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Revista Brasileira de Zootecnia

versão On-line ISSN 1806-9290

R. Bras. Zootec. v.35 n.3 Viçosa maio/jun. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35982006000300034 

RUMINANTES

 

Composição corporal e exigências de energia de mantença em bovinos Nelore, puros mestiços, em confinamento1

 

Body composition and net energy requirements for maintenance of feedlot purebred and crossbred Nellore young bulls

 

 

José Antônio de FreitasI; Augusto César de QueirozII; Alecssandro Regal DutraIII; Ricardo Augusto Mendonça VieiraIV; Rogério de Paula LanaII; Fernando de Paula LeonelV; Douglas Sampaio HenriqueV; Adhemar Ventura de LimaVI; Júlio César de SouzaI

IUniversidade Federal do Paraná - Palotina - PR
IIUniversidade Federal de Viçosa - Viçosa - MG
IIIUniversidade Estadual de Goiás - Goiânia - GO
IVUniversidade Estadual Norte Fluminense - Campos dos Goytacazes - RJ
VDoutorando em Zootecnia - Universidade Federal de Viçosa
VIZootecnista

 

 


RESUMO

Objetivou-se estimar a composição corporal de gordura e proteína e as exigências de energia de mantença em bovinos Nelore puros e mestiços. Foram utilizados 72 bovinos machos (18 Nelore, 18 F1 Nelore x Angus, 18 F1 Nelore x Pardo- Suíço e 18 F1 Nelore x Simental) não-castrados, com 10 a 11 meses de idade e peso médio inicial de 286, 309, 333 e 310 kg, respectivamente. O delineamento utilizado foi o inteiramente casualizado, com quatro grupos genéticos, submetidos a quatro níveis de concentrado na ração (30, 40, 60 e 70%). No início do experimento, três animais de cada grupo genético foram alocados no grupo de alimentação restrita e três foram abatidos no grupo de abate inicial. As exigências líquidas de energia para mantença (ELm) foram obtidas pela regressão da produção de calor (kcal/kg0,75/dia) em função do consumo de energia metabolizável (CEM - Mcal/kg0,75/dia), extrapolando-se para o nível zero de ingestão de EM. Não houve diferenças nas exigências de energia líquida de mantença (ELm) entre os grupos genéticos. Verificou-se elevação de 260,2; 92,6 e 67,8% nos conteúdos corporais de gordura e proteína e na concentração de gordura (g/kg de peso corporal vazio - PCV), com elevação de 250 para 550 kg no peso vivo, ao passo que a concentração de proteína corporal reduziu em 10,9%. O teste de identidade de modelos não-lineares indicou não haver diferenças entre os grupos genéticos para a composição corporal de gordura, proteína e energia e nas ELm. Desse modo, o valor da ELm foi estimado em 79 kcal/kg0,75/dia.

Palavras-chave: engorda, gado de corte, metabolismo basal, produção de calor


ABSTRACT

The objectives of this trial were to estimate the body composition of fat and protein and the net energy requirements for maintenance of purebred and crossbred Nellore. Seventy-two young bulls averaging 10 to 11 months of age from four genetic groups were used: 18 Nellore, 18 F1 Nellore x Angus, 18 F1 Nellore x Brown Swiss and 18 F1 Nellore x Simental with initial average weights of 286, 309, 333 and 310 kg, respectively. A completely randomized design was adopted and bulls from the four genetic groups were fed diets containing: 30, 40, 60 and 70% of concentrate. Three animals from each genetic group were feed restricted while other three bulls were slaughtered at the beginning of the trial and used as reference. The net energy requirements of maintenance were obtained by regressing heat production (kcal/kg0.75/day) on metabolizable energy intake (Mcal/kg0.75/day) extrapolating to zero level of metabolizable energy intake. There was no difference in net energy requirements for maintenance among genetic groups. Body contents of fat, protein and fat concentration (g/kg EBW) increased, respectively, 260.2, 92.6 and 67.8% when body weight increased from 250 to 550 kg whereas body protein concentration reduced 10.9%. The identity test of the non-linear model indicated no significant differences among genetic groups for body composition of fat, protein and energy as well as for net energy requirements for maintenance. The estimated net energy requirement for maintenance was 79.45 kcal/kg0.75/day in this study.

Key Words: body composition, cattle, crossbred, maintenance requirements, Nellore


 

 

Introdução

O corpo animal é composto basicamente por água, proteína, gordura e minerais. As proporções destes componentes variam de acordo com fatores como raça do animal, velocidade de crescimento, condição sexual, plano nutricional, utilização ou não de hormônios anabolizantes, entre outros (NRC, 1996). Embora o conteúdo corporal total de proteína e gordura no corpo vazio se eleve com o aumento do peso do animal, o teor de proteína reduz, enquanto os teores de gordura e energia tendem a aumentar com a elevação do peso do animal (Lana et al., 1992; Pires et al., 1993, Boin, 1995; Freitas et al., 2000; Backes et al., 2002).

Preston & Willis (1974) avaliaram o efeito do nível de alimentação sobre a composição corporal dos animais e relataram que rações mais energéticas resultaram em carcaças com maior teor de gordura. Resultados semelhantes foram observados por Jones et al. (1985), que, trabalhando com rações contendo diferentes proporções volumoso:concentrado, observaram diferenças na composição corporal de novilhos, de modo que animais submetidos a dietas mais energéticas apresentaram maiores teores de gordura na carcaça.

Paulino et al. (1999), em pesquisa conduzida com bovinos Zebu, machos não-castrados de quatro grupos genéticos com 300 a 500 kg, verificaram redução nos teores de proteína corporal e elevação nos de gordura e energia corporal com o aumento do peso corporal vazio (PCV). Os autores constataram decréscimo de 9,3% no teor de proteína (183 para 165 g de proteína/kg PCV) e elevação de 110% no teor de gordura (114 para 240 g/kg PCV).

Segundo Ferrell & Jenkins (1998), novilhos da raça Angus submetidos à alimentação restrita apresentaram menores teores de gordura na carcaça (22%) que aqueles sob alimentação ad libitum (30,7%). Esses autores verificaram que, para os mesmos níveis de ingestão alimentar, os teores de proteína na carcaça reduziram de 13,6 para 13%.

O grupo genético apresenta, de acordo com Garrett (1980), maior influência sobre a composição corporal (considerando mesmo peso vivo ou de carcaça) que o nível nutricional. Robelin & Geay (1984) registraram efeito do grupo genético na composição corporal de bovinos Angus, os quais apresentaram teor de gordura corporal 89% superior ao dos animais Limousin. Em animais das raças Limousin, Charolesa, Holandesa, Shorthorn, Hereford e Angus aos 400 kg, os respectivos teores de gordura corporal foram de 102, 108, 135, 190, 190 e 193 g/kg de PCV.

As exigências de energia para mantença podem ser definidas como a quantidade de energia necessária para a manutenção da massa corporal estável. Estudos pioneiros na área de bioenergética foram realizados por Brody (1945), que desenvolveu pesquisas com diferentes espécies (envolvendo desde camundongos até elefantes) e estimou a taxa metabólica basal em 70,5 kcal/kg0,73. Posteriormente, Lofgreen & Garrett (1968), utilizando 208 novilhos e novilhas com 230 a 300 kg PV alimentados com rações com nível de volumoso de 2 a 100%, estimaram as exigências líquidas de mantença em 77 kcal/kg kg0,75, valor adotado pelo NRC (1996). O AFRC (1993), no entanto, utilizando o método calorimétrico, estabelece em 83,5 kcal/kg kg0,75/dia as exigências de energia de mantença. Para bovinos do tipo leiteiro em crescimento, o NRC (2001) estima as exigências líquidas de energia de mantença em 86 kcal/kg0,75/dia.

Em bovinos em crescimento, as exigências de energia de mantença podem corresponder a mais de 40% das exigências totais de energia metabolizável (NRC, 1996). Segundo Thompson et al. (1983), as exigências de energia de mantença envolvem gastos com a manutenção da homeotermia, da pressão sangüínea, do tônus muscular, da atividade cardíaca, da transmissão de impulsos nervosos, do transporte de íons através da membrana, da ingestão de alimentos, da locomoção etc. Outros fatores podem influenciar as exigências líquidas de energia de mantença, entre eles raça, idade do animal, condição sexual, nível de produção e plano nutricional (Koong et al., 1985; NRC, 1996).

O NRC (1996) cita que diferenças nas exigências de energia de mantença (ELm) podem variar até 40%, dependendo da raça bovina considerada, de modo que taurinos apresentam ELm 10% superior à dos zebuínos. Relata ainda diferenças entre machos não-castrados e castrados, de modo que animais não-castrados apresentam exigência de mantença 15% superior à dos castrados.

Objetivou-se com este trabalho estimar a composição corporal de proteína, gordura e energia e as ELm de bovinos Nelore e cruzados mantidos em confinamento.

 

Material e Métodos

O experimento foi realizado no Instituto Melon de Estudos e Pesquisas, localizado na Fazenda Barreiro, em Silvânia, Goiás, e as análises, no Laboratório de Nutrição Animal do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais.

O município de Silvânia localiza-se no planalto central goiano e possui clima mesotérmico e úmido, segundo classificação de Köppen. A temperatura média anual é de 22ºC, com variação média de 5ºC, e a precipitação pluviométrica anual (1.450 mm) caracteriza-se por uma distribuição periódica, com duas estações bem definidas, com maior concentração das chuvas no período de novembro a março.

O delineamento experimental utilizado foi o inteiramente casualizado, em arranjo fatorial 4 x 4, com quatro níveis de concentrado e quatro grupos genéticos. Utilizaram-se 72 bovinos machos inteiros, com idade inicial de 10 a 11 meses, pertencentes a quatro grupos genéticos: 18 Nelore, 18 F1 Nelore x Angus, 18 F1 Nelore x Pardo-Suíço e 18 F1 Nelore x Simental, com peso médio inicial de 286, 309, 333 e 310 kg, respectivamente. Foram utilizadas quatro proporções volumoso:concentrado (30:70; 40:60; 60:40 e 70:30) e três animais de cada grupo genético por tratamento, perfazendo um total de 12 animais. Os animais foram mantidos em baias individuais de 16 m2 (8 m2 de área concretada e 8 m2 de piso batido), parcialmente cobertas, providas de comedouro individual concretado (0,8 m de largura, 0,6 m de parede externa e 0,5 m de parede interna) e de um bebedouro concretado (1,0 x 1,0 m) para cada duas baias.

Três animais de cada grupo genético foram alocados no grupo mantença e receberam ração para atender suas exigências de mantença. Outros três bovinos de cada grupo genético foram abatidos ao início do experimento e serviram de referência no estudo da composição corporal dos animais remanescentes. As rações foram formuladas de acordo com as recomendações do NRC (1996) e sua composição química, bem como dos concentrados e do feno, encontra-se nas Tabelas 1 e 2.

 

 

 

 

A ração experimental foi distribuída uma vez ao dia, às 8 horas, de modo a permitir sobras de 10 a 20% da quantidade ofertada. Diariamente, foram registradas as quantidades de ração fornecida e das sobras e, semanalmente, foram coletadas amostras individuais da ração e das sobras, que, a cada sete semanas, compuseram uma amostra representativa do período.

Paralelamente a este ensaio, foi realizado outro, no qual foram determinados os coeficientes de digestibilidade aparente e total. As determinações de MS, PB, FDN e EE foram realizadas conforme técnica descrita por Silva & Queiroz (2002). Os carboidratos totais foram obtidos pela equação CHT (%MS) = 100–[PB (%MS) + EE (%MS) + MM (%MS)] e os teores de NDT, pela equação NDTaparente (g/dia) = (PB ração–PB fezes) + (CHT ração–CHT fezes) + 2,25 (EE ração–EE fezes), conforme descrito por Sniffen et al. (1992).

A duração do experimento não foi pré-definida, visto que os animais eram abatidos ao atingirem 100 ou 110% do peso das fêmeas do mesmo grupo genético. Todos os animais, independentemente do grupo genético, foram abatidos após jejum de 14 horas aos 480-510 kg de PV. A diferença no peso de abate dos animais foi atribuída à variação do peso dentro dos lotes de animais abatidos. De cada animal abatido, foram pesadas e coletadas amostras representativas dos órgãos, das vísceras e da carcaça. As amostras  de  carne  (120 g),  gordura (200 g), vísceras (200 g)  e couro (100 g), depois de moídas, foram armazenadas em  vidros com capacidade de 250 mL e  mantidas em estufa a 105ºC durante 48 a 72 horas, para determinação da matéria seca gordurosa (MSG).  Em  seguida, foram submetidas a um processo de extração de gordura com éter de petróleo, conforme  descrito  por Kock & Preston  (1979), obtendo-se  a  matéria seca  pré-desengordurada  (MSPD), que, posteriormente,  foi processada em moinho de bola, para determinação dos teores de NDT, EE e CIN. As  amostras  de  sangue  (400 g)  foram coletadas imediatamente após o abate, acondicionadas  em  pirex, encaminhadas à estufa de ventilação forçada (55ºC), durante  48 horas, para determinação dos teores de matéria pré-seca, sendo, posteriormente, processadas em moinho de bola. As determinações de NDT foram feitas em aparelho semimicro kjedahl e as de EE, em aparelho soxhlet, conforme descrito por Silva & Queiroz (2002).

As carcaças foram pesadas no dia do abate, realizando-se no mesmo dia a coleta de amostra representativa da meia-carcaça esquerda, correspondente à secção da 9ª à 11ª costela, de acordo com metodologia proposta por Hankins & Howe (1946). A partir das proporções de músculo, tecido adiposo e ossos na seção HH, estimaram-se suas proporções na carcaça, por meio das equações descritas por Hankis & Howe (1946):

em que X é a porcentagem dos componentes na secção HH.

Ao início do experimento, foram abatidos 12 animais-referência (três de cada grupo genético) para estimativa da composição corporal inicial dos animais remanescentes.

O peso de corpo vazio (PCV) dos animais foi determinado pelo somatório dos pesos de carcaça, sangue, cabeça, couro, pés, cauda, vísceras e órgãos. A relação entre o PCV e o peso vivo dos animais-referência (abatidos no início do experimento) de cada grupo genético foi utilizada para estimativa do PCV inicial dos animais remanescentes dos diversos grupos genéticos. Os conteúdos corporais de EE e PB foram determinados considerando-se suas concentrações percentuais nos tecidos, nos órgãos, no couro, no sangue e na amostra representativa da carcaça (secção HH). Foram determinados nos tecidos corporais de cada animal os teores de matéria seca gordurosa (MSG) e água. A MSG foi tratada com éter de petróleo, a fim de se extrair parte da gordura e obter a matéria seca pré-desengordurada (MSPD). Subtraindo-se a MSPD da MSG, obteve-se a gordura extraída no pré-desengorduramento. A partir da  MSPD moída,  foram realizadas análises de PB, EE e CIN, conforme técnica descrita por Silva & Queiroz (2002), possibilitando determinar a composição da matéria natural. A determinação dos conteúdos corporais de energia foi realizada pelo produto dos conteúdos corporais de proteína e gordura nos órgãos, nas vísceras, no sangue, na carcaça e no couro pelos seus respectivos equivalentes calóricos, conforme a equação proposta pelo ARC (1980):

em que CE = conteúdo de energia, em kg; X = proteína corporal, em kg; Y = gordura corporal, em kg.

Os conteúdos líquidos de energia, gordura e proteína retidos no corpo dos animais foram estimados por meio do ajuste de equações de regressão do conteúdo corporal de energia e proteína, em função do PCV, segundo técnica proposta por Lofgreen & Garrett (1968) conforme a equação:

em que: Yijk = conteúdo total de energia (Mcal) ou proteína (kg) no corpo vazio do animal j, do grupo genético i, pertencente ao tratamento k; a = constante; b = coeficiente de regressão dos conteúdos de gordura, energia e proteína, em função do PCV; Xijk = peso de corpo vazio, do animal j, do grupo genético i, do tratamento k; eijk = erro aleatório associado a cada observação.

As exigências de ELm foram obtidas pela regressão da produção de calor (kcal/kg0,75/dia) em função do CEM (Mcal/kg0,75/dia), extrapolando-se para o nível zero de consumo de energia metabolizável (CEM), segundo técnica descrita por Ferrell & Jenkins (1998), utilizando-se a equação abaixo:

em que Yijk = produção de calor em jejum (kcal/kg0,75/dia) do animal j, do grupo genético i, pertencente ao tratamento k; a = intercepto; b = coeficiente de regressão; X = CEM (kcal/kg0,75/dia); eijk = erro aleatório associado a cada observação.

Os dados obtidos foram analisados por meio de análises de regressão e variância, pelo programa computacional SAS (Statistical Analyses System, 1995), aplicando-se o teste F a 5% de probabilidade aos coeficientes de regressão.

Na comparação entre grupos genéticos, quanto à composição corporal e às ELm, utilizou-se o teste de identidade de modelos não-lineares, conforme proposto por Regazzi (2003), para se verificar a possibilidade de utilização de um modelo em comum para todos os grupos genéticos ou de um modelo para cada grupo genético. O procedimento estatístico consistiu no teste das seguintes hipóteses: Ho(1): a1=a2=a3=a4 Ha(1): pelo menos um ai é diferente dos demais: Ho(2) : b1=b2=b3=b4, Ha(2): pelo menos um bi é diferente dos demais; Ho(3): a1=a2=a3=a4 e b1=b2=b3=b4; Ha(3) pelo menos uma igualdade é uma desigualdade.

 

Resultados e Discussão

A partir da regressão do peso corporal vazio (PCV) em função do peso vivo de 72 animais, com os pesos de 243 a 560 kg, obteve-se a equação para predição de PCV. Não foram verificadas diferenças significativas entre os grupos genéticos e, portanto, foi adotada uma única equação para todos os grupos genéticos. A representação gráfica da equação obtida e o coeficiente de determinação são apresentados na Figura 1.

 

 

Os resultados encontrados por meio de equação para a obtenção do PCV a partir do PV (Figura 1) foram próximos aos descritos por Freitas (2000), Estrada et al. (1997) e Paulino et al. (1999). Entretanto, esses resultados são mais próximos dos descritos pelo NRC (1996), que utiliza o fator de 0,891 para conversão de PV para PCV. Assim, um bovino com 400 kg de PV apresenta PCV de 356,4 kg, muito próximo ao observado neste trabalho (360,8 kg de PCV).

Segundo Van Soest (1994), a discrepância entre o PCV e o PV está relacionada à capacidade do trato gastrintestinal dos animais e pode variar conforme o grupo genético, a composição da ração e o período de jejum ao qual os animais foram submetidos.

Aplicando-se o teste de identidade dos modelos não-lineares, proposto por Regazzi (2003), não foram detectados efeitos do grupo genético sobre a composição corporal de proteína, gordura e energia, nem sobre as exigências de ELm.

Os parâmetros (a e b) das equações de regressão utilizadas para estimar o conteúdo corporal de proteína, gordura e energia, bem como seus coeficientes de determinação, encontram-se na Tabela 3.

Dentro da faixa de peso entre 250 e 550 kg, verificaram-se variações no conteúdo corporal de proteína (92,6%), gordura (260,2%) e energia (182%). Comportamento semelhante foi verificado por Lana et al. (1992), Fontes (1995), NRC (1996) e Freitas et al. (2000). Entretanto, houve redução de 10,9% no teor de proteína corporal com a elevação do peso do animal (Tabela 4). Maior elevação no conteúdo corporal de gordura em detrimento à proteína pode ser atribuída à deposição acelerada de gordura em comparação à proteína, conforme demonstrado na Figura 2. Desta forma, pode-se verificar que a intensidade de deposição de gordura é muito superior à de proteína à medida que ocorre aumento do peso corporal.

 

 

As curvas de deposição de proteína e gordura foram bem próximas até o PCV de 300 kg (Figura 2). O distanciamento entre curvas está relacionado ao final da fase de puberdade e início da maturidade do animal, quando ocorre a desaceleração do crescimento muscular, seguido de intensa deposição de tecido adiposo, o qual, segundo Owens et al. (1993), apresenta crescimento mais tardio que o do tecido muscular, de modo que o peso corporal à maturidade, segundo os autores, depende da raça do animal. A maior intensidade de crescimento muscular antes da maturidade depende da ação dos hormônios do crescimento, juntamente com o hormônio testosterona (Phillips, 2001).

Os resultados deste estudo, referentes aos conteúdos de proteína, gordura e energia (Figuras 2 e 3), são semelhantes ao descrito por McDonald et al. (1995) e NRC (1996).

 

 

Os conteúdos corporais de proteína, gordura e energia para a faixa 250 e 550 kg de PV foram estimados em 41,79 e 80,45 kg; 39,22 e 141,22 kg; 599,87 e 1549,82 Mcal, respectivamente.

As concentrações corporais de proteína, gordura (kg/kg PCV) e energia (Mcal/kg PCV) no corpo, no entanto, foram de 0,18 e 0,16; 0,17 e 0,29; 2,7 e 3,54, respectivamente, para a faixa de peso de 250 a 550 kg. Analisando os resultados de outros trabalhos (Lana et al., 1992; Fontes, 1995; Estrada et al., 1997; Ferreira et al., 1999; Paulino et al., 1999; Freitas et al., 2000; Véras et al., 2000; Rocha & Fontes, 1999; Véras et al., 2001; Backes et al., 2002; Silva et al., 2002; Veloso et al., 2002), verificou-se que os respectivos valores médios e desvios-padrão para conteúdo de proteína (kg), gordura (kg) e energia (Mcal) de um bovino de 400 kg foram de 64,7± 5,3; 57,4 ± 6 e 899 ± 54,5, respectivamente. O NRC (1996) preconiza para a mesma faixa de peso os valores de 64,8; 83,9 kg e 1.135,8 Mcal, para conteúdos de proteína, gordura e energia, respectivamente. Portanto, os valores obtidos neste estudo para a composição corporal de proteína, gordura e energia foram mais próximos aos estabelecidos pelo NRC (1996) que os encontrados no Brasil, embora o conteúdo de proteína (61,65 kg) encontre-se na faixa estabelecida pelo NRC (1996) e pelos autores supracitados.

Constam na Tabela 4 os coeficientes (a e b) da equação de regressão da produção de calor (equação 6), em função do CEM, bem como seus respectivos intervalos de confiança, a 0,95 de probabilidade.

As ELm, obtidas pela regressão da produção de calor (kcal/kg0,75/dia), em função do CEM (kcal/kg0,75/dia), para a faixa de 243 a 560 kg de PV são representadas na Figura 4.

 

 

PC = 79,450,00328.CEM, em que: PC = produção de calor, em kcal/kg0,75/dia);

CEM = consumo de energia metabolizável, em kcal/kg0,75/dia.

Para o nível zero de ingestão de EM, obtido por extrapolação, obteve-se o valor de 79 kcal/kg0,75/dia para a produção de calor em jejum.

O NRC (1996) preconiza maiores ELm para bovinos Bos taurus (10%) e mestiços Bos taurus x Bos indicus (5%) em relação aos zebuínos (Bos indicus). Entretanto, nesta pesquisa, esse comportamento não foi confirmado. As exigências líquidas de energia para bovinos Nelore, puros e mestiços, na faixa de peso estudada, são apresentadas na Tabela 5.

 

 

Tedeschi et al. (2002), em estudo com bovinos Nelore, estimaram em 77 kcal/kg0,75/dia ELm. Neste trabalho, não foram obtidas diferenças entre grupos genéticos para as exigências energéticas de mantença, como verificado por Ferrell & Jenkins (1998), que estimaram as exigências ELm em 77,2 kcal/kg0,75 e não detectaram diferenças entre Bos taurus e Bos indicus.

Henrique (2002), compilando dados referentes a oito pesquisas da literatura nacional, não constatou diferenças entre grupos genéticos para as ELm, encontrando a estimativa pontual de 71 kcal/kg0,75/dia e intervalo de confiança de 68 a 74. O valor das exigências neste estudo foi de aproximadamente 11 e 7% superior ao valor pontual e ao limite superior máximo do intervalo de confiança obtido por Henrique (2002).

A compilação de resultados de 11 trabalhos realizados no Brasil, envolvendo a estimativa das ELm (Gonçalves, 1988; Pires et al., 1993; Rocha & Fontes, 1999; Araújo et al., 1998; Almeida et al., 2001; Silva et al., 2001; Veloso et al., 2002; Boin, 1995, entre outros), juntamente com os dados obtidos por Henrique (2002), resultou no valor de 73 ± 8 kcal/kg0,75 para as exigências de energia de mantença. Desse modo, a estimativa média obtida neste estudo encontra-se no intervalo verificado para exigências energéticas de bovinos, em condições brasileiras.

Quando se calcula a média de alguns trabalhos da literatura internacional (AFRC, 1993; NRC, 1996; Ferrel & Jenkins, 1998; NRC, 2001), obtém-se valor de 80 ± 6 kcal/kg0,75 de exigências energéticas de mantença, que inclui o valor médio de 79 kcal /kg0,75 e o intervalo de confiança obtido neste estudo.

 

Conclusões

A composição corporal de proteína e energia elevou-se com o aumento do peso vivo dos animais, sem distinção significativa entre grupos genéticos. Entretanto, o aumento no conteúdo corporal de gordura foi bem mais pronunciado que o de proteína, principalmente a partir do PCV de 300 kg.

Não foi comprovada a hipótese de que bovinos de raças zebuínas (Bos indicus) apresentam menores exigências de energia de mantença que os taurinos (Bos taurus) ou mestiços Bos indicus x Bos taurus. Desse modo, as exigências energéticas para os quatro grupos genéticos Nelore, F1 Nelore x Aberdeen Angus, F1 Nelore x Pardo Suíço e F1 Nelore x Simental foram estimadas em 79 kcal/kg0,75/dia.

O valor estimado neste estudo para exigências de energia de mantença se ajusta bem aos dados das literaturas nacional e internacional.

 

Literatura Citada

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Recebido: 19/07/04
Aprovado: 10/10/05

 

 

Correspondências devem ser enviadas para: freitasjaf@ufpr.br
1 Parte da tese de Doutorado em Zootecnia apresentada à Universidade Federal de Viçosa pelo primeiro autor. Apoio: CAPES