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Revista Brasileira de Zootecnia

Print version ISSN 1516-3598On-line version ISSN 1806-9290

Rev. Bras. Zootec. vol.30 no.6 Viçosa Nov./Dec. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35982001000700016 

Efeito da Temperatura Ambiente e da Restrição Alimentar sobre o Desempenho e a Composição de Fibras Musculares Esqueléticas de Frangos de Corte1

 

José Roberto Sartori2, Elisabeth Gonzales3, Vitalino Dal Pai4, Henrique Nunes de Oliveira5, Marcos Macari6

 

 


RESUMO - O objetivo desta pesquisa foi estudar os efeitos da temperatura ambiente e da restrição alimentar sobre o desempenho e a composição do músculo flexor longo do hálux de frangos de corte. Trezentos e vinte e quatro pintos machos da linhagem Ross, com cinco dias de idade, foram distribuídos em um delineamento em parcelas subdivididas, considerando os tratamentos principais no esquema fatorial 3x3 inteiramente casualizado (três programas de alimentação: ad libitum, restrição precoce - 8 a 14 dias e restrição tardia - 29 a 35 dias; três níveis de temperatura: termoneutra, calor e frio). Os tratamentos secundários foram as idades das aves (seis idades: 7, 14, 21, 28, 35 e 42 dias). Não houve interação entre programa de alimentação e temperatura ou entre programa de alimentação, temperatura e idade para as características de desempenho dos frangos. Independentemente do programa de alimentação, houve efeito de temperatura para peso, ganho de peso, consumo de ração e conversão alimentar. O programa de alimentação afetou o peso e o ganho de peso das aves. Houve interação entre programa de alimentação e idade e entre temperatura e idade para peso vivo ao abate e peso do músculo da perna direita. Estas interações não foram significativas para peso do músculo da perna esquerda, área da secção transversal do músculo e relação peso do músculo/peso vivo ao abate. Conclui-se que a temperatura ambiente afeta o desempenho dos frangos de corte, porém não altera o número, diâmetro e freqüência de fibras musculares no músculo flexor longo do hálux. A restrição alimentar precoce pode ser adotada como prática de manejo, sem que se observem alterações do desempenho na idade de abate e nem na composição das fibras musculares esqueléticas dos frangos de corte.

Palavras-chave: fibra, frango, músculo esquelético, restrição alimentar, temperatura

Effect of Environmental Temperature and Feed Restriction on the Performance and Composition of the Skeletal Muscle Fibers in Broilers

ABSTRACT - This experiment aimed to evaluate the effects of environmental temperature and feed restriction on performance and characteristics of fiber types in the flexor hallucis longus muscle of male broilers. Three hundred twenty four five-day-old male chicks were allotted to a split plot design, where the main treatments were three feeding programs (ad libitum, early restriction - 8-14 days; later restriction - 29-35 days) and three environmental temperatures of growth (heat, termoneutral and cold) in a completely randomized factorial 3 x 3 schedule. The secundary treatments were the ages of the birds (7, 14, 21, 28, 35 and 42 days). Statistical analyses confirmed no interactions among feeding program x temperature and feeding program x temperature x age on the broiler performance. Independently of the feeding program, the temperature of raising affected final weight, weight gain, feed intake and feed:gain ratio. Feeding program affected broiler final weight and weigth gain. Feeding program x age and temperature x age interactions affected the weights of the body at slaughter and the right leg muscle. These interactions were not significant for left leg muscle weight, cross-sectional right leg muscle area and right leg muscle weight:body weigth ratio. In conclusion, the environmental temperature affected the performance of broiler, but not the number, frequency and size of the myofibers in the flexor hallucis muscle. Early feed restriction can be utilized as management tool without changing the performance at slaughter age and the fiber composition of flexor hallucis longus muscle of male broilers.

Key Words: broiler, feed restriction, fiber, skeletal muscle, temperature


 

 

Introdução

Nas condições comerciais de criação de frangos de corte no Brasil, onde não se trabalha com galpões com ambiente controlado, a maioria das granjas é antiga e inadequada em termos de ambiência e conforto térmico para as aves, as quais são submetidas ao estresse de temperatura, frio no inverno e calor no verão. Os prejuízos no desempenho zootécnico são imensos e podem ser ainda maiores, se forem consideradas as alterações que podem ocorrer no rendimento e qualidade da carne.

Assim como em outras espécies domésticas, a musculatura esquelética do frango de corte apresenta três tipos de fibras: brancas, intermediárias e vermelhas. As fibras brancas, de metabolismo anaeróbico, também podem ser denominadas de FG (Fast Glycolytic) e apresentam maior área e contração rápida. As fibras intermediárias, de coloração vermelha, são chamadas de FOG (Fast Oxidative Glycolytic), com área intermediária, metabolismo aeróbico e glicolítico e contração rápida. As fibras vermelhas têm metabolismo aeróbico e são chamadas de SO (Slow Oxidative), tendo pequena área e contração lenta (PETER et al., 1972; BANKS, 1992.).

A presença de um ou mais tipos de fibras, sua distribuição e freqüência dos subtipos, é que determinam as características metabólicas e contráteis do músculo esquelético, revelando suas propriedades bioquímicas e fisiológicas (DALL PAI e CURI, 1992). O fenótipo definitivo de fibras musculares esqueléticas adultas é resultado de eventos que começam no embrião e são modulados no decorrer da vida do organismo. Dessa forma, a composição de fibras musculares em aves pode variar com o tipo de músculo, inervação, localização dentro do músculo, idade, sexo, genética, ambiente (temperatura e dieta), exercícios e doenças (STOCKDALE, 1992; ONO et al., 1993).

Para manter a homeotermia corporal, os frangos de corte produzem calor, no frio, ou dissipam calor, no verão. Esses processos fisiológicos contam com a participação da musculatura esquelética. No frio, o frango de corte procura manter a homeotermia através de aumento na produção de calor, vinculada aos processos vitais e ao tremor muscular, e à redução na perda de calor. Trabalhos têm evidenciado que é possível as aves aumentarem a produção de calor quando expostas ao frio, através do aumento da atividade da enzima Citocromo oxidase, sendo esse efeito associado à musculatura vermelha (MACARI et al., 1994).

DUCHAMP et al. (1992) mostraram que, em paralelo ao desenvolvimento de non shivering thermogenesis em patos aclimatados pelo frio, o músculo esquelético apresentou alterações estruturais e funcionais para aumentar sua capacidade oxidativa, indicado por um aumento na proporção de fibras oxidativas e no suprimento capilar. Outros autores (BALLANTYNE e GEORGE, 1978) observaram que a adaptação ao frio, mas não ao calor, causou diminuição do diâmetro das fibras do músculo peitoral de pombos. Essas observações podem significar que as condições de temperatura do meio ambiente são capazes de alterar a composição das fibras da musculatura esquelética das aves. Há poucas informações com relação à estrutura das fibras musculares de frangos de corte submetidos a temperatura estressante, frio ou calor.

Existem vários estudos com restrição alimentar no período de inverno em frangos de corte em uma idade precoce e por um curto período de tempo, resultando em melhoria na eficiência alimentar, diminuição da gordura na carcaça (PLAVNIK e HURWITZ, 1991) e das perdas causadas por doenças metabólicas (GONZALES, 1992; COELLO et al., 1993; ROBINSON et al., 1989). Outros autores trabalharam com a restrição alimentar em uma fase final de criação dos frangos de corte, com o intuito de diminuir as perdas de desempenho e mortalidade causadas pelo calor nesse período (SARTORI et al., 1997). Em suínos (DAUNCEY e INGRAM, 1988) e em bovinos (ARRIGONI, 1995), a restrição alimentar determinou alterações na composição das fibras musculares esqueléticas, as quais, em bovinos, se mantiveram mesmo depois do período de ganho compensatório. Porém, pouco se conhece sobre os efeitos da restrição alimentar na composição ou freqüência de tipos de fibras musculares esqueléticas em frangos de corte e, conseqüentemente, as alterações que poderão ocorrer na qualidade da carcaça, com ou sem crescimento compensatório.

O objetivo desta pesquisa foi estudar os efeitos da temperatura ambiente (termoneutra, calor e frio) e da restrição alimentar numa fase precoce (8-14 dias) e tardia (29-35 dias) de criação sobre o desempenho e a composição do músculo flexor longo do hálux de frangos de corte.

 

Material e Métodos

Criação das aves e delineamento experimental

O experimento foi realizado no período de 15 de outubro a 26 de novembro de 1997. Foram utilizados 324 pintos de corte, machos, da linhagem Ross, obtidos de ovos de matrizes de um mesmo lote com 47 semanas de idade. Os ovos foram incubados na mesma incubadora e o nascimento ocorreu em um único nascedouro. Após o nascimento, os pintos foram sexados pela asa, selecionados e vacinados contra Marek, Gumboro e Bouba Aviária.

As aves foram alojadas com um dia de idade e durante quatro dias permaneceram nas mesmas condições de manejo, alimentação e temperatura ambiente de 35oC. No quinto dia de idade, as aves foram alojadas em três câmaras climatizadas, iniciando-se o período experimental (5 a 42 dias de idade).

O delineamento experimental foi o de parcelas subdivididas, considerando-se os tratamentos principais no esquema fatorial 3x3 inteiramente casualizado (três programas de alimentação: ad libitum, restrição precoce e restrição tardia e três níveis de temperatura: termoneutra, calor e frio) e os tratamentos secundários, as idades de observação: 7, 14, 21, 28, 35 e 42 dias (MONTGOMERY, 1991).

Foram alojadas 12 aves por boxe em nove boxes por câmara, totalizando 324 aves. Uma câmara foi regulada para manter a termoneutralidade de acordo com a idade da ave; outra câmara foi mantida de 3 a 9oC acima da termoneutra e a última câmara foi resfriada a uma temperatura de 7 a 9oC abaixo da termoneutra (Tabela 1).

 

 

As aves receberam água à vontade durante todo o experimento e, no 11° dia de idade, foram vacinadas contra a doença de Newcastle (Cepa Lasota), via água de bebida. As rações experimentais (Tabela 2), fornecidas na forma farelada, foram balanceadas para atender as exigências dos frangos de corte em três fases de criação.

A restrição alimentar foi quantitativa, retirando-se 40% da ração consumida pelas aves alimentadas ad libitum, ajustada diariamente pelo seu consumo diário. A restrição foi aplicada por sete dias na 2a (8-14 dias) e 5a (29-35 dias) semanas de idade, denominadas restrição precoce e tardia, respectivamente. Antes e após os períodos de restrição, todas as aves receberam alimentação à vontade.

Avaliações no músculo

Aos 7, 14, 21, 28, 35 e 42 dias de idade, foram retiradas, ao acaso, três aves de cada tratamento principal, as quais foram sacrificadas por deslocamento cervical. O músculo flexor longo do hálux das pernas direita e esquerda foram dissecados imediatamente após o sacrifício e pesados sem tendões e gordura. Esse músculo foi escolhido, pois tem uma coloração vermelha e apresenta um formato cilíndrico, com distribuição longitudinal das fibras, o que permite medidas morfométricas. Fez-se um corte transversal na região mediana do músculo da perna direita, dividindo-o em duas partes. A parte distal, próxima à articulação tibiotarso-tarsometatarsiana, foi colhida e imediatamente congelada durante dois minutos em N-Hexana, previamente resfriada a -70oC em N2 líquido (CHAYEN et al., 1969). Os fragmentos foram identificados e acondicionados em botijão de N2 líquido. Em um micrótomo-criostato a -20oC foram obtidas quatro séries de cortes histológicos com 8 mm de espessura para cada amostra.

Os cortes foram submetidos às seguintes técnicas: Hematoxilina-Eosina (HE); Nicotinamida Adenina Dinucleotídeo Tetrazólio Redutase (NADH-TR), conforme a técnica de Pearse (1972), modificada por DUBOWITZ e BROOKE (1984) e ATPase miofibrilar (m-ATPase), após pré-incubação em meio alcalino (pH 10,4) e em meio ácido (pH 4,6) (DUBOWITZ e BROOKE, 1984). Para a nomenclatura dos tipos de fibra foram adotados os critérios de PETER et al. (1972), que as classificam em SO (Slow Oxidative), FOG (Fast Oxidative Glycolytic) e FG (Fast Glycolytic).

O tamanho da fibra foi avaliado pela medida do seu menor diâmetro (DUBOWITZ e BROOKE, 1984). Para medidas de número e tamanho dos tipos de fibras, foram analisados os cortes que reagiram com a m-ATPase, após pré-incubação ácida (pH 4,6), que permite a diferenciação dos três tipos de fibras. Dos cortes presentes em cada lâmina, foi escolhido o mais íntegro e o que apresentava um melhor padrão de reação. As reações NADH-TR e m-ATPase, após pré-incubação alcalina serviram como controle para a identificação dos tipos de fibras. A coloração com HE foi realizada para verificar se não havia alterações nas fibras musculares.

Para a contagem, estabelecimento das freqüências (%) e obtenção do diâmetro dos tipos de fibras, foram analisados dez áreas de 66.420, 109.630 e 204.560 mm2/ave, para 7, 14 e 21 ou mais dias de idade, respectivamente, utilizando-se um microscópio óptico comum acoplado a um analisador de imagens (Videoplan - OPTIMAS - USA) e a um computador. Foram contadas e medidas as fibras que se encontravam dentro das áreas.

Para obtenção da área do corte transversal do músculo, foi utilizada uma lupa acoplada ao analisador de imagens (Videoplan - OPTIMAS - USA) e a um computador. O número de fibras no músculo foi obtido multiplicando-se o número médio dos tipos de fibras por área analisada pela área da secção transversal do músculo e dividindo-se pela área analisada (ABERLE e STEWART, 1983).

A análise estatística dos dados de peso médio, ganho de peso médio, consumo médio de ração, conversão alimentar, peso vivo ao abate, peso e área do músculo, relação peso do músculo/peso vivo e da morfometria dos tipos de fibras musculares (número, freqüência e tamanho) foi feita pelo método da análise de variância com o procedimento GLM do programa SAS (1996). Quando necessário, as médias de temperatura, programa de alimentação e idade foram comparadas pelo teste de Tukey, segundo SAS (1996).

 

Resultados e Discussão

Desempenho

Aos cinco dias de idade, o peso médio dos pintainhos foi 79,09 ± 1,76 g. Os dados acumulados de desempenho para o período experimental (5-42 dias) estão descritos na Tabela 3. Não se observou interação significativa entre temperatura e programa de alimentação e nem entre temperatura, programa de alimentação e idade para nenhuma das características de desempenho estudadas.

Aos 42 dias de idade, o peso e o ganho de peso das aves criadas no ambiente quente foram inferiores (P<0,05) aos das aves mantidas em ambiente termoneutro e frio. Estes resultados ocorreram, provavelmente, devido ao menor (P<0,05) consumo de ração das aves na câmara aquecida, quando comparadas com as aves criadas nas câmaras termoneutra e fria. Entre as aves alojadas nas câmaras termoneutra e fria, o consumo de ração foi menor (P<0,05) para aves alojadas na câmara termoneutra, indicando que a temperatura fria provocou um aumento no consumo voluntário de alimento. Estes dados estão de acordo com os observados na literatura. Vários autores têm relatado queda de desempenho em lotes de frangos de corte criados em períodos quentes, em decorrência de menor consumo de ração, com menores ganhos de peso e peso final (TEETER et al., 1989; MAY e LOTT, 1992). Embora não significativos, os valores menores para peso e ganho de peso das aves submetidas à termoneutralidade, quando comparadas ao ambiente frio, estão em conformidade com o NRC (1981), onde relata-se que há influência da temperatura ambiente no desempenho de frangos de corte, observando-se um ganho de peso e consumo de ração máximos na estação fria e mínimos no período quente.

Houve um efeito significativo (P<0,05) da temperatura ambiente sobre a conversão alimentar, sendo que as aves criadas em ambiente frio apresentaram um índice de conversão alimentar maior (P<0,05) que as criadas no quente, não diferindo significativamente das aves criadas na termoneutralidade (Tabela 3). DAGHIR (1995) relata que a eficiência alimentar para frangos de corte é máxima aos 27oC, sendo sempre reduzida em temperaturas abaixo de 21oC, conforme observado neste experimento.

Aos 42 dias de idade, não houve diferença (P<0,05) para peso, ganho de peso, consumo de ração e conversão alimentar entre as aves alimentadas ad libitum e as aves submetidas a restrição precoce (8-14 dias), indicando que as aves submetidas a restrição precoce apresentaram um ganho compensatório após a restrição, recuperando o peso aos 42 dias de idade. GONZALES (1992), trabalhando com níveis de restrição de até 40% na segunda semana de idade de frangos de corte, não verificou alterações no peso final e consumo de ração acumulado aos 49 dias de idade, indicando que houve um crescimento compensatório, como observado neste experimento.

As aves submetidas à restrição alimentar tardia (29-35 dias) tiveram menores peso e ganho de peso aos 42 dias de idade que as aves alimentadas ad libitum. Esses resultados não estão de acordo com os observados por SARTORI et al. (1997), que não verificaram alterações significativas no peso final, ganho de peso e consumo de ração para frangos de corte submetidos ao jejum de até 8 h/dia na fase final de criação.

Não houve efeito de programa de alimentação para a conversão alimentar, diferindo dos resultados de PLAVNIK e HURWITZ (1991), que verificaram uma melhora na eficiência alimentar com o uso de restrição precoce. Porém, GONZALES (1992), trabalhando com restrição alimentar quantitativa (10 a 50%) na segunda semana de idade, também não observou diferenças na conversão alimentar para frangos alimentados ad libitum, quando comparados aos submetidos a 40% de restrição de 8 a 14 dias de idade, em lotes criados no inverno e no verão.

Morfometria do músculo

O peso vivo ao abate teve comportamento semelhante ao peso e ganho de peso médios do lote para temperatura e programa de alimentação dentro de cada idade (Tabela 4). Neste experimento, o peso vivo individual da ave ao abate foi sempre superior ao peso médio do lote, em todos os grupos de tratamento. Esses maiores valores numéricos podem ser explicados pela amostragem, onde, muitas vezes, as aves amostradas para o abate são mais pesadas do que o peso médio do lote. Entretanto, avaliações de qualidade de carcaça com aves de um mesmo ciclo de criação, linhagem e idade não são prejudicadas, desde que a variação do peso vivo antes do abate, em relação ao peso médio do lote, seja inferior a três desvios padrões (GONZALES et al., 1998), como verificado neste experimento (dados não mostrados).

Houve interação significativa (P<0,05) entre temperatura e idade e entre programa de alimentação e idade para o peso do músculo da perna direita. Não foram observadas interações significativas entre esses fatores para peso do músculo da perna esquerda, área da secção transversal do músculo e relação peso do músculo da perna direita/peso vivo. Também não houve interação significativa entre idade, temperatura e programa de alimentação para as características morfométricas estudadas (Tabela 4). O desdobramento da interação entre temperatura e idade para peso do músculo da perna direita mostrou que, dentro de idade, o peso do músculo foi maior (P<0,05) no ambiente quente que no frio aos 14 dias de idade e menor (P<0,05) no ambiente quente que no termoneutro aos 28 dias de idade. Porém, não ocorreram diferenças no peso do músculo em função da temperatura aos 7, 21, 35 e 42 dias de idade.

O desdobramento da interação entre programa de alimentação e idade para peso do músculo da perna direita (Tabela 4) mostrou que, dentro de idade, o peso do músculo foi menor nas aves submetidas a restrição precoce, quando comparadas às alimentadas ad libitum aos 14, 21 e 35 dias de idade. Nas aves submetidas à restrição tardia, o peso do músculo foi menor aos 35 dias de idade, quando comparadas às aves alimentadas ad libitum.

Dentro do fator temperatura e do fator programa de alimentação, o peso do músculo da perna direita aos 7 e 14 dias de idade não diferiram entre si para nenhuma das temperaturas e programas de alimentação utilizados. A partir dos 21 dias de idade, o peso do músculo da perna direita foi significativamente maior (P<0,05) para cada período de idade, dentro de todas as temperaturas e programas de alimentação. Independentemente da temperatura e da idade, houve efeito (P<0,05) de programa de alimentação para o peso do músculo da perna esquerda, o qual foi menor nas aves submetidas a restrição precoce que nas alimentadas ad libitum (Tabela 4).

Independentemente do programa de alimentação e da idade, houve efeito da temperatura sobre a relação peso do músculo da perna direita/peso vivo, a qual foi maior (P<0,05) nas aves no ambiente quente, quando comparadas com as aves nos ambientes termoneutro e frio (Tabela 4).

Independentemente de temperatura e programa de alimentação, houve efeito significativo (P<0,05) da idade para peso do músculo da perna esquerda, área da secção transversal do músculo da perna direita e relação peso do músculo da perna direita/peso vivo. O peso do músculo da perna esquerda foi significativamente maior para cada período de idade. A área da secção transversal do músculo da perna direita aumentou (P<0,05) significativamente para cada período de idade, exceção feita aos 28 e 35 dias. A relação peso do músculo da perna direita/peso vivo aumentou com a idade, sendo que aos 35 e 42 dias de idade, os valores foram maiores que aos sete dias (Tabela 4).

Na Tabela 5 observa-se que o peso vivo está positivo e significativamente (P<0,05) correlacionado com o peso e área do músculo flexor longo do hálux da perna direita, mostrando que esse músculo é um bom indicador para estudos relacionados ao crescimento dos frangos de corte.

Morfometria das fibras musculares

Nos cortes do músculo flexor longo do hálux submetidos a reação com a m-ATPase após pré-incubação alcalina (pH 10,4), as fibras do tipo FG reagiram intensamente e as fibras dos tipos FOG e SO apresentaram uma intensidade de reação de fraca a moderada, de forma que não foi possível diferenciá-las com esta coloração. Na reação da m-ATPase, após pré-incubação ácida (pH 4,6), as fibras do tipo SO reagiram intensamente, as fibras do tipo FG reagiram fracamente e as fibras do tipo FOG reagiram moderadamente, tendo intensidade de coloração intermediária entre SO e FG, permitindo a diferenciação dos três tipos de fibras. Na reação com a NADH-TR, observa-se que as fibras de metabolismo oxidativo (SO e FOG) reagiram intensamente e fibras de metabolismo glicolítico (FG) reagiram moderadamente, indicando que todas as fibras deste músculo apresentavam predomínio de caráter oxidativo (Figura 1).

Não houve interação ou efeito isolado de temperatura e programa de alimentação para os dados de diâmetro e freqüência das fibras musculares do tipo SO, FOG e FG. Também não foram observadas interações significativas entre a idade e a temperatura, entre idade e programa de alimentação e entre idade, temperatura e programa de alimentação para o diâmetro e freqüência para os tipos de fibras musculares analisados (Tabela 6). Esses resultados indicam que a temperatura ambiente fria não influenciou a atividade oxidativa da musculatura, como relatado por BALLANTYNE e GEORGE (1978), em pombos, DUCHAMP et al. (1992), em patos, e MACARI et al. (1994), em aves. A restrição alimentar também não alterou a composição das fibras musculares, diferente do observado por ARRIGONI (1995), em bovinos, e DAUNCEY e INGRAM (1988), em suínos.

Independentemente do programa de alimentação ou da temperatura ambiente, houve efeito significativo (P<0,05) da idade sobre o diâmetro e a freqüência dos tipos de fibras musculares. O diâmetro das fibras do tipo FG e o diâmetro total das fibras aumentou significativamente (P<0,05) para cada período de idade. Para as fibras do tipo FOG, não houve diferença entre o diâmetro aos 7 e 14 dias de idade, porém, a partir de 21 dias de idade, o diâmetro aumentou significativamente para cada idade. Para as fibras do tipo SO, não se observou diferença no diâmetro aos 7 e 14 dias de idade, sendo menores que o das fibras aos 21 e 28 dias, que não diferiram entre si. Aos 28, 35 e 42 dias de idade, foram observados os maiores diâmetros das fibras do tipo SO, não diferindo significativamente entre si (Tabela 5).

Os diâmetros das fibras dos tipos SO, FOG e FG foram positivamente (P<0,05) correlacionados com o peso vivo ao abate e com o peso e a área da secção transversal do músculo flexor longo do hálux da perna direita. Os valores das correlações bastante elevados indicam uma grande contribuição do diâmetro das fibras para o crescimento do animal (Tabela 6).

Aos sete dias de idade, a freqüência de fibras do tipo FOG foi menor que aos 21, 28 e 42 dias, porém não diferiu da freqüência aos 14 e 35 dias. Não houve efeito da idade sobre a freqüência de fibras do tipo SO e FG (Tabela 5).

Não houve efeito de temperatura ambiente, programa de alimentação e idade e nem interações entre estes fatores para o número de fibras do tipo SO, FOG e FG e nem para o número total de fibras no músculo flexor longo do hálux dos frangos de corte (Tabela 7). O número de fibras do tipo SO, FOG e FG e o número total de fibras no músculo flexor longo do hálux foram, em média, 4192, 8142, 3947 e 16281, respectivamente. A temperatura ambiente ou a restrição alimentar não promoveram uma hiperplasia dos tipos de fibras. Isso indica que não há hiperplasia das fibras musculares esqueléticas do músculo flexor longo do hálux durante o período pós-natal em frangos de corte, em conformidade com o observado por ROWE e GOLDSPINK (1969).

 

Conclusões

A temperatura ambiente afetou o desempenho dos frangos de corte, porém não alterou o número, diâmetro e freqüência de fibras musculares no músculo flexor longo do hálux. A restrição alimentar precoce pode ser adotada como prática de manejo, sem que se observem alterações do desempenho na idade de abate ou na composição dos tipos de fibras no músculo flexor longo do hálux de frangos de corte.

 

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Recebido em: 22/03/01
Aceito em: 28/06/01

 

 

1 Parte da Tese de Doutorado apresentada à FCAV, UNESP, Jaboticabal, SP, pelo primeiro autor. Apoio: FAPESP

2 Prof. Assistente Dr., Depto. Melhoramento e Nutrição, FMVZ, UNESP, Botucatu, SP. E.mail: jrsartori@fca.unesp.br

3 Prof. Dr. Voluntário, Depto. Clínica Veterinária, FMVZ, UNESP, Botucatu, SP. E.mail: elisa.gonzales@uol.com.br

4 Prof. Titular do Depto. Morfologia e Embriologia, IB, UNESP, Botucatu, SP. E.mail: btdalpai@zaz.com.br

5 Prof. Dr. do Depto. Melhoramento e Nutrição, FMVZ, UNESP, Botucatu, SP. E.mail: hnunes@fca.unesp.br

6 Prof. Titular do Depto. Morfologia e Fisiologia, FCAV, UNESP, Jaboticabal, SP. E.mail: macari@fcav.unesp.br

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