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Revista Brasileira de Zootecnia

On-line version ISSN 1806-9290

R. Bras. Zootec. vol.39 no.2 Viçosa Feb. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35982010000200023 

RUMINANTES

 

Desempenho de bezerros da raça Holandesa alimentados com proteína de soja sólida ou líquida1

 

Performance of Holstein calves fed soybean meal protein in solid or liquid form

 

 

Carlos de Sousa LucciI; Edison ValvasoriII; Valter FontolanI; Kleber da Cunha Peixoto JúniorI; Arthur Alonso Almeida SouzaIII; Marianne Élen Real de LimaIV; Gabriel da Rocha SilvestriniIV

IUniversidade de Santo Amaro
IIInstituto de Zootecnia ACTA - Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo
IIIMestrando Faculdade de Medicina Veterinaria e Zootecnia USP
IVMédico Veterinário

 

 


RESUMO

Avaliaram-se os efeitos da substituição de metade do total de proteína da dieta na forma sólida (farelo de soja) por proteína na forma líquida (leite de soja), com relações sólidos:líquidos de 100,0:0%; 87,5:12,5%; e 75,0:25,0%. Utilizaram-se 24 bezerros machos da raça Holandesa com 60 dias de idade, distribuídos em delineamento em blocos ao acaso, com três dietas à base de concentrado (80%) e feno de capim coast-cross (Cynodon dactylon) (20%), balanceadas para nitrogênio e energia. Nas dietas com partes líquidas, o intuito foi manter o reflexo de formação da goteira esofagiana no período experimental de 10 meses, no qual os animais foram mantidos em confinamento, sendo abatidos ao atingirem pesos corporais superiores a 400 kg. Em alguns dos animais, dotados de cânulas de rúmen, foi possível detectar neste órgão apenas pequenas quantidades do leite de soja ingerido, confirmando sucesso na formação da goteira esofagiana. Os ganhos de peso diários apresentaram redução linear (1,399; 1,341; e 1,191 kg) à medida que foram fornecidas maiores quantidades de leite de soja. As conversões de matéria seca e proteína bruta em ganhos de peso, durante os últimos 60 dias experimentais, pioraram conforme aumentaram as quantidades de proteína na forma líquida. O fornecimento de proteína na forma líquida na dieta não altera os rendimentos de carcaça em bezerros holandeses.

Palavras-chave: abate precoce, alimentação líquida, bovinos leiteiros, conversão alimentar, ganho de peso, goteira esofagiana


ABSTRACT

The effects were assessed of substituting half the total diet protein in solid form (soybean meal) with liquid form (soybean milk) at solid:liquid ratios of: 100.0:0% L; 87.5:12.5% L; 75.0:25.0% L. Twenty-four Holstein breed 60-d male calf steers were assigned to a randomized block design, with three concentrate (80%) diets and 20% coast-cross (Cynodon dactylon) hay, balanced for nitrogen and energy. In the diets with liquid parts, the intention was to keep the functional reflex of the esophageal groove throughout the 10 months of the experimental period, in which the animals were kept in a feedlot until slaughter at body weights higher than 400 kg. In some of the animals, with rumen canulas, only small quantities of ingested soybean milk were detected in the rumen contents, indicating success in esophageal groove formation. Daily weight gains were linearly reduced (1.399, 1.341 and 1.191 kg) as the treatments supplied larger quantities of soybean milk. Dry matter and crude protein conversions in weight gains, in the last 60 days of the experimental period, declined as the proportions of liquid feed increased. Supplying protein in liquid form in the diet did not alter carcass yield in Holstein steer.

Key Words: dairy cattle, early slaughter, esophageal groove, feed conversion, liquid feeding, weight gain


 

 

Introdução

Entre os nutrientes necessários para o máximo desenvolvimento de um bezerro jovem, os aminoácidos provenientes da proteína alimentar são os de maior importância (Bagg et al., 1985). Estudos mais antigos sobre a utilização de fontes proteicas de alto valor nutricional, como farinha de peixe (Huber & Slade, 1967), proteína do leite e produtos da soja (Nitsan et al., 1971; 1972) confirmam as vantagens do emprego de proteína de melhor valor biológico na velocidade de crescimento desses animais.

Em trabalhos mais recentes, quanto menos degradáveis as proteínas dietéticas, melhor o desempenho dos animais, fato atribuído ao aproveitamento da fração proteica que alcança o intestino sem ser alterada em sua passagem pelo rúmen (Iriki et al., 1992; Bunting et al., 1996; Sampath & Sivaraman, 1986). Swartz et al. (1991) também observaram melhor desempenho quando acrescentaram maiores proporções de proteína não-degradável no rúmen em dietas para bezerros Holandeses com 14 a 25 semanas de idade. Reddy et al. (1993) observaram maiores consumos e ganhos de peso e melhor eficiência alimentar em animais que receberam proteína de soja com menor degradabilidade ruminal. Sampath & Sivaraman (1986), empregando fontes de proteína não-degradável no rúmen para bezerras mestiças de 4 a 6 meses de idade, concluíram que a inclusão dessa proteína melhorou os ganhos de peso nesta categoria animal.

Apesar da importância da proteína não-degradável no rúmen, não é menos necessária a presença da fração degradável, decomposta até nitrogênio amoniacal, em razão do seu papel no equilíbrio da ecologia do rúmen. A microbiota ruminal, composta principalmente de protozoários e bactérias, caracteriza-se pelo fato de que 82% das bactérias utilizam amônia como fonte de nitrogênio, enquanto 25% não sobrevivem com outras fontes (Van Soest, 1983); além disso, necessitam de um ambiente com quantidade de nitrogênio amoniacal próxima a 5 mg/100 mL de conteúdo de rúmen para seu máximo crescimento e atividade (Satter & Slyter, 1974). Disponibilidade insuficiente de nitrogênio degradável no rúmen limita a fermentação ruminal, diminuindo o consumo e a eficiência energética do alimento quando a maior parte dos carboidratos é digerida pela fermentação pelos microrganismos ruminais (ARC, 1980).

Uma das formas para que nutrientes ultrapassem o rúmen é aquela obtida com êxito pela simples manutenção do funcionamento da goteira esofagiana, conforme registrado por Orskov (1970) com ovinos, Mikhail et al. (1988) com caprinos e Abe et al. (1998) com bovinos. O aproveitamento da manutenção da goteira esofagiana em animais adultos é um método eficiente para administrar nutrientes como aminoácidos essenciais (Iriki et al., 1992; Abe et al., 1998) ou lipídeos (Spanski et al., 2007).

Outro fator relevante em estudos dessa natureza é o melhor conhecimento sobre as qualidades das carcaças de animais da raça Holandesa submetidos a sistema de alimentação para abate precoce (Swartz et al., 1991; Drevjany, 1989).

O objetivo neste estudo foi verificar se a administração da proteína de soja na forma líquida com destino à digestão intestinal via goteira esofagiana resultaria em maiores taxas de crescimento em novilhos de raças leiteiras destinados ao abate precoce.

 

Material e Métodos

Dezoito bezerros da raça Holandesa, não-castrados, foram distribuídos logo após o desaleitamento aos 60 dias de idade em um delineamento em blocos ao acaso (Gomes, 1980). A intenção foi avaliar três dietas, formando três blocos de seis indivíduos, considerando o tempo, com repetição dentro de bloco. Um grupo diferenciou-se pelo fato de os seis animais possuírem cânulas de rúmen, inseridas cirurgicamente aos 4 meses de idade. As dietas foram balanceadas para serem isonitrogenadas e isoenergéticas e diferiram apenas quanto à proporção de proteína de soja, fornecida na forma sólida ou líquida. Nas dietas, metade da quantidade de proteína bruta (PB) foi fornecida na forma sólida (farelo de soja) ou na forma líquida (leite de soja), nas proporções: 100:0; 87,5:12,5; e 75,0:25%. Considerando a possibilidade de o alimento fornecido na forma líquida passar diretamente ao abomaso e intestino, e empregando-se estimativas de taxas de degradabilidade dos alimentos sólidos (NRC, 1989) as dietas foram formuladas com 24, 32 e 40%, respectivamente, da proteína dietética como porções não-degradadas no rúmen.

Todos os animais receberam 80% da matéria seca ingerida como alimentos concentrados e 20% como feno de coast cross (Cynodon dactylon), de qualidade inferior (níveis menores que 5% de PB), como fonte de fibra.

As dietas experimentais continham quantidades idênticas de mesma mistura de concentrados, com aproximadamente 12% de PB ou equivalente proteico, que compunham 50% do total de PB fornecido aos animais. A estas quantidades eram acrescidos os 50% restantes como proteína de soja, obedecendo diferentes proporções de formas sólida e líquida (Tabela 1).

A fração proteica fornecida pelo feno de capim coast cross foi desconsiderada nos cálculos de nutrientes, em virtude de sua pequena contribuição para a fração nitrogenada da alimentação. As quantidades de soja fornecidas na forma líquida variaram de 6 a 16 litros por animal e por dia do início ao final do experimento.

A proteína de soja na forma líquida era oferecida com 2,5% de PB na dieta 25,0%L e diluída com água 1:2 na 12,5%L, ficando com teor proteico reduzido para 1,25%. Essas diferentes concentrações de PB permitiram oferecer quantidades pré-estipuladas de proteína com quantidades iguais de líquido.

O manejo compreendeu: alimentação fornecida duas vezes ao dia, às 8 h e às 15 h, com controle diário individual de consumo de alimentos por meio de pesagens de ofertas e refugos. As pesagens dos animais foram feitas a cada 28 dias, sempre no mesmo horário, antes da primeira refeição do dia e após jejum prévio de água e alimentos por 12 horas. Nessa ocasiões, foram tomadas medidas de altura às cernelhas e colhidas amostras de sangue por punção da veia jugular. Posteriormente às pesagens, quando necessário, foram corrigidas as quantidades de oferta dos alimentos, tomando-se por base as exigências proteicas (NRC, 1989) para bovinos machos de grande porte. As reformulações foram feitas por bloco, considerando os ganhos de peso médios dos animais dentro do bloco.

O leite de soja, ou proteína de soja na forma de solução, proveniente de grãos de mesma partida, foi confeccionado diariamente. Após moagem fina, a proporção de 1 kg dos grãos para 6 kg de água era colocada em recipiente metálico provido de pás para agitação permanente e a mistura era mantida a temperaturas entre 80 e 90 ºC durante 30 minutos. Seu fornecimento foi feito na temperatura de 36 ºC, em baldes abertos, com intenção de manter funcional o reflexo de formação da goteira esofagiana.

Amostras de feno e mistura concentrada comum a todos os tratamentos e farelo de soja foram colhidas mensalmente. Análises laboratoriais dos teores proteicos do leite de soja eram feitas quinzenalmente para manter homogeneidade entre partidas, especialmente quanto ao leite de soja (Tabela 2).

Com a finalidade de averiguar se nas dietas parcialmente líquidas os reflexos de formação das goteiras esofagianas permaneciam ativos no transcurso do ensaio, quatro animais dotados de cânulas de rúmen, em três idades diferentes (7, 9 e 11 meses), receberam leite de soja adicionado de indicador de fase líquida (polietilenoglicol, peso molecular 4000 - PEG 4000), conforme técnica descrita por Hyden (1956). A quantidade do indicador detectada no conteúdo ruminal indicou a porcentagem do alimento líquido que não transpôs este órgão. Três dias antes dessa observação,

100 g de PEG 4000 foram inseridos no rúmen dos animais canulados pela manhã, após 12 horas de jejum de alimentos e água. Foram colhidas amostras nos tempos zero (antes da administração), 1, 2, 3, 6, 12 e 24 horas. Com os dados obtidos, foi calculada curva da concentração de PEG no líquido ruminal durante as 24 horas após a administração, obtendo-se o volume de líquido no rúmen. No dia da observação, os mesmos animais foram submetidos a jejum prévio de 12 horas e receberam 100 g de PEG-4000 em mistura aos primeiros 2 litros de leite de soja da refeição matutina. Decorridos 20 minutos, foi colhida amostra de líquido ruminal para análise da presença do indicador.

O período experimental estendeu-se por 10 meses, durante o qual os animais permaneceram confinados. O abate foi realizado quando os animais atingiram pesos vivos superiores a 400 kg. Nesta ocasião, registraram-se pesos e rendimentos de carcaça, além de teste de maciez em bifes retirados do músculo longissimus dorsi entre a 12a costela e a 5a vértebra lombar. As peças foram submetidas à maturação por 14 dias, a temperaturas entre 0 e 3 ºC para, então, serem cosidas e mensuradas quanto à maciez.

Os resultados foram analisados pelo programa computacional Statistical Analysis System (SAS Institute Inc., 1985), verificando-se anteriormente a normalidade dos resíduos pelo teste de Shapiro-Wilk (PROC UNIVARIATE) e a homogeneidade das variâncias comparadas pelo teste qui quadrado (Comando SPEC do PROC GLM). Parte dos dados foi submetida à análise de regressão do tipo polinomial (utilizando PROC REG) para avaliar efeitos das quantidades de proteína bruta das rações nas formas sólida (farelo de soja) ou líquida (leite de soja) sobre os ganhos de peso, as ingestões de proteína bruta e de matéria seca, as conversões de proteína bruta e de matéria seca em ganhos de peso, os níveis sanguíneos de ureia e glicose e a contagem de leucócitos. Foi realizada também análise de variância (PROC GLM) para avaliar efeitos dos tratamentos sobre as médias diárias de ganhos de peso, as alturas às cernelhas e perímetros torácicos, bem como os rendimentos de carcaça, empregando-se em seguida o teste Tukey para comparação entre médias. O nível de probabilidade p=0,05 foi adotado para todas as análises realizadas.

 

Resultados e Discussão

Como um dos objetivos no trabalho foi avaliar os efeitos de transposição da proteína de soja pelo rúmen por meio de administração de dietas líquidas e da manutenção da funcionalidade da goteira esofagiana, uma primeira questão seria constatar se a goteira permaneceu funcional, considerando a duração do experimento e a idade dos animais (Tabela 3).

 

 

Os mesmos bovinos apresentavam 7 meses de idade na primeira prova, 9 meses na segunda e 11 meses na terceira prova. O valor máximo de insucesso correspondeu à detecção no rúmen de 13% do líquido ingerido, mas em 9 dos 12 valores obtidos, a porcentagem de insucesso não excedeu 1,6% do líquido ingerido. Esses números confirmam que a proteína de soja fornecida na forma líquida transpôs o rúmen e foi direcionada para abomaso e intestino, confirmando os relatos de Orskov (1970) em trabalho com ovinos e de Mikhail et al. (1988) com caprinos. Rodrigues (2000) relatou o bom funcionamento da goteira esofágica em bezerros com 4 a 7 meses de idade recebendo proteína texturizada de soja na forma líquida. Contudo, chamaram a atenção para uma resposta melhor em maior porcentagem de sólidos no alimento líquido. Neste trabalho, constatou-se também que o desempenho com dieta com 25,0% da proteína na forma líquida teve melhor resposta em alturas e perímetros do tórax em relação à dieta com 12,5% da proteína na forma líquida, menos rica em sólidos. Já os ganhos de peso não confirmaram essa diferença (Tabela 4). A possibilidade de emprego da goteira esofagiana em animais adultos para administrar aminoácidos essenciais por meio de dietas líquidas foi relatada por outros autores (Iriki et al., 1992; Abe et al., 1998).

 

 

O desempenho dos animais não melhorou com o fornecimento das dietas com a proteína de soja na forma líquida, como pode ser observado pelos registros de ganhos de peso, perímetros torácicos e alturas nas cernelhas (Tabela 4).

Para o período experimental de 60 a 360 dias, a equação de predição dos ganhos de peso foi = 1,519 - 0,104 X com decréscimo de 0,104 kg para cada unidade percentual de proteína fornecida na forma líquida (p=0,004). Para o mesmo período, há ainda diferença significativa entre as dietas com 0% e 25,0% de proteína na forma líquida (p=0,013) pelo teste Tukey.

As medições de perímetros do tórax e de alturas nas cernelhas, considerando o total do período de experimentação, também indicam ineficiência da alimentação com dieta líquida. Ganhos em perímetros torácicos e em alturas à cernelha mostraram diferenças significativas entre as dietas com 0%L e 12,5%L, que superaram o mais rico alimento líquido, com 25,0% de proteína líquida (p= 0,0003 e p=0,0002, respectivamente). Como os dados de altura tomados à cernelha apresentam elevada correlação com desenvolvimento esquelético, é possível que os animais alimentados com maiores quantidades de alimento líquido tenham sofrido atraso no desenvolvimento ósseo.

No conjunto, esses resultados podem estar associados ao fato de os animais alimentados com a dieta com 12,5% da proteína líquida e principalmente com aquela com 25,0% da proteína líquida terem apresentado vários processos diarreicos. Esses processos provavelmente foram ocasionados por má digestão intestinal da proteína de soja, aliada ao fato de alcançar o intestino de forma abrupta, pela goteira esofagiana, sem coagulação adequada no abomaso que permitisse liberação lenta ao intestino, melhor eficiência enzimática e manutenção de pressão osmótica da digesta. Santos et al. (1998) registraram falhas na obtenção de bons desempenhos com o emprego de rações com proteína não-degradável no rúmen quando a proteína não apresentava boa digestibilidade intestinal.

Considerando isoladamente os dados referentes aos últimos 60 dias experimentais, análises das médias dos ganhos de peso e das conversões de matéria seca e PB em ganhos de peso mostraram diferenças significativas entre as dietas (Tabela 5), o que evidencia a superioridade do fornecimento de proteína na forma sólida.

Ao comparar os valores obtidos nesta última fase com os apresentados por Silva et al. (2002) com novilhos Nelore de pesos semelhantes e ingerindo rações com 80% de concentrado, porém com idades diferentes, a conversão alimentar de 6,91 foi próxima aos valores obtidos neste estudo, mas a ingestão de matéria seca, igual a 6,5 kg por animal por dia, foi bastante inferior.

Durante todo o período experimental, as quantidades de alimento fornecidos foram as mesmas para todas as dietas, sempre respeitando as proporções de 80% de concentrado e 20% de volumoso. O direcionamento de parte proteica dos concentrados para digestão intestinal teve como expectativa melhor desempenho, resultante de maior digestibilidade, como encontrado por Burger et al. (2000) para matéria orgânica e carboidratos totais em bezerros Holandeses. Ao contrário, nos últimos meses da experimentação, os ganhos de peso e as conversões de matéria seca e proteína bruta em peso apresentaram médias piores à medida que maiores porções de alimento líquido foram empregadas. Para ganhos de peso, a equação de predição foi = 1,852-0,170 X; para conversão de matéria seca em ganhos de peso = 0,980 + 0,225 X; e para conversão de proteína em ganhos de peso = 5,491 + 0,716 X. Esse fato comprova que a proteína na forma líquida, mesmo via goteira esofagiana, não proporcionou melhor aproveitamento intestinal.

A não-detecção de melhores desempenhos com a passagem direta da proteína pelo rúmen pode estar relacionada a vários fatores. Santos et al. (1998), em artigo de revisão, levantaram hipóteses para falta de resposta à suplementação com proteína sobrepassante por bovinos leiteiros: queda na síntese de proteína microbiana ruminal, fontes de proteína não-degradável inadequadas em aminoácidos essenciais, digestibilidade intestinal baixa dessas fontes e dietas controle já com proteína sobrepassante suficiente. Nesta pesquisa, os efeitos da proteína microbiana ruminal reduziram, fato comum a todas as dietas. A probabilidade de terem ocorrido sobras de proteína não-degradável no rúmen nas dietas empregadas é pequena, a julgar pelo exame das mesmas. Assim parecem mais realistas as possibilidades de a proteína de soja não oferecer equilíbrio ideal em aminoácidos, por apresentar baixos teores de lisina e metionina, reconhecidamente limitantes para o crescimento de animais jovens (Iriki et al., 1992) e ainda de sua digestibilidade intestinal ser inferior ao esperado. Essas possibilidades, de a proteína de soja ao nível de intestino não oferecer aminoácidos em proporções suficientemente boas ou não ser bem digerida, são sustentadas pela falta de respostas no desempenho ao aumento das frações da proteína não-degradada no rúmen de aproximadamente 25% (0% de proteína líquida) para 40% (25,0% de proteína líquida). No entanto, Swartz et al. (1991) obtiveram velocidades de crescimento mais elevadas e melhor eficiência alimentar ao empregarem maiores porcentagens de proteína não-degradável no rúmen em dietas de bezerros Holandeses com 14 a 25 semanas de idade. Também Sampath & Sivaraman (1986) concluíram que o emprego de proteína não-degradável no rúmen na alimentação de bezerras mestiças de 4 a 6 meses de idade provocou melhoras nos ganhos de peso.

As análise das amostras de sangue colhidas mensal-mente durante o experimento indicou linearidade para teores de ureia (p=0,0283) com equação = 29,43-1,33 X. Maiores concentrações de ureia sanguínea obtidas com a dieta sem proteína líquida, quando a proteína foi fornecida na forma sólida, devem ser consequência de aumento dos níveis de N-NH3 no conteúdo do rúmen, relativamente situações com 12,5% e 25,0% de proteína líquida, em que partes da proteína ingeridas na forma líquida passaram diretamente para o intestino. As análises hematológicas também acusaram significância estatística entre trata-mentos para números de leucócitos (p=0,008), com equação de predição ^ Y = 7758,43 + 660,91 X, comprovando aumento do seu número por mililitro de sangue em função dos teores de proteína de soja na forma líquida. Esse resultado suporta a hipótese de os processos diarreicos ocasionados pelas dietas com 12,5% e principalmente por aquela na com 25,0% da proteína na forma líquida terem sido prejudiciais ao epitélio intestinal e afetado a absorção de nutrientes, com prejuízo para o desempenho, conforme assinalado por Santos et al. (1998) em revisão de experimentos desta natureza.

Embora todos os animais apresentassem pesos vivos muito próximos ao início do experimento, aqueles mantidos com a dieta com 25,0% da proteína na forma líquida levaram 12 meses para atingir 400 kg, enquanto nos demais o mesmo peso foi atingido com 11 meses ou menos (Tabela 6).

 

 

Os rendimentos obtidos, entre 51,96 e 54,42%, foram inferiores aos relatados por Prado et al. (2000), entre 56,90 e 57,57% em mestiços Nelore × Angus com peso vivo médio de 346 kg. Foram também inferiores ao rendimento de 61,3% descrito por Silva et al. (2002), com novilhos Nelore abatidos com 450 kg de peso recebendo dieta contendo 80% de concentrado. Neste estudo a dieta com 12,5% da proteína líquida superou aquela com 25,0% em pesos das carcaças. Os pesos dos fígados foram inferiores aos da dieta com 25,0% da proteína na forma líquida. Contudo, os rendimentos das carcaças e suas características mostraram semelhança estatística.

 

Conclusões

Não é recomendável o emprego de dietas líquidas à base de proteína de soja para melhorar o desempenho dos animais, o rendimento de carcaças e a qualidade de suas carnes. Contudo, o uso de dietas parcialmente líquidas, mantendo a funcionalidade da goteira esofagiana até os 360 dias de idade, abre a possibilidade de explorar essa forma de manejo alimentar em estudos de nutrição.

 

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Recebido em 1/3/2007 e aprovado em 16/3/2009.

 

 

Correspondências devem ser enviadas para: cslucci@uol.com.br
1 Pesquisa financiada pela FAPESP - processo: 01/13798-3.

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