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Revista Brasileira de Zootecnia

versão On-line ISSN 1806-9290

R. Bras. Zootec. v.32 n.2 Viçosa mar./abr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35982003000200008 

Objetivos econômicos de seleção de bovinos de leite para fazenda demonstrativa na Zona da Mata de Minas Gerais

 

Economic objectives for dairy cattle selection in a demonstration farm in the Zona da Mata of Minas Gerais

 

 

Gabrimar Araújo MartinsI; Fernando Enrique MadalenaII; José Henrique BruschiIII; José Ladeira da CostaIII; João Bosco Neves MonteiroIV

IProfessor da Universidade Estadual Vale do Acaraú, Sobral-Ce; Aluno do Curso de Doutorado em Ciência Animal da UFMG/Bolsista da FUNCAP. E.mail: gabrimarm@bol.com.br
IIProf. do Departamento de Zootecnia da UFMG, Bolsista do CNPq. E.mail: fermadal@pop3.lcc.ufmg.br
IIIPesquisador da EMBRAPA-Gado de Leite
IVTécnico Agrícola da EMBRAPA-Gado de Leite

 

 


RESUMO

Os valores econômicos para características de gado de leite foram calculados a partir de dados econômicos e zootécnicos do Sistema de Produção de Leite a Pasto com Gado Mestiço da Embrapa Gado de Leite. Estes valores foram estimados por dois métodos: 1) utilizando a derivada parcial do lucro com respeito a cada característica e 2) pela derivada parcial da razão receita/custo, para cada característica, ambas as derivadas avaliadas no valor médio das outras características. Com este último método, os valores econômicos das características consideradas, expressos em equivalente kg de leite, foram: veículo (leite sem gordura e proteína), 0,77 /kg, gordura, - 5,0 /kg, proteína – 3,65 /kg, mamite, -155,34 /caso, fluxo lácteo, 146,00 /kg/min, número de serviços por concepção, -104,5 /serviço, idade aos 330 kg, -1,27 /dia, dias desde os 330 kg até o primeiro parto, -0,51 /dia, vida útil, 49,63 /ano e peso da vaca seca, -4,34 /kg. Os valores obtidos com o método 1 foram semelhantes. Os resultados confirmam comunicações da literatura de valor econômico negativo para a gordura e proteína do leite quando estes componentes não são remunerados, de maior valor econômico relativo para a redução do peso corporal das vacas que para o aumento da produção de leite, da grande importância da mamite, fluxo lácteo e vida útil e da pouca importância relativa do intervalo em dias desde os 330 kg até o primeiro parto.

Palavras-chave: função de lucro, gado de leite, seleção, valor econômico


ABSTRACT

The economic values of dairy cattle were derived from economics and production data of a demonstration farm, the "Pasture Dairy Production System using Holstein Zebu Cattle" at Embrapa-Dairy Cattle. The economic values were estimated by two methods 1) from the partial derivative of profit with respect to each trait, and 2) from the partial derivative of the income/cost ratio, both evaluated at the mean value of all other traits. With the latter method, the economic values of traits considered, expressed in equivalent kg of milk, were: carrier (milk with zero fat and protein), 0.77 /kg, milk fat, - 5.00 /kg, milk protein, –3.65 /kg, mastitis, -155,34 /case, milk flow, 146.00 /kg/min, number of services per conception, -104.50 /service, age at 330 kg, -1.27 /day, days from 330 kg to first calving, -0.51 /day, herdlife, 49.63 /year and dry cow weight, -4.34 /kg. Similar values were obtained with method 1. These results confirm previous literature reports indicating negative economic values for milk fat and protein when these components are not paid for, higher economic value of reducing cow liveweight relative to increasing milk yield and showing great importance for mastitis, milk flow and herdlife and low relative importance of interval from 330 kg to first calving.

Keywords: dairy cattle, economic value, profit function, selection


 

 

Introdução

O primeiro passo num programa de melhoramento consiste na definição formal dos seus objetivos econômicos. Uma vez que são várias as características que afetam a eficiência econômica, e sendo a unidade de seleção o indivíduo (reprodutor ou reprodutriz), a seleção artificial implica na ponderação das diferentes características que se deseja melhorar. Hazel (1943) definiu o "mérito genético agregado" como H = S ai Gi, em que H é uma função linear dos valores genéticos para cada uma das características de interesse (Gi) ponderadas pelo seu valor econômico relativo (ai). Este autor definiu os valores econômicos ai como "a quantidade esperada de aumento no lucro por cada unidade de melhoramento na característica i". Posteriormente, Moav & Hill (1966) generalizaram este raciocínio à situação mais comum de não-linearidade do lucro, expresso como função das características zootécnicas, e definiram os valores econômicos de cada característica como a derivada parcial da função de lucro com respeito à característica em questão, avaliada nos valores médios atuais das outras características. O objetivo de seleção é função de características que se deseja melhorar, sendo esta aplicada com base num critério de seleção, baseado nas mesmas ou em outras características, cuja medição é mais fácil e barata (James, 1982).

Apesar da óbvia importância do assunto, só recentemente a determinação dos objetivos econômicos da seleção tem recebido mais atenção, tanto na teoria desta determinação quanto na sua avaliação prática (Harris & Newman, 1994; Weller, 1994). Madalena (1986) relatou o desconhecimento de avaliações de objetivos econômicos de seleção de bovinos em países tropicais, onde as características de interesse podem ter diferentes importâncias em relação aos países temperados desenvolvidos. No Brasil, Bittencourt et al. (1998), apresentaram ponderações econômicas para gado de corte. Madalena (2000a) e Vercesi Filho et al. (2000) apresentaram, recentemente, avaliações de objetivos econômicos de seleção de bovinos de leite. No entanto, quantidade maior de trabalhos faz-se necessária, abrangendo número mais representativo de situações práticas.

A Embrapa Gado de Leite mantém na Zona da Mata de Minas Gerais uma unidade demonstrativa de produção, qual seja, o Sistema de Produção com Gado Mestiço, de grande importância na difusão de tecnologias de produção de leite, cujos dados zootécnicos e econômicos são apropriados para a avaliação de objetivos de seleção. Este trabalho teve como meta a obtenção de estimativas de funções de lucro para esta fazenda e o desenvolvimento de objetivos econômicos de seleção, que podem ser aplicáveis para bovinos de leite naquela região.

 

Material e Métodos

Para o cálculo dos valores econômicos foram utilizados os dados zootécnicos e de receitas e custos de produção do Sistema de Produção com Gado Mestiço da Embrapa Gado de Leite, observados no período de novembro de 1996 a outubro de 2000.

Sistema de produção

O "Sistema" ocupa uma área de 101 hectares dividida em piquetes, sendo 76,2 ha ocupados com pastagem, 14,5 ha com capim elefante, 9,5 ha com forrageiras para ensilagem e 0,8 ha com benfeitorias. O rebanho utilisado era constituído por animais mestiços Holandês(H)-zebu sendo 2% dos animais 3/8H, 14% 1/2H, 38% 3/4H, 24% 7/8H, 17% 15/16H e 5% 31/32H. No período estudado o rebanho estava estabilizado para as categorias animais. A composição média está descrita na Tabela 1.

O rebanho foi manejado em pastagem, com suplementação volumosa durante o período seco. Forneceu-se concentrado para bezerros, bem como para vacas com produção acima de 10 litros. O consumo médio de concentrados para vacas em lactação foi de 3 kg/vaca/dia (75% de NDT e 22% de proteína). Foi utilizado o sistema de ordenha mecânica. Os bezerros permaneciam com as mães apenas por 12 horas após o parto sendo levados posteriormente para abrigos individuais, onde permaneciam até 70 dias de idade quando eram encaminhados para o pasto. Os animais foram vacinados para manqueira, aftosa, raiva e brucelose e vermifugados nos meses de dezembro, abril, julho e setembro. O controle de carrapatos foi feito de maneira sistemática com seis aplicações de carrapaticida na época quente e chuvosa. Após essa época apenas os animais infestados foram banhados. Exames para brucelose e tuberculose foram feitos a cada seis meses para os animais de produção. Para o controle de mamite foi usado o teste da caneca e contagem de células somáticas, sendo as tetas desinfectadas antes e após a ordenha. Para a ordenhadeira mecânica, existiu uma rotina própria de higienização, baseada nas recomendações técnicas do fabricante. Descrição mais detalhada do "Sistema de Produção" foi apresentada por Novaes (1992).

As médias das características zootécnicas do rebanho, para o período de novembro de 1996 a outubro de 2000, utilizadas nos cálculos dos valores econômicos estão apresentadas na Tabela 2, junto com outras características descritivas. A proteína e a lactose não eram remuneradas e seus valores não foram determinados para este rebanho, sendo seus valores supostos, a efeitos da estimativa dos valores econômicos da proteína e veículo, conforme descrito por Madalena (2000a).

 

 

Receitas e despesas por categoria animal

O custo de produção foi dividido em custo operacional efetivo, que corresponde aos desembolsos para manter o sistema funcionando, e custo operacional total, somando as depreciações (Hoffmann, 1987). O "Sistema" não utilizou mão-de-obra familiar.

Os registros contábeis são normalmente usados para estudos de rentabilidade e eficiência do sistema de produção. Entretanto, para o cálculo dos valores econômicos é necessário que esses registros estejam separados por característica, para o que foram, inicialmente separados por categoria animal. As anotações das receitas, e, na maioria dos casos, das despesas, foram contabilizadas separadamente por categoria animal, incluindo despesas com concentrado, sal mineral, volumoso, inseminação artificial, medicamentos para mamite e leite descartado por tratamento, ordenhadeira mecânica e mão-de-obra para ordenha.

No caso das pastagens, só o total dos custos estava disponível. Como cada categoria ocupava uma área exclusiva, as despesas totais com pastagem foram rateadas pela área de piquetes corespondente a cada categoria animal. O Imposto Territorial Rural foi rateado da mesma forma e incorporado as despesas com pastagens.

As despesas com mão-de-obra geral por categoria foram estimadas rateando o total proporcionalmente ao tempo dispensado para manejo, alimentação, cuidados sanitários e outros, de cada categoria, sendo estas proporções estimadas subjetivamente pelo administrador do "Sistema" (J.B.N.M.). O FUNRURAL (Fundo de Amparo ao Trabalhador Rural) foi rateado da mesma maneira que a mão-de-obra e incorporado a ela. Do mesmo modo, a despesa com "reparos" foi distribuída proporcionalmente ao valor de cada benfeitoria e logo rateada entre as categorias animais proporcionalmente à ocupação estimada. A despesa com "energia" foi separada proporcionalmente ao uso estimado das instalações, lava-jato para aplicação de carrapaticidas, picadeiras e outros. As despesas consideradas como "outros custos" foram também rateadas segundo a proporção correspondente a cada categoria. O custo de produtos veterinários referentes ao controle de carrapatos foi rateado proporcionalmente à dosagem do produto recomendada para cada categoria animal.

As depreciações das pastagens, instalações para manejo, sala de ordenha, cochos para alimentação, silos, currais, esterqueira, cercas internas e perimetrais, máquinas e equipamentos utilisados no sistema, compiladas por Gomes & Carneiro (2000), foram adicionadas ao custo operacional efetivo.

Receitas e despesas por característica

As receitas e despesas foram expressas em equivalente-leite, dividindo cada uma pelo preço do quilo de leite recebido pela fazenda no mês da ocorrência. Os custos de alimentação das vacas foram separados em custos de produção, de mantença e de gestação a partir das exigências de energia líquida (NRC, 1989), conforme descrito na Tabela 6.

Os custos das produções de gordura, proteína e veículo incluíram os custos com alimentação, mão de obra geral, carrapaticida e reparos correspondentes às vacas em lactação e expressos por kg de componente. Da mesma forma, os custos de mantença das vacas em lactação e vacas secas incluíram os mesmos elementos (mais energia no caso das vacas secas) para a respectiva categoria, expressos por kg de peso vivo. Os custos das novilhas de 1 dia até 330 kg e dos 330 kg até o primeiro parto incluiram os mesmos elementos que o custo das vacas secas, mas para a primeira categoria incluiu-se também o custo com aleitamento.

O custo da mamite incluiu o custo dos medicamentos mais o leite descartado, correspondente a cinco dias de tratamento (MAA, 2001). O custo da ordenha, associado com o fluxo lácteo, incluiu os custos de mão de obra para ordenha, manutenção e reparos da ordenhadeira e energia. O custo da gestação incluiu apenas o custo de alimento. O custo da inseminação incluiu o sêmen, materiais para inseminação, rufião e mão-de-obra.

Função de lucro

O lucro foi expresso em função das seguintes características (utilizando-se o símbolo p para o preço unitário, nas receitas, e c para o custo unitário, nas despesas): produção de proteína (pP, cP), gordura (pG, cG) e veículo (pV, cV), kg de vaca de descarte (pVD), kg de bezerra ou novilha vendida de cada categoria (PvB.70-1, PvN.1-330, e PvN>330) bezerro macho (pBM), mantença de um kg de vaca em lactação (cMAN.L) ou seca (cMAN.S), fluxo lácteo (custo de ordenha de um kg de leite, cORD), caso de mamite (cMAM), um serviço de inseminação (cSERV), custo diário da novilha desde o nascimento até os 330 kg (cN.1-330) e de novilha de 330 kg até o primeiro parto (cN.330-IP) e custo de uma gestação (cGEST). As receitas obtidas da venda de bezerras e novilhas foram abatidas no custo das novilhas de reposição. As depreciações não puderam ser rateadas entre as características e foram englobadas numa constante K.

As expressões para receitas (R,) e custos (C) consideradas na função de lucro (L = R–C) foram as seguintes:

Para efeito de referência foi calculado também o valor econômico do leite integral produzido na fazenda, remunerado independentemente de seus componentes, substituindo nas equações acima pV + pG + pP pelo equivalente pL, o preço do leite, e cV + cG + cP pelo custo, cL.

As despesas com a criação de novilhas até os 330 kg e entre os 330 kg e o parto foram incluídas como função da vida útil (igual à inversa da taxa de reposição). Os pesos das vacas de descarte e em lactação foram expressos em relação ao peso da vaca seca.

A resistência aos carrapatos não foi incluída por separado na função de lucro por não se dispor de uma medida da mesma no rebanho, como, p. ex., contagens de larvas ingurgitadas. De todo modo, para efeitos de informação, as despesas com acaricidas foram calculadas para cada categoria, e incluídas no termo K, que engloba todas as despesas (várias e depreciações), que não puderam ser alocadas a nenhuma característica específica.

Valores econômicos

Os valores econômicos das características (Xj) foram obtidos por dois métodos, 1) a partir de função de lucro (L = f{Rj - Cj}) decorrente das receitas (Rj) e dos custos (Cj) com elas associados, pela derivada parcial do lucro com respeito a cada característica, avaliada na média de todas as outras características (Moav & Hill, 1966):

e 2) pela derivada parcial da razão receita/custo (R/C)

conforme sugerido por Smith et al. (1986), para evitar contabilizar efeitos de escala.

 

Resultados e Discussão

Sistema de produção

A margem líquida anual, para remunerar o capital e o trabalho do empresário, foi de R$ 21.357, correspondente a 68.892 equivalentes em leite. A produção de leite por lactação foi igual a 3.297 litros. Yamaguchi et al (1997) com dados do mesmo "Sistema" estimaram que a produção mínima para equalização dos custos e receitas era 2.984 kg/lactação. Embora não seja o objetivo deste trabalho analisar o sistema de produção, outros detalhes do desempenho econômico são apresentados na Tabela 7.

Receitas e despesas por categoria animal e por característica

Na Tabela 3, encontram-se os valores de receitas e despesas discriminados por categoria animal. A maior parte do custo operacional efetivo foi imputado às vacas leiteiras (74%), ao passo que as categorias não produtivas responderam juntas por apenas 26%. Vale salientar que o custo de criação das bezerras foi elevado, sendo a mão-de-obra o item que mais o onerou, diferenciando dos menores valores descritos por Vercesi Filho et al. (2000). A distribuição das receitas e despesas por característica é apresentada na Tabela 4.

 

 

Função de lucro

Utilizando os números de animais da Tabela 1 e os valores para receitas e custos de cada característica da Tabela 4, a função de lucro foi calculada apartir das seguintes expressões:

Valores econômicos

Na Tabela 5, são apresentados os valores econômicos para as características estudadas. Os valores econômicos obtidos como são mais apropriados devido a eles não incluirem o efeito (não genético) de escala de produção, ao contrário dos valores obtidos por (Smith et al., 1986). Entretanto, em vários casos, ambos tipos de valores tem sido semelhantes (Ponzoni, 1988), o que ocorreu também, neste trabalho (Tabela 5). Assim, o fato de não ter podido separar as depreciações para cada característica teve pouco efeito sobre os valores econômicos relativos das mesmas.

Percebe-se que os valores econômicos para a gordura e proteína foram negativos, pois é mais caro produzí-las do que o veículo e, além disso, a fazenda não recebia preço diferenciado por estes componentes, o que é incompatível com o custo de produção dos mesmos. O valor econômico para o veículo foi positivo. Nesse cenário não seria vantajoso produzir gordura e proteína a mais, dando ênfase apenas para o leite produzido independente de seus componentes, como indicado por Vercessi Filho et al. (2000) e Madalena (2000a) para outro laticínio em Minas Gerais. Bueno et al. (2002) verificaram que os índices de seleção com valores econômicos para o Rio Grande do Sul favorecerão os animais que produzirem menores teores de gordura e de proteína, devido os coeficientes negativos para estes componentes. Os valores econômicos dos componentes do leite em países desenvolvidos são maiores para proteína, seguida de gordura e valores baixos ou negativos para o veículo (Pieters et al., 1997, Steverink et al., 1994 e Vischer et al., 1994). Madalena (2000b) indicou que a seleção utilizando valores econômicos negativos para leite e proteína resultaria numa diminuição do teor destes componentes, o que seria prejudicial caso o Brasil viesse a adotar o mesmo sistema de pagamento dos países desenvolvidos, o que gera para os criadores o dilema de se selecionar para o mercado presente ou para o futuro.

Dekkers & Gibson (1998) chamaram a atenção para o fato de que, na aplicação dos objetivos econômicos, deve haver interacão completa entre os pesquisadores e a cadeia produtiva agropecuária (laticínios, criadores, produtores e outros) para que todos os aspectos do processo como cenário futuro, reescalonamento da produção e forma de pagamento utilisada pela indústria sejam compatíveis com a forma de expressar as características e permitam que os princípios científicos sejam usados para obtenção de um ótimo econômico. Conforme Goddard (1998), o objetivo de seleção é utilisado geralmente para o incremento do lucro da cadeia produtiva ou da sociedade que está investindo em um programa de melhoramento.

Para efeito de referência, foi calculado o valor econômico do leite integral produzido na fazenda, remunerado independente de seus componentes, sendo positivo e igual a 0,56 kg para a equação de lucro composta pelas receitas menos os custos e 0,43 kg, quando considerado o efeito de escala e os custos fixos.

Considerando os valores econômicos para as demais características, os resultados para mamite, número de serviços por concepção, idade aos 330 kg, idade ao primeiro parto foram negativos, uma vez que essas características não geram receita, apenas custos. O valor econômico para idade ao primeiro parto foi baixo refletindo custos menores na criação das novilhas dos 330 kg ao primeiro parto. Vercesi Filho et al. (2000) encontraram valores semelhantes para a idade ao primeiro parto analisando os dados da fazenda Experimental Santa Rita. A eficiência reprodutiva está implícita na função de lucro considerada, já que esta considera o custo das vacas secas e em lactação, não sendo, assim, necessário incluir explícitamente medidas da eficiência, como, por exemplo, o intervalo de partos.

O peso corporal das vacas também teve peso negativo, já que a venda de vacas de descarte não cobriu os custos com essa categoria. Do total de despesas com alimentos para vacas em lactação e secas, 53,5% corresponderam às exigências de mantença, evidenciando a importância desta característica. Vercessi Filho et al. (2000) comunicaram que a diminuição de 1% no peso da vaca tinha maior valor econômico que o aumento de 1% na produção de leite, em rebanho em que os bezerros machos não eram aproveitados, como no presente caso, onde também verificou-se a maior importância econômica relativa do peso da vaca (Tabela 5). Mesmo para condições de seleção para leite e carne, a seleção para peso juvenil não foi conveniente, devido ao aumento correlacionado no peso da vaca adulta, na simulação de Lôbo et al. (2000a,b). O fluxo lácteo apresentou valores econômicos positivos e de grande magnitude, assumindo assim, importância na ponderação do genótipo agregado, o que poderá reduzir os custos para ordenha. Vercesi Filho et al. (2000) também obtiveram valores econômicos positivos e elevados para o fluxo lácteo, mas menores que os obtidos nesse trabalho. A vida útil teve valor econômico elevado, sugerindo seleção para aumentá-la. Neste rebanho, á vida útil de 4,15 anos foi menor que o valor ótimo de 6,3 anos sugerido por Cardoso et al. (1999) para vacas F1 na região Sudeste. Vercesi Filho et al. (2000) mostraram que para valores de vida útil próximos do ótimo, o valor econômico desta característica é reduzido.

De modo geral, quando ocorrem mudanças nos índices zootécnicos do rebanho e nos preços dos insumos e produtos, os valores econômicos são modificados, expressando assim a dependência do cenário para o qual foram calculados. Desta forma, seria conveniente se dispor de informações de maior número de fazendas para se obter valores econômicos representativos. Por outro lado, a fazenda do presente estudo tem grande importância como unidade demonstrativa.

Discriminação por característica dos custos de alimentação das vacas

Os custos com alimentação das vacas foram discriminados por característica (produção de veículo, gordura e proteína, mantença das vacas em lactação e mantença e gestação das vacas secas) a partir das exigências de energia líquida (NRC, 1989) necessárias para produzir cada componente. A separação em exigências para gordura, proteína e veículo foi feita conforme Madalena (2000a) e apresenta-se na Tabela 6.

Desempenho econômico do "Sistema de Produção"

Na Tabela 7, têm-se os dados para receitas, custos e eficiência econômica.

 

Conclusões

Quando o sistema de pagamento do leite não remunera a gordura e a proteína, como neste estudo, o valor econômico destes componentes é negativo, visto que seu custo de produção é muito maior que o do veículo, tornando antieconômica sua seleção.

O valor econômico do peso adulto tem grande importância devido à elevada participação da mantença no total das despesas com alimentos das vacas, sendo, no sistema de produção estudado mais econômica a redução do peso que o aumento da produção de leite.

O fluxo lácteo, a mamite e a vida útil tem altos valores econômicos justificando sua inclusão no objetivo da seleção.

 

Literatura Citada

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Recebido em: 02/01/02
Aceito em: 09/09/02