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Revista Brasileira de Zootecnia

Print version ISSN 1516-3598On-line version ISSN 1806-9290

R. Bras. Zootec. vol.35 no.1 Viçosa Jan./Feb. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35982006000100013 

MONOGÁSTRICAS

 

Avaliação nutricional da silagem de grãos úmidos de sorgo de alto ou de baixo conteúdo de tanino para frangos de corte1

 

Nutritional evaluation of high moisture sorghum silage grain with high or low tannin content for broilers

 

 

Livia Carla Grigoletto BarcellosI; Antonio Claudio FurlanII; Alice Eiko MurakamiII; Marcos Augusto Alves da SilvaII; Ronaldo Martins da SilvaIII

IPós-Graduação em Zootecnia – DZO – UEM – Maringá – PR
IIDepartamento de Zootecnia – UEM – Maringá – PR
IIIGraduação em Zootecnia – UEM – Maringá - PR

 

 


RESUMO

Foram realizados dois experimentos com o objetivo de avaliar a utilização da silagem de grãos úmidos de sorgo (SGUS) de alto ou baixo conteúdo de tanino na alimentação de frangos de corte. No ensaio de digestibilidade, foram utilizadas 90 aves de 20 dias de idade, distribuídas em um delineamento experimental inteiramente casualizado, com três tratamentos, seis repetições e cinco aves por unidade experimental. Os valores de matéria seca (MSM), matéria orgânica (MOM), proteína (PM), amido (AMM) e energia metabolizáveis (EM) na matéria natural (66,22% de MS para a SGUS de alto tanino e 65,28% para a SGUS de baixo tanino) foram, respectivamente, de 57,29; 56,96; 4,45; 35,27% e 2.408 kcal/kg para a SGUS de alto tanino e de 60,42; 59,95; 5,11; 39,58%; e 2.578 kcal/kg para a SGUS de baixo tanino. No ensaio de desempenho, foram utilizados 840 pintos de um dia de idade, distribuídos em um delineamento inteiramente casualizado, com sete tratamentos, quatro repetições e trinta aves por unidade experimental. Os tratamentos consistiram de uma ração à base de milho e farelo de soja e de seis rações com 33, 66 e 100% de substituição do milho por SGUS de alto ou baixo tanino. A inclusão de níveis crescentes de SGUS com alto tanino piorou linearmente o peso vivo, o consumo de ração, o ganho de peso e a conversão alimentar aos 40 dias de idade, não se observando o mesmo efeito para a SGUS de baixo tanino. As aves que receberam ração com SGUS de alto tanino nos níveis de 66 e 100% de substituição apresentaram, aos 40 dias de idade, menor peso vivo e ganho de peso. Observou-se decréscimo linear na coloração da perna das aves com a inclusão de SGUS nas rações. A silagem de grão úmido de sorgo de alto tanino pode substituir até 33% e a de baixo tanino, até 100% do milho em rações para frangos de corte, sem prejudicar o desempenho e proporcionando menor custo por quilograma de frango produzido.

Palavras-chave: desempenho, digestibilidade, frangos de corte, sorgo, valor energético


ABSTRACT

Two trials were carried out to evaluate the moisture sorghum silage (HMSS) with high or low tannin content as ingredient in broiler chicken diets. In the digestibility trial, ninety 20-d chicks were assigned to a completely randomized design with three treatments and six replications, and five chicks per experimental unit. Coefficients of metabolizable dry matter (MDM), metabolizable protein (MP), metabolizable starch (MS), metabolizable organic matter (MOM) and metabolizable energy (ME) of HMSS with high tannin, as-fed basis (66.22%DM), were as follows: 57.29; 56.96; 4.45; 35.27% and 2,408 kcal/kg, respectively. The coefficients of HMSS with low tannin were of 60.42; 59.95; 5.11; 39.58% and 2578 kcal/kg, respectively, as-fed basis (65.28% DM). In the performance assay, eight hundred and forty chicks were assigned to a completely randomized experimental design, with seven treatments, four replications and thirty chicks per experimental unit. Treatments consisted of a corn-soybean meal -based diet and six with 33, 66 and 100% HMSS with high or low content replaced by dry corn. Increasing HMSS levels with high tannin contents in diets caused a linear decrease on weight, weight gain, feed intake at 21 and 40 days old, but this effect was not observed for HMSS of low tannin content. Forty-day-old broilers fed diets with HMSS of high tannin content in 66 and 100% replacement levels showed lower weight and lower weigh gain. However, broilers fed HMSS with low tannin content did not differ from control. Linear decrease on the chicken leg color of was observed when HMSS was included in the diets. Performance results demonstrated that HMSS with high tannin content may replace um 33% of corn and with low tannin HMSS up to 100% of corn in diets of broilers, with no effect on performance and with lower cost per kilogram of produced broiler.

Key Words: broilers, digestibility, energetic values, performance, sorghum


 

 

INTRODUÇÃO

A ocorrência de produção limitada de milho e de políticas reguladoras de estoque, entre outros fatores, em determinados anos, tem levado diversos produtores ao uso de ingredientes alternativos na alimentação animal.

A utilização de silagem de grãos úmidos de milho na alimentação de frangos de corte consiste em mais uma opção para redução dos custos de produção, uma vez que esse alimento apresenta uma série de vantagens, como conservação e estocagem em silos e antecipação na colheita em três a quatro semanas, permitindo a implantação de outra cultura na área, maximizando o uso da terra e reduzindo as perdas econômicas (Costa et al., 1999).

Os poucos trabalhos realizados com silagem de grãos úmidos de milho para frangos de corte (Martins et al., 2000; Carrijo et al., 2000; Sartori et al., 2002) apresentam certa discrepância em seus resultados. Martins et al. (2000) observaram efeito redutor no peso final de frangos de corte aos 42 dias de idade, ao substituírem 100% do milho seco por silagem de grãos úmidos de milho na ração. Sartori et al. (2002), no entanto, afirmam que a silagem de grãos úmidos de milho pode substituir totalmente o milho seco em dietas para frangos de corte de até 21 dias de idade.

A utilização de sorgo como substituto do milho em rações para animais, sobretudo os não-ruminantes, vem sendo estudada há vários anos no Brasil, pois este cereal apresenta ótima adaptabilidade aos diversos tipos de solos e climas brasileiros.

O sorgo apresenta nível de proteína bruta um pouco superior ao do milho (Rostagno et al., 2000), além de alta variabilidade da PB, dependendo das variedades, do ambiente e da fertilidade do solo (Scheuermann, 1998), podendo ser considerado equivalente ao milho em minerais e vitaminas. É pobre em substâncias pigmentantes e pode conter, conforme a variedade, compostos fenólicos como o tanino, que tem ação antinutricional.

Teeter et al. (1986) afirmam que a incubação anaeróbica do sorgo com alto teor de umidade tem sido utilizada para minimizar o tanino quimicamente detectável, que, segundo Van Soest (1994), pode ser hidrolisado para açúcares em meio ácido, podendo-se deduzir que a acidez da silagem exerce importante papel na digestão de grãos de sorgo com alto teor de tanino, melhorando o desempenho animal (Mitaru et al., 1984a).

Como a utilização do grão de sorgo seco pode trazer algumas desvantagens em termos de desempenho, pela presença do tanino, a ensilagem pode ser uma alternativa para se reduzir o tanino do grão e melhorar o desempenho dos animais. Garcia et al. (1995) afirmam que a combinação da moagem com o armazenamento do grão de sorgo, por curto período de tempo, pode reduzir o teor de tanino, promovendo melhor desempenho de pintos de corte.

Considerando o aumento da produção de sorgo nas propriedades agrícolas brasileiras e a escassez e informações sobre a utilização da silagem de grãos úmidos na alimentação animal, justifica-se a realização de estudos para avaliação do desempenho de frangos de corte alimentados com silagem de grãos úmidos de sorgo.

O objetivo neste trabalho foi avaliar, por meio de ensaios de digestibilidade e experimento de desempenho, o uso da silagem de grãos úmidos de sorgo, de alto ou baixo conteúdo de tanino, em substituição ao milho seco em rações para frangos de corte.

 

Material e Métodos

As silagens utilizadas nas rações foram confeccionadas apenas com os grãos de sorgo. As variedades de sorgo (Sorghum bicolor L. Moench) utilizadas para a confecção das silagens de grãos úmido de sorgo (SGUS) foram BRS-700 (alto conteúdo de tanino) e DAS 741 (baixo conteúdo de tanino). A SGUS de alto conteúdo de tanino foi confeccionada na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (UNESP), em Botucatu – SP, e ensiladas em tambores de polietileno com capacidade para 200 L. Nessa ocasião, os grãos apresentavam teor de umidade de 31,25%. A variedade de sorgo de baixo conteúdo de tanino foi cultivada na Fazenda Experimental de Iguatemi (FEI – CCA/UEM) e colhida com colhedeira mecânica quando os grãos apresentavam-se no estádio farináceo e com teor de umidade de 34,10%. Os grãos foram triturados em moinho do tipo martelo com peneira de 6 mm e ensilados em manilhas de concreto com capacidade para 1.000 L.

As silagens, tanto de alto quanto de baixo conteúdo de tanino, permaneceram armazenadas durante quatro meses, para o ensaio de digestibilidade, ou um ano, para o experimento de desempenho.

O ensaio de digestibilidade constou de dez dias, sendo cinco dias para adaptação às dietas experimentais e cinco para coleta das excretas, no qual se adotou o método tradicional de coleta total de excretas. Noventa pintos de corte Cobb, machos, de 20 a 30 dias de idade foram distribuídos em um delineamento inteiramente casualizado com três tratamentos, seis repetições e cinco aves por unidade experimental. As aves foram alojadas em gaiolas de arame galvanizado e receberam água e ração à vontade durante o dia, para evitar desperdício.

Os tratamentos consistiram de uma ração-referência (RR) à base de milho e farelo de soja e de outras duas rações-teste, com 35% (na MS) de silagem de grãos úmidos de sorgo de alto ou de baixo conteúdo de tanino em substituição à ração-referência (Tabela 1).

 

 

As rações foram pesadas e misturadas diariamente, sendo calculadas com base nas exigências nutricionais da linhagem e na composição química dos alimentos, de acordo com recomendações de Rostagno et al. (2000).

Após o período de adaptação, iniciou-se a coleta das excretas, utilizando-se óxido férrico (2%) na ração como marcador do início e do final de coleta. Para evitar perda de materiais, as gaiolas foram forradas com plástico e as coletas foram realizadas a cada 12 horas, durante todo o período experimental.

As excretas foram acondicionadas em sacos plásticos, devidamente identificadas por repetição e armazenadas em congelador após cada coleta. No final do período experimental, foram determinadas as quantidades de ração consumida e de excretas produzidas por repetição. As excretas foram descongeladas, reunidas por parcela, homogeneizadas, pesadas e mantidas em estufa de ventilação forçada a 55ºC por 72 horas. Após a pré-secagem, foram moídas e acondicionadas para análises dos teores de matéria seca, amido, matéria orgânica, proteína bruta e energia bruta.

As análises das rações e das excretas foram feitas segundo metodologias descritas por Silva & Queiroz (2002).

As determinações de amido dos alimentos e das excretas foram obtidas pelo método enzimático proposto por Poore et al. (1989), adaptado por Pereira & Rossi (1995). Os valores de pH das SGUS de alto e baixo conteúdo de tanino foram calculados pelo método utilizado por Phillip & Fellner (1992).

Os teores de tanino dos grãos secos e úmidos antes da ensilagem e das silagens, após processo fermentativo, foram estimados de acordo com o Método Azul da Prússia, descrito por Magalhães et al. (2000).

Os valores de energia bruta das rações, dos alimentos e das excretas foram determinados utilizando-se calorímetro adiabático (Parr Instruments Co).

Os coeficientes de metabolização da matéria seca (CMMS), da proteína bruta (CMPB), do amido (CMAM), da matéria orgânica (CMMO) e da energia bruta (CMEB) dos alimentos testados foram submetidos à análise de variância.

Os teores de energia metabolizável aparente corrigida para balanço de nitrogênio da silagem de grãos úmidos de sorgo de alto ou baixo conteúdo de tanino foram calculados utilizando-se a fórmula de Matterson et al. (1965).

No experimento de desempenho, foram utilizados 840 pintos Cobb, machos, de um dia de idade, alojados em um galpão convencional dividido em boxes de 6,3 m2, com piso de concreto forrado com cama do tipo maravalha e paredes laterais de alvenaria, com 0,30 m de altura, completadas com tela de arame até o telhado e providas de cortinas laterais.

O delineamento experimental utilizado foi o inteiramente casualizado, com sete tratamentos, quatro repetições e 30 aves por unidade experimental.

Na fase inicial, até as aves atingirem sete dias de idade, foram utilizados comedouros do tipo bandeja e bebedouros tipo copo de pressão, substituídos gradativamente por comedouros tubulares e bebedouros automático pendulares. Os pintos foram mantidos em círculos de proteção sob uma campânula, como fonte de aquecimento. No sétimo dia de idade, as aves foram vacinadas contra Newcastle e Gumboro, via ocular.

O programa de alimentação foi dividido em três fases: inicial (do 1º ao 7º dia) = foi fornecida somente a ração-referência; intermediária (do 8º ao 21º dia); e de crescimento (do 22º ao 40º dia).

As rações foram calculadas com base nas exigências nutricionais e na composição química dos alimentos, segundo Rostagno et al. (2000), e nos resultados de análises químicas, realizadas no Laboratório de Nutrição Animal da UEM/DZO.

Os tratamentos consistiram de uma ração-referência contendo milho seco e de outras seis, com 33, 66 e 100% (na MS) de silagens de grãos úmidos de sorgo (SGUS) de alto ou baixo conteúdo de tanino, em substituição ao milho seco. As rações foram isoenergéticas, isocalóricas, isocálcicas, isofosfóricas e isoaminoacídicas para lisina e metionina + cistina.

Os ingredientes das rações, exceto as SGUS de alto e baixo conteúdo de tanino, foram previamente misturados. As SGUS de alto e baixo conteúdo de tanino foram incorporadas diariamente às respectivas rações nos níveis de 33, 66 e 100% de substituição ao milho seco. As rações foram pesadas diariamente e fornecidas na forma farelada. Todas as sobras das rações foram pesadas e descartadas 24 horas após o fornecimento.

As rações e os animais foram pesados a cada troca de rações, para o cálculo do ganho de peso, do consumo de ração e da conversão alimentar.

Antes do abate, procedeu-se à determinação da coloração da perna das aves, com auxílio de leque colorimétrico (Roche) com escala de 1 a 15 e, nos casos em que a cor esteve ainda mais clara, atribuiu-se o valor de 0,5.

Para verificar a viabilidade econômica da substituição do milho seco pelas SGUS nas rações, calculou-se inicialmente o custo de ração por quilograma de ganho de peso vivo, segundo Bellaver et al. (1985).

O consumo diário de ração (CDR), o ganho de peso (GP), a conversão alimentar (CA), a coloração da perna e as variáveis econômicas foram analisados utilizando-se o modelo estatístico que considerou o efeito da variedade de sorgo e o efeito do nível de substituição dentro de cada variedade de sorgo. Os graus de liberdade referentes aos níveis de substituição do milho seco pela SGUS de alto ou baixo conteúdo de tanino foram desdobrados em polinômios ortogonais.

Para comparação dos resultados obtidos entre a ração testemunha com cada um dos níveis de substituição dos sorgos testados, foi utilizado o teste de Dunnett a 5%.

 

Resultados e Discussão

Ensaio de digestibilidade

Os teores de nutrientes, o pH e o diâmetro geométrico médio das SGUS são apresentados na Tabela 2. À exceção do fósforo total, a SGUS de baixo conteúdo de tanino apresentou valores nutricionais superiores aos da SGUS de alto teor de tanino, quando comparados na mesma base de matéria seca.

Entre os fatores de variação no valor nutricional das silagens, destacam-se o potencial genético da variedade, a adubação utilizada, as condições climáticas e a fertilidade do solo (Lima et al., 1998). Na tabela da EMBRAPA (1991), são descritos valores de 7,80 e 8,60% de PB; 0,04 e 0,03% de Ca; 0,25 e 0,28% de Pt; e 3.855 e 3.982 kcal/kg de EB, respectivamente, para grãos de sorgo seco de alto e de baixo conteúdo de tanino, próximos aos determinados neste estudo, se comparados em mesma base de matéria seca.

Os valores de pH das silagens de sorgo de alto (4,55) e baixo (4,32) conteúdo de tanino podem ser considerados satisfatórios, uma vez que foram próximos ao verificado por Romero et al. (1996), de 4,2, em silagens de grãos úmidos de sorgo.

O sorgo de baixo teor de tanino (Tabela 3) apresentou de 0,44 a 0,69% de tanino/compostos fenólicos. Segundo Zardo & Lima (1999), o sorgo com 0,60% de tanino, analisado pelo Método Azul da Prússia, é considerado isento de tanino. Magalhães et al. (2000), por sua vez, afirmam que percentuais abaixo de 0,70% de polifenóis totais são decorrentes de outros fenóis, e não do tanino condensado; portanto, não são prejudiciais ao desempenho animal.

 

 

No sorgo de alto tanino, os teores de tanino variaram de 1,44% (grãos secos antes do plantio) a 1,14% (SGUS após o período fermentativo), redução de aproximadamente 20% do teor de tanino dos grãos, comprovando que o processo de ensilagem foi ineficiente para remover a maior parte do tanino presente no grão de sorgo. Segundo Mitaru et al. (1984b), no processo de reconstituição, que envolve a adição de água e subseqüente incubação anaeróbica a 25ºC, ocorre remoção de até 97% do tanino quimicamente detectável.

Os coeficientes de metabolização da matéria seca, matéria orgânica e da energia bruta diferiram (P<0,05) entre as silagens de grãos úmidos de sorgo de alto e baixo conteúdo de tanino e foram maiores para a de baixo conteúdo de tanino (Tabela 4).

 

 

O coeficiente de metabolização da proteína bruta, embora numericamente maior para a silagem de baixo conteúdo de tanino, não diferiu (P<0,05) da silagem com alto teor de tanino e pode ser explicado pelo menor conteúdo de tanino presente nos grãos.

Segundo Magalhães et al. (2000), o tanino presente em algumas variedades de sorgo pode causar problemas na digestão dos alimentos pelos animais, por formar complexos com proteínas, diminuindo a palatabilidade e a digestibilidade do alimento. De acordo com Halley et al. (1986), o coeficiente de metabolização da energia bruta tende a diminuir com o aumento do conteúdo de tanino nas dietas, visto que o tanino pode formar complexos com carboidratos, reduzindo a atividade da enzima amilase e, conseqüentemente, o metabolismo, e diminuindo o aproveitamento energético do carboidrato. No entanto, conforme Ondarza (2000), os grãos ensilados com alta umidade aumentam a digestão do amido por meio da quebra da estrutura protéica dos grãos, desfazendo a estrutura cristalina do amido.

Para comparação dos dados com os de outros trabalhos, os teores de nutrientes digestíveis foram convertidos para 87,45% de matéria seca, com base na matéria seca do milho seco comum, de acordo com tabela da EMBRAPA (1991), como apresentado na Tabela 5.

A EMAn determinada para a SGUS de alto conteúdo de tanino foi de 3.180 kcal/kg, semelhantes aos valores descritos pela EMBRAPA (1991) e por Rostagno (2000), de 3.163 e 3.010 kcal/kg, respectivamente, enquanto a EMAn determinada para a SGUS com baixo conteúdo de tanino (3.454 kcal/kg) foi superior a esses valores.

Nunes et al. (2001) afirmam que o tanino condensado, além de afetar o valor nutricional dos alimentos, formando complexos com proteínas, íons metálicos divalentes, carboidratos e outras macromoléculas, também inibe a atividade de várias enzimas digestivas e provoca erosões das células epiteliais do intestino, diminuindo a absorção dos nutrientes através da parede intestinal.

Experimento de desempenho

No ensaio de desempenho, conforme dados apresentados na Tabela 6, excluindo a ração testemunha, a análise de regressão comprovou redução linear (P<0,05) no peso vivo das aves aos 40 dias de idade, quando o milho foi substituído gradativamente pelas SGUS de baixo ( = 2,521329 – 0,000989357X r2= 0,84) ou de alto teor de tanino (= 2,700249 – 0,003632027 r2= 1,00).

A inclusão de níveis crescentes de SGUS de alto conteúdo de tanino também promoveu redução linear (P<0,05) no ganho de peso aos 40 dias de idade.

Verificou-se, pelo teste de Dunnett (P<0,05), que as aves que receberam a ração com SGUS de alto conteúdo de tanino nos níveis de 66 e 100% de substituição, apresentaram, aos 40 dias de idade, menores peso e ganho de peso que as aves alimentadas com a ração testemunha. O peso e ganho de peso aos 40 dias de idade não diferiram entre as aves alimentadas com a ração com SGUS de baixo tanino (P>0,05) e as que receberam ração com milho seco.

A redução linear observada no ganho de peso das aves, à medida que o milho foi substituído pelas SGUS, pode ser explicada pelo fato de o tanino presente nos grãos de sorgo afetar a palatabilidade e a digestibilidade dos nutrientes.

O consumo de ração das aves alimentadas com a ração contendo SGUS de alto teor de tanino ( = 4,156593 – 0,003460750X r2= 0,99) reduziu linearmente (P<0,05) dos 7 aos 40 dias de idade, sendo menor (P<0,05) nos níveis de 66 e 100% de substituição do milho pela silagem, como conseqüência da baixa palatabilidade das rações (sabor adstringente), que ocasiona rejeição pelas aves.

Verificou-se piora linear (P<0,05) na conversão alimentar das aves alimentadas com ração contendo níveis crescentes de substituição do milho pela SGUS de alto (= 1,719635 + 0,01462971X r2= 0,99) ou de baixo (= 1,781854 +0,000547004X r2= 0,97) conteúdo de tanino aos 40 dias de idade, porém, para a SGUS de baixo tanino, não houve diferença da CA dos níveis avaliados em relação à ração-teste.

A comparação pelo teste de Dunnett (P<0,05) da ração- referência com cada nível de inclusão das silagens demonstrou que a conversão alimentar aos 40 dias de idade foi pior (P<0,05) para as aves que receberam as dietas contendo a SGUS de alto tanino no nível de 100% de substituição ao milho, porém não diferiu (P>0,05) daquela verificada com a SGUS de baixo tanino e a ração-referência.

Queiroz et al. (1978) pesquisaram a substituição de 0, 50, 75 e 100% do milho pelo sorgo de baixo e de alto teores de tanino em rações para frangos de corte de 1 a 18 dias de idade e verificaram que o ganho de peso não foi afetado quando o milho foi substituído em até 100% pelo sorgo de baixo tanino e em até 75% pelo sorgo de alto tanino. A conversão alimentar das aves que receberam a ração contendo milho, no entanto, foi melhor que a obtida com 50, 75 e 100% de substituição do milho pelos sorgos de alto e baixo teores de tanino.

Os prejuízos observados no desempenho das aves podem estar relacionados ao teor de tanino das rações, uma vez que a ensilagem não foi eficiente para remover grande parte do tanino presente no sorgo. A redução de apenas 20% do tanino durante o processo de ensilagem foi ineficiente para amenizar seus efeitos sobre o desempenho dos frangos de corte.

Segundo Rostagno (1986), o tanino presente no grão de sorgo influencia negativamente a disponibilidade de aminoácidos do sorgo, prejudicando o desempenho dos animais. Além disso, Teeter et al. (1986) constataram, por meio de desintoxicação, remoção de 100% do tanino quimicamente detectável em grãos de sorgo de alto conteúdo de tanino, promovendo melhorias na taxa de crescimento e na eficiência alimentar de frangos de corte. Contudo, esses benefícios não foram evidenciados no mesmo processo aplicado aos grãos de sorgo de baixo tanino.

A pigmentação da pele de frangos de corte é de grande importância comercial, visto que carcaças com melhor pigmentação apresentam maior aceitação pelo consumidor. Um dos fatores limitantes da utilização do sorgo em rações para frangos de corte é o baixo nível de pigmentos xantófilos quando comparados ao milho.

Níveis crescentes de substituição do milho pelas SGUS, de alto (= 3,672492 – 0,02576849X r2= 0,99) e de baixo (= 3,795705 – 0,02801455X r2= 0,99) conteúdos de tanino promoveram decréscimo linear (P<0,05) na coloração da perna das aves (Tabela 7). Segundo Bellaver (2003), o sorgo pode consistir em excelente alternativa na alimentação de aves, desde que incluídos ingredientes com pigmentos carotenóides ou xantofílicos.

O custo da ração (Tabela 8) por quilograma de ganho de peso vivo (CR) de frangos de corte dos 7 aos 21 (= 0,677908 – 0,000590180X r2= 0,99) e dos 21 aos 40 (= 0,880517 – 0,000923132X r2= 0,99) dias de idade alimentados com SGUS de baixo conteúdo de tanino reduziu linearmente (P<0,05) com o aumento dos níveis de substituição do milho pela SGUS. Para a SGUS de alto conteúdo de tanino, não foram observadas diferenças (P>0,05) para os diferentes níveis de inclusão.

Os melhores IEE e IC foram obtidos quando a SGUS de baixo conteúdo de tanino substituiu em 100% o milho comum das rações.

Verificou-se, pelo teste de Dunnett (P<0,05), que o custo da ração, dos 7 aos 21 dias, por quilograma de ganho de peso vivo de frangos de corte foi menor (P<0,05) para a ração contendo a SGUS de baixo teor de tanino no nível de 100% de substituição. O custo da ração com SGUS de alto conteúdo de tanino por quilograma de ganho de peso vivo, não diferiu da ração-referência dos 7 aos 21 dias de idade.

As rações de crescimento, fornecidas dos 21 aos 40 dias, contendo a SGUS de baixo tanino apresentaram menor custo (P<0,05) por quilograma de peso vivo, quando comparadas à ração-referência, pelo teste Dunnett (P<0,05).

 

Conclusões

As silagens de grãos úmidos de sorgo de alto e de baixo conteúdos de tanino apresentaram bons valores nutritivos, com 2.408 e 2.578 kcal/kg de energia metabolizável aparente corrigida para balanço de nitrogênio na matéria natural, respectivamente.

A substituição de 100% do milho pela silagem de grãos úmidos de sorgo de baixo conteúdo de tanino em rações para frangos de corte não prejudicou o desempenho e reduziu o custo por quilo produzido.

A silagem de grãos úmidos de sorgo de alto tanino pode substituir o milho em até 33%, sem afetar o desempenho dos frangos de corte.

 

Literatura Citada

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Recebido: 25/02/05
Aprovado: 18/08/05

 

 

Correspondências devem ser enviadas para: acfurlan@uem.br
1 Parte da Dissertação de Mestrado da primeira autora.

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