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Revista Brasileira de Zootecnia

versão impressa ISSN 1516-3598versão On-line ISSN 1806-9290

R. Bras. Zootec. v.37 n.2 Viçosa fev. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35982008000200023 

RUMINANTES

 

Características quantitativas e qualitativas da carcaça de novilhas alimentadas com diferentes fontes energéticas em dietas à base de cascas de algodão e de soja

 

Quantitative and qualitative carcass characteristics of heifers fed different energy sources on a cottonseed hulls and soybean hulls based diet

 

 

Ricardo KazamaI; Lúcia Maria ZeoulaII; Ivanor Nunes do PradoII; Daniele Cristina da SilvaI; Taciana DucattiIII; Makoto MatsushitaIV

IPrograma de Pós-Graduação em Zootecnia na área de Produção Animal, Universidade Estadual de Maringá (UEM) - PR. Bolsista CAPES
IIDepartamento de Zootecnia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) - PR, Av. Colombo, 5790, CEP: 87020-900. Bolsista do CNPq
IIICurso de graduação em Zootecnia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) - PR, Bolsista de Iniciação Científica (PIBIC-CNPq)
IVDepartamento de Química da Universidade Estadual de Maringá (UEM) - PR

 

 


RESUMO

Objetivou-se avaliar as características de carcaça e a composição físico-química e de ácidos graxos do músculo Longissimus de novilhas em confinamento alimentadas com cascas de algodão (CAL) e de soja (CSO) como volumosos e com diferentes fontes energéticas, como milho moído, farelo de gérmen de milho (FGM) ou farelo de arroz integral (FAR). Foram utilizadas 24 novilhas mestiças com peso corporal de abate de 350 ± 35 kg, distribuídas em delineamento inteiramente casualizado, com três tratamentos (dietas) e oito repetições (animais). As novilhas foram abatidas após jejum de sólidos de 24 horas. As carcaças foram identificadas, pesadas e armazenadas em câmara fria a 2ºC até a manhã seguinte para as avaliações de carcaça. Os animais alimentados com as dietas experimentais não diferiram quanto às características de carcaça; os valores médios de rendimento de carcaça quente foram de 51,4%, os de área de olho-de-lombo, 50,8 cm2, e os de espessura de gordura de cobertura, 3,3 mm. As dietas também não influenciaram a composição físico-química do músculo Longissimus, que apresentou em média 73,4% de umidade, 23,0% de PB, 48,2 mg/100g de colesterol e 4,84 kgf/cm3 de força de cisalhamento. Animais alimentados com a dieta FGM apresentaram maiores concentrações de CLA (0,48%), trans-vacênico (7,69%) e pior razão ômega 6/ômega 3 no músculo Longissimus, em virtude da maior quantidade de ácido linoléico desta dieta. Animais alimentados com a dieta FAR apresentaram maior concentração de ácido esteárico no músculo Longissimus, provavelmente em razão do maior conteúdo de ácido oléico desta dieta em relação às demais.

Palavras-chave: ácido linoléico conjugado, ácido trans-vacênico, características de carcaça, composição de ácidos graxos, força de cisalhamento


ABSTRACT

This work was carried out to evaluate carcass characteristics, physicochemical and fatty acids compositions of Longissimus muscle from feedlot heifers fed cottonseed hulls (CSH) and soybean hulls (SBH) as forage, and different energy sources: ground corn (COR), corn germ meal (CGM) or whole rice meal (WRM). Twenty-four crossbred heifers (initial body weight of 350 ± 35 kg) were allocated in a completely randomized design into three treatments (diets) and eight replications (animals). Heifers were slaughtered after a 24-hour fasting period. Carcasses were identified, weighed and stored in a cold chamber at 2ºC until following morning in order to perform carcass evaluations. The animals fed the experimental diets did not differ as carcass characteristics, the average values for hot carcass dressing were 51.4%, the loin eye area, 50.8 cm2, and fat thickness, 3.3 mm. The diets also did not influenced the physicochemical composition of Longissimus muscle, which showed 73.4% of moisture, 23.0% CP, 48.2 mg/100 g of cholesterol and 4.84 kgf/cm3 of shear force. Animals fed with CGM diet showed higher concentrations of CLA (0.48%), trans-vaccenic acid (7.69%) and worse omega 6/omega 3 ratio in the Longissimus muscle, due to the higher supply of linoleic acid provided by this diet as compared to the others. Animals fed WRM diet presented higher concentration of stearic acid in the Longissimus muscle, probably as a result of the higher content of oleic acid in this diet.

Key Words: carcass characteristics, conjugated linoleic acid, fatty acid composition, shear force, trans-vaccenic acid


 

 

Introdução

Um dos nutrientes de maior importância para terminação de bovinos de corte é a energia. O milho consiste em um dos alimentos tradicionais mais empregados para suprir as demandas energéticas dos animais. Além do milho, vários subprodutos agroindustriais podem ser empregados como fontes alternativas de energia em dietas para ruminantes, como, por exemplo, os farelos de gérmen de milho e de arroz integral.

O farelo de gérmen de milho é obtido após processamento por via seca do milho para extração do óleo; o subproduto contém 9,3% de proteína bruta (PB), 7,2% de extrato etéreo (EE) e 32,4% de fibra em detergente neutro (FDN) (% da MS) (Rocha Jr. et al., 2003). O farelo de arroz integral é o resultado do processo de polimento dos grãos de arroz, quando são removidas as camadas do pericarpo e tegumento, além de partículas remanescentes da casca, resultando no farelo, que apresenta 13,7% de PB e 24,1% de FDN (% da MS) (Rocha Jr. et al., 2003) e possui teores variáveis de EE (6,4 - 21,0%). É um subproduto rico em lipídios de reservas (neutros), principalmente os triglicerídeos. A concentração total de ácidos graxos saturados no farelo de arroz é de 14,7% e a de ácidos graxos insaturados 74,3% (Prates, 1995).

Pesquisas em nutrição de ruminantes envolvendo a avaliação do uso de subprodutos agroindustriais não devem restringir-se apenas a resultados de desempenho animal associados ao custo de produção. Devem estar aliadas também ao impacto que esses subprodutos teriam sobre a qualidade da carne bovina, visto que as exigências impostas dos mercados consumidores por qualidade de carne têm aumentado constantemente.

A percepção da qualidade da carne pelos consumidores inicia-se pela avaliação da cor e da quantidade de gordura de cobertura, seguidas por aspectos envolvidos no seu processamento, como perda de líquidos por descongelamento e cocção e, finalmente, a maciez, considerada o mais importante aspecto qualitativo da carne bovina (Luchiari Filho, 2000).

Atualmente, há uma preocupação com a saúde alimentar humana, não somente quanto à qualidade sanitária dos alimentos, mas principalmente em relação aos possíveis efeitos (maléficos ou benéficos) de determinados alimentos ou nutrientes sobre a saúde dos consumidores. A associação entre ingestão de gordura e problemas de saúde, relacionados principalmente à gordura animal (gordura saturada), representada, particularmente pelos ácidos mirístico (C14:0) e palmítico (C16:0) sobre a concentração plasmática das lipoproteínas de baixa densidade (LDL) é continuamente adotada pelos consumidores.

Todavia, estudos têm demonstrado falhas nessas concepções simplistas, principalmente quando as gorduras são desagregadas a ácidos graxos isoladamente. Ao contrário do que se pensava, pesquisas recentes têm comprovado que o leite e a carne também possuem substâncias com ação benéfica na prevenção de doenças vasculares, cardíacas e neoplásicas, como o ácido linoléico conjugado (CLA) e os ácidos graxos da série ômega-3 (McGuire & McGuire, 1999; Parodi, 1999; Tanaka, 2005).

O isômero principal de CLA na gordura do leite de vacas é o cis-9, trans-11, que representa 80 a 90% do CLA total (Parodi, 1977; Sehat et al., 1999) e consiste no isômero predominante na carne de ruminantes, porém em menor quantidade que a encontrada no leite (Bauman et al., 1999). Tanaka (2005) sugere diferentes mecanismos pelos quais os CLA poderiam atuar como anticarcinogênicos, antioxidantes, preventivos do colesterol, melhoristas da resposta imune, da diabetes, do metabolismo ósseo, promotores do crescimento e redutores do acúmulo de gordura corporal.

A maioria das substâncias naturais com atividade anticarcinogênica é originada de plantas, com exceção do CLA, que pode representar um grande avanço para que os consumidores e a sociedade médica mudem seus conceitos e aceitem a carne vermelha como um produto saudável.

Nesse sentido, avaliaram-se fontes energéticas alternativas ao milho, como o farelo de gérmen de milho ou o farelo de arroz integral, e as características de carcaça, a composição físico-química, a força de cisalhamento e a composição de ácidos graxos do músculo Longissimus de novilhas mestiças em confinamento alimentadas com dietas contendo cascas de algodão e de soja.

 

Material e Métodos

O experimento foi realizado no setor de Bovinocultura de Corte da Fazenda Experimental de Iguatemi e no Laboratório de Análise de Alimentos e Nutrição Animal, pertencentes ao Departamento de Zootecnia, e no Laboratório de Análise de Alimentos do Departamento de Química da Universidade Estadual de Maringá (UEM). As análises de força de cisalhamento e de perdas de líquidos por descongelamento e por cocção foram realizadas no Laboratório de Análise Sensorial do Departamento de Tecnologia de Alimentos da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Foram utilizadas 24 novilhas mestiças (½ Nelore × ½ Angus) com aproximadamente 20 meses de idade e peso corporal final de 350 ± 35 kg, mantidas em confinamento. As novilhas foram divididas em três grupos de oito animais e foram alimentadas com três dietas experimentais contendo diferentes fontes energéticas: milho moído (MIL) ou farelo de gérmen de milho (FGM) ou farelo de arroz integral (FAR) (Tabela 1), com relação volumoso:concentrado de 67:33%. A água foi fornecida ad libitum.

 

 

Ao final do período experimental (84 dias), quando as novilhas apresentaram peso corporal de 350 + 35 kg, foram submetidas a um jejum de sólidos de 24 horas e posteriormente abatidas em frigorífico da região. Logo após o abate, as carcaças foram identificadas e pesadas e, em seguida, armazenadas em câmara fria a 2ºC até a manhã seguinte para as avaliações de carcaça.

Durante a manhã, foram obtidas as medidas de carcaça (espessura de coxão e comprimentos de perna e de coxa), quando se realizou o corte entre as 12ª e 13ª costelas da meia-carcaça direita para retirada de uma porção do músculo Longissimus e mensuração da área de olho-de-lombo (AOL), por meio de grade reticulada (cm2), e da espessura da gordura de cobertura (EGC) utilizando-se paquímetro digital.

A determinação da porcentagem de músculo, osso e gordura da carcaça foi realizada pela separação física desses componentes na porção do músculo Longissimus da meia-carcaça direita (entre a 10ª, 11ª e 12ª costelas), conforme técnica descrita por Hankins & Howe (1946), adaptada por Muller et al. (1980).

Foram extraídas duas amostras de 2,5 cm de espessura do músculo Longissimus (congelado a -20ºC), perpendicularmente ao sentido das fibras musculares. As amostras foram pesadas, acondicionadas em geladeira por 24 horas a 5ºC e novamente pesadas para determinação, por diferença de peso, da perda de água por descongelamento. Em seguida, efetuou-se o cozimento das amostras do músculo Longissimus até que atingissem temperatura interna de 70ºC para determinação, por diferença de peso, da perda de água por cocção. Nestas mesmas amostras, determinou-se a força de cisalhamento por meio de aparelho Warner-Bratzler shear force, segundo Wheeler et al. (2001).

A composição química da carne (teores de umidade, matéria mineral e proteína bruta) foi obtida segundo análises sugeridas pelo AOAC (1980). A matéria graxa total foi determinada segundo metodologia de Bligh & Dyer (1959). Para a análise de ácidos graxos, a matéria graxa total foi separada e os lipídeos transesterificados para formação dos ésteres metílicos de ácidos graxos (AOAC, 1980). Os ésteres de ácidos graxos, depois de isolados, foram analisados por meio de cromatógrafo gasoso Shimadzu 14A, equipado com detector de ionização de chama e coluna capilar de sílica fundida (100 m de comprimento, 0,25 mm de diâmetro e 0,20 mm de Carbowax 20M). As temperaturas do injetor e detector foram 220 e 245ºC, respectivamente. A temperatura da coluna foi de 150ºC por três minutos, sendo então elevada para 240ºC a uma taxa de 10ºC/minuto. Os fluxos de gases foram: 1,2 mL/minuto para o gás de arraste (H2); 30 mL/minuto para o auxiliar (N2); 300 mL/minuto para o ar e 30 mL/minuto para o H2 da chama. A razão de divisão da amostra foi de 1/100. As áreas de pico foram determinadas por meio de Integrador-Processador CG-300 e as identificações dos principais picos realizadas por comparações com padrões Sigma (EUA).

Os dados foram analisados por meio do programa SAEG (Universidade Federal de Viçosa, 1997) e as médias foram comparadas pelo teste Tukey a 5% de significância. O delineamento experimental utilizado foi o inteiramente casualizado, com três tratamentos e oito repetições (três dietas e oito animais/dieta).

 

Resultados e Discussão

Não houve diferença (P>0,05) entre as novilhas alimentadas com as dietas experimentais quanto à características peso corporal final, peso de carcaça quente, rendimento de carcaça quente, espessura de gordura de cobertura (EGC), área de olho-de-lombo (AOL), espessura de coxão, comprimento de coxa e porcentagens de músculo, osso e gordura da carcaça (Tabela 2). Todavia, o comprimento de perna foi maior (P<0,05) nas novilhas alimentadas com a dieta FGM (67,25 cm) em relação às da dieta MIL (63,00 cm). No entanto, não foi observada diferença (P>0,05) entre os animais das dietas MIL e FAR e entre FGM e FAR.

Os animais apresentaram valor médio de AOL de 28,43 cm2/100 kg de carcaça, próximo da recomendação mínima de 29 cm2/100 kg de carcaça, segundo Luchiari Filho (2000). Esse valor é uma referência, pois, à medida que a AOL aumenta, a porção comestível da carcaça também aumenta; portanto, esse corte é um indicador de desenvolvimento muscular.

Mendes et al. (2005), em pesquisa com novilhos mestiços de 24 meses de idade alimentados com dietas com silagem de milho como volumoso, milho em grão ou 48% de farelo de gérmen de milho em substituição ao milho em grão como fontes energéticas, obtiveram valores semelhantes de AOL, de 27,48 e 25,27 cm2/100 kg de carcaça, respectivamente. Ezequiel et al. (2004) forneceram uma dieta contendo 100% de milho moído ou 50% de milho moído + 50% farelo de gérmen de milho como fontes energéticas para bovinos Nelore de 32 meses de idade e encontraram valores inferiores de AOL (24,16 e 22,95 cm2/100 kg de carcaça, respectivamente).

A exigência mínima de EGC varia geograficamente, porém, do ponto de vista qualitativo, é necessário mínimo de 3,00 mm (Luchiari Filho, 2000). A média observada de 3,33 mm de EGC da carcaça está acima do limite mínimo, sobretudo para novilhas alimentadas com a dieta FAR, que apresentaram maior deposição de gordura de cobertura (3,98 mm). Os resultados obtidos neste trabalho foram inferiores aos observados por Ezequiel et al. (2004) e Mendes et al. (2005), que encontraram valores de 4,4 e 4,2 mm para as rações com milho e 5,6 e 4,9 mm para as rações com FGM.

Os altos valores de EGC relacionados a valores inferiores de AOL encontrados por Ezequiel et al. (2004) e Mendes et al. (2005) parecem estar de acordo com a correlação negativa entre EGC e porção comestível, segundo Luchiari Filho (2000). Assim, a gordura subcutânea em pequena quantidade ocasiona problemas no manuseio da carcaça e encurtamento dos sarcômeros durante a estocagem, em razão do frio. Por outro lado, altos teores de gordura, além de indesejáveis, diminuem o rendimento da porção comestível e necessitam ser aparados para comercialização, implicando desperdícios.

Os valores médios de porcentagem de músculo, osso e gordura da carcaça foram de 56,24; 18,76 e 25,00%, respectivamente. Costa et al. (2002), trabalhando com novilhos Red Angus e abatendo os animais com 340 kg encontraram valor superior para o músculo (63,53%) e inferior para osso (15,06%) e gordura (21,69%). A menor porcentagem de músculo e maior de gordura observada para as novilhas com o mesmo peso de abate pode estar relacionada ao sexo, pois fêmeas possuem menos músculo e mais gordura que machos (Luchiari Filho, 2000), quando comparado em mesmo estádio de desenvolvimento.

As diferentes fontes energéticas fornecidas às novilhas não influenciaram (P>0,05) os teores de umidade (UMI), proteína bruta (PB), matéria graxa total (MGT), cinzas e colesterol (COL) do músculo Longissimus, que apresentou valores médios de 73,36; 22,98; 2,6; 1,04 e 48,21 mg/100g, respectivamente (Tabela 3). Esses valores estão dentro da amplitude de composição química do músculo esquelético de mamíferos citada por Forrest et al. (1975), de 65-80% de UMI, 16-22% de PB, 1,5-13% de lipídios e 1,0% de cinzas.

Costa et al. (2002) observaram valores semelhantes de MGT e COL, de 2,29% e 42,88 mg/100 g, respectivamente, no músculo de novilhos Red Angus abatidos com 340 kg. O colesterol é um composto necessário para o organismo e que está envolvido na síntese de hormônios e sais biliares; metade do colesterol do organismo tem sua origem na produção endógena e o restante é proveniente da dieta (Nelson & Cox, 2002).

As perdas de água por descongelamento (PD) e cocção (PC) do músculo Longissimus não diferiram (P>0,05) entre os tratamentos e apresentaram médias de 9,78 e 26,99%, respectivamente. Durante o descongelamento, ocorre perda de água liberada pelas células que foram seccionadas ou se romperam pelo aumento da pressão interna durante o congelamento. A perda por cocção é maior e corresponde à perda de água mais uma porção menor de gordura fundida, componentes nitrogenados e minerais (Lawrie, 1981).

Não houve diferença (P>0,05) para a força de cisalhamento do músculo Longissimus dorsi das novilhas alimentadas com as dietas experimentais, que apresentou valor médio de 4,84 kgf/cm3. Portanto, a carne pode ser considerada macia, segundo Felício (1997), pois a faixa aceitável de maciez é abaixo de 5 kgf/cm3.

Entre os ácidos graxos saturados da carne bovina, a maior preocupação recai sobre o ácido palmítico (C16:0), considerado hipercolesterêmico, como o C14:0 e C12:0 (Wood et al., 2003). As diferentes dietas experimentais não influenciaram (P>0,05) a concentração de C16:0, que foi em média de 24,96% (Tabela 4), resultado semelhante ao encontrado por Ito et al. (2005) e Wada et al. (2005), de 26,93% e 26,15%, respectivamente.

O músculo Longissimus das novilhas alimentadas com MIL apresentou maior (P<0,05) concentração de ácido margárico (C17:0) (1,17%) em relação ao daquelas alimentadas com FGM (0,93%), enquanto o teor de C17:0 no músculo de novilhas alimentadas com a dieta FAR (1,06%) não diferiu das demais. O músculo Longissimus das novilhas alimentadas com MIL apresentou também maior concentração de ácido 8-heptadecenóico (C17:1 w9) (0,63%) em relação ao das novilhas da dieta FAR (0,51%). No entanto, a concentração de C17:1 do músculo Longissimus das novilhas da dieta FGM (0,52%) não diferiu das demais. Resultado semelhante foi observado por Ito et al. (2005), que forneceram dieta com MIL para bovinos inteiros e encontraram maiores concentrações de ácido margárico (0,81%) e ácido 8-heptadecenóico (0,63%) quando comparados aos animais alimentados com dietas contendo semente de linhaça e óleo de soja.

O produto final da biohidrogenação ruminal, ácido esteárico (C18:0), foi maior (P<0,05) no músculo Longissimus de animais alimentados com a dieta FAR (17,87%) em relação ao de animais alimentados com as dietas FGM (14,55%) e MIL (15,22%), o que pode ser atribuído ao maior fornecimento de ácido oléico (C18:1 w9) aos animais alimentados com FAR em relação a FGM e a MIL (Tabela 1), criando condições para que as bactérias do gênero Fusocillus sp., que possuem 73 a 79% de capacidade para hidrogenar o ácido oléico em ácido esteárico (Harfoot & Hazlewood, 1997), produzissem mais ácido esteárico no rúmen. Apesar de a gordura saturada da carne de bovinos poder contribuir significativamente para elevação dos teores de colesterol circulante em humanos (Bessa, 1999), gorduras ricas em ácido esteárico não apresentam essa característica, pois são classificadas como ácido graxo neutro.

Os animais alimentados com a dieta com FGM apresentaram maior (P<0,05) concentração de ácido trans-vacênico (7,69%) no músculo Longissimus em relação aos alimentados com a dieta MIL (4,63%). Por outro lado, a concentração do ácido trans-vacênico do Longissimus dos animais alimentados com a dieta FAR (6,50%) não diferiu (P>0,05) dos demais. Essas diferenças nas concentrações desse ácido no músculo Longissimus não podem ser explicadas pelas diferenças nas ingestões do ácido linoléico (C18:2 w6) provenientes das dietas MIL, FGM e FAR. O ácido trans-vacênico, embora não tenha importância reconhecida, consiste em importante precursor de CLA. Essa transformação é mediada pela atividade da enzima D9-dessaturase, que é menor no tecido adiposo em relação à glândula mamária (Bauman et al., 1999).

Há necessidade de outros estudos para se conhecer o real papel do ácido trans-vacênico, pois, segundo Geay et al. (2001), este ácido é considerado um risco para doenças coronarianas. No entanto, segundo Salminen et al. (1998), nos humanos, existe apenas a hipótese de que a ingestão de ácidos trans aumenta em 2,5 vezes a concentração sérica de CLA.

As novilhas alimentadas com a dieta com FGM apresentaram maior (P<0,05) concentração de CLA (C18:2, Cis 9 trans 11) no músculo Longissimus em relação àquelas alimentadas com a dieta com FAR (Tabela 4). No entanto, as novilhas alimentadas com a dieta com milho apresentaram valores intermediários, que não diferiram dos demais.

Izumi et al. (2002) e An et al. (2003) investigaram a ocorrência de transformação do CLA e do trans-vacênico no rúmen utilizando carneiros com fístulas ruminais alimen-tados com uma dieta contendo gordura poliinsaturada. Nesses estudos, a concentração de trans-vacênico (0,3 - 0,4 mg/g) foi maior que de CLA (menor que 0,05 mg/g), sugerindo que a taxa de conversão dos ácidos linoléico e a-linolênico em trans-vacênico é mais rápida de que a de trans-vacênico em ácido esteárico. Assim, o CLA produzido pela biohidrogenação ruminal do ácido linoléico é um intermediário transiente, enquanto o trans-vacênico é acumulado no rúmen, sendo mais disponível para absorção.

Não houve diferença (P>0,05) na concentração de AGPI e AGMI no músculo Longissimus das novilhas mestiças alimentadas com as diferentes dietas experimentais; as médias foram de 8,46 e 43,12%, respectivamente. Houve ligeira redução na quantidade de AGS no músculo de novilhas alimentadas com a dieta FGM em relação àquelas com milho e FAR. Todavia, a razão AGPI/AGS não diferiu entre as novilhas alimentadas com as diferentes rações experimentais e apresentou valor médio de 0,19, inferior à razão ideal, acima de 0,40, segundo Wood et al. (2003).

As novilhas alimentadas com a dieta FGM apresentaram a maior (P<0,05) razão w6/w3 (6,86:1) no músculo Longissimus em relação àquelas alimentadas com as dietas milho (5,36:1) e FAR (5,35:1). As novilhas alimentadas com as dietas milho e FAR obtiveram razão w6/w3 próximo à razão ideal, ou seja, abaixo de 5:1 (Holman, 1998) considerada como benéfica à saúde humana.

 

Conclusões

Fontes energéticas alternativas, como o farelo de gérmen de milho ou o farelo de arroz integral, podem ser utilizadas na alimentação de novilhas mestiças em confinamento, pois não têm efeitos negativos nas características de carcaça e na composição físico-química do músculo Longissimus. As diferentes concentrações de alguns ácidos graxos na dieta podem modificar a composição de ácidos graxos no músculo de novilhas.

 

Agradecimento

À Doutora Ana Maria Bridi (Universidade Estadual de Londrina-UEL), pela contribuição nas análises de shear force e das perdas por descongelamento e cocção do músculo Longissimus das novilhas. Ao MSc. José Luiz Moletta (IAPAR), pelo auxílio nas avaliações de carcaça das novilhas.

 

Literatura Citada

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Este artigo foi recebido em 20/10/2006 e aprovado em 9/8/2007.

 

 

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