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Revista Brasileira de Zootecnia

Print version ISSN 1516-3598On-line version ISSN 1806-9290

R. Bras. Zootec. vol.35 no.4 Viçosa July/Aug. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35982006000500018 

MONOGÁSTRICOS

 

Técnicas de avaliação dos valores energéticos e dos coeficientes de digestibilidade de alguns alimentos para emas (Rhea americana) em crescimento1

 

Techniques of evaluation of the energy values and the coefficients of digestibility of some feedstuffs for growing greater rhea (Rhea Americana)

 

 

Reinaldo Lopes MorataI; Théa Mirian Medeiros MachadoII; Luiz Fernando Teixeira AlbinoII; Horacio Santiago RostagnoII; Edenio DetmannII; Laura Teodoro de Oliveira FernandesIII; Henrique Nunes ParenteI; Karine Vieira AntunesI; Aline Conceição AlmeidaIV; Antônio Carlos Csermak JúniorV

IMestrando em Zootecnia - Universidade Federal de Viçosa
IIDepartamento de Zootecnia - Universidade Federal de Viçosa
IIIMédica Veterinária - CDA - CBMM, Araxá, MG
IVDoutoranda em Zootecnia - Universidade Federal de Viçosa
VGraduação em Zootecnia - Universidade Federal de Viçosa

 

 


RESUMO

Avaliaram-se os valores de energia metabolizável aparente e aparente corrigida (EMA e EMAn, respectivamente), os coeficientes de metabolização da energia bruta (CMEB e CMEBn) e da digestibilidade da MS e MO (CDAMS e CDAMO) de alguns alimentos para emas (Rhea americana) de sete meses de idade, utilizando-se as técnicas de coleta total de excretas e do óxido de cromo como indicador. Utilizou-se o delineamento experimental inteiramente ao acaso, em esquema de parcelas subdivididas, com seis tratamentos, cada um com três repetições. O experimento foi realizado três vezes, seqüencialmente. Os valores dos CDAMS, CDAMO, EMA, EMAn, CMEB e CMEBn dos alimentos, determinados por meio da técnica de coleta total de excretas, foram, de modo geral, superiores aos determinados pela técnica do óxido de cromo. A técnica do óxido de cromo mostrou-se inadequada para determinar os CDAMS, CDAMO, EMA, EMAn, CMEB e CMEBn dos alimentos para emas em comparação à técnica de coleta total de excretas. Recomenda-se a realização de ensaios similares envolvendo outras técnicas indiretas para estimar parâmetros de digestibilidade nesta espécie.

Palavras-chave: animais silvestres, coleta total, energia metabolizável, nutrição, óxido de cromo, Rhea americana


ABSTRACT

It was evaluated the values of apparent metabolizable and apparent corrected energy (AME and AMEn, respectively), the coefficients of metabolization of gross energy (MCEC and MCECn) and the digestibility of DM and OM (ADDMC and ADOMC) of some feedstuffs for greater rhea averaging seven months old, by the techniques of total feces collection and chromium oxide as external marker. The experiment was analyzed as a complete randomized design with six treatments and three replications per experiment. The experiment was carried out three times senquentially. The values of ADDMC, ADOMC, AME, AMEn, MCEC and MCECn of feedstuffs determined by total feces collection were greater than those determined with chromium oxide. The use of marker was not efficient to determine ADDMC, ADOMC, AME, AMEn, MCEC and MCECn of the feedstuffs for greater rhea when compared to total feces collection method. It is recommended more studies of indirect techniques to estimate the digestibility parameters in similar assays.

Key Words: chromium oxide, metabolizable energy, nutrition, Rhea Americana, total collection, wild animal


 

 

Introdução

Apesar da riqueza de espécies da fauna silvestre nativa, o Brasil sempre subutilizou sua diversidade biológica, embora tenha se destacado nas últimas décadas como um dos principais exportadores de alimentos. A maior parte dos sistemas produtivos do agronegócio do país baseia-se em espécies exóticas.

Face às políticas e aos instrumentos governamentais de conservação da biodiversidade, surgiu a exploração racional e sustentável de espécies de animais silvestres com potencial zootécnico, entre as quais se destacam as criações de capivara (Hydrochaeris hydrochaeris), cateto (Tayassu tajacu), queixada (Tayassu pecari), paca (Agouti paca), jacaré-do-papo-amarelo (Cayman latirostris), jacaré-do-pantanal (Caimam crocodilus yacare), pássaros ornamentais e ema (Rhea americana).

De acordo com dados disponibilizados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA, é significativo o aumento no número de registros de criadouros comerciais de ema desde a promulgação das portarias 117 e 118 em 1997. Esse aumento pode ser explicado pela perspectiva de boa rentabilidade, em virtude do potencial zootécnico e da rusticidade e pelo valor comercial da carne, do couro, das plumas, da gordura e dos ovos desta espécie. A criação comercial de ema é uma alternativa de diversificação e/ou integração de sistemas produtivos dentro da propriedade, respeitando-se os conceitos de produção economicamente viável, ecologicamente sustentável e socialmente justa (geração de empregos).

Para se obter sucesso na criação de emas, é importante que o criador conte com respaldo técnico-científico nas áreas de nutrição, reprodução, genética, sanidade, ambiência, etologia e manejo, denominados fatores produtivos, os quais fornecem subsídios para melhorar os desempenhos reprodutivo e produtivo dos sistemas de criação.

A formulação de dietas para emas baseia-se em conhecimentos empíricos e informações de pesquisas relacionadas a outras espécies. O seu desconhecimento pode ocasionar sub ou supernutrição dos animais, influenciando negativamente a eficiência produtiva e a rentabilidade do sistema.

O conhecimento da composição química dos alimentos, do seu conteúdo energético e da digestibilidade de cada nutriente possibilita aos nutricionistas formular dietas de custo mínimo para ótimo desempenho.

Considerando a escassez de informações sobre valores energéticos e de digestibilidade dos nutrientes nos alimentos utilizados em dietas para emas em crescimento, objetivou-se com este trabalho determinar e comparar os valores de EMA e EMAn e os coeficientes de metabolização da energia bruta e de digestibilidade aparente da MS e MO – obtidas pelas técnicas de coleta total de excretas e do óxido de cromo como indicador, simultaneamente – de três alimentos energéticos e dois protéicos comumente utilizados na indústria de ração animal.

 

Material e Métodos

Foram utilizadas 36 emas em fase de crescimento, em delineamento experimental inteiramente ao acaso, com seis tratamentos (cinco dietas experimentais e uma dieta referência), cada um com três repetições. O experimento foi conduzido em esquema de parcelas subdivididas, com os alimentos alocados às parcelas e as técnicas para estimação da excreção fecal (coleta total de excretas e uso do Cr2O3 como indicador) às subparcelas. Cada tratamento foi repetido três vezes, em intervalos de nove dias.

Os tratamentos consistiram de cinco alimentos e uma ração-referência. Os alimentos energéticos (milho, sorgo e farelo de trigo) substituíram 40% e os protéicos (farelo de soja e farinha de carne e ossos), 30% da ração-referência, segundo metodologia de substituição proposta por Matterson et al. (1965).

A ração-referência (Tabela 1) foi elaborada segundo as necessidades nutricionais adotadas por Saracura (1993), Sanchez et al. (1998) e Silva (2001). As composições químicas dos alimentos utilizados foram calculadas conforme recomendações de Rostagno et al. (2000).

 

 

Durante o período experimental, as emas receberam ração e água à vontade.

As 36 emas (18 machos e 18 fêmeas) foram doadas pelo Centro de Desenvolvimento Ambiental (CDA) da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), localizada no município de Araxá, Minas Gerais.

As aves nasceram entre os meses de setembro e outubro de 2003 e apresentavam, respectivamente, machos e fêmeas, peso corporal de 4,3 e 4,7 kg e seis meses de idade, em média, no início do experimento. No início e final de cada experimento, as emas foram identificadas, pesadas e, posteriormente, distribuídas aleatoriamente entre os tratamentos.

O ensaio de campo teve duração de 38 dias (29/03 a 05/05/2004), divididos em três experimentos. Os experimentos foram constituídos de cinco dias de adaptação às dietas, cinco de coleta de amostras de ração e excretas e quatro dias de transição entre as dietas. O terceiro experimento consistiu de cinco dias de adaptação às dietas e cinco de coleta.

Para evitar que as excretas fossem contaminadas por materiais estranhos, foi realizada toalete na região da cloaca dos animais.

As aves foram alojadas em um galpão (62 x10 m e pé-direito de 3,6 m) com piso de cimento, laterais teladas até o teto, cobertas por cortinas de plástico com sistema de roldanas para o seu manejo, cobertura de telhas de amianto com lanternim de 1,00 x 0,30 m. O galpão foi dividido em 20 baias, 18 experimentais (10 x 2,8 m), equipadas com campânula, bebedouro e comedouro. Em cada baia (unidade experimental), foram alojados um macho e uma fêmea.

 

 

Foram confeccionadas e utilizadas bolsas coletoras de plástico, adaptadas conforme metodologia de Swart et al. (1993) para avestruzes. No interior da bolsa coletora, foi acoplado saco plástico para facilitar a coleta total das excretas. À medida que os animais enchiam as bolsas com urina e/ou fezes, estas bolsas eram trocadas e os materiais eram pesados, identificados e armazenados sob refrigeração.

Ao término de cada experimento, foi determinada a quantidade de ração consumida por unidade experimental, durante os cinco dias de coleta em cada experimento.

Para a moagem, as excretas foram descongeladas e homogeneizadas por baia e por dia, efetuando-se a pré-secagem em estufas ventiladas a 65ºC. Alíquotas de 5 g de cada amostra/dia foram agrupadas para formar amostras compostas, as quais foram analisadas juntamente com os alimentos e as dietas, segundo metodologia descrita por Silva & Queiroz (2002).

Uma vez obtidos os resultados das análises laboratoriais dos alimentos, das dietas experimentais e das excretas, foram calculados os valores de EMA e EMAn, utilizando-se as equações propostas por Matterson et al. (1965).

Aplicou-se a análise de variância conjunta de experimentos (Pimentel Gomes, 2000), comparando-se as médias pelo teste de Student-Newman-Keuls (a = 0,05), por meio do SAS (1996).

 

Resultados e Discussão

Como a avaliação de alimentos para animais silvestres é uma linha de pesquisa relativamente recente e as informações sobre os valores energéticos e de digestibilidade dos nutrientes dos alimentos utilizados nas dietas para ratitas são escassos (não existem para emas), optou-se por comparar os valores estimados nesse trabalho aos determinados com avestruz, codornas e, especialmente, com frangos, pois as dietas para emas são formuladas com os valores estimados para frangos.

Os coeficientes de digestibilidade da matéria seca dos alimentos (milho, sorgo, farelo de trigo, farelo de soja e farinha de carne e ossos) obtidos pelas técnicas avaliadas encontram-se na Tabela 2.

Não houve efeito da interação técnica de coleta de excretas ´ alimento avaliado (P>0,05) para as variáveis CDAMS, CDAMO, EMAn, CMEB e CMEBn, porém, observou-se efeito (P<0,05) da interação técnica ´ alimento sobre a EMA.

Os coeficientes de digestibilidade aparente da matéria seca (CDAMS) dos alimentos diferiram estatisticamente (P<0,05) entre as metodologias adotadas. O valor médio obtido pela técnica de coleta total de excretas foi 11,42% superior em relação ao determinado com uso de indicador.

Ao comparar os CDAMS dos alimentos, observa-se que o sorgo apresentou o maior valor, porém, estatisticamente igual ao determinado para o milho e ambos maiores e estatisticamente diferentes do estimado para o farelo de trigo. Essa diferença pode ser explicada pela maior porcentagem de FDN e FDA no farelo de trigo, que geralmente apresenta baixa digestibilidade. A farinha de carne e ossos (FCO) resultou no menor CDAMS, o que poderia ser explicado pela maior quantidade de cinzas na farinha de carne e ossos.

O CDAMS determinado para o milho pela técnica de coleta total neste trabalho foi 17,37; 24,90 e 23,97% inferior aos valores encontrados por Albino et al. (1981), Coelho (1983) e Veloso et al. (1985) para frangos de corte e 16,51% ao valor encontrado por Cilliers et al. (1997).

O CDAMS encontrado para o sorgo foi semelhante aos determinados por Albino et al. (1981) e Coelho (1983), porém foi 13,33% inferior ao apresentado por Veloso et al. (1985).

O CDAMS do farelo de trigo foi 33,74% superior aos valores encontrados na literatura para frangos de corte (Albino et al., 1981), 21,04% (Veloso et al., 1985), 23,03% (Borges et al., 2003).

Ao comparar os CDAMS determinados pela técnica de coleta total, observou-se que o valor encontrado para o farelo de soja foi 49,74; 45,00; 50,70 e 35,08% superior aos encontrados, respectivamente, por Albino et al. (1981), Coelho (1983), Veloso et al. (1987) e Soares et al. (2005), em frango de corte.

O valor de CDAMS da farinha de carne e ossos foi 29,67% maior que os determinados por Albino et al. (1981) e Coelho (1983) e 42,05% superior ao determinado por Veloso et al. (1987).

Os coeficientes médios de digestibilidade aparente médio da matéria orgânica (CDAMO) dos alimentos foram diferentes estatisticamente (P<0,05) entre as metodologias adotadas (Tabela 3). O coeficiente médio obtido pela técnica de coleta total de excretas foi 8,54% superior ao determinado com uso de indicador.

O sorgo apresentou o maior CDAMO, porém o valor foi estatisticamente igual ao determinado para o milho e ambos maiores e estatisticamente diferentes do estimado para o farelo de trigo.

Os valores referentes à EMA e EMAn, expressos com base na matéria natural dos alimentos avaliados encontram-se, respectivamente, nas Tabelas 4 e 5.

Houve diferença significativa (P<0,05) entre os valores médios de EMA do sorgo, farelo de trigo e farelo de soja obtidos pelas diferentes metodologias. As médias da EMA obtidas pela técnica de coleta total foram 13,07% superiores para o sorgo, 16,05% para o farelo de trigo e 12,04% para o farelo de soja quando comparadas aos estimados com o uso de indicador. Entretanto, as médias da EMA do milho e da farinha de carne e ossos não diferiram (P>0,05) entre as técnicas utilizadas.

O valor de EMA do milho pela técnica de coleta total foi semelhante aos estimados com frangos por Albino et al. (1981), Rodrigues et al. (2001), Silva et al. (2003), D'Agostini et al. (2004) e Nagata et al. (2004), porém foi 6,22% menor que os estimados por Coelho (1983), Veloso et al. (1985) e Albino et al. (1992), também com frangos e 8,43% que o determinado por Cilliers et al. (1997). Entretanto, foi 18,33% superior ao determinado por Torres (2003), em codornas. O valor de EMAn, no entanto, foi 2,92% superior aos reportados por Rodrigues et al. (2001), 13,39% maior que os estimados por Torres (2003), 4,83 e 7,96% menor que os determinados em avestruzes (Cilliers et al., 1994, 1997, respectivamente), 4,39% (em média) menor que os estimados com frangos (Coelho, 1983; Veloso et al., 1985; Embrapa, 1991; NRC, 1994; Rostagno et al., 2001) e 2,47% menor que os obtidos com codornas (Silva et al., 2003). Foi semelhante, porém, aos encontrados por Albino et al. (1992), D'Agostini et al. (2004), Blas et al. (2003) e Nagata et al. (2004), em frangos.

Para o sorgo, o valor de EMA encontrado foi 15,13; 2,78 e 5,73% superior aos determinados com frangos, respectivamente, por Albino et al. (1981), Veloso et al. (1985) e Nagata et al. (2004). Para a EMAn, observou-se semelhança em relação aos valores apresentados por Coelho (1983) e superioridade de 3,94%, em média, aos estimados para frangos (Veloso et al., 1985; Embrapa, 1991; NRC, 1994; Rostagno et al., 2000; Blas et al., 2003; Nagata et al., 2004).

A EMA do farelo de trigo foi, em média, 26,92% maior que os determinados com frangos (Veloso et al., 1985; Albino et al., 1992; Borges et al., 2003) e 30,25% superior à estimada com codornas (Silva et al., 2003; Torres, 2003). Do mesmo modo, o valor de EMAn foi 28,96% superior aos mencionados por Veloso et al. (1985), pela Embrapa (1991), por Albino et al. (1992), Rostagno et al. (2000) e Borges et al. (2003) e 24,69% maior que os descritos por Silva et al.(2003) e Torres (2003). Entretanto, foi 18,67% menor que o reportado por Blas et al. (2003) e 8,27% inferior ao obtido por Cilliers et al (1999), em avestruzes.

O valor de EMA do farelo de soja determinado pela técnica da coleta total foi 33,83% maior que os determinados para frango (Coelho, 1983; Veloso et al., 1987; Albino et al., 1992; Rodrigues et al., 2002) e 25,78% superior aos estimados com codornas (Silva et al., 2003; Torres, 2003). O valor de EMAn também foi 31,07% superior aos encontrados para frangos (Coelho, 1983; Veloso et al., 1987; Embrapa, 1991; Albino et al., 1992; Rostagno et al., 2000; Rodrigues et al., 2002; Blas et al., 2003; Zonta et al., 2004; Soares et al., 2005) e 27,48% maior que os estimados com codornas (Silva et al., 2003; Torres, 2003), porém foi 13,62% inferior ao determinado com avestruz (Cilliers, 1995).

Comparando os valores obtidos pela metodologia da coleta total, observa-se que a EMA e a EMAn da farinha de carne e ossos foram 37,23 e 35,19% maiores, respectivamente, que os apresentados para frangos (Coelho, 1983; Veloso et al., 1987; Albino et al., 1992; Sartorelli, 1998; Brugalli et al., 1999) e 52,91 e 43,29% superiores aos determinados com codornas (Torres, 2003). Entretanto, foram semelhantes aos encontrados por Soares et al. (2005). Essa variação entre os resultados pode ser atribuída às diferenças no teor de PB e MM nas diferentes farinhas de carne e ossos.

A média da EMA foi 4,48% maior em relação à de EMAn dentro da metodologia de coleta total, corroborando a afirmação de Leeson & Summers (2001) de que os valores de EM, quando corrigidos pelo balanço de nitrogênio, tendem a ser sempre menores, desde que as aves apresentem balanço de nitrogênio positivo, ou seja, estejam em crescimento, o que provavelmente explica os valores encontrados nesse trabalho. Do mesmo modo, observou-se superioridade de 5,46% na média da EMA em relação à EMAn pela técnica do indicador.

As médias dos CMEB (Tabela 6) e CMEBn (Tabela 7) diferiram estatisticamente (P<0,05) entre as metodologias adotadas e os alimentos avaliados. Os valores encontrados pela técnica de coleta total foram 19,77 e 20,07% (CMEB e CMEBn, respectivamente) maiores que os determinados com o uso do indicador. Entre os alimentos avaliados, notam-se maiores coeficientes para a farinha de carne e ossos, milho e o sorgo, que não diferiram (P>0,05) entre si, porém ambos foram maiores (P<0,05) quando comparados aos coeficientes do farelo de trigo. Essa diferença pode ser atribuída à maior porcentagem de FDN e FDA no trigo (em relação ao milho e ao sorgo) e à menor eficiência de metabolização da EB, visto que essas frações da FB, normalmente, apresentam baixa digestibilidade.

Segundo Lima (2001), o trigo contém inibidores de a-amilase ainda não totalmente identificados, mas sabe-se que são proteínas encontradas principalmente no amido. As pentosanas solúveis do trigo apresentam efeito negativo sobre a digestibilidade do amido, da proteína e dos lipídeos nas dietas de aves (Choct et al., 1992) e, conseqüentemente, também afetam a metabolização da energia do trigo, o que explicaria os mais baixos coeficientes de metabolização da EB neste alimento.

Os CMEB e CMEBn do milho determinados pela técnica de coleta total foram semelhantes aos valores encontrados por Albino et al. (1981, 1992) e Rodrigues et al. (2001), entretanto o CMEBn foi menor que os encontrados por Coelho (1983), pela Embrapa (1991), por Rostagno et al. (2000) e Torres (2003) e superior ao CMEB determinado por Torres (2003) e D'Agostini et al. (2004).

No sorgo, o CMEB foi superior aos valores encontrados para frangos (Albino et al., 1981; Coelho, 1983; Nagata et al., 2004), do mesmo modo que o CMEBn foi maior que os obtidos por Albino et al. (1981), Coelho (1983), pela Embrapa (1991), por Rostagno et al. (2000) e Nagata et al. (2004).

O coeficiente de metabolização da energia bruta do farelo de trigo foi maior que os estimados em frangos (Albino et al., 1992; Borges et al., 2003), porém inferior ao determinado em codornas por Torres (2003). Valores inferiores foram obtidos por Albino et al. (1981), pela Embrapa (1991), por Albino et al. (1992), Rostagno et al. (2000) e Borges et al. (2003) e superiores ao descrito por Torres (2003) para o CMEBn.

Os valores obtidos pela técnica de coleta total para o farelo de soja foram superiores aos encontrados na literatura para frangos (Coelho, 1983; Veloso et al., 1987; Albino, 1981; Rodrigues, 2002; Soares, 2004; Zonta, 2004) e codorna (Torres 2003). Os coeficientes calculados para a farinha de carne e ossos também foram superiores aos apresentados para frangos (Albino et al., 1981; Coelho, 1983; Veloso et al., 1987; Albino et al., 1992; Brugalli, 1998; Sartorelli, 1998; Soares et al., 2005) e codornas (Torres, 2003).

Considerando os resultados obtidos, pode-se inferir que a metabolização da energia e a digestibilidade dos nutrientes são diferentes entre espécies (frango, codorna e avestruz) e variam conforme o alimento utilizado, principalmente quando os alimentos contêm altos teores de FDN e FDA, como o farelo de trigo e o farelo de soja. Torna-se evidente, portanto, que o uso de valores de EMAn normalmente utilizados para formulação de dietas para frangos subestima a utilização desta energia pelas emas.

 

Conclusões

A técnica de uso do indicador óxido de cromo mostrou-se inadequada para determinar os CDAMS, CDAMO, EMA, EMAn, CMEB e CMEBn dos alimentos para emas, por apresentar valores inferiores aos obtidos pela técnica de coleta total de excretas.

Novos ensaios devem ser conduzidos para determinação das técnicas mais adequadas para estimativa dos valores energéticos e dos coeficientes de digestibilidade.

 

Literatura Citada

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Recebido: 10/05/05
Aprovado: 23/01/06

 

 

Correspondências devem ser enviadas para: rlmorata@uol.com.br
1 Parte da tese de Mestrado do primeiro autor apresentada à Universidade Federal de Viçosa.

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