Gauss - Newton.

A produção fecal total (PFT) diária foi obtida com base na seguinte relação:

Y = [K0] L1 (t - t). e -(L1(t - t))] / 0,59635

em que: Y = concentração do marcador; K0 = concentração do marcador, se este é misturado instantaneamente no compartimento; L1 = parâmetro de taxa de passagem dependente do tempo; t = tempo decorrido da administração até o primeiro aparecimento do marcador nas fezes; e t = tempo após a administração do marcador.

O consumo de MS de forragem (CMS) foi calculado pela fórmula:

CMS = Produção fecal/(1 - DIVMS)

em que: CMS = consumo de MS diária em kg; PF = produção fecal em g/MS/vaca/dia; e DIVMS = digestibilidade in vitro da extrusa.

O consumo de matéria seca de capim dos animais experimentais foi calculado de forma indireta, ou seja, subtraindo-se as produções fecais calculadas a partir da digestibilidade do concentrado e da excreção fecal total obtida no modelo.

Degradabilidade

A degradabilidade in situ da extrusa foi realizada nas quatro épocas experimentais. Foram utilizadas três vacas mestiças, não lactantes, fistuladas no rúmen, previamente adaptadas durante sete dias na pastagem de capim-coastcross, as quais recebiam também a mesma quantidade de concentrado dos animais experimentais. Aproximadamente 5 g de extrusa seca foram acondicionados em sacos de náilon (7 x 14 cm) e incubados no rúmen por 3, 6, 12, 24, 48, 72, 96 h.

Para o cálculo da degradabilidade in situ da matéria seca (MS), foi utilizada a equação proposta por MEHREZ e ØRSKOV (1977), com recomendações propostas por NOCEK (1988), expressa por: P = a + b (1 - e - c t), em que P é a quantidade de nutriente degradado no tempo t; a, a fração rapidamente solúvel em água; b, a fração insolúvel em água, mas potencialmente degradável; c, a taxa de degradação da fração b. A degradabilidade efetiva (DE) foi calculada considerando-se as taxas de passagem estimadas para cada grupo de vacas do experimento de consumo usando-se o modelo de POND et al. (1989), segundo a equação proposta por ØRSKOV e McDONALD (1979): DE = a + (b c)/c + k, em que a é a fração rapidamente solúvel em água; b, a fração insolúvel em água, mas potencialmente degradável; c, a taxa constante de degradação da fração b; e k, a taxa de passagem no rúmen da fração sólida do conteúdo ruminal.

Equações de predição

A partir dos parâmetros de degradação, foram estimados os consumos por meio das equações propostas por VON KEYSERLINGK e MATHISON (1989), em que CMS = -1,19 + 0,035 (a+ b) + 28,5 c (R2 = 86%); ØRSKOV et al. (1988), em que CMS = -0,822 + 0,0748 (a+ b) + 40,7 c (R2 = 89%); SHEM et al. (1995), em que CMS = - 8,286 +0,266 a + 0,102 b +17,696 c (R2 = 90%); e MADSEN et al. (1997), em que CMS= [%FDN na MS]* [Ingestão de FDN] / [(1-a - b) / KP +b / (c+ k p)] /24.

Análises laboratoriais

As amostras das extrusas utilizadas (Tabela 1) pré-secas e moídas foram analisadas para proteína bruta (PB), pelo método Kjeldahl (ASSOCIATION OF OFFICIAL ANALYTICAL CHEMISTS - AOAC, 1980), fibra detergente neutro (FDN) e fibra em detergente ácido (FDA) pelo método proposto por VAN SOEST (1965). Para as análises da digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS), seguiram-se as recomendações de TILLEY e TERRY (1963). As determinações de cromo nas fezes foram feitas a partir de digestão nitro-perclórica, usando-se o espectrofotômetro de absorção atômica para as leituras das amostras.

 

 

Análises estatísticas

O delineamento experimental adotado para a comparação das equações foi em blocos casualizados com dois tratamentos (Gir e mestiça (HPB x Gir)), oito repetições (animais) e quatro blocos (meses). A análise de variância e as médias foram comparadas pelo teste de SNK e TUKEY 5%, pelo programa ANOVA do SAS (1990) e segundo o modelo:

yijkl = m + ti + mj + ek + mejk + teik+ tm ij +eijk

em que: yijk = valor para característica consumo em kg/dia; %PV e g/PV0,75 de MS, do capim- coastcross da iésima vaca mestiça ou gir, estimado no jéssimo modelo na késsima época; m = média geral constante comum a cada observação; ti = efeito do tratamento i ( i = 1 a 2 ); mj = efeito da equação j ( j =1 a 5); ek = efeito da época k ( k = 1 a 4 ); mejk = efeito da interação modelo x época; teik = efeito da interação tratamento x época; tmij = efeito da interação tratamento x modelo; e eijk = erro residual aleatório.

 

Resultados e Discussão

Os resultados obtidos por meio da incubação in situ e as taxas de passagem calculadas podem ser observados na Tabela 2. Nenhuma diferença (P>0,05) foi encontrada para as variáveis em relação as épocas estudadas. Os dados referentes a degradabilidade efetiva da MS da extrusa (DE) calculadas a partir da fórmula proposta por ØRSKOV e McDONALD (1979) variaram respectivamente de 40,2 a 48,3 de novembro 1996 a abril de 1997. Estes valores foram semelhantes (45,5%) aos obtidos por AROEIRA et al. (1996) e superiores (33,3%) aos observados por BERCHIELLI et al. (1996), trabalhando com feno de capim-coastcross.

 

 

Foram observados também valores numéricos mais elevados para a degradabilidade efetiva da MS no mês de abril, quando comparada com as demais épocas, sendo que este fato possa estar associado à proporção de FDN (Tabela 1), além de menor taxa de passagem (0,014 h-1) observada para a extrusa do capim nesta época, o que, provavelmente, resultou em aumento do consumo do pasto, obtido pelo modelo linear (Tabela 3), em relação ao valor observado no mês de janeiro.

O consumo médio de MS (CMS) total considerando o fornecimento de concentrado (2,6kg /vaca/dia) foi de 6,3 kg/vaca/dia ou 1,4% do peso vivo (PV), para as vacas Gir e mestiças, e o CMS do capim- coastcross (Tabela 3), ambos calculados com o auxílio do modelo descrito por POND et al. (1989), foi de 4,7 kg/vaca/dia ou 1% do PV para vacas mestiças (HPB x Gir) com produção de leite de 10,6 kg/vaca/dia e 2,7 kg/vaca/dia ou 0,7% de PV para vacas Gir com produção de leite de 6,4 kg/vaca/dia.

Os resultados do CMS do capim-coastcross, sob pastejo, foram mais baixos que (2,5%PV) os obtidos por LOEMBA e MOLINA (1994) trabalhando com novilhas e muito mais baixo que os 8,5 kg/vaca/dia descrito por MILERA et al. (1987), com vacas produzindo 10 kg de leite por dia sem suplementação de concentrado.

Os baixos consumos observados para o capim-coastcross, podem ter sido influenciados pela quantidade de concentrado ingerido, em que se verificou que a participação do concentrado na MS total consumida foi, em média, de 52,5% para as vacas Gir e 39,05% para as mestiças (HPB x Gir).

Segundo relatos de HOLMES e WILSON (1990), a cada kg de MS de concentrado, significa 0,5 a 0,8 kg a menos de volumoso, ocorrendo portanto efeito de substituição. Comportamento semelhante foi observado por LUCCI (1997) com vacas em lactação sendo o efeito de substituição de 0,93 e 0,73 kg de volumoso, quando os animais estavam com 3-6 e 7-12 semanas de lactação. O oferecimento do concentrado pode ter reduzido a ingestão de volumoso em 2,4 kg de MS, considerando efeito de substituição de 0,8 kg de MS de volumoso por kg de MS de concentrado.

Os dados obtidos nas equações de predição (Tabela 4) foram estimados a partir dos valores médios dos parâmetros de degradabilidade, haja vista que os mesmos não apresentaram diferenças significativas (P>0,05) para os grupos de vacas e também entre as épocas estudadas. Desse modo, na comparação dos valores de consumo calculado pelo modelo, foram utilizados os dados médios para os dois grupos de vacas Gir e Mestiças (HPB e Gir).

 

 

Todas as equações de predição utilizadas superestimaram o consumo do pasto obtido pelo modelo descrito por POND et al. (1989). Porém, deve ser mencionado que estas equações estavam baseadas no potencial de degradação da forragem no rúmen, além de não considerar a influência exercida pela taxa de substituição, causada pela ingestão de concentrado.

Os dados observados utilizando-se as equações VON KEYSERLINGK e MATHISON (1989) e SHEM et al. (1995) (12,2 e 12,7kg/vaca/dia), respectivamente, foram similares (P>0,05) entre si e superiores (P<0,05) aos resultados estimado na equação de MADSEN et al. (1997) (7,8 kg/vaca/dia). Já o resultado obtido na equação proposta por ØRSKOV et al. (1988) (5,5 kg/vaca/dia) foi menor (P<0,05) do que aqueles determinados pelas outras equações, subestimando o CMS calculado pelo modelo não linear descrito por POND et al. (1989) (6,3 kg/vaca/dia) (Tabela 4).

O resultado obtido por VON KEYSERLINGK e MATHISON (1989) e SHEM et al. (1995), em relação à porcentagem do PV (2,7 e 2,8% respectivamente), embora superestimando os valores obtidos no modelo não linear, foi o que mais se aproximou dos valores obtido por VILELA et al. (1996) (2,6%) e ALVIM et al. (1997) (2,9%), trabalhando também com o capim-coastcross sob pastejo com vacas holandesas com suplementação concentrada de 2,6 kg de concentrado/vaca/dia. Estes resultados podem estar relacionados à utilização dos parâmetros a, b e c que, segundo os primeiros autores, superestimaram os valores obtidos em estudos com forragens de melhor qualidade.

Em estudos das características de degradação in situ de forragens (a. MS, b. MS e c. MS) verifica-se o quanto os parâmetros de degradação influenciam na utilização do alimento pelo animal e sua relação com a ingestão. Segundo MERTENS (1987), a utilização destes parâmetros podem levar a aumento de precisão na estimativa da ingestão de matéria seca e matéria orgânica, por meio da relação (a.MS + b.MS + c.MS).

As estimativas de ingestão de matéria seca foram bem diferentes, quando se consideraram as frações (a) e (b), nas equações de predição, no entanto, a inclusão das taxas de degradação (c) e passagem de partículas (Kp) deveria aumentar a habilidade de predição de ingestão, principalmente com relação as equações de SHEM et al. (1995) e ÆRSKOV et al. (1988).

O uso dos coeficientes desenvolvidos por ØRSKOV et al. (1988) na equação ((A+B)+Kd) resultou na estimativa das ingestões diárias de 5,5 kg/MS/dia, superior ao obtido pelo modelo proposto por POND et al. (1989). Entretanto, o valor obtido por esta equação foi o que mais se aproximou do valor estimado pelo mesmo modelo, podendo ter apresentado valor mais correto, pois esta teria sido desenvolvida utilizando forrageiras tropicais.

Usando-se as mesmas equações para estimar o consumo de capim-tanzânia, sob pastejo, para vacas em lactação, observou-se que os valores obtidos na equação proposta por ØRSKOV et al. (1988) foram os que mais se aproximaram dos valores estimados com o modelo não-linear (BERCHIELLI et al., 2000).

Por outro lado, o coeficiente de variação obtido para os valores estimados do consumo em kg/MS/dia (13,7%) foi inferior ao obtido por HOVELL et al. (1986), os quais observaram que as informações obtidas com a incubação dos sacos de náilon no rúmen explicam 98% da variação na ingestão e 35, 75 e 94% de variabilidade foram explicadas pelos teores de PB, FDN e FDA do alimento, respectivamente.

As equações de SHEM et al. (1995) e ØRSKOV et al. (1988) foram as que apresentaram coeficientes de determinação mais elevados (R2 = 0,90 e 0,89), respectivamente, segundo os mesmos autores, quando também foram utilizadas para estimativas de consumo de forrageiras tropicais, embora no caso da primeira o valor tenha sido muito superior em comparação com o modelo não-linear. Já a equação de MADSEN et al. (1997) deveria refletir resultados mais adequados, pois, mesmo apresentando diferença significativa em relação ao consumo estimado no modelo não linear, utilizou maior número de parâmetros relacionados com a qualidade da forragem ingerida pelos animais, além da relação de utilização entre a taxa de degradação da fração b combinada com a taxa de passagem.

MERTENS et al. (1987) admitem que a ingestão potencial está relacionada com a FDN presente no pasto, ou seja, cada animal deve ingerir por dia 1,2% do peso vivo de FDN. Pela equação de MADSEN et al. (1997), estimou-se o consumo a partir do peso das vacas e do valor de FDN da extrusa do capim, registrando-se o valor de 7,7 kg de MS/animal/dia, para os animais experimentais.

Enfim sabe-se que outras características da forragem podem ter influenciado a predição da ingestão, como a taxa de redução de partículas maiores, o tempo de colonização destas, assim como a taxa constante de saída de digesta ruminal (ØRSKOV et al. 1988), e que não estão presentes como variáveis nestas equações, assim como o efeito de substituição do fornecimento de concentrado.

Super-estimativas do consumo podem ter ocorrido em função disto, pois McDONALD (1981), utilizando forrageiras tropicais com elevada solubilidade em água e não se considerando o tempo de colonização na degradação da fração insolúvel (b) além do efeito aditivo e substitutivo de outros alimentos da dieta, observou que os valores preditos da qualidade e do consumo de forragens estimados foram influenciados.

 

Conclusões

O consumo de matéria seca do pasto foi influenciado pelos parâmetros de degradação utilizados nas equações de predição, entretanto, a predição do consumo de matéria seca de vacas em pastejo de forrageiras tropicais precisa ser mais estudado, com número maior de animais, e mantidos preferencialmente em um sistema exclusivamente em pasto.

 

Referências Bibliográficas

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Recebido em: 14/12/00
Aceito em: 21/02/01

 

 

1 Trabalho financiado pela FAPESP.

2 Professor da FCAV/UNESP - Jaboticabal. E.mail: ttberchi@fcav.unesp.br

3 Aluno de Pós-graduação da FCAV/UNESP - Jaboticabal, SP.

4 EMBRAPA - Gado de Leite.

5 Pesquisador do CNPq.

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