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Revista Brasileira de Zootecnia

Print version ISSN 1516-3598On-line version ISSN 1806-9290

R. Bras. Zootec. vol.34 no.2 Viçosa Mar./Apr. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35982005000200021 

MONOGÁSTRICOS

 

Utilização de subprodutos de origem animal em dietas formuladas com base em proteína bruta e proteína ideal para frangos de corte de 1 a 21 dias de idade1

 

Use of animal by-products in diets formulated based on crude and ideal protein fed to broiler from 1 to 21 days of age

 

 

Luciana Cardoso CancheriniI; Otto Mack JunqueiraII; Maria Cristina de OliveiraIII; Marcelo de Oliveira AndreottiIV; Maria José Baptista BarbosaV

IProfa do Dep. de Zootecnia da Universidade do Estado de Mato Grosso - Unemat/MT. E.mail: lucianac@fcav.unesp.br
IIProf. Titular do Dep. de Zootecnia, FCAV/UNESP, Jaboticabal. E.mail: ottomack@fcav.unesp.br
IIIProfa. Adjunto do Dep. de Zootecnia, FESURV, Rio Verde, GO. E.mail: cristina@fesurv.br
IVProf. do DPL/CCBS da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul UFMS/MS
VProfa do Dep. de Zootecnia da Universidade Estadual de Maringá - PR

 

 


RESUMO

Foi conduzido um experimento para avaliar a utilização de subprodutos de origem animal em dietas para frangos de corte, formuladas com base na proteína bruta ou proteína ideal. O delineamento foi inteiramente casualizado em esquema fatorial 2x2+1, com duas fontes de proteína de origem animal (farinha de vísceras de aves e farinha de sangue bovino), dois conceitos de formulação (proteína bruta e proteína ideal) e uma dieta testemunha à base de milho e farelo de soja, com quatro repetições. As características avaliadas foram ganho de peso, consumo de ração e conversão alimentar. Houve efeito significativo das interações entre fontes de proteína de origem animal e conceitos de formulação para consumo de ração e ganho de peso. Quanto à conversão alimentar, não houve diferença significativa na interação e os melhores valores de conversão alimentar foram encontrados quando se incorporou a farinha de vísceras às dietas. Os melhores ganhos de peso foram obtidos com as dietas com farinha de sangue formuladas com base na proteína bruta e com farinha de vísceras de aves com base na proteína ideal.

Palavras-chave: frangos de corte, nutrição animal, proteína ideal, subprodutos de origem animal


ABSTRACT

An experiment was conducted to evaluate the use of animal by-products in broiler diets, formulated based on crude and ideal protein. The experimental design was a completely randomized in a factorial arrangement 2x2+1, with two animal protein sources (poultry viscera meal and bovine blood meal), two formulation concepts (based on crude and ideal protein) and a control diet based on corn and soybean meal, with four replications. The evaluated characteristics were weight gain, feed intake and feed: gain ratio. There was a significant effect of the interaction animal protein source x formulation concepts on feed intake and weight gain. There was not significant effect of the interaction on feed: gain ratio and the best values were found when the poultry viscera meal was added to the diets. The best weight gains were obtained with the diet formulated with bovine blood meal using the crude protein concept and, using the ideal protein concept the best result was obtained when the poultry viscera meal was added to the diets.

Key Words: animal by-products, animal nutrition, broilers


 

 

Introdução

Em virtude do alto custo das fontes protéicas e da produção em larga escala de aminoácidos industriais, os nutricionistas têm permitido a formulação de dietas com baixos níveis de proteína bruta, que têm promovido bons resultados de desempenho.

Para ser ideal, a proteína deve apresentar os 20 aminoácidos nos níveis exigidos para a mantença e máxima deposição protéica. Portanto, proteína ideal não existe na prática. O que deve ser almejado é a máxima aproximação dos níveis de aminoácidos das exigências das aves nas diferentes fases de produção (Penz Jr., 1996). O uso da proteína ideal permite ainda compensar os fatores que podem influenciar as exigências em aminoácidos, entre eles os níveis energético e protéico da dieta e o potencial genético do animal para ganho de tecido magro. Em dietas com alta densidade energética, as exigências de lisina são relativamente aumentadas, refletindo em maior exigência dos demais aminoácidos (Sakomura & Silva, 1998). Deve-se ainda considerar que os requerimentos de aminoácidos são baseados nos níveis de aminoácidos totais dos alimentos, entretanto, as quantidades destes aminoácidos contidas nos ingredientes das dietas são muito maiores que as quantidades digestíveis (Wang & Parsons, 1998).

A dieta pode influenciar a composição da carcaça embora os efeitos sejam limitados no que diz respeito a deposição absoluta de carne. Aumentar o conteúdo de proteína na dieta reflete em redução do conteúdo de gordura na carcaça, mas existe pouca alteração na quantidade, em gramas, de carne magra depositada (Leeson, 1995). Por outro lado, dietas com baixo teor protéico e sem suplementação de aminoácidos originam carcaças mais gordas (Si et al., 2001).

Com o objetivo de avaliar o desempenho de frangos de corte alimentados com dietas formuladas com base na proteína ideal ou proteína bruta, Araújo et al. (2001) verificaram que a proteína ideal resultou em melhores ganhos de peso, maior consumo de ração e em nenhum efeito sobre a conversão alimentar. Por outro lado, Hussein et al. (2001), ao compararem dietas com 23% e 17,7% de proteína bruta suplementadas com aminoácidos essenciais, verificaram redução no ganho de peso, aumento no consumo de ração e melhora na conversão alimentar, com a redução da proteína bruta, independentemente da adição dos aminoácidos. Efeito semelhante foi observado por Bregendahl et al. (2002) ao avaliarem dietas com alto (23,99%) e baixos teores de proteína bruta (18,53; 18,48; 18,66 e 18,63%) e maior concentração de aminoácidos essenciais (15, 30 e 45% acima dos níveis recomendados pelo NRC). Esses autores, entretanto, notaram que o consumo de ração diminuiu linearmente com o aumento da concentração dos aminoácidos essenciais nas dietas.

Os alimentos alternativos, sobretudo os de origem animal, têm grande variação na sua composição química, em função da matéria-prima utilizada e do processamento empregado, e, associados o uso de dados errados de disponibilidade de aminoácido, acarretam piora no desempenho das aves (Rostagno et al., 1995). De acordo com Leeson & Summers (1997) a farinha de sangue é um alimento com alto teor de proteína bruta, porém é menos digestível e de qualidade inferior à farinha de carne e ossos. Quando bem processada, possui teores elevados de lisina que a tornam um alimento bastante útil. Por outro lado, é pobre em isoleucina, devendo o equilíbrio deste aminoácido ser considerado quando utilizados níveis elevados deste produto nas rações.

Em estudos com farinha de galinha de descarte, Douglas & Parsons (1999) avaliaram o desempenho de frangos de 8 a 20 dias de idade, alimentados com dietas contendo 15% de farinha de galinha de descarte, calculadas com base nos aminoácido totais e digestíveis e observaram superioridade das dietas formuladas com base em aminoácidos digestíveis e concluíram que a inclusão de 15% de farinha de galinha de descarte não afetou negativamente o desempenho das aves, mas que as dietas devem conter níveis adequados de aminoácidos digestíveis. Comparando dietas formuladas com farinha de vísceras com base na proteína ideal ou proteína bruta para frangos de 1 a 21 dias de idade, Bellaver et al. (2001) concluíram que as dietas com base na proteína ideal produziram melhores resultados de desempenho e que a substituição do farelo de soja por farinha de vísceras em até 20% melhorou o desempenho das aves.

O objetivo neste trabalho foi avaliar a utilização dos subprodutos de origem animal (farinha de vísceras de aves e farinha de sangue bovino) para frangos de corte de 1 a 21 dias de idade, em dietas formuladas com base na proteína bruta ou proteína ideal.

 

Material e Métodos

O experimento foi conduzido em janeiro de 2000, utilizando-se 600 pintos machos de um dia, da linhagem Ross, com peso médio inicial de 42,5 g.

O delineamento experimental foi inteiramente casualizado em arranjo fatorial 2x2+1, com dois conceitos de formulação (proteína bruta e proteína ideal) e dois subprodutos de origem animal (farinha de vísceras de aves e farinha de sangue bovino) e uma dieta controle à base de milho e farelo de soja (MFS), formulados com base na proteína bruta, totalizando cinco tratamentos e quatro repetições.

As dietas foram formuladas com base na proteína bruta (PB) ou proteína ideal (PI) e foram constituídas de subprodutos de origem animal, farinha de vísceras de aves (FVA) e farinha de sangue bovino (FSB), com o nível de inclusão de 6%. Os tratamentos (T) foram os seguintes: T1 - MFS com base na PB (ração testemunha); T2 - MFS + FVA com base na PB; T3 - MFS + FVA com base na PI; T4 - MFS + FSB com base na PB; e T5 - MFS + FSB com base na PI.

As dietas experimentais foram formuladas segundo as recomendações nutricionais do NRC (1994), para proteína bruta e aminoácidos totais, e segundo Rostagno et al. (1996), para aminoácidos digestíveis (Tabela 1). Nas formulações com base na proteína ideal, foi mantida a relação lisina:metionina+cistina igual a 100:76.

As aves e as rações foram pesadas no início e final do período experimental, para obtenção do ganho de peso, do consumo de ração e da conversão alimentar. Os dados foram submetidos à análise estatística, por intermédio do programa "ESTAT", desenvolvido pelo Departamento de Ciência Exatas da FCAV-UNESP/Jaboticabal, e as médias foram comparadas pelo teste Tukey.

 

Resultados e Discussão

Os resultados de ganho de peso, consumo de ração e conversão alimentar dos frangos de corte de 1 a 21 dias e os seus desdobramentos encontram-se nas Tabelas 2 e 3, respectivamente.

 

 

Houve efeito (P<0,05) da interação fonte de proteína x conceito de formulação para ganho de peso. As aves que consumiram a dieta contendo farinha de vísceras de aves, formulada com base na proteína ideal apresentaram ganho de peso significativamente superior àquelas que receberam a dieta com farinha de sangue bovino, provavelmente porque a farinha de vísceras de aves, desde que convenientemente processada, apresenta bom equilíbrio de aminoácidos essenciais, como foi demonstrado por Naber (1961). Resultados semelhantes aos deste experimento com relação ao uso de dietas formuladas com base na proteína ideal foram obtidos por Araújo et al. (2001) e Bregendahl et al. (2002), no entanto, Ferguson et al. (1998a,b) não verificaram diferenças para ganho de peso com o uso deste conceito na formulação das dietas.

As dietas contendo farinha de sangue bovino formuladas com base na proteína bruta promoveram maior ganho de peso (16,96% a mais) que aquelas formuladas com base na proteína ideal, o que pode ter ocorrido em virtude de os valores de aminoácidos digestíveis observados nas tabelas terem sido superestimados. Portanto, a variação verificada para os aminoácidos nas diferentes tabelas pode ser decisiva no ganho de peso animal. As aves que consumiram a dieta contendo farinha de sangue bovino, formulada com base na proteína bruta consumiram 150 g (12,50%) a mais que as aves que ingeriram a dieta formulada com base na proteína ideal. Comparando-se as duas fontes de proteína de origem animal dentro do conceito de proteína bruta, verifica-se que as aves que consumiram a dieta contendo a farinha de sangue bovino apresentaram consumo 9,75% maior (120 g a mais), provavelmente pelo fato de a farinha de vísceras de aves apresentar melhor digestibilidade de aminoácidos, pois, como foi relatado por Creswell & Swich (2001), os aminoácidos nos ingredientes utilizados na alimentação animal são digeridos em diferentes graus. Por exemplo, 85-90% da lisina no farelo de soja e na farinha de peixe podem ser digeridos contra 75-80% do mesmo aminoácido na farinha de carne e ossos. Estes resultados corroboram os de Douglas & Parsons (1999) e Hussein et al. (2001), mas diferem daqueles reportados por Bregendahl et al. (2002).

Verificou-se que a adição de farinha de sangue bovino piorou a conversão alimentar, provavelmente em virtude do menor ganho de peso obtido com as aves alimentadas com as rações contendo a farinha de sangue bovino, uma vez que não houve diferença para o consumo de ração. Os resultados do uso da proteína bruta são semelhantes aos descritos por Ferguson et al. (1998b) e Douglas & Parsons (1999), porém diferem dos relatados por Hussein et al. (2001) e Bregendahl et al. (2002).

Após o desdobramento, verificou-se que as aves que ingeriram a dieta contendo farinha de sangue bovino formulada com base na proteína bruta apresentaram consumo maior (1350 g) que aquelas que receberam a dieta contendo farinha de sangue bovino formulada com base na proteína ideal, o que pode ser decorrente do desbalanceamento da dieta, pois, segundo Harper (1976), quando as aves são alimentadas com dietas desbalanceadas, o mecanismo que regula o consumo pode se modificar, podendo ocasionar aumento na ingestão de alimento, em resposta às alterações no metabolismo energético ou à demanda crescente dos aminoácidos na ração.

Verificou-se efeito significativo do fator testemunha x fatorial sobre a conversão alimentar. As aves alimentadas com rações contendo farinha de vísceras de aves formuladas com base na proteína ideal apresentaram melhor conversão alimentar que aquelas que receberam a dieta controle. Os resultados registrados por Green (1987) demonstraram que o desempenho geral das aves é melhorado quando as dietas são formuladas com base na proteína ideal. Contudo, neste estudo, observou-se que houve melhora no ganho de peso quando as aves foram alimentadas com dietas formuladas com base na proteína bruta e apenas quando a farinha de sangue esteve presente, porém, nenhuma diferença foi observada com relação aos conceitos de formulação para a conversão alimentar.

 

Conclusões

Dietas contendo farinha de vísceras podem ser formuladas com base na proteína bruta ou proteína ideal e aquelas contendo farinha de sangue, quando formuladas com base na proteína bruta resultam em melhor desempenho para as aves até 21 dias de idade.

 

Literatura Citada

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Recebido em: 13/22/04
Aceito em: 23/01/05

 

 

1 Parte da Dissertação do primeiro autor, apresentada à FCAV/UNESP, Jaboticabal, SP. Pesquisa financiada pela FAPESP.

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