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Revista Brasileira de Zootecnia

versão impressa ISSN 1516-3598versão On-line ISSN 1806-9290

R. Bras. Zootec. v.35 n.4 supl.0 Viçosa jul./ago. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35982006000600017 

MONOGÁSTRICOS

 

Digestibilidade, cecotrofia, desempenho e rendimento de carcaça de coelhos em crescimento alimentados com rações contendo óleo vegetal ou gordura animal1

 

Effects of feeding increasing levels of vegetable oil or animal fat on digestibility, cecotrophy, performance and carcass yield of growing rabbits

 

 

Vanusa Patrícia de Araújo FerreiraI; Walter Motta FerreiraII; Eloísa de Oliveira Simões SalibaII; Cláudio ScapinelloIII; Alexandre de Oliveira TeixeiraIV; Elis Bernard KamwaV

IFEAD - Minas, Rua Cláudio Manoel, 1162 - Funcionários, Belo Horizonte - MG - CEP: 30140-100
IIEscola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (EV/UFMG), Av. Presidente Antônio Carlos, 6627, CEP: 30.161-970
IIIDepartamento de Zootecnia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) - Maringá - PR
IVBunge Fertilizantes, Chapecó - PR
VUFPR

 

 


RESUMO

Dois experimentos foram conduzidos com o objetivo de avaliar o efeito da inclusão de níveis crescentes (1,5; 3,0; 4,5 e 6,0%) de óleo de soja (OS) ou gordura animal (gordura de porco - GA) nas dietas sobre a digestibilidade aparente dos nutrientes e o desempenho de coelhos em crescimento. No ensaio de digestibilidade, foram utilizados 72 coelhos da raça NZB, distribuídos em um delineamento inteiramente casualizado, com nove tratamentos e oito repetições. A adição de diferentes níveis de OS ou GA às dietas não influenciou os coeficientes de digestibilidade de MS, MO, PB e EB e a ingestão de MS, mas provocou efeito positivo sobre a digestibilidade do EE e da FDN. Não foi observado efeito da inclusão de OS ou GA sobre a contribuição nutritiva de cecotrofos ou sobre a MS e PB, mas a inclusão de 3 e 6% de GA aumentou a contribuição nutritiva do EE. No experimento de desempenho, foram utilizados 45 coelhos NZB distribuídos em um delineamento inteiramente casualizado, com nove tratamentos e cinco repetições. Os animais foram alojados logo após o desmame em gaiolas individuais, onde foram controlados o consumo de ração e o ganho de peso até os 77 dias de idade. Os tratamentos não afetaram significativamente o peso final, o ganho de peso diário, a conversão alimentar, os pesos de carcaça, pele, rins e intestino, mas influenciaram negativamente o consumo médio diário e os pesos de fígado e coração.

Palavras-chave: gordura animal, órgãos digestivos, óleo de soja


ABSTRACT

Two assays were conducted to evaluate the effects of feeding increasing dietary levels (1.5, 3.0, 4.5, and 6%) of soybean oil (SO) or animal fat (pork lard - AF) on nutrient apparent digestibility and performance for growing rabbits. In the digestibility assay, 72 NZB rabbits were assigned to a completely randomized design with nine treatments and eight replicates. No treatment effect on the coefficients of digestibility of DM, OM, CP GE or the DM ingestion was observed, however it was observed positive effect on EE and NDF digestibilities. No effect of increasing dietary levels of SO or AF on cecotrophe nutritional contribution or DM and CP was observed, but the addition of 3 and 6% AF increased EE nutritional contribution. In the performance assay, 45 rabbits NZB were assigned to a completely randomized design with nine treatments and five replicates. The animals were individually caged immediately after weaning, where feed intake and weight gain were controlled up to 77 days old. No significant treatment effect on final weight, daily weight gain, feed: gain ratio and weights of carcass, leather, kidneys or intestine was observed. It was observed negative effect on daily feed intake and weights of liver and heart.

Key words: animal fat, digestive organs, soybean oil


 

 

Introdução

Vários estudos têm demonstrado claramente que a energia contida na dieta é o fator mais significativo no controle do consumo em coelhos (Lebas, 1989). Os coelhos tentam ajustar seu consumo voluntário de alimento em resposta à concentração energética da ração, interferindo diretamente no desempenho do animal tanto na fase de crescimento como na de reprodução (Pascual et al., 1999; Fortun-Lamothe, 1997; Pérez et al., 1996; Xiccato, 1996; Xiccato et al., 1995; Fernandez et al., 1994).

Considerando os níveis elevados de fibra normalmente utilizados nas dietas para coelhos, pode-se afirmar que as concentrações energéticas dessas dietas são muito baixas (De Blas et al., 1999). Um recurso para elevar o nível energético da dieta é a adição de gorduras ou óleos, que, em virtude de suas propriedades, apresentam também importante papel no fornecimento de ácidos graxos essenciais, no suprimento e na absorção de vitaminas lipossolúveis, possibilitando manter níveis aceitáveis na porcentagem de fibra indigestível e na diminuição da pulverulência da ração durante e após seu processo de fabricação. Seu efeito lubrificante reduz ainda os gastos com manutenção de máquinas e, em determinados níveis, incrementa a qualidade do grânulo (pélete) e melhora a palatabilidade da ração. Além dessas propriedades, Manzano et al. (1995) afirmaram também que as gorduras promovem economia de calorias, em virtude da menor perda no processo de digestão e no metabolismo, resultando em maior disponibilidade energética aos processos produtivos.

Por outro lado, um aumento indiscriminado na concentração de energia da dieta pode resultar em mudanças marcantes no consumo de ração, na conversão alimentar, na composição da carcaça e na qualidade do pélete produzido (Maertens, 1998).

De modo geral, pode-se adicionar em torno de 5% de óleo vegetal ou GA às rações de animais não-ruminantes. No entanto, a eficácia de sua utilização depende da natureza química e da digestibilidade, que são afetadas por características e interações físico-químicas, pelo comprimento e pelo grau de saturação da cadeia de ácidos graxos (Fernández-Carmona et al., 2000).

A inclusão de gordura em dietas para coelhos em crescimento parece ter efeito positivo sobre os resultados zootécnicos, favorecendo o ganho de peso e melhorando o consumo de alimento. Entretanto, é possível que estes efeitos variem com o tipo de gordura utilizado, visto que alguns resultados em outras espécies indicam diferenças conforme a natureza dos lipídios incorporados. O uso de gordura animal ou de óleo vegetal não parece ter efeito representativo durante o crescimento. Embora em alguns estudos, tenham sido observados altos ganhos de peso, as conclusões não são exclusivamente atribuídas ao nível de lipídios. Em outros trabalhos, altos e baixos consumos de ração resultaram, respectivamente, em maior e menor crescimento quando comparados à dieta controle (Chaabane et al., 1997; Falcão & Cunha et al., 1996).

Normalmente, as gorduras utilizadas na alimentação de coelhos são o sebo de boi, a gordura de porco e a gordura de aves. Todavia, vários experimentos têm sido realizados utilizando-se óleos, provavelmente em virtude de sua maior padronização e acessibilidade e melhor utilização em comparação às gorduras (Cheeke, 1995).

Não há evidências de que coelhos toleram ou aceitam melhor óleos em relação às gorduras (Santomá et al., 1993; Fernandez & Fraga, 1996; Cervera et al., 1997). Entretanto, o uso de alguns subprodutos da indústria refinadora de óleo, como as oleínas, tem promovido redução no consumo de alimento (Fernandez & Fraga, 1996). Cheeke (1995) observou melhoria nos índices de conversão alimentar e no ganho de peso diário com a adição de gordura, mas outros autores constataram melhora na conversão alimentar e nenhum efeito negativo sobre o ganho de peso com adição de gordura à dieta.

Desta forma, o conhecimento aprofundado do valor nutricional de óleos vegetais e de gorduras animais e sua utilização digestiva por coelhos é fundamental para a suplementação alimentar nesta espécie.

Objetivou-se com este trabalho avaliar o efeito da inclusão de diferentes níveis de óleo de soja e gordura animal em dietas para coelhos em crescimento sobre os coeficientes de digestibilidade aparente dos nutrientes, a contribuição nutritiva dos cecotrofos e o desempenho dos animais.

 

Material e Métodos

O experimento foi realizado nas dependências do Departamento de Zootecnia da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Para determinação da digestibilidade fecal aparente dos nutrientes das dietas experimentais, foram utilizados 72 coelhos da raça Nova Zelândia Branco (NZB), com 49 dias de idade (1,0 ± 0,10 kg PV) e desmamados aos 35 dias de idade, distribuídos em um delineamento inteiramente casualizado, em esquema fatorial, com duas fontes de gordura (óleo de soja e gordura animal), quatro níveis (1,5; 3,0; 4,5 e 6,0%) e uma dieta-referência, com oito repetições.

Os animais, metade macho e metade fêmeas, foram alojados individualmente, ao acaso, em gaiolas para estudos de metabolismo equipadas com bebedouro automático (tipo chupeta) e comedouro semi-automático dividido ao meio por um separador para impedir o desperdício de ração (fornecida à vontade). Na parte superior das bandejas de coleta, foram adaptadas telas de náilon para retenção das fezes. As gaiolas foram instaladas em ambiente controlado com temperatura entre 18 e 22ºC.

Os tratamentos constaram de dietas experimentais (Tabela 1) formuladas para atender às exigências nutricionais de coelhos em crescimento, conforme descrito por de De Blas & Mateos (1998), adicionadas de níveis crescentes (1,5; 3,0; 4,5 e 6,0%) de óleo de soja (OS) ou de níveis crescentes (1,5; 3,0; 4,5 e 6,0%) de gordura animal (GA -gordura de porco) e de uma dieta-referência (DR), sem a adição de óleo de soja ou gordura animal. Todos os ingredientes utilizados possuíam granulometria de ± 0,6 mm e foram peletizados (péletes de 12 a 15 mm de comprimento por 4 a 5 mm de diâmetro) em peletizadora de pressão sem injeção de vapor.

 

 

O experimento consistiu de um período de sete dias de adaptação às condições experimentais e mais quatro para coleta total de fezes e controle do consumo. Os animais foram pesados no início e ao final do período experimental, efetuando-se a coleta de amostras das dietas. Os procedimentos de campo, de preparo das amostras de fezes e alimentos e os cálculos dos valores de digestibilidade utilizados foram descritos por Perez et al. (1995), Xiccato et al. (1996) e EGRAN (1999).

As fezes foram colhidas diariamente de cada repetição e acondicionadas em sacos plásticos devidamente identificados, os quais foram fechados e armazenados em freezer (-18ºC) para posteriores análises químicas. Após o período de coleta, as amostras foram descongeladas em temperatura ambiente (aproximadamente 12 horas), sendo homogeneizadas, colocadas em bandejas de alumínio, pesadas em balança analítica e mantidas em estufa de ventilação forçada a 65ºC, por 72 horas. Depois de retiradas da estufa, atingindo o equilíbrio com a temperatura ambiente, as amostras de fezes duras foram submetidas às análises químicas com prévia hidrólise ácida, para determinação dos teores de MS, cinzas, PB, MO, FDN, EB e EE, de acordo com metodologia descrita por Silva (1990).

Após as análises químicas, foram calculados os coeficientes de digestibilidade aparente de MS (CDMS), MO (CDMO), PB (CDPB), FDN (CDFDN) e EB (CDEB), de acordo com a fórmula de Schneider & Flatt (1975).

Ao final do ensaio de digestibilidade aparente, foi avaliada a produção de cecotrofos durante 24 horas, no intuito de se conhecer a produção total de cecotrofos (fezes moles) e sua contribuição nutricional para o animal alimentado com as diferentes dietas estudadas. Com o objetivo de se evitar a cecotrofia, cada animal recebeu um colar circular de madeira leve, medindo 25 cm de diâmetro, com um orifício central de 7 cm de diâmetro. Durante esse período, o consumo de ração foi controlado e os cecotrofos coletados de 4 em 4 horas.

Os cecotrofos de cada animal correspondentes ao período de coleta foram acondicionados em sacos plásticos hermeticamente fechados e congelados a -18ºC para posterior determinação das concentrações de MS, PB, cinzas e EE, de acordo com os métodos descritos pelo AOAC (1990) e com os critérios estabelecidos pelo EGRAN (1999). Após o armazenamento, os cecotrofos foram descongelados à temperatura ambiente e homogeneizados. Uma alíquota de 55% das amostras diárias foi mantida em estufa de ventilação forçada a 65ºC durante 72 horas e, em seguida, foi conservada em estufa, permanecendo à temperatura e umidade ambiente durante 2 horas para pesagem e determinação da matéria pré-seca. Seqüencialmente, foi processada em moinho Thomas Willey com peneira de 1,0 mm e os pêlos removidos. O material foi armazenado em frascos para posterior análise dos teores de MS, PB e EE, com prévia hidrólise ácida.

A partir dos valores de composição química dos cecotrofos e da respectiva quantidade diária produzida, foi calculado o valor de contribuição de cada princípio nutritivo (MS, PB e EE) em relação ao consumo médio de ração desses mesmos princípios nutritivos em cada uma das nove dietas experimentais, utilizando-se as seguintes fórmulas (Carabaño et al., 1989).

em que: CCMS = contribuição nutritiva dos cecotrofos em MS; CCPB = contribuição nutritiva dos cecotrofos em PB; CCEE = contribuição nutritiva dos cecotrofos em EE; A = excreção de fezes moles (gMS/dia); B = média de ingestão de alimentos durante o período pré-experimental (gMS/dia); C = PB excretada nas fezes moles (g/dia); D = PB ingerida no alimento (g/dia); E = EE excretado nas fezes moles (g/dia); F = EE ingerido no alimento (g/dia).

O ensaio de desempenho foi conduzido nas instalações do Setor de Cunicultura da Fazenda Experimental Prof. Hélio Barbosa, da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Foram utilizados 45 coelhos da raça Nova Zelândia Branco (cinco animais por tratamento), de ambos os sexos, com 35 dias de idade, alojados em gaiolas individuais de arame galvanizado (0,60 × 0,60 × 0,37 m), dispostas em galpão de alvenaria semi-aberto, providas de bebedouro e comedouro, permitindo-se livre acesso ao alimento e à água até os 77 dias de idade. Utilizou-se o mesmo esquema experimental apresentado para a digestibilidade aparente, porém com cinco repetições.

Os efeitos dos tratamentos (Tabela 1) foram avaliados sobre o ganho de peso, o consumo de ração e a conversão alimentar desde a desmama (35 dias de idade) até o abate (77 dias de idade). Todos os animais foram pesados ao serem alojados nas gaiolas, no início do experimento e a cada semana. Os ganhos médios de peso foram obtidos pela diferença entre os pesos médios ao final de cada período considerado e o peso médio anterior. O consumo de ração foi medido semanalmente por meio da diferença entre a ração fornecida durante o período e as sobras ao final de cada semana. O consumo médio diário foi calculado em seguida.

O desempenho e a mortalidade foram monitorados semanalmente até os 77 dias de idade, quando se procedeu ao abate. Os animais foram abatidos com pancada na base do crânio (Gidenne & Lebas, 1984), suspensos pelas patas posteriores e sangrados por corte da veia jugular. Imediatamente após a retirada da pele, da cabeça, dos membros e da cauda, os animais foram eviscerados. Foram reservados coração, fígado, rins e intestinos da carcaça quente para cálculo de seus respectivos pesos e do rendimento de carcaça.

Os dados experimentais de digestibilidade e desempenho foram submetidos à análise de variância. Utilizou-se o software estatístico SAS® (SAS, 1996), sendo as médias das fontes de gordura comparadas pelo teste SNK e os níveis submetidos à análise de regressão.

Yij = µ + s + bj + (sb)ij + Eij; i = 1,2 j = 1, 2, 3, 4

em que Yij = observação relativa a i-ésima fonte de gordura e j-ésimo nível; µ = média geral; s = efeito da i-ésima fonte de gordura; bj = efeito do j-ésimo nível. (sb)ij = efeito da interação i-ésima fonte de gordura × j-ésimo nível; Eij = erro aleatório associado a cada observação, pressuposto independente e normalmente distribuído com média µ e variância s2.

 

Resultados e Discussão

Mediante a análise de variância, constatou-se que não houve efeito significativo da interação fontes de energia × níveis utilizados nas dietas experimentais sobre os CDMS, CDMO, CDPB, CDEB e sobre a ingestão de matéria seca (Tabela 2).

A adição de diferentes níveis de OS e GA às dietas não influenciou os CDMS, CDMO, CDPB, CDEB e a ingestão de MS. Resultados semelhantes foram encontrados por Moretti (2002), que adicionou 3% de óleo de soja, canola e milho em dietas para coelhos em crescimento e não observou melhoria em nenhum coeficiente de digestibilidade dos nutrientes das dietas.

De Blas et al. (1995) avaliando a substituição do amido por gordura animal e fibra em dietas isoenergéticas, obtiveram melhores CDFDN, CDEB e CDMS e piores resultados para os coeficientes de digestibilidade do amido e da proteína.

Diversos autores têm demonstrado que o nível de gordura da dieta não afeta a digestibilidade da PB (De Blas et al., 1995; Fernández-Carmona et al., 1998), mas isto pode ser explicado por mudanças na origem da proteína (como a proporção de proteína da forragem), como sugerido por Santomá et al. (1987).

Pelas médias dos CDEE e CDFDN das dietas formuladas com diferentes níveis de OS ou GA (Tabelas 3 e 4), observa-se que houve interação significativa fontes × níveis de gordura.

 

 

 

 

O CDEE foi maior (P<0,05) com o acréscimo de 6,0% de OS ou GA, como pode ser verificado nas equações de regressão 1 e 2. A melhora na utilização digestiva dos nutrientes da dieta é mais evidente quando utilizados níveis superiores a 3% de óleos ou gorduras (Falcão e Cunha et al., 1998; Falcão e Cunha et al., 2000), como observado neste experimento para os CDEE, que foram maiores quando adicionados 6,0% de OS ou 6,0% de GA.

As equações de regressão obtidas neste trabalho para a predição da digestibilidade do EE das dietas foram:

Y = 39,49 + 16,39x 1,53x2 R2 = 72,17% (Equação 1 )

em que: Y = CDEEdieta; X = porcentagem de gordura animal da dieta;

Y = 70,58 + 0,12x + 0,40x2 R2 = 84,08% (Equação 2)

em que: Y = CDEEdieta; X = porcentagem de óleo de soja da dieta.

A partir das regressões de maximização de digestibilidade do EE, observa-se que houve maior digestibilidade quando incluídos 6% de GA ou de OS nas dietas.

De acordo com alguns autores (Cheeke, 1995; Lopes et al., 1997; Xiccato, 1996), o aumento na digestibilidade do EE das dietas com altos níveis de óleo é acompanhado pela redução na ingestão de MS, que normalmente ocorre quando uma dieta altamente energética é oferecida, como conseqüência da regulação quimiostática do apetite. Entretanto, isso não ocorreu neste trabalho, pois não houve efeito da adição de gordura às dietas na ingestão de MS, como conseqüência da preocupação em se manter níveis muito próximos de ED entre as dietas.

Houve efeito (Tabela 4) da adição de diferentes tipos e níveis de gordura (P<0,05) sobre o CDFDN quando se utilizou o nível 3%, observando-se maior e menor digestibilidade para OS e GA, respectivamente. Esta diferença também pôde ser observada para CDEE (Tabela 3), porém no nível 1,5%. Segundo Maertens (1998), no entanto, não há evidências de que haja diferença entre o uso de gordura animal e óleos vegetais na utilização digestiva dos nutrientes da dieta.

Não houve efeito interação significativa entre os tipos e os níveis de gordura utilizados nas dietas experimentais sobre a CCMS e CCPB (Tabela 2). Também não houve efeito da inclusão de diferentes níveis de OS e GA sobre a CCMS, porém, os valores aproximaram-se dos encontrados por Ferreira (1990), Fraga et al. (1991) e Santiago (2001).

A quantidade ou a fonte de gordura adicionada às dietas não afetou (P>0,05) a CCPB, mas os valores obtidos aproximaram-se dos observados por Ferreira (1990) e Gomes (1996), que encontraram contribuições dos cecotrofos em relação ao consumo de PB de 28 e 23%, respectivamente.

Na Tabela 5, nota-se que houve efeito significativo (P>0,05) do tipo de gordura, pois os níveis de 3,0 e 6,0% de GA otimizaram (P<0,05) a CCEE em comparação à inclusão desses mesmos níveis de OS.

 

 

A interação níveis × fontes de gordura não influenciou o desempenho produtivo e o rendimento de carcaça (Tabela 6). A utilização de diferentes níveis de gordura, independentemente das fontes, não alterou (P>0,05) o peso final, o ganho de peso diário, a conversão alimentar e os pesos de carcaça, pele, rins e intestino. Resultados semelhantes foram encontrados por Falcão e Cunha et al. (2000), que, trabalhando com níveis de 0,0 a 3,5% de óleo de soja e sebo em dietas para coelhos em crescimento, não encontraram efeito significativo sobre o peso final, o ganho de peso diário e a conversão alimentar.

Houve efeito (P<0,05) negativo, no entanto, sobre o consumo médio diário e os pesos de fígado e coração. Desta forma, a influência positiva da inclusão da gordura sobre o rendimento de carcaça referido por Raimondi et al. (1974) não foi observada neste trabalho. A gordura da carcaça depende, em grande parte, da quantidade de gordura e energia contida na dieta. Quando a adição de gordura resulta em decréscimo da relação energia/proteína, ocorre decréscimo no nível de gordura da carcaça (Fernandez e Fraga, 1996;). Entretanto, segundo (Dalle Zotte et al., 1997; Xiccato et al., 1998), o aumento da gordura na carcaça como efeito residual da gordura adicionada à dieta tem sido observado somente na fase pós-desmama, especialmente no período de 45 a 55 dias de idade.

Os valores de consumo médio diário elevaram com a inclusão de 3,0% de gordura, mas reduziram significativamente no nível de 6,0% de gordura. O mesmo ocorreu para os pesos de fígado e coração, provavelmente em razão da proximidade entre os valores de energia digestível nas dietas, visto que o coelho manifesta capacidade em ajustar a ingestão de MS em função da energia do alimento (Maertens, 1992).

Comparando as duas fontes de gordura, independentemente dos níveis utilizados, constata-se que o tipo de gordura não afetou significativamente nenhum dos parâmetros, exceto o peso do intestino, que foi maior (P<0,05) quando se utilizou a gordura animal.

 

Conclusões

A inclusão de 6,0% de gordura vegetal ou animal em dietas para coelhos em crescimento ocasiona aumento do CDEE, reduz o consumo médio diário de ração e os pesos de fígado e coração, mas não influencia o peso final, o ganho de peso diário, a conversão alimentar e os pesos de carcaça, pele, rins e intestino dos animais.

A inclusão de 3% de OS em dietas para coelhos em crescimento melhora o CDFDN e o mesmo nível de GA proporciona maiores CCEE.

 

Literatura Citada

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Recebido: 31/08/04
Aprovado: 04/04/06

 

 

Correspondências devem ser enviadas para: vanusa.ferreira@fead.br
1 Parte do projeto de tese de Doutorado da primeira autora, financiado pelo CNPq.

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