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Revista Brasileira de Zootecnia

Print version ISSN 1516-3598On-line version ISSN 1806-9290

R. Bras. Zootec. vol.35 no.3 Viçosa May/June 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35982006000300036 

RUMINATES

 

Eficiência de utilização da energia metabolizável em bovinos Nelore puros e cruzados submetidos a quatro níveis de concentrado na ração1

 

Net efficiency of metabolizable energy utilization of purebred and crossbred Nellore young bulls fed diets with different concentrate levels

 

 

José Antônio de FreitasI; Augusto César de QueirozII; Alecssandro Regal DutraIII; Ricardo Augusto Mendonça VieiraIV; Rogério de Paula LanaII; Fernando de Paula LeonelV; Douglas Sampaio HenriqueV; Adhemar Ventura de LimaVI; Júlio César de SouzaI

IUniversidade Federal do Paraná – Palotina
IIUniversidade Federal de Viçosa – Viçosa – MG
IIIUniversidade Estadual de Goiás – Goiânia – GO
IVProfessor da UENF – Campos dos Goytacazes, RJ
VDoutorando em Zootecnia – Universidade Federal de Viçosa
VIZootecnista

 

 


RESUMO

Objetivou-se com este trabalho estimar as eficiências de utilização da energia metabolizável para mantença (Km) e ganho de peso (Kg) de bovinos Nelore puros e mestiços. Foram utilizados 72 bovinos machos, não-castrados, com idade inicial de 10 a 11 meses (18 Nelore, 18 F1 Nelore x Angus, 18 F1 Nelore x Pardo-Suíço e 18 F1 Nelore x Simental) e peso médio inicial de 286, 309, 333 e 310 kg, respectivamente. Adotou-se o delineamento inteiramente casualizado em arranjo fatorial 4 x 4 m com três animais por grupo genético e quatro níveis de adição de concentrado (30, 40, 60 e 70% na MS). Três animais de cada grupo genético foram alocados no grupo mantença e três foram abatidos no início do experimento. O consumo de energia metabolizável de mantença (CEMm), em kcal/kg0,75, correspondeu ao ponto no qual o coeficiente entre a produção de calor em jejum (PCj) e os CEM foram mais próximos de 1. As eficiências de utilização da EM para mantença (Km) foram estimadas pela divisão da produção de calor em jejum pelo CEMm. A eficiência de utilização da EM para ganho de peso (kg) foi estimada pela regressão entre a energia retida (kcal/kg0,75) e o CEMg. As exigências de EM foram obtidas dividindo-se as exigências líquidas pelo valor de Km. Não houve influência significativa dos grupos genéticos e dos níveis de concentrado na ração sobre Km e Kg, que apresentaram valores de 0,67 e 0,40, respectivamente. As exigências de EM para ganho (EMg) e de EM total (EMt) aumentaram com a elevação do peso vivo (PV). Por outro lado, as EMt e EMg por unidade de PCV decresceram com o aumento do PV, indicando maior eficiência de utilização da EM com a elevação do peso vivo dos animais.

Palavras-chave: bioenergética, gado de corte, ganho de peso, mantença, nutrição


ABSTRACT

The objective of this trial was to estimate the efficiency of utilization of metabolizable energy (MEEU) for maintenance (Km) and weight gain (kg) of feedlot purebred and crossbred Nellore. Seventy-two young bulls averaging 10 to 11 months of age from four genetic groups: Nellore, F1 Nellore x Angus, F1 Nellore x Brown Swiss and F1 Nellore x Simental and initial average body weights of 286, 309, 333 and 310 kg, respectively, were used in this study. A completely randomized design with a 4x4 factorial arrangement was adopted and bulls from the four genetic groups were fed diets containing: 30, 40, 60 and 70% of concentrate on dry matter basis. Three animals from each genetic group were assigned to the maintenance group and other three were slaughtered at the beginning of the trial. The intake of metabolizable energy for maintenance (MMEI), expressed in Kcal/kg0.75, corresponded to the point in which the coefficient between fasting heat production (FHP) and MMEI was closer to 1. The MEEU for maintenance (Km) was estimated by dividing FHP by MEIm while that for gain (Kg) was estimated by regressing retained energy (kcal/kg0.75) on MEIg. The ME requirements were obtained by dividing the net energy requirements by Km. Genetic group and dietary level of concentrate did not significantly affect Km and Kg that averaged 0.67 and 0.40, respectively. The ME requirements for gain (MEg) and the total ME requirements (MEt) followed the increase in body weight. However, the requirement of MEt and MEg per unit of empty body weight (EBW) decreased as body weight increased indicating a greater efficiency of metabolizable energy utilization.

Key Words: beef cattle, bioenergetic, body weight gain, maintenance, nutrition


 

 

Introdução

A energia, capacidade de realizar trabalho (Kleiber, 1975), é essencial para todos os processos vitais e sua deficiência manifesta-se na falta de crescimento, nas falhas na reprodução e na perda de reservas corporais, reduzindo a produtividade animal. É o componente que mais limita a produtividade animal, de modo que sua utilização pelos seres vivos tem sido alvo de inúmeros estudos importantes na zootecnia. Entre os animais de interesse zootécnico, os ruminantes são os que apresentam menor eficiência de utilização da energia do alimento para a produção de carne (Philips, 2001).

A energia contida nos alimentos, denominada energia bruta (EB), pode ser expressa em calorias (cal) ou em joules (J). Essa energia é liberada na forma de calor quando os alimentos são completamente oxidados. O valor da EB dos nutrientes varia de 3,8 a 9,4 kcal/g para glicose e gordura, respectivamente (Brody, 1945). Entretanto, quando considerados somente os alimentos utilizados na alimentação de ruminantes, este valor varia de 2,0 a 4,0 kcal/g (Garrett, 1980).

A energia líquida constitui a fração da energia ingerida disponível para o animal e pode ser utilizada para atividades de mantença e produção (crescimento corporal, reprodução e produção de leite). A quantidade de EL disponível para mantença e produção, bem como a quantidade da energia dissipada na forma de calor, depende da EM dos alimentos.

Segundo Blaxter (1962), a EM pode ser utilizada com diferentes eficiências para os diversos processos fisiológicos (mantença, gestação, crescimento, engorda, lactação e trabalho).

Nos bovinos destinados à produção de carne, as exigências de energia para mantença podem corresponder a 70% das exigências totais de energia dos animais (NRC, 1996), de modo que esta energia envolve os gastos com manutenção da homeotermia, da pressão sangüínea, do tônus muscular, da atividade cardíaca, da transmissão de impulsos nervosos, do transporte de íons através de membranas, da ingestão de alimentos, da locomoção etc. O restante da energia líquida é utilizado para a síntese de tecidos, proteína e gordura (Ferrell & Jenkins, 1985) – denominada energia líquida de ganho.

O NRC (1984) postula que a eficiência líquida ou parcial de utilização da EM para mantença varia de 57,6 a 68,6% e para ganho de peso, de 29 a 47,3%, considerando a concentração de EM das rações de 2,0 e 3,2 Mcal/kg de MS, respectivamente. Segundo Garrett (1980), a eficiência de utilização da EM para mantença (Km) pode ser expressa pela razão entre a produção de calor em jejum e o consumo de energia metabolizável (CEM) para mantença. Por outro lado, a eficiência de utilização da EM para ganho de peso (Kg) é definida como a razão entre a EL para ganho e o consumo de EM para ganho.

A eficiência de utilização da energia para produção nos animais consiste em como a energia contida nos alimentos é retida na forma de produto animal (carne, gordura, leite etc). Essa eficiência pode variar conforme a composição da ração, a composição do ganho de peso (taxa de deposição de proteína e gordura), o grupo genético, a taxa de ganho, o ambiente e o estádio de crescimento dos animais (Kleiber, 1975).

Geay et al. (1984) verificaram que a eficiência de utilização da EM para deposição de gordura decresce à medida que se eleva o teor de fibra da dieta ou que a metabolizabilidade diminui. Segundo os autores, a metabolizabilidade do alimento pode ser descrita como o quociente (q) entre a EM e a EB dos alimentos. Para o mesmo consumo de EM, dietas contendo maiores valores de q (0,64 e 0,69) proporcionam maior ganho de peso, maior retenção de gordura e proteína e mais alta eficiência de utilização da EM para mantença e ganho que aquelas com menores valores (0,49 e 0,54). Dietas ricas em concentrado e com mesmo valor de q proporcionam acréscimo na retenção de energia com o aumento no CEM. Entretanto, este aumento em bovinos inteiros foi menor que em novilhas.

A eficiência energética para síntese de proteína e tecido adiposo determina boa parte da variação na eficiência líquida de utilização da energia. A síntese de gordura é energeticamente mais eficiente (60 a 80%) que a de proteína (10 a 40%). A grande variação nas estimativas das eficiências de utilização da EM para síntese de proteína e gordura advém, em parte, das diferenças na composição das rações e, conseqüentemente, nos produtos finais da digestão (Garrett, 1980). Sundstol et al. (1980) verificaram que cordeiros alimentados com silagem de gramínea apresentaram Km de 0,57, ao passo que aqueles recebendo gramínea juntamente com concentrado apresentaram eficiência de 0,75. Entretanto, os valores atribuídos à eficiência de utilização da energia metabolizável para ganho de peso (kg) para as mesmas dietas foram de 0,41 e 0,50, respectivamente.

Considerando a curva normal de crescimento de bovinos e os resultados obtidos por Geay (1984), que verificou maior eficiência de utilização da energia para síntese de gordura comparativamente à de proteína, pode-se afirmar que, na fase inicial de crescimento, ocorre menor eficiência de utilização da energia metabolizável para ganho de peso que na segunda fase, quando ocorre a desaceleração do crescimento.

Uma vez que a retenção de energia pode ser feita na forma de proteína ou de gordura, diferentes percentuais de cada componente no total de energia retida correspondem a diferentes eficiências de utilização da energia (Ferrell & Jenkins, 1998).

Old & Garrett (1985) desenvolveram trabalhos na área de bioenergética animal e verificaram maior eficiência de utilização da EM para deposição de gordura (0,58) que para deposição de proteína (0,11). Em vários outros estudos científicos sobre a eficiência de utilização de energia, tem-se constatado grande influência da idade e do grupo genético sobre a composição corporal dos animais.

Objetivou-se com este estudo estimar a eficiência de utilização da energia metabolizável para mantença e ganho de peso de bovinos de quatro grupos genéticos submetidos a quatro níveis de concentrado na dieta.

 

Material e Métodos

O experimento foi realizado no Instituto Melon de Estudos e Pesquisas, localizado na Fazenda Barreiro, em Silvânia, Goiás, e as análises, no Laboratório de Nutrição Animal do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais.

O município de Silvânia localiza-se no planalto central goiano e possui clima mesotérmico e úmido, segundo a classificação de Köppen. A temperatura média anual é de 22ºC, com variação média de 5ºC, e a precipitação pluviométrica anual (1.450 mm) caracteriza-se por uma distribuição periódica, com duas estações bem definidas, com maior concentração das chuvas no período de novembro a março.

Adotou-se o delineamento inteiramente casualizado, em arranjo fatorial, com quatro proporções volumoso na ração. Foram utilizados 72 bovinos machos inteiros, com idade inicial de 10 a 11 meses, pertencentes a quatro grupos genéticos (18 Nelore, 18 F1 Nelore x Angus, 18 F1 Nelore x Pardo-Suíço e 18 F1 Nelore x Simental) com peso médio inicial de 286, 309, 333 e 310 kg, respectivamente. Os animais foram mantidos em baias individuais de 16 m2 (8 m2 de área concretada e 8 m2 de piso batido), parcialmente cobertas, providas de comedouro individual (0,8 m de largura, 0,6 m de parede externa e 0,5 m de parede interna) e um bebedouro concretado (1,0 x 1,0 m) para cada duas baias.

Foram utilizadas quatro proporções volumoso:concentrado (70:30, 60:40, 40:60 e 30:70), de modo que, em cada tratamento, foram agrupados três animais de cada grupo genético, perfazendo o total de 12 animais. Além desses animais, três bovinos de cada grupo genético foram abatidos no início do experimento para servirem de referência no estudo da composição corporal dos animais remanescentes e outros três foram alocados no grupo de alimentação restrita (grupo mantença). As rações foram formuladas de acordo com as recomendações propostas pelo NRC (1996) e sua composição química, bem como dos concentrados e do feno, encontra-se nas Tabelas 1 e 2.

 

 

 

 

A ração experimental foi distribuída uma vez por dia, às 8 h, de modo a permitir sobras de 10 a 20% da quantidade ofertada. Diariamente, foram registradas as quantidades de ração fornecida e das sobras e, semanalmente, foram coletadas amostras individuais do alimento e das sobras, que, a cada sete semanas, compuseram uma amostra representativa do período.

Paralelamente a este ensaio, foi realizado outro, no qual foram determinados os coeficientes de digestibilidade aparente e total. As determinações de MS, PB, FDN e EE foram realizadas de acordo com técnica descrita por Silva & Queiroz (2002); as de CHT, pela equação CHT (%MS) = 100 – [PB (%MS) + EE (%MS) + MM (%MS)]; e dos NDT, pela equação NDTaparente (g/dia) = (PB ração – PB fezes) + (CHT ração – CHT fezes) + 2,25 (EE ração – EE fezes), conforme descrito por Sniffen et al. (1992).

Antes do abate, os animais foram submetidos a um período de jejum de 14 horas. A duração do experimento não foi pré-definida, visto que os animais eram abatidos ao atingirem 100 ou 110% do peso correspondente ao das fêmeas do mesmo grupo genético. Ao início do experimento, foram abatidos 12 animais-referência, três de cada grupo genético, com peso médio de 289,8 kg, que serviram para o estudo da composição corporal ao início do experimento. Todos os animais, exceto os animais-referência, foram abatidos com 480 a 510 kg de PV, de modo que a diferença no peso de abate dos animais foi atribuída à variação do peso dentro dos lotes de animais abatidos. De cada animal abatido, foram pesadas e coletadas amostras representativas dos órgãos, das vísceras e da carcaça. As  amostras de carne  (120 g),  gordura (200 g) vísceras (200 g)  e couro (100 g), depois de moídas, foram armazenadas em  vidros com capacidade de 250 mL e  mantidas em estufa a 105ºC durante 48 a 72 horas, para determinação da matéria seca gordurosa (MSG).  Em  seguida, foram submetidas a um processo de extração de gordura com éter de petróleo, conforme  descrito  por Kock & Preston  (1979), para obtenção da  matéria seca  pré-desengordurada  (MSPD). Posteriormente,  foram processadas em moinho de bola, para determinação dos teores de NDT, EE e CIN. As  amostras  de  sangue  (400 g) foram coletadas imediatamente após o abate, acondicionadas  em  pirex  e levadas à estufa de ventilação forçada (55ºC), durante  48 horas, para o cálculo dos teores de matéria pré-seca, sendo processadas em seguida em moinho de bola. As determinações de NDT foram feitas em aparelho semimicro kjedahl e as de EE, em aparelho soxhlet, conforme descrito por Silva & Queiroz (2002).

As carcaças foram pesadas no dia do abate, realizando-se no mesmo dia a coleta de amostra representativa da meia-carcaça esquerda, correspondente à secção da 9ª à 11ª costela, segundo metodologia proposta por Hankins & Howe (1946). A partir das proporções de músculo, tecido adiposo e ossos na seção HH, estimaram-se suas proporções na carcaça, por meio das equações descritas por Hankis & Howe (1946):

em que X é a porcentagem dos componentes na secção HH.

O peso de corpo vazio (PCV) dos animais foi determinado pelo somatório dos pesos de carcaça, sangue, cabeça, couro, pés, cauda, vísceras e órgãos. A relação entre o peso de corpo vazio (PCV) e o peso vivo dos animais-referência (abatidos no início do experimento) de cada grupo genético foi utilizada para estimativa do PCV inicial dos animais remanescentes dos diversos grupos genéticos. Os conteúdos corporais de EE e PB foram determinados considerando-se suas concentrações percentuais nos tecidos, nos órgãos, no couro, no sangue e na amostra representativa da carcaça (secção HH). Foram determinados nos tecidos corporais de cada animal os teores de MSG e água. A MSG foi tratada com éter de petróleo, a fim de se extrair parte da gordura e obter a matéria seca pré-desengordurada (MSPD). Subtraindo a MSPD da MSG, obteve-se a gordura extraída no pré-desengorduramento. A partir da  MSPD moída,  foram realizadas análises de PB, EE e CIN, conforme a técnica descrita por Silva & Queiroz (2002), possibilitando determinar a composição da matéria natural. A determinação dos conteúdos corporais de energia foi realizada pelo produto dos conteúdos corporais de proteína e gordura pelos seus respectivos equivalentes calóricos, conforme a equação proposta pelo ARC (1980).

em que CE = conteúdo de energia, em kg; X = proteína corporal, em kg; Y = gordura corporal, em kg.

Os conteúdos líquidos de energia, gordura e proteína retidos no corpo dos animais foram estimados por meio do ajuste de equações de regressão do conteúdo corporal de energia e proteína, em função do PCV, de acordo com a equação:

em que: Yijk = conteúdo total de energia (Mcal) ou proteína (kg) no corpo vazio do animal j, do grupo genético i, pertencente ao tratamento k; a = constante; b = coeficiente de regressão dos conteúdos de gordura, energia e proteína, em função do PCV; Xijk = peso de corpo vazio do animal j, do grupo genético i, do tratamento k; eijk = erro aleatório associado a cada observação.

O consumo de energia metabolizável de mantença (CEMm) foi estimado considerando-se o ponto de equilíbrio no qual a produção de calor (kcal/kg0,75/dia) foi igual ao CEM (kcal/kg0,75/dia), segundo metodologia utilizada por Garrett (1980). O consumo de matéria seca de mantença (CMSm), em g MS/kg0,75, foi estimado dividindo-se o CEMm pela concentração de energia metabolizável (kcal/kg MS) da ração de cada tratamento.

O teor de energia líquida de mantença (ELm) de cada tratamento foi obtido pela razão entre a PCj (kcal/kg0,75) pelo CEMm, expresso em (g MS/kg0,75). O CEM necessário para ganho foi obtido subtraindo-se o CEMt do CEMm. Por sua vez, a eficiência de utilização da EM para ganho de peso foi determinada pela razão entre a ELg e o CEMg.

O consumo de matéria seca para ganho (CMSg)consiste na diferença entre o consumo de matéria seca total (CMSt), g MS/kg0,75, e o CMSm, g MS/kg0,75, obtido para cada ração. A concentração de energia líquida de ganho da ração (ELg) correspondeu ao quociente entre a energia diária retida no ganho (ER), em kcal/kg0,75, e o consumo de matéria seca acima das necessidades de mantença, em g MS/kg0,75, conforme descrito por Garrett (1980).

A eficiência de utilização da energia para ganho (Kg) foi calculada pelo coeficiente de inclinação (b) da equação de regressão da energia retida (ER) sobre o CEM para ganho, conforme descrito por Ferrell & Jenkins (1998).

As comparações entre equações de regressão da ER em função do CEM para ganho nos diferentes grupos genéticos e níveis de concentrado na ração foram feitas pelos testes de identidade dos modelos de regressão linear propostos por Graybill (1976). Os dados foram analisados por meio de análises de regressão e variância, pelo programa computacional SAS (Statistical Analyses System, 1995), aplicando-se o teste F a 5% de probabilidade aos coeficientes de regressão.

As exigências de energia metabolizável para mantença e ganho de peso podem ser obtidas pela divisão das exigências líquidas de energia de mantença e ganho pelas respectivas Km e Kg. As exigências de energia digestível, por sua vez, foram determinadas multiplicando-se a EM pelo fator 0,82 e o NDT foi obtido pela divisão da EM por 4,409, segundo o NRC (1996).

 

Resultados e Discussão

As exigências diárias de energia líquida e metabolizável e de nutrientes digestíveis totais para ganho de peso (EMg e NDTg) e de energia metabolizável e NDT totais (EMt e NDTt) são apresentadas na Tabela 3.

Verificou-se aumento de 22,5% nas ELg para a faixa de peso estudada (300 a 500 kg) no experimento, o que representa uma variação de 46,5% em relação à descrita pelo NRC (1996). Esta elevação na ELg com o aumento do peso do animal está relacionada ao aumento no teor de gordura no ganho à medida que o animal se desenvolve. Os resultados verificados nesta pesquisa estão de acordo com os observados por Ferreira et al. (1999) e Veloso et al. (2002), que reportaram aumento na EM em função do peso do animal.

Constatou-se aumento nas exigências de EM para ganho e nas exigências de EM totais com a elevação do PCV (Figura 1), ao passo que as exigências de EM para ganho de peso e de EM totais, quando expressas por kg de PCV, decresceram com o acréscimo do PCV (Figura 2), o que pode ser explicado pela elevação na eficiência de utilização da energia para ganho de peso (Kg) com o aumento do PCV. Esse fato está associado à maior deposição de gordura no ganho com o acréscimo no PCV e à maior eficiência de utilização da EM para síntese de gordura que para síntese de proteína (Garrett, 1980).

 

 

 

 

Considerando um bovino de 400 kg de PV e ganho de 1 kg/dia, as exigências totais de EM obtidas neste estudo foram de 21,1 Mcal/dia, dentro do intervalo calculado nos trabalhos de Lana et al. (1992), Estrada et al. (1997), Ferreira et al. (1999), Paulino et al. (1999), Freitas et al. (2000), Veloso et al. (2002) e Silva et al. (2002), de 20,6 ± 3,1 Mcal/dia.

Neste estudo, a estimativa do conteúdo ELm e ELg das rações utilizadas com concentração estimada de EM, nos dois extremos, de 2,17 (ração com 30% de concentrado na MS) a 2,59 Mcal/kg de MS (ração com 70% de concentrado na MS), foram de 1,46 e 0,90 e de 1,74 e 1,08, respectivamente. A partir da fórmula proposta pelo NRC (1996), que estima as ELm e ELg em função da EM da ração, obtêm-se, para rações com a mesma concentração de EM utilizada neste estudo, os valores de 1,31 e 0,74 e de 1,69 e 1,07 para ELm e ELg, respectivamente. Para dieta com 2,6 Mcal/kg de EM, o NRC (1996) estima os valores de ELm e ELg em 1,69 e 1,07, respectivamente, bem próximos aos verificados neste estudo considerando a concentração de EM da dieta de 2,59 Mcal/kg de MS, que é semelhante à utilizada pelo NRC (1996). O valor de ELm (1,74 Mcal/kg de MS) foi aproximadamente 37% superior ao encontrado por Véras et al. (2000), de 1,27 Mcal/kg de MS, que verificaram valor de 0,56 para Km.

O valor estimado para Km neste estudo não variou com o grupo genético e a relação volumoso:concentrado, como observado por Ferrell & Jenkins (1998), que também não notaram variações para Km em função do grupo genético e do nível nutricional, cujo valor foi de 0,67. Valor de Km próximo aos obtidos neste estudo foi constatado também por Veloso et al. (2002), que registraram valor de 0,68. Silva et al. (2002), em experimento com bovinos Nelore, obtiveram valor de Km de 0,63, dentro da amplitude registrada neste estudo (0,63 a 0,73).

Os valores de CEMm e CEMg, CMSm e CMSg, concentração de ELm e ELg, bem como os valores de Km e Kg, em função dos tratamentos, são apresentados nas Tabelas de 5 a 7.

As variações no valor de Km podem estar relacionadas ao grupo genético (NRC 1996; Ferrell & Jenkins, (1998) e às características intrínsecas à dieta, como metabolizibilidade da ração (Coelho da Silva & Leão, 1979).

Segundo ARC (1980), o valor de Km pode variar de 0,71 a 0,79 e a metabolizabilidade da ração é um dos fatores responsáveis pela variação de Km.

O intervalo de variação de Km (0,53 e 0,61) verificado por Araújo et al. (1998) encontra-se abaixo do encontrado neste estudo, provavelmente porque os autores utilizaram animais mais jovens, enquanto os deste estudo apresentaram maior síntese e maior taxa de renovação protéica e, conseqüentemente, maiores gastos de energia com atividade de mantença, por unidade de massa.

Constam-se nas Tabelas 8 e 9 os parâmetros das equações de regressão linear entre a ER e o CEM, bem como os respectivos coeficientes de determinação, de acordo com os grupos genéticos e os níveis de concentrado na ração.

 

 

Pelo teste de identidade de modelos lineares (Graybill, 1976), verificou-se ausência de efeito significativo do grupo genético e da relação volumoso:concentrado sobre Kg, com estimativa pontual de Kg de 0,40 e para os limites inferior e superior de 0,36 e 0,44, respectivamente.

O intervalo de confiança para Kg neste estudo está dentro do intervalo de 0,29 a 0,63 registrado por Coelho da Silva & Leão (1979). Segundo o ARC (1980), essa variação pode estar relacionada à concentração de EM das dietas, conforme a fórmula: Kg = 0,30+ 0,81.qm, em que qm é a metabolizabilidade da ração. O valor de Kg apresenta maior variação que o de Km, que pode variar de acordo com a concentração de EM da dieta, segundo a fórmula: Km= 54,6 + 0,30.qm.

Os resultados obtidos neste estudo para Kg corroboram os preconizados pelo NRC (1984), de 0,30 a 0,47. Segundo esse conselho, parte das variações no valor de Kg pode ser atribuída às mudanças na concentração de EM da ração. Entretanto, não foram detectadas variações no valor de Kg em função da concentração de EM.

A não-variação do Kg conforme o grupo genético era esperada, visto que não houve variação na composição corporal e do ganho e nas exigências líquidas de energia entre os grupos utilizados.

A estimativa pontual de Kg registrada neste estudo foi superior às obtidas por Signoretti et al. (1999), que verificaram valores de 0,1 a 0,39. Esse comportamento pode, em parte, ser explicado pelo fato de que os animais apresentavam maior grau de maturidade fisiológica em relação aos utilizados por Signoretti et al. (1999) e, portanto, apresentavam maior eficiência de ganho, principalmente em razão da maior deposição de gordura no ganho de peso.

 

Conclusões

Bovinos Nelore, puros e cruzados, utilizam a energia para mantença e crescimento com mesma eficiência.

A redução nas exigências de EM para ganho, por unidade de PCV, em função do peso corporal, indica maior eficiência de utilização da EM com a elevação do peso.

 

Literatura Citada

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Recebido: 19/07/04
Aprovado: 10/10/05

 

 

Correspondências devem ser enviadas para: freitasjaf@ufpr.br
1 Parte da tese de Doutorado em Zootecnia apresentada à Universidade Federal de Viçosa pelo primeiro autor. Apoio: CAPES

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