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Revista Brasileira de Zootecnia

Print version ISSN 1516-3598On-line version ISSN 1806-9290

R. Bras. Zootec. vol.34 no.4 Viçosa July/Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35982005000400017 

Valores energéticos de subprodutos de origem animal para aves

 

Energy values of animal by-products for poultry

 

 

Ricardo Vianna NunesI; Paulo César PozzaI; Christiane Garcia Vilela NunesII; Evandro CampestriniIII; Rodrigo KühlIV; Leonardo D. da RochaIV; Fernando Guilherme Perazzo CostaV

IProfessor - Curso de Zootecnia, UNIOESTE, 85960-000 - Marechal Cândido Rondon, PR (nunesrv@hotmail.com)
IIEstudante Doutorado, Departamento Zootecnia, UFV – 36571-000 – Viçosa, MG
IIIEstudante de Mestrado, UEM – Maringá, PR
IVEstudantes de Zootecnia, UNIOESTE – 85960-000 - Marechal Cândido Rondon, PR
VProfessor – Departamento de Zootecnia, UFPB, 58397-000 – Areia, PB

 

 


RESUMO

Foram determinados os valores de energia metabolizável aparente (EMA) e energia metabolizável aparente corrigida pelo balanço de nitrogênio (EMAn) e os coeficientes de metabolizabilidade aparente (CMA) e aparente corrigida pelo balanço de nitrogênio (CMAn) de cinco alimentos. Cento e vinte pintos de corte com 21 dias de idade foram distribuídos aleatoriamente em seis tratamentos (uma ração-referência e cinco rações-teste) e quatro repetições de cinco aves. Os alimentos avaliados foram: resíduo de incubatório (RI), farinha de penas (FP), farinha de vísceras de aves (FVA) e duas farinhas de carne e ossos (FCO 1 e FCO 2). Os alimentos substituíram em 20% a ração-referência. Para determinação dos valores de EMA e EMAn, foi utilizado o método tradicional de coleta total de excretas. Os valores de EMA, expressos em kcal/kg de matéria natural (MN), para os alimentos RI, FP, FVA, FCO 1 e FCO 2, foram de 1.495, 2.774, 2.676, 2.537 e 1.652 e os de EMAn, de 1.301, 2.758, 2.384, 2.307 e 1.488, respectivamente. De acordo com os valores de EMA, EMAn e energia bruta (EB), foram calculados os CMA e o CMAn para os alimentos RI, FP, FVA, FCO 1 e FCO 2, que foram, respectivamente, de 60,09; 55,49; 69,31; 67,71 e 51,14, para o CMA, e de 52,26; 55,18; 61,75; 60,85 e 46,07, para o CMAn.

Palavras-chave: resíduo de incubatório, farinha de penas, farinha de vísceras de aves, farinha de carne e ossos


ABSTRACT

The apparent metabolizable energy (AME), nitrogen corrected apparent metabolizable (AMEn), apparent metabolizability coefficient (AMC) and nitrogen corrected apparent metabolizability coefficient (AMCn) of five feedstuffs were determined. The feedstuffs investigated were: hatchery by-product meal (HM), feather meal (FM), poultry viscera meal (PVM) and two meat and bone meal (MBM 1 and MBM 2) of different origin. The values of AME and AMEn were determined by the total excreta collection method. One hundred and twenty broiler chicks at 21 days old were randomly allotted to six treatments (one basal reference diet and five test diets), with four replications with five birds per experimental unit. The feedstuffs replaced 20% reference diet. The AME values expressed in kcal/kg as-fed basis for feedstuffs HM, FM, PVM, MBM 1 and MBM 2 were: 1.495, 2.774, 2.676, 2.567 and 1.652 and the AMEn values were: 1.301, 2.758, 2.384, 2.307 and 1.488, respectively. According to AME, AMEn and gross energy (GE) values, the AMC and AMCn were calculated for xHM, FM, PVM, MBM 1 and MBM 2 (8,79%), that showed the respective values of 0.09, 55.49, 69.31, 67.71 and 51.14 for AMC and 52.26, 55.18, 61.75, 60.85 and 46.07 for AMCn.

Key Words: hatchery by-product meal, feather meal, poultry viscera meal, meat and bone meal


 

 

Introdução

A avicultura industrial é uma das atividades agrícolas mais desenvolvidas no mundo. Impulsionada sobretudo pela necessidade de utilização de proteína de origem animal na dieta humana, a produção avícola no Brasil representa uma das mais importantes cadeias produtivas (Figueiredo, 2001).

Em 2002, a produção brasileira de carne de frango foi de 7,449 milhões de toneladas, o que representa um crescimento de 13,5% em relação a 2001. Em 2003, foram produzidos 8,045 milhões de toneladas e, para 2004, há uma estimativa de que a produção brasileira atinja 8,450 milhões de toneladas (Aves & Ovos, 2003). Segundo dados do USDA, entre os países que se destacam no setor, o Brasil ocupa o terceiro lugar no mercado mundial de produção de carne de frango (Avicultura Industrial, 2003).

Para que o setor mantenha o sucesso, é preciso investir em produtividade a baixo custo. Além disso, é necessário atenção especial à questão ambiental, destacando-se a importância do aproveitamento dos resíduos da indústria avícola.

No processo de incubação, ocorrem perdas de 8 a 12% dos ovos e, no processamento do frango de corte no abatedouro, em torno de 35%, gerando uma quantidade significativa de resíduos (Nunes, 1998), que, por serem poluentes e contaminarem a água, o solo e o ar, tornaram-se a grande preocupação das organizações ambientais. Uma das formas de aproveitamento desses resíduos é o seu processamento, que origina subprodutos, como as farinhas de vísceras, de penas, de carne e ossos e de resíduo de incubatório, que podem ser utilizados na alimentação animal.

Os gastos com alimentação representam em torno de 70% do custo total de produção das aves, gerando a necessidade de se buscarem novas alternativas que atendam às exigências nutricionais dos animais nas diferentes fases de produção. Conhecendo os valores nutricionais dos alimentos alternativos, pode-se utilizá-los de maneira correta, reduzindo os custos das rações (Vieites, 1999).

O estudo de alimentos alternativos torna-se necessário não apenas em razão do seu efeito poluente, mas também da busca por rações economicamente viáveis e eficientes. Para seu uso correto, é importante conhecer seus valores nutricionais, e seu conteúdo relativo de energia, visto que os níveis energéticos das rações são o principal fator limitante para o ótimo desempenho das aves (Nunes, 2000; Albino, 1995). Geralmente, acredita-se que os valores de energia metabolizável são propriedades da dieta, entretanto, a EM é uma característica do animal em relação à dieta (McNab, 2000). A formulação de rações é um processo de combinação das exigências nutricionais dos animais com os valores nutricionais dos alimentos, tornando a acurácia do valor nutricional dos alimentos utilizados de extrema importância.

Alguns ingredientes são padronizados, com valores nutricionais bem estáveis, enquanto outros não são padronizados e podem apresentar grande variação, tornando indispensável a determinação de sua composição química e de seu valor nutricional (Albino & Silva, 1996). Segundo Junqueira (1999), há grande variação entre os valores energéticos apresentados nas diversas tabelas de exigências de composição química, dificultando a comparação entre os nutrientes presentes nos alimentos. Por isso, vários estudos tem sido desenvolvidos visando atualizar os valores nutricionais dos alimentos comumente utilizados na alimentação animal e conhecer o valor nutricional de novos ingredientes, tornando as tabelas mais completas e com valores mais precisos.

Este trabalho foi realizado para determinar os valores de energia metabolizável aparente (EMA) e energia metabolizável aparente corrigida pelo balanço de nitrogênio (EMAn) e os coeficientes de metabolizabilidade aparente e aparente corrigida pelo balanço de nitrogênio de diferentes alimentos de origem animal.

 

Material e Métodos

O ensaio biológico foi conduzido no Setor de Avicultura do Departamento de Zootecnia (DZO) da Universidade Federal de Viçosa (UFV), utilizando-se o método tradicional de coleta total de excretas.

As temperaturas médias máxima e mínima e seus respectivos desvios-padrão no interior da sala de estudos de metabolismo, durante a fase experimental, foram de 26,8 ± 3,77 e 19,6 ± 1,52ºC, respectivamente, às 8 h, e de 26,6 ± 3,44 e 21,2 ± 0,84ºC, respectivamente, às 17 h.

Os alimentos estudados foram compostos por uma amostra de resíduo de incubatório (RI), uma de farinha de penas (FP), uma de farinha de vísceras de aves (FVA) e duas amostras de farinha de carne e ossos de diferentes procedências.

Para determinação dos valores de EMA e EMAn, foram utilizados 120 pintos de corte machos da linhagem UFV, com 21 dias de idade e peso médio de 550 g. O ensaio biológico foi constituído por cinco rações-teste e uma ração-referência (Tabela 1), calculada segundo recomendações de Rostagno et al. (2000), de modo que cada alimento avaliado substituiu em 20% a ração-referência.

 

 

Foi adotado delineamento experimental inteiramente casualizado, com seis tratamentos, quatro repetições e cinco aves por unidade experimental. Até o 21º dia de idade, as aves receberam ração inicial para frangos de corte e, a partir desta idade, foram transferidas para baterias de estrutura metálica com compartimentos distribuídos em dois andares, onde permaneceram durante 10 dias (cinco de adaptação e cinco para a coleta total das excretas), recebendo água e ração à vontade. As coletas foram realizadas duas vezes ao dia, às 8 e 17 h. Para evitar perdas, utilizaram-se bandejas cobertas com plástico, colocadas sob cada compartimento das gaiolas. Ao término do período experimental, foi determinada a quantidade de ração consumida por unidade experimental, durante os cinco dias de coleta.

As excretas foram acondicionadas em sacos plásticos, devidamente identificados, e armazenadas em freezer até o final do período experimental. Posteriormente, foram descongeladas, pesadas, homogeneizadas, retirando-se amostras para as análises laboratoriais, realizadas após a pré-secagem em estufa ventilada a 55ºC, para cálculo dos teores de de matéria seca, de nitrogênio e de energia bruta.

As análises químicas dos alimentos foram realizadas no Laboratório de Nutrição Animal da Universidade Federal de Viçosa, determinando-se os valores de matéria seca (MS), extrato etéreo (EE), fibra bruta (FB), proteína bruta (PB), energia bruta (EB), matéria mineral (MM), cálcio (Ca), fósforo (P), magnésio (Mg), sódio (Na) e potássio (K), segundo metodologia descrita por Silva & Queiroz (2002). O diâmetro geométrico médio das partículas dos alimentos (DGM) foi estimado de acordo com técnica descrita por Zanotto & Bellaver (1996).

Os valores de energia metabolizável aparente (EMA) e aparente corrigida pelo balanço de nitrogênio (EMAn­) foram calculados segundo equações propostas por Matterson et al. (1965). Os coeficientes de metabolizabilidade da energia bruta, em relação aos valores de EMA e EMAn, foram determinados de acordo com Lesson & Summers (2001).

Como procedimento estatístico, aplicou-se o teste de Student Newman-Keuls a 5% de probabilidade aos valores médios dos coeficientes de metabolizabilidade, utilizando-se o Sistema de Análises Estatísticas e Genéticas - SAEG (Universidade Federal de Viçosa, 1999).

 

Resultados e Discussão

A composição química, os valores de energia bruta e o diâmetro geométrico médio das partículas (DGM) dos alimentos encontram-se na Tabela 2. Houve variação nos valores da composição química dos alimentos quando comparados aos da literatura (Rostagno et al., 2000; Anfar, 1985; Embrapa, 1991; Lesson & Summers, 2001; NRC, 1994; Janssen, 1989).

Para o resíduo de incubatório, os valores de PB (26,05%), EE (12,26%) e MM (54,84%) foram semelhantes aos recomendados pela Embrapa (1991). Porém, os valores obtidos para Ca e P (24,72 e 0,31%) foram diferentes, uma vez que a Embrapa prescreve valores de até 19,05 e 0,53%, respectivamente. Esses valores resultaram da maior ou menor inclusão de casca de ovos no processamento do resíduo, visto que a composição química do resíduo de incubatório pode variar de acordo com o tratamento a que foi submetido. Vanderpopulire (1976) relatou que trabalhos desenvolvidos com resíduos de incubatório submetidos à desidratação por calor seco favoreceram a produção de farinha com composição adequada, mas bastante variável, conforme a porcentagem de eclodibilidade do incubatório. Quando a eclodibilidade é elevada, a farinha obtida apresenta reduzido nível de proteína e alto nível de cálcio, ocorrendo o inverso quando a eclodibilidade é baixa.

O valor de PB para a farinha de penas neste trabalho foi de 64,52%, superior em 18% aos teores prescritos pela Embrapa (1991). De acordo com os padrões estabelecidos pela Anfar (1985), a farinha de penas deve conter no mínimo 80% de PB e no máximo 2,5% de EE, além de 1,5% de FB e 5% de MM. A PB e o EE estiveram abaixo dos padrões estabelecidos pela Anfar (1985), enquanto a FB e a MM atenderam estes padrões. Porém, valores semelhantes foram encontrados por Nascimento (2002), em que a média de PB, EE e MM de seis farinhas de penas foram de 76,66; 4,42 e 2,12%, respectivamente. O conteúdo de EE da farinha de penas foi semelhante ao encontrado por Rostagno et al. (2000), mas diferiu dos valores citados pela Embrapa (1991) e pelo NRC (1994). Os valores de Ca e P foram inferiores aos recomendados por Rostagno et al. (2000), NRC (1994) e Embrapa (1991), ao passo que o valor de sódio foi superior ao citado por Rostagno et al. (2000).

Segundo a Anfar (1985), a farinha de vísceras de aves deve conter no mínimo 65% de PB e no máximo 1% de FB e 7% de MM, podendo o conteúdo de EE variar de 8 a 12%. Entretanto, apenas os valores de EE e PB da farinha de vísceras de aves atenderam a esse padrão. Valores semelhantes foram encontrados por Nascimento (2002), que, trabalhando com farinhas mistas de vísceras de aves e de suínos, obteve valores médios de PB, EE e MM de 53,49; 13,55 e 18,77%, respectivamente. Os valores de Ca (9,62%) e P (4,02%) foram superiores aos descritos por Lesson & Summers (2001), Rostagno et al. (2000), NRC (1994) e Embrapa (1991). O teor de sódio da farinha de vísceras neste trabalho foi superior ao recomendado por Rostagno et al. (2000).

O fato de a farinha de vísceras ter apresentado alto conteúdo de matéria mineral, de cálcio e fósforo provavelmente contribuiu para o seu baixo conteúdo de energia bruta, uma vez que esse alimento apresentou elevado teor de extrato etéreo.

As farinhas de carne e ossos 1 e 2 apresentaram teores de PB superiores a 40% e, portanto, atenderam ao Artigo 322-D do RIISPOA e aos padrões estabelecidos pela Anfar (1985), em que as farinhas de carne e ossos devem possuir, no mínimo, 40% de proteína bruta. Porém, Rostagno et al. (2000) e Embrapa (1991) recomendam valores de 35,96 e 33,85%, respectivamente, inferiores aos valores supracitados.

Os valores protéicos das farinhas de carne e ossos 1 e 2 foram semelhantes aos citados por Rostagno et al. (2000), NRC (1994) e Embrapa (1991).

Os teores de umidade das farinhas de carne e ossos analisadas foram próximos aos preconizados por Rostagno et al. (2000), NRC (1994), Embrapa (1991) e Anfar (1985). Os valores de EE (entre 10 e 12%) foram semelhantes aos obtidos por Rostagno et al. (2000) e, portanto, atenderam aos padrões da Anfar (1985). Porém, excederam o limite determinado pelo RIISPOA, que permite, no máximo, 10% de gordura para esses alimentos.

Os teores de MM das FCO 1 e 2 (25,54 e 29,59%) foram semelhantes aos recomendados por Rostagno et al. (2000). A FCO 1 apresentou valores semelhantes aos prescritos pela Embrapa (1991), enquanto a FCO 2 foi 21,76% inferior.

Os teores de fósforo das FCO 1 e 2 estão de acordo com as recomendações e a padronização da Difisa (1989), por apresentarem valores superiores a 3,8% de fósforo. A Difisa (1989) estabelece uma relação cálcio/fósforo máxima de 2,20:1,00 e a Anfar (1985), de 2,25:1,00, conforme verificado na FCO 1. Na FCO 2, no entanto, essa relação foi de 2,40:1,00. O valor de sódio da FCO 1 foi superior ao de 0,70% proposto por Rostagno et al. (2000) para FCO com 45,37% de PB, porém, o da FCO 2 foi inferior aos 0,71% recomendados pelos autores para FCO com 40,69% de PB.

De acordo com os valores de DGM, os alimentos testados podem ser classificados como de média granulometria. Segundo Zanotto & Bellaver (1996), os alimentos podem ser classificados como grossos, médios e finos, quando apresentam DGM acima de 2,00 mm; entre 2,00 e 0,60 mm; e menor que 0,60 mm, respectivamente. O tamanho das partículas dos alimentos destinados à fabricação de rações pode influenciar a digestibilidade dos nutrientes e, conseqüentemente, a maximização da resposta do animal, além de influenciar o rendimento da moagem (Zanotto & Bellaver, 1996).

As diferenças na composição química dos alimentos já eram esperadas, em razão das diferentes matérias-primas utilizadas, dos fatores operacionais e dos constituintes das farinhas (Nunes, 2003; Nascimento, 2000). O tipo de processamento que cada farinha recebe pode influenciar diretamente a composição química e, portanto, a qualidade desses alimentos (Albino & Silva, 1996). De modo geral, o conteúdo de PB das diferentes farinhas de carne e ossos é inversamente proporcional à porcentagem de MM seus níveis são os mesmos encontrados na literatura (Embrapa, 1991; Rostagno et al., 2000). Essa relação entre as proporções de proteína bruta e matéria mineral da farinha de carne e ossos é resultante da inclusão, principalmente, de ossos e tecidos tendinosos ao alimento.

Os valores de energia metabolizável aparente (EMA) e aparente corrigida pelo balanço de nitrogênio (EMAn) e seus respectivos desvios-padrão encontram-se na Tabela 3. Houve variação dos valores de EMA e EMAn entre os alimentos estudados. Esses valores variaram de 1.495 a 2.774 e de 1.301 a 2.758 kcal/kg de matéria natural (MN), para EMA e EMAn, respectivamente, e podem ter sido influenciados pela composição química e pelo DGM de cada alimento. Os valores mais baixos de EMAn, em relação à EMA, são próprios dos valores energéticos quando estes são determinados pelo método tradicional de coleta total de excretas em pintos em crescimento, o que é caracterizado pela maior retenção de nitrogênio das aves em crescimento.

 

 

O valor de EMAn no resíduo de incubatóriofoi inferior ao citado pela Embrapa (1991), provavelmente em razão dos subprodutos empregados na formulação do resíduo e da forma de processamento.

Os alimentos com maiores níveis de EMA e EMAn foram a farinha de penas, farinha de vísceras e farinha de carne e ossos 1, com variação de 2.774 a 2.567 kcal/kg de MN, para EMA, e de 2.758 a 2.307 kcal/kg de MN, para EMAn.

O valor de EMAn para a farinha de penas foi de 2.758 kcal/kg de MN. Quando comparado aos valores descritos pelo NRC (1994) e por Janssen (1989), foi superior em 14 e 21%, respectivamente, porém similar aos citados por Rostagno et al. (2000).

Para a farinha de vísceras de aves, o valor de EMAn foi de 2.384 kcal/kg de MN, semelhante aos valores apresentados por Rostagno et al. (2000) e NRC (1994), todavia é inferior aos valores descritos pela Embrapa (1991).

Os níveis de EMAn para as farinhas de carne e ossos 1 e 2 foram de 2.307 e 1.488 kcal/kg, respectivamente. Para a FCO 1, os valores foram semelhantes aos propostos por Rostagno et al. (2000) e pelo NRC (1994), enquanto, para a FCO 2, foram 25,60% inferiores.

Diversos fatores podem afetar os valores de energia metabolizável dos alimentos, entre eles o tipo de processamento, a idade das aves e os níveis de inclusão do ingrediente na dieta (Vieites, 1999). Entretanto, o conteúdo de PB e EE e a composição dos ácidos graxos e minerais provavelmente são os fatores que mais contribuem para as variações nos valores energéticos dos alimentos.

Na Tabela 4 constam os coeficientes de metabolizabilidade da energia aparente (CMA) e aparente corrigida (CMAn) dos alimentos.

 

 

Houve diferença significativa (P<0,05) entre os coeficientes de metabolizabilidade dos alimentos estudados. Os alimentos com maior tamanho de partícula e menor valor de energia metabolizável apresentaram os menores coeficientes de metabolizabilidade, à exceção da farinha de penas, que apresentou altos níveis de energia e baixo coeficiente de metabolizabilidade.

Os coeficientes de metabolizabilidade do resíduo de incubatório e da farinha de penas foram estatisticamente iguais (P<0,05), assim como a farinha de penas e a farinha de carne e ossos 2. Entretanto, numericamente, o valor obtido no resíduo de incubatório foi superior ao da farinha de penas, que, por sua vez, foi superior ao da farinha de carne e ossos 2.

O pior aproveitamento da energia foi verificado na farinha de carne e ossos 2 (51,14%) e foi inferior ao da farinha de carne e ossos 1 (67,71%). Esse resultado pode ser atribuído ao valor de DGM, que foi numericamente superior ao das demais farinhas. Vieites (1999), trabalhando com farinha de carne e ossos, encontrou valores de EMA e EMAn abaixo dos prescritos nas tabelas nacionais e estrangeiras. Valores similares foram verificados por Martosiswoyo & Jensen (1988), Brugalli (1996) e Azevedo (1997), que constataram que os valores de energia metabolizável diminuíram à medida que se aumentaram os níveis de inclusão nas rações e que, possivelmente, a inclusão de 20% de farinha de carne e ossos nas rações acarretou excesso de íons cálcio, magnésio, sódio, entre outros, no lúmen intestinal das aves, resultando em saponificação das gorduras presentes na farinha de carne e ossos, reduzindo sua utilização pelas aves. Isso também pode ter ocorrido com o resíduo de incubatório, visto que os níveis de matéria mineral e cálcio são elevados nesse alimento.

A farinha de penas apresentou baixo coeficiente de metabolizabilidade, provavelmente em razão do baixo valor de extrato etéreo dessa farinha. Nunes (2003), trabalhando com alimentos de origem animal, observou que as aves alimentadas com farinhas de penas apresentaram os menores valores de aproveitamento da energia bruta dos alimentos na forma de energia metabolizável e atribuiu esse resultado ao menor conteúdo de extrato etéreo e aos valores de DGM.

Segundo Brugalli (1996), as diferenças nos valores de DGM podem ocasionar diferenças nos valores energéticos, pois, quanto maior a partícula, menor a superfície de exposição à ação das enzimas digestivas e maior a taxa de passagem pelo trato gastrointestinal. O tempo de passagem do bolo alimentar pelo trato digestivo das aves é relativamente curto e, portanto, a redução do tamanho das partículas pode contribuir substancialmente para melhor digestão e absorção dos nutrientes.

A farinha de vísceras de aves e a farinha de carne e ossos 1 apresentaram os melhores coeficientes de metabolizabilidade e foram consideradas estatisticamente iguais, embora, numericamente, a farinha de vísceras proporcione melhor aproveitamento da energia bruta em forma de energia metabolizável. Observou-se que estas duas farinhas apresentaram baixo valor de DGM, o que pode ter contribuído para o melhor aproveitamento desta energia.

Nunes (2003) observou que os melhores coeficientes de metabolizabilidade de produtos de origem animal foram obtidos com farinhas de vísceras de aves, todavia, os resultados reportados por esse autor foram 4,21% inferiores aos obtidos neste trabalho.

As grandes variações encontradas nos coeficientes de metabolizabilidade dos alimentos estudados podem ainda ser explicadas pelo fato de os alimentos sofrerem processamentos diferentes, resultando em matérias-primas de diferentes qualidades (Nunes, 2003).

Segundo Butolo (2002), a temperatura utilizada no processamento das farinhas de origem animal, necessária para a eliminação dos agentes patogênicos e a quebra das ligações entre os aminoácidos que formam a proteína das penas, no caso a queratina, geralmente é elevada e proporciona reações entre os nutrientes, formando complexos ou provocando a desnaturação protéica, o que torna esses nutrientes indigestíveis, ocasionando redução no valor energético dos alimentos, o que foi facilmente comprovado pelos coeficientes de metabolizabilidade verificados neste trabalho.

 

Conclusões

Os valores de EMA para o resíduo de incubatório, farinha de penas, a farinha de vísceras de aves, a farinha de carne e ossos 1 e a farinha de carne e ossos 2 foram de 1.495, 2.774, 2.676, 2.567 e 1.652 kcal/kg, respectivamente, e os de EMAn, de 1.301, 2.758, 2.384, 2.307 e 1.488 kcal/kg, respectivamente.

Os coeficientes de metabolizabilidade aparente para os alimentos resíduo de incubatório, farinha de penas, farinha de vísceras de aves, farinha de carne e ossos 1 e farinha de carne e ossos 2 foram de 60,09; 55,49; 69,31; 67,71 e 51,14%, respectivamente, e os de metabolizabilidade aparente corrigida, de 52,26; 55,18; 61,75; 60,85 e 46,07%, respectivamente.

 

Literatura Citada

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Recebido em: 20/07/04
Aceito em: 22/04/05

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