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Revista Brasileira de Zootecnia

Print version ISSN 1516-3598On-line version ISSN 1806-9290

R. Bras. Zootec. vol.32 no.1 Viçosa Jan./Feb. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35982003000100022 

Desempenho de frangos de corte, digestibilidade de nutrientes e valores energéticos de rações formuladas com vários milhos, suplementadas com enzimas

 

Broilers performance, nutrients digestibility and energy values of diets formulated with different corns, supplemented with enzymes

 

 

Paulo Borges RodriguesI; Horacio Santiago RostagnoII; Luiz Fernando Teixeira AlbinoII; Paulo Cezar GomesII; Walter Amaral BarbozaIII; Rodrigo Santana ToledoIV

IProfessor do Departamento de Zootecnia da UFLA. E.mail: pborges@ufla.br
IIProfessores do Departamento de Zootecnia da UFV. E.mail rostagno@ufv.br
IIIProfessor do Departamento de Zootecnia da UFES. E.mail: barbozawa@hotmail.com
IVAluno de doutorado do Departamento de Zootecnia da UFV

 

 


RESUMO

Dois experimentos foram conduzidos com o objetivo de verificar o desempenho de frangos de corte, a digestibilidade de nutrientes e os valores energéticos de rações formuladas com milhos, de diferentes variedades (experimento 1) e regiões (experimento 2), suplementadas com um complexo enzimático. Em cada experimento foram utilizados 480 pintos Hubbard machos, com 14 dias de idade, os quais foram criados até a idade de 27 dias, período no qual foi avaliado o desempenho. As aves receberam os tratamentos em esquema fatorial 6 x 2 (variedades x complexo enzimático), em quatro repetições de 10 aves cada. Cada milho foi misturado em uma ração basal, na proporção de 63,24%, constituindo as dietas experimentais, cujos níveis de proteína bruta e valores energéticos variaram em função da composição dos milhos. Utilizou-se o óxido crômico como indicador, na proporção de 0,5%. A partir do 23o dia, as excretas foram coletadas por 5 dias e, no 28o dia, todas as aves de cada repetição foram abatidas e o conteúdo de digesta presente nos 30 cm do íleo terminal, anterior à junção íleo-cecal, coletado. As amostras das excretas e da digesta ileal foram analisadas em matéria seca, nitrogênio, energia bruta e amido, e os coeficientes de digestibilidade e valores energéticos determinados por meio do fator de indigestibilidade do óxido crômico. Concluiu-se que a procedência dos milhos (variedades ou regiões) influenciou o desempenho; a digestibilidade dos nutrientes e os valores energéticos das rações variaram em função da composição dos milhos; a digestibilidade ileal da proteína bruta, do amido e a energia digestível ileal das rações melhoraram com a suplementação enzimática.

Palavras-chave: frangos de corte, desempenho, milho, digestibilidade, energia metabolizável, enzimas


ABSTRACT

Two assays were carried out to evaluate the broilers performance, nutrients digestibility and the energy values of diets formulated with corn from different varieties (Experiment 1) and regions (Experiment 2), supplemented with an enzymatic complex. In each assay, were used 480 male broilers Hubbard, 14 days old, grown from 14 to 27 days to evaluate performance. The broiler chickens fed an experimental diets in 6x2 factorial design (varieties x region), in four replicates of 10 broilers in each experimental unit. Each corn were mixed in a basal diet in a fixed amount of 63.24%, constituting the experimental diets. The crude protein and energy values changed according to corn composition. Chromic oxide (0.5%) was used as indicator. During the 23rd to 27th days, the excretas were collected and, in the 28th day, all broilers of each replicate were slaughtered and the digesta present in the last 30 cm of the terminal ileum, anterior to ileo-cecal junction, was collected. The samples of the excreta and ileal digesta were analyzed for dry matter, nitrogen, gross energy and starch, and the digestibility coefficients and energy values, were calculated using the indigestibility factor of chromic oxide. It was concluded that origen (varieties or regions) effected broiler performance; the nutrient digestibility and energy values of diets formulated with the corn type showed difference as a function of the chemical composition. The ileal digestibility of crude protein, starch and energy was improved in the diets supplemented with enzymes.

Keywords: broilers performance, corn, digestibility, metabolizable energy, enzymes


 

 

Introdução

No campo da produção animal, o progresso da indústria avícola tem sido de relevada significância. Entre os vários fatores que contribuem para esta finalidade, a nutrição tem desempenhado importante papel, com intensa busca de melhora no aproveitamento dos nutrientes da dieta. De acordo com Pluske & Linderman (1998), a produção anual de grãos de cereais, legumes e sementes de oleaginosas no mundo é de, aproximadamente, 2 bilhões e 140 milhões de toneladas, associada à estimativa de 230 milhões de toneladas de componentes fibrosos como parte de subprodutos. Segundo dados recentes (Anfal, 2000), 65% da produção nacional de milho e 40% da oferta de farelo de soja são consumidos na alimentação animal.

Apesar da constante busca por alimentos alternativos, as rações de aves ainda são formuladas basicamente com o milho e farelo de soja. No entanto, o farelo de soja apresenta em sua composição constituintes não-digeridos pelas aves, ou com digestão incompleta, os quais são denominados de polissacarídeos não-amídicos (Zanella, 1998). De acordo com Cantor (1995), o farelo de soja apresenta 20% de polissacarídeos não-amídicos, com digestibilidade praticamente nula. Além disso, os inibidores de tripsina e as lectinas são os fatores antinutricionais da soja e do farelo mais comumente destacados na literatura. Dados de Hessing et al. (1995), citados por Bedford (1998) e, posteriormente, por Penz Jr. (1998), mostraram claramente a variabilidade no conteúdo de substâncias antinutricionais, sugerindo que esta variabilidade pode ser responsável, em alguns casos, pela grande variação na resposta de crescimento das aves. Além disso, resultados apresentados por Leeson et al. (1993) mostraram haver variação no conteúdo energético de diferentes partidas de milho, na safra de 1992. Posteriormente, Soto-Salanova et al. (1996) citaram resultados que mostraram variações entre nutrientes de diferentes lotes de milho. De acordo com Bedford (1998), tanto o farelo de soja como o milho são ingredientes variáveis, cuja variabilidade é difícil de predizer com as tecnologias atuais.

Por outro lado, foi considerado que, geralmente, a digestibilidade dos nutrientes do milho (particularmente o amido) é relativamente alta. Estudos de Noy & Sklam (1995), no entanto, mostraram que a digestibilidade do amido e da gordura foi relativamente baixa em relação às consideradas anteriormente. No intuito de melhorar o valor nutritivo das dietas à base de milho e farelo de soja, já havia sido sugerido no início da década de 90 (Finnfeeds, 1991, citado por Borges, 1997) o uso de complexos enzimáticos. Dessa forma, com o objetivo de melhorar o desempenho das aves, a utilização de enzimas nas dietas avícolas tem sido uma alternativa crescente, uma vez que o emprego das enzimas exógenas em dietas à base de cevada, no passado, estimulou seu uso nas rações, procurando melhorar a digestibilidade dos nutrientes. Assim, o uso de enzimas que sejam capazes de neutralizar os fatores antinutricionais da soja, degradando os inibidores de tripsina e lectinas e os polissacarídos não-amídicos, e mesmo auxiliar na digestão do amido, bem como reduzir a variabilidade em dietas à base de milho, pode resultar em melhor qualidade nutricional da dieta e desempenho animal mais uniforme (Wyatt & Bedford, 1998). O objetivo deste trabalho, portanto, foi avaliar a utilização de alguns milhos na formulação das dietas e os efeitos da adição de um complexo enzimático (protease, amilase e xilanase), em dietas à base de milho e farelo de soja, sobre a digestibilidade de nutrientes, os valores energéticos e o desempenho de frangos de corte aos 28 dias de idade.

 

Material e Métodos

Dois experimentos foram conduzidos no Laboratório Animal do Departamento de Zootecnia (DZO) da Universidade Federal de Viçosa (UFV). As aves foram criadas até a idade de 14 dias, período no qual receberam uma ração inicial de frangos de corte à base de milho e farelo de soja. Após esse período, as aves foram pesadas e transferidas para baterias metálicas e distribuídas aleatoriamente aos boxes das baterias, onde receberam os tratamentos experimentais.

No experimento 1 foram utilizados 480 pintos Hubbard machos, com 14 dias de idade e peso médio de 301,5 ± 3,6 g. As temperaturas, mínima e máxima, médias registradas durante o período experimental foram de 21,4 ± 1,4oC e 25,3 ± 1,2oC, respectivamente. Os tratamentos foram distribuídos em um esquema fatorial 6 x 2, sendo as dietas formuladas com seis variedades distintas de milho (Agroceres, Braskalb, Cargil, Cati, Embrapa e Santa Helena, designadas como variedades 1, 2, 3, 4, 5, e 6, respectivamente), sem ou com suplementação de um complexo enzimático (Avizyme 1.50®, com 300 U de xilanase/g, 400 U de amilase/g e 4.000 U de protease/g), com quatro repetições de 10 aves cada. As variedades de milho, cuja composição em matéria seca (MS), proteína bruta (PB), energia bruta (EB), extrato etéreo (EE) e amido está apresentada na Tabela 1, foram misturadas com uma ração basal em quantidades equivalentes a 63,24% de milho e 36,76% da ração basal, constituindo assim as seis dietas experimentais (Tabela 2), às quais adicionou ou não o complexo enzimático, na quantidade de 1 kg/t. A composição centesimal e determinada da ração basal encontra-se na Tabela 3. O óxido crômico foi utilizado como indicador na ração para determinação dos valores de digestibilidade dos nutrientes e energia metabolizável, em uma concentração de 0,5% nas dietas experimentais. As aves receberam ração e água à vontade durante o período experimental e, a partir do 23o dia, iniciou-se a coleta total de excretas, a qual foi realizada duas vezes ao dia (8 e 16 h), para evitar fermentação. As excretas foram acondicionadas em sacos plásticos, que foram identificados e colocados em freezer até o final da coleta. As amostras foram, então, homogeneizadas e retiradas as alíquotas para análises, passando por pré-secagem, em estufa ventilada a 55oC, por um período de 72 horas.

 

 

 

Determinou-se o conteúdo de MS, N, EB e EE, de acordo com Silva (1990), e amido, por método enzimático, conforme a metodologia descrita no Thecnical Bulletin SAB-1, Sigma Chemical Company (1995). Ao final do 27o dia, foi avaliado o desempenho das aves no período experimental (ganho de peso, consumo de ração e conversão alimentar). No 28o dia, todas as aves de cada repetição foram abatidas para coleta da digesta ileal, sendo abertas na cavidade abdominal e amostrando-se 30 cm da porção do íleo terminal, anterior à junção íleo-cecal. A digesta ileal das aves de cada repetição foi reunida para formação da amostra de cada tratamento, em que o conteúdo presente no segmento amostrado foi totalmente retirado por pressionamento com os dedos indicador e polegar, de tal forma a garantir quantidade ideal de amostra para as análises. Constantemente, as aves que permaneciam nas gaiolas eram estimuladas ao consumo, para evitar esvaziamento do trato digestivo, o que prejudicaria o procedimento de coleta da digesta. As amostras da digesta ileal foram então secas em estufa ventilada a 55oC, por 72 horas, e realizadas as análises laboratoriais semelhantes às das excretas. Os cálculos da digestibilidade dos nutrientes (ileal e pelo método de coleta total de excretas) foram realizados por intermédio do fator de indigestibilidade do cromo, usado como indicador pelas fórmulas:

Fator de indigestibilidade no íleo ou excretas (FI):

FI = [Cr] na ração/[Cr] amostra (ileal ou excreta), em que [Cr] é a concentração de cromo

Digestibilidade dos nutrientes (DIG):

Os valores de energia digestível no íleo (EDI), energia metabolizável aparente (EMA) e aparente corrigida (EMAn) foram determinados por meio das fórmulas:

EDI (kcal/kg de MS) = energia bruta (EB) da dieta - (EB da digesta ileal * FI do íleo);

EMA (kcal/kg de MS) = EB da dieta - (EB da excreta * FI da excreta);

EMAn (kcal/kg de MS) = EB da dieta - [(EB da excreta * FI excreta) + 8,22 * (BN)]; e

BN = Balanço de nitrogênio = N da dieta - (N da excreta * FI da excreta).

Os resultados do desempenho e da digestibilidade dos nutrientes foram então analisados e comparados por meio do pacote SAEG - Sistema para Análises Estatísticas, versão 5.0 (Universidade Federal de Viçosa - UFV, 1992).

No experimento 2, foram testadas dietas formuladas com milhos provenientes de seis regiões distintas (Ingaí/MG, Noroeste de MG, Goiás, Nova Ponte/MG, Triângulo mineiro/MG e Viçosa/MG, denominadas de regiões 1, 2, 3, 4, 5 e 6, respectivamente), também suplementadas ou não com o complexo enzimático utilizado no experimento 1. A composição dos milhos é mostrada na Tabela 4. As dietas foram fornecidas a 480 pintos machos da linhagem Hubbard, com 14 dias de idade e peso médio de 352,3 ± 2,7 g, distribuídos aleatoriamente em um esquema fatorial 6 x 2, com quatro repetições cada. Os milhos foram misturados à ração basal nas mesmas proporções do experimento I (Tabela 5) e adotou-se um procedimento experimental semelhante àquele descrito anteriormente. As temperaturas médias, mínima e máxima, registradas na sala durante o período experimental foram de 22,8 ± 1,6oC e 28,2 ± 2,6oC, respectivamente. Os dados do experimento II foram obtidos, calculados e analisados conforme descrito para o experimento I.

 

Resultados e Discussão

Ensaios de desempenho

O desempenho médio dos frangos de corte no período de 15 a 27 dias de idade, recebendo as dietas experimentais com diferentes variedades de milho (experimento 1), ou milhos provenientes de regiões distintas (experimento 2), suplementadas com enzimas, está apresentado na Tabela 6. A adição do complexo enzimático (protease, amilase e xilanase) não alterou (P>0,05) o desempenho médio das aves no período estudado, avaliado pelo ganho de peso, pelo consumo de ração e pela conversão alimentar, independentemente da variedade ou procedência do milho utilizado na ração. Estes resultados não estão condizentes com aqueles relatados por Zanella (1998) e Zanella et al. (1999), que encontraram efeito positivo da adição de enzimas em dietas à base de milho e soja. Deve-se destacar, porém, que esses autores adicionaram o complexo enzimático durante toda a fase de criação, o que não aconteceu no presente experimento. Entretanto, Torres (1999) não obteve melhora no ganho de peso diário das aves e nem variação no consumo de ração, quando adicionou as enzimas nas dietas à base de milho e farelo de soja. Esse autor forneceu o complexo enzimático por toda a fase de criação, cujos resultados referentes ao período de 14 a 21 e de 22 a 28 dias estão coerentes com os observados no presente trabalho. Resultados semelhantes aos observados no presente experimento foram obtidos por Marsman et al. (1997), que não observaram melhora no desempenho dos frangos de corte, criados no período de 7 a 25 dias, quando suplementaram a dieta com enzimas.

No experimento 1, o ganho de peso das aves foi influenciado (P<0,05) pelas diferentes variedades de milho adicionadas nas dietas experimentais, podendo-se notar que as variedades 2 e 6 propiciaram melhor ganho dos frangos e, uma vez que o consumo de ração não foi alterado (P>0,05), independentemente da variedade de milho adicionada na ração, a conversão alimentar das aves recebendo as variedades 2 e 6 foram melhores que as demais (P<0,01). Devido à semelhança no consumo de ração (P>0,05), esta melhora no ganho de peso e na conversão alimentar, possivelmente, pode estar associada à composição química dos milhos utilizados na formulação, a qual influiu nas dietas experimentais, levando a composições diferenciadas entre elas. Pode-se observar que o teor de proteína bruta na MS destas variedades (11,54 e 9,82%, respectivamente) foi superior às demais (8,36 a 9,14%), o que levou as dietas experimentais formuladas com estas variedades a apresentar maior conteúdo em proteína e aminoácidos e, possivelmente, melhor aproveitamento desta pelas aves.

Esta composição diferenciada em proteína está coerente com as afirmações de Leeson et al. (1993) e Soto-Salanova et al. (1996), que destacaram variabilidade entre a composição de vários lotes de milho. Lima (2001), atenta para o fato de erros cometidos quando se considera que o milho apresenta composição nutricional estática. No presente trabalho, o teor de proteína bruta da variedade 2 foi superior em 38,04% em relação à variedade 4, resultando em uma dieta experimental com diferença de 8,31% em proteína. No entanto, apesar do maior teor protéico, a composição em extrato etéreo da variedade 2 foi bem semelhante às variedades 4, 5 e 6. A variedade 3 apresentou valor mais baixo (3,58%), comparado à variedade 1 (4,81%). O amido dos milhos reduziu em 12,80% entre as variedades 1 e 2 (valores calculados com base na MS). Em termos percentuais, a variação na energia bruta das variedades foi relativamente baixa (3,17%), porém representa um total de 144 kcal entre os milhos de maior e menor teor de energia bruta. Estes diferentes teores dos nutrientes do milho resultou em dietas de composição variada, o que, certamente, influencia o desempenho das aves. No entanto, ressalta-se que, apesar de apresentar composição diferenciada, o aproveitamento dos nutrientes está diretamente relacionado à sua digestibilidade.

Contrário ao observado no experimento anterior, no experimento 2, o ganho de peso e a conversão alimentar não foram influenciados (P>0,05) pelas dietas formuladas com milhos provenientes de diferentes regiões, independentemente da adição ou não de enzimas (P>0,05). Também não houve interação significativa (P>0,05), quando foi avaliado o consumo de ração. No entanto, a procedência do milho mostrou ter influência (P<0,05) sobre o consumo das aves, no qual aquelas que receberam as dietas com os milhos das regiões 1, 3 e 5 consumiram mais ração que as demais, apesar deste consumo não ter influenciado o ganho de peso e a conversão alimentar. Os resultados observados neste experimento diferiram do primeiro, no qual as diferentes variedades de milho tiveram influência sobre o desempenho das aves. Contudo, naquele experimento, houve variação expressiva na composição dos milhos, especialmente da proteína bruta, o que não foi observado no segundo. De certa forma, estes resultados contradizem aqueles apresentados por Leeson et al. (1993) e Soto-Salanova et al. (1996), em que a composição de diferentes lotes de milho foi muito variável. No presente experimento, somente o extrato etéreo apresentou variação expressiva entre o maior e o menor valor analisado (28,32%). As análises de proteína bruta, energia bruta e amido dos milhos mostraram haver variação de 7,82; 2,10; e 14,18%, respectivamente, sendo estas variações menos expressivas que aquelas observadas no primeiro experimento (calculadas com base na MS).

Ensaios de digestibilidade

Os resultados referentes aos coeficientes de digestibilidade ileal aparente da matéria seca (CDIAMS), da proteína bruta (CDIAPB) e do amido (CDIAA), nos dois experimentos conduzidos, estão apresentados na Tabela 7. Nota-se que houve interação (P<0,01) entre as dietas com diferentes variedades de milho e a suplementação enzimática, quando se determinaram os CDIAMS e CDIAA. As dietas com as variedades 2 e 4 tiveram menor digestibilidade ileal da matéria seca nas dietas não-suplementadas com enzimas e, quando o complexo enzimático foi adicionado às dietas, o CDIAMS da variedade 2 assemelhou-se às demais, com exceção da variedade 4, que foi superior, mostrando efeito benéfico da adição de enzimas nesta dieta sobre a digestibilidade ileal da matéria seca. Melhora significativa na digestibilidade ileal da matéria seca, quando enzimas foram adicionadas na dieta, também foi obtida por Zanella (1998). Quando avaliou-se a digestibilidade ileal do amido, pôde-se observar que as variedades 3 e 4 foram beneficiadas com a suplementação enzimática, enquanto a variedade 6, apesar da melhor digestibilidade proporcionada pela adição de enzimas na dieta, apresentou digestibilidade do amido inferior às demais variedades. Marsman et al. (1997) não obtiveram melhora na digestibilidade do amido, quando adicionaram enzimas na dieta.

Apesar de o teor de proteína das dietas com as diferentes variedades de milho ter sido variável, a digestibilidade ileal da proteína das dietas com estes diferentes milhos foi semelhante (P>0,05), independente da suplementação enzimática. Estes resultados obtidos no presente experimento não se assemelham àqueles relatados por Marsman et al. (1997) e Zanella et al. (1999). Pelos resultados obtidos no presente experimento, torna-se possível afirmar que, como a digestibilidade foi semelhante, maior aporte em proteínas e, conseqüentemente, em aminoácidos esteve disponível para as aves que receberam as dietas formuladas com as variedades 2 e 6, o que pode ter acarretado melhor ganho de peso e conversão alimentar das aves que receberam estas dietas.

No experimento 2, observou-se que somente houve interação (P<0,05) das dietas com diferentes milhos e a suplementação enzimática para os CDIAA. Nota-se que, com exceção das dietas formuladas com milhos provenientes das regiões 2 e 4, a adição de enzimas melhorou a digestibilidade ileal do amido das demais dietas. Nos estudos de Marsman et al. (1997), não foi encontrada melhora na digestibilidade ileal deste nutriente, resultado contrário ao obtido no presente experimento e daqueles apresentados por Zanella et al. (1999). Os valores de digestibilidade ileal do amido, observados nos dois experimentos, foram relativamente elevados, independentemente da suplementação enzimática (96,0% no primeiro e 95,3% no segundo, em média), comparados aos de Zanella et al. (1999), sendo inferiores àqueles determinados por Marsman et al. (1997). Independente da procedência dos resultados, pode-se observar que todos os valores de digestibilidade relatados contradizem aqueles obtidos por Noy e Sklan (1995), que apresentaram digestibilidade ileal do amido variável entre 82 e 89%, a qual foi considerada baixa para pintos em crescimento; resultados semelhantes àqueles encontrados posteriormente por Coon (1996), citado por Bedford (1998).

A suplementação enzimática melhorou (P<0,01) a digestibilidade ileal da matéria seca e proteína bruta (P = 0,085, no experimento 1), independentemente da procedência do milho, estando de acordo com os resultados obtidos por Zanella (1998) para a matéria seca, e Marsman (1997) e Zanella (1999) para proteína bruta. Os milhos provenientes das regiões 5 e 6 apresentaram os menores coeficientes de digestibilidade da matéria seca e os das regiões 2 e 6, da proteína bruta.

Conforme se observa na Tabela 8, no experimento 1, houve interação (P<0,01) das dietas com a suplementação enzimática sobre os valores dos coeficientes de digestibilidade ileal aparente do extrato etéreo (CDIAEE). Pode-se observar que a dieta com a variedade de milho 1 apresentou melhor digestibilidade, quando as enzimas foram adicionadas na dieta, o que não foi observado para as variedades 3 e 6, as quais não diferiram significativamente (P>0,05), quando se adicionaram enzimas nas dietas. Independentemente da suplementação da dieta com o complexo enzimático, a variedade 6 foi a que apresentou melhor digestibilidade do extrato etéreo (95,32%, em média), quando comparada às demais. Inexplicavelmente, algumas variedades (2, 4 e 5) apresentaram menor digestibilidade, quando a dieta foi suplementada com enzimas. Estes resultados observados no presente experimento não corroboram aqueles relatados por Marsman et al. (1997) e Zanella et al. (1999), quando adicionaram enzimas na dieta.

Os coeficientes de digestibilidade ileal aparente da energia (CDIAE) e a energia digestível ileal (EDI) mostraram não haver interação das dietas formuladas com milhos de diferentes variedades e adição do complexo enzimático nas dietas (P>0,05). No entanto, houve diferenças entre os CDIAE das dietas contendo diferentes variedades de milho (P<0,05) e, conseqüentemente, da EDI (P<0,01), em que a variedade 3 apresentou menor valor, sendo 2,37% inferior à média das demais variedades (3.672 kcal EDI/kg de MS), que não diferiram pelo teste de agrupamento de Scott-Knott. A suplementação com enzimas melhorou (P<0,05) a digestibilidade da energia e a energia digestível ileal, estando coerente com os resultados citados por Pack et al. (1998) e Zanella et al. (1999). Com exceção da proteína bruta, em que a digestibilidade não foi influenciada pela adição de enzimas na dieta, os demais nutrientes tiveram seus coeficientes de digestibilidade ileal, na maioria, melhorados com a suplementação enzimática. Estes resultados, de certa forma, corroboram aqueles relatados na literatura (Marsman et al., 1997; Ghazi et al., 1997; Pack et al., 1998; Zanella, 1998 e Zanella et al., 1999).

Os CDIAEE determinados no experimento 2 (Tabela 8), não foram influenciados pelos diferentes milhos, nem pela adição de enzimas (P>0,05), entretanto, as enzimas adicionadas às dietas experimentais melhoraram a energia digestível ileal (P<0,01), assemelhando-se aos resultados apresentados por Pack et al. (1998). A digestibilidade da energia da dieta formulada com o milho da região 3, bem como a EDI, foi superior (P<0,01) aos valores das demais dietas, as quais tiveram CDIAE e EDI semelhantes. A adição de enzimas nas dietas melhorou (P<0,05) a digestibilidade da EB e o valor da EDI, em 1,93 e 1,94%, respectivamente, em relação às dietas sem suplementação. Esta melhora, no entanto, foi inferior àquelas relatadas por Bedford (1998).

Pelos resultados dos coeficientes de digestibilidade aparente da matéria seca (CDAMS) e do extrato etéreo (CDAEE) no experimento 1 (Tabela 9), observou-se interação (P<0,01) das dietas com diferentes variedades de milho e a adição do complexo enzimático, o que não ocorreu (P>0,05) quando as dietas foram formuladas com milhos de diferentes regiões (experimento 2). Os CDAMS das dietas com as variedades 2, 3, 4, e 5 foram melhorados com a suplementação enzimática e, entre todas as variedades estudadas, a 6 foi a que apresentou menor CDAMS, quando ocorreu a suplementação, na qual, inexplicavelmente, a digestibilidade da MS piorou com a adição das enzimas. O mesmo comportamento foi notado para variedade 3, cujos CDAMS e CDAEE foram reduzidos na dieta com enzimas. Independente da suplementação, a variedade 4 foi a que apresentou menor digestibilidade do EE.

Para os valores dos CDAA, não houve interação (P>0,05) das dietas com diferentes variedades de milho e adição de enzimas, nem daquelas com milhos provenientes de diferentes regiões. Nota-se que a adição do complexo enzimático, o qual continha a enzima amilase em sua composição, melhorou (P<0,01) a digestibilidade do amido, independentemente da variedade estudada, resultado este não verificado no experimento 2.

Os CDAA foram diferenciados entre as dietas, visto que aquelas contendo as variedades 1, 3 e 4 apresentaram digestibilidade superior às demais, mostrando que a digestibilidade dos nutrientes de diferentes milhos é variável. Porém, tal fato não foi evidenciado quando as dietas foram formuladas com milhos provenientes de diferentes regiões. No entanto, constata-se que a matéria seca das dietas formuladas com milhos das regiões 1, 3 e 4 apresentou melhor digestibilidade e os CDAEE das dietas com os milhos provenientes das regiões 1 e 3 foram superiores. A adição do complexo enzimático melhorou (P<0,01) a digestibilidade do extrato etéreo. De maneira geral, a digestibilidade dos nutrientes melhorou com a adição de enzimas na dieta. Estes resultados estão de acordo com aqueles encontrados por Zanella (1998) e Zanella et al. (1999), com exceção da digestibilidade do extrato etéreo, na qual os referidos autores não obtiveram diferença significativa.

Na Tabela 10 observa-se que, quando foi determinado os valores energéticos das dietas com diferentes variedades de milho, constatou-se interação significativa (P<0,01) entre as dietas e a suplementação com o complexo enzimático (experimento 1), fato não observado no experimento 2 (P>0,05). Com exceção da dieta com a variedade 3, a qual inexplicavelmente mostrou redução nos valores de EMAn, os valores energéticos das dietas com os milhos das variedades 2, 4 e 5 aumentaram quando as enzimas foram adicionadas. Os valores de EMAn da dieta com a variedade 5 foram os menores, quando determinados sem a suplementação enzimática. No entanto, quando se adicionou as enzimas à dieta, estes valores foram semelhantes àqueles determinados nas dietas com as variedades 3 e 6. A variação observada nos valores de EMAn das dietas com os milhos de diferentes variedades foi de 148 kcal/kg, entre a maior e menor energia observada (3.810 e 3.662 kcal), representando 4,04% de diferença. Esta variação, de certa forma, reforça as colocações de Leeson et al. (1993), os quais constataram que os valores energéticos de diferentes milhos são variáveis. A diferença entre os valores energéticos obtidos no presente experimento foi de 4,62%, nas dietas sem suplementação, e 4,12%, quando as enzimas foram adicionadas, mostrando, de certa forma, que as enzimas exógenas podem ser benéficas em reduzir a variabilidade na EMAn das dietas de frangos de corte, corroborando os resultados de Wyatt e Bedford (1998). Os valores de EMAn das dietas com os milhos de diferentes regiões foram diferenciados (P<0,05), podendo-se observar que as dietas com os milhos das regiões 3 e 5 foram as que apresentaram maiores valores energéticos. Apesar de apresentarem valores de EMAn diferentes, pode-se notar que a amplitude entre a maior e a menor energia determinada foi de 60 kcal/kg. Esta diferença não chega a ser expressiva (1,74%), quando comparada à amplitude dos valores energéticos determinados por Leeson et al. (1993), de 547 kcal de EMAn/kg, representando variação de 18,69% entre a maior e menor energia determinada nas amostras (3.473 e 2.926 kcal de EMAn/kg).

 

Conclusões

A procedência dos milhos (variedades ou regiões) influenciou o desempenho das aves; a digestibilidade dos nutrientes e os valores energéticos das rações variou em função da composição dos milhos utilizados na formulação; a digestibilidade ileal da proteína bruta, do amido e a energia digestível ileal das rações melhorou com a suplementação enzimática.

 

Literatura Citada

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Recebido em: 28/09/01
Aceito em: 20/08/02

 

 

1 Parte da tese de doutorado do primeiro autor

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