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Revista Brasileira de Zootecnia

On-line version ISSN 1806-9290

R. Bras. Zootec. vol.39 no.4 Viçosa Apr. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35982010000400022 

RUMINANTES

 

Desempenho, digestibilidade e balanço de nitrogênio em cordeiros alimentados com silagem de milho ou cana-de-açúcar e dois níveis de concentrado1

 

Performance, digestibility and nitrogen balance of lambs fed corn silage or sugar cane based diets with two levels of concentrate

 

 

Greicy Mitzi Bezerra MorenoI; Américo Garcia da Silva SobrinhoII; André Gustavo LeãoI; Cíntia Maria Battiston LoureiroI; Henrique Leal PerezI; Rodrigo César RossiIII

I Programa de Pós-graduação em Zootecnia - FCAV - Unesp/Jaboticabal
II Departamento de Zootecnia - FCAV - Unesp/Jaboticabal
IIIGraduação em Zootecnia da FCAV - Unesp/Jaboticabal

 

 


RESUMO

Utilizaram-se 32 cordeiros Ile de France, não-castrados, alimentados com dietas contendo silagem de milho ou cana-de-açúcar em duas relações volumoso:concentrado (60:40 ou 40:60). Os animais foram mantidos confinados individualmente com controle do alimento fornecido e das sobras e pesados semanalmente para determinação do ganho de peso diário e da conversão alimentar. Simultaneamente, foram realizados ensaios de digestibilidade e metabolismo para determinação do consumo e da digestibilidade dos nutrientes e do balanço de nitrogênio das dietas experimentais. O ganho de peso foi maior nos cordeiros alimentados com silagem de milho, de 294,6 g/dia, e com a relação volumoso:concentrado 40:60, de 314,3 g/dia. A relação volumoso:concentrado influenciou apenas os consumos de fibra em detergente neutro (FDN) e fibra em detergente ácido (FDA) digestíveis, cujos maiores valores, de 125,26 e 48,97 g/dia, foram obtidos com a relação volumoso:concentrado 60:40. Os cordeiros alimentados com silagem de milho apresentaram maior consumo de todos os nutrientes digestíveis, exceto proteína bruta (162,00 g/dia) e carboidratos não-fibrosos (471,42 g/dia). As maiores digestibilidades de matéria orgânica (80,34%) e carboidratos totais (80,71%) foram obtidas com a relação 40:60 e as de matéria seca (78,91%), proteína bruta (81,30%) e energia bruta (78,77%), nos cordeiros alimentados com cana-de-açúcar. Os maiores valores de nitrogênio ingerido, absorvido e retido, de 32,6; 20,5 e 13,7 g/dia, respectivamente, foram observados com o fornecimento das dietas com 40% de volumoso. O tipo de volumoso influencia mais a digestibilidade dos nutrientes que sua proporção na dieta

Palavras-chave: consumo, ganho de peso, metabolismo, ovinos, relação volumoso:concentrado


ABSTRACT

Thirty-two non castrated Ile de France lambs fed corn silage or sugar-cane based diets with two roughage:concentrate ratios (60:40 or 40:60) were used. The animals were kept individually confined with control of the supplied food and leftovers, weekly weighted for determination of the daily weight gain and food conversion. Simultaneously, it was carried out digestibility and metabolism trials to determine the nutrient intake and digestibility and nitrogen balance of the experiment diets. The weight gain (294.6 g/day) was higher for the lambs fed corn silage, and regarding to roughage:concentrate 40:60 it was 314.3 g/day. The ratio roughage:concentrate only influenced the consume of digestible fiber in neutral detergent (NDF) and fiber in acid detergent (FAD) in which the highest values, 125.26 and 48.97 g/day obtained with the ratio roughage:concentrate 60:40. The lambs fed corn silage showed a higher intake of all digestible nutrients, except for crude protein (162.00 g/day) and non fibrous carbohydrates (471.42 g/day). The highest digestibility of organic matter (80.34%) and total carbohydrates (80.71%) were obtained with the 40:60 ratio and those of dry matter (78.91%), crude protein (81.30%) and gross energy (78.77%) were obtained for the lambs fed sugar cane. The highest values for ingested, absorbed and retained nitrogen, 32.6, 20.5 and 13.7 g/day, respectively, were observed in diets with 40% of roughage. The type of roughage influences more the nutrient digestibility than its proportion in the diet.

Key Words: intake, metabolism, roughage:concentrate ratio, sheep, weight gain


 

 

Introdução

Para que a produção de carne ovina seja técnica e economicamente viável, é necessário propiciar condições adequadas que permitam aos animais expressar máximo potencial produtivo, utilizando raças especializadas na produção de carne ou seus cruzamentos, e principalmente fornecer alimentos que atendam suas exigências nutricionais e permitam alcançar peso de abate mais precocemente (Zeola et al., 2002).

Considerando que a estacionalidade na produção de forragens é um dos principais fatores responsáveis pelos baixos índices de produtividade da pecuária nacional, a escolha de alimentos para reduzir esses efeitos tem relevada importância na economicidade dos sistemas e na manutenção do equilíbrio entre oferta e demanda de nutrientes (Resende et al., 2005). Assim, o tipo de volumoso a ser utilizado no confinamento deve ser escolhido considerando seus aspectos nutricionais, técnicos e econômicos.

A silagem de milho e a cana-de-açúcar são os principais volumosos utilizados na terminação de ovinos e bovinos em confinamento, por fornecerem altos teores de energia, embora seja necessária a suplementação com fontes de proteína. A cana-de-açúcar tem se destacado na alimentação de ruminantes, por ser uma cultura de baixo risco, reduzido custo de produção de matéria seca (MS) por unidade de área e maior disponibilidade e valor nutritivo no período de escassez de forragem (Nussio, 2003).

O fornecimento de maiores quantidades de concentrados no confinamento aumenta o risco de ocorrência de distúrbios metabólicos, além de elevar os custos de produção. Entretanto, permite aumentar a concentração de nutrientes nas dietas, otimizando o uso de raças com alto potencial para ganho de peso (Carvalho et al., 2007). Portanto, estudos para avaliação da eficiência do uso de diferentes relações volumoso:concentrado poderão contribuir para o aumento da eficiência produtiva e econômica da terminação de cordeiros em confinamento.

Este trabalho foi realizado com o objetivo de avaliar o desempenho, o consumo e a digestibilidade de nutrientes e o balanço de nitrogênio em cordeiros Ile de France terminados em confinamento recebendo dietas contendo silagem de milho ou cana-de-açúcar e dois níveis de concentrado.

 

Material e Métodos

Foram utilizados 32 cordeiros Ile de France, machos não-castrados, com peso inicial médio de 15 kg e distribuídos em quatro dietas, formuladas com dois níveis de silagem de milho ou cana-de-açúcar como volumoso (40 ou 60%) mais concentrado.

A cana-de-açúcar utilizada no experimento foi a variedade forrageira IAC 86-2480, proveniente do primeiro corte, colhida manualmente em dias alternados e armazenada em área coberta, enquanto a picagem foi realizada imediatamente antes do fornecimento aos animais.

As dietas foram calculadas para atender às exigências preconizadas pelo NRC (1985) para cordeiros desmamados com ganhos de peso estimados em 300 g/dia (Tabelas 1 e 2).

A alimentação foi fornecida às 7 h e às 17 h, com o controle da quantidade fornecida e das sobras após dez dias de adaptação, para determinação do consumo de matéria seca e da conversão alimentar. A conversão alimentar foi obtida pela relação entre o consumo de MS e o ganho de peso diário e as pesagens foram realizadas semanalmente após jejum de sólidos de 16 horas. Semanalmente, coletaram-se amostras dos alimentos volumosos, do concentrado e das sobras (10% do total da MS fornecida), que foram armazenadas em freezer a -18ºC para composição, ao final de cada quinzena, de uma amostra composta por animal.

Após 45 dias do início do ensaio de desempenho, foi conduzido o ensaio de digestibilidade, utilizando-se 16 dos mesmos animais. Os cordeiros foram alojados em gaiolas de metabolismo individuais, adotando-se 7 dias de adaptação e 5 dias de coleta total de fezes e urina. Duas vezes ao dia, a urina e as fezes foram colhidas, pesadas e amostradas (10% do total excretado), obtendo-se uma amostra composta de cada animal ao final do período. A urina foi coletada em baldes plásticos contendo 10 mL de ácido clorídrico diluído em água destilada na proporção de 1:1, segundo Schneider & Flat (1975), para prevenir as perdas de nitrogênio por volatilização.

As amostras dos alimentos, das sobras e das fezes foram pré-secas em estufas de ventilação forçada a 55ºC, por 72 horas e posteriormente, processadas em moinho de faca em malha de 1 mm para determinação dos teores de MS, matéria orgânica, matéria mineral (MM), proteína bruta (PB), extrato etéreo (EE) e energia bruta (EB), conforme metodologias citadas por Silva & Queiroz (2002). Os teores de lignina, fibra em detergente neutro corrigida para cinzas e proteína (FDNcp) e fibra em detergente ácido (FDA) foram determinados de acordo com Van Soest (1994). Os carboidratos totais (CT) foram calculados pela equação: CT = 100 - (%PB + %EE + %MM) e os não-fibrosos (CNF), pela diferença entre CT e FDNcp, propostas por Sniffen et al. (1992).

O consumo de nutrientes foi calculado pela diferença entre a quantidade do nutriente presente nos alimentos fornecidos e a quantidade do nutriente nas sobras. Posteriormente, calculou-se o consumo de cada nutriente digestível, multiplicando a quantidade de nutriente consumido pela sua digestibilidade e o resultado foi expresso em gramas/animal/dia.

A digestibilidade dos nutrientes foram determinadas segundo a equação: digestibilidade (%) = [nutriente ingerido (g) - nutriente excretado nas fezes (g)/nutriente ingerido (g)]*100. Nas amostras de urina, foram determinados os teores de MS, nitrogênio total e energia bruta. O balanço aparente de nitrogênio foi calculado pelas seguintes equações, e expresso em g/dia e em g/kg0,75/dia: BN ou Nretido= Ningerido - (Nfezes + Nurina);

Nabsorvido = Ningerido - Nfezes e Ningerido = Nofertado - Nsobras.

O delineamento experimental foi o inteiramente casualizado em esquema fatorial 2 × 2, com dois volumosos e duas relações volumoso:concentrado. Os dados foram submetidos à análise de variância pelo procedimento GLM do pacote estatístico SAS (SAS, 1996) a 5% de significância. Quando detectadas diferenças significativas entre os tratamentos, as médias foram comparadas pelo teste Tukey, em mesmo nível de significância.

 

Resultados e Discussão

Não houve efeito da combinação (P>0,05) entre a relação volumoso:concentrado e o tipo de volumoso sobre o consumo de matéria seca e o desempenho dos cordeiros (Tabela 3).

Os cordeiros alimentados com as dietas com maior relação volumoso:concentrado necessitaram de tempo maior (P<0,05) para atingirem peso de abate (32 kg), o que resultou em maior tempo de confinamento (77 dias), entretanto, não houve influência (P>0,05) do tipo de volumoso utilizado (67 dias). Apesar de não ter havido efeito (P>0,05) do tipo de volumoso sobre o tempo de confinamento, os cordeiros alimentados com cana-de-açúcar permaneceram confinados sete dias a mais que aqueles alimentados com silagem de milho, o que pode, na prática, gerar diferenças no custo final da produção desses animais.

Os consumos de matéria seca, expressos em g/dia, unidade de tamanho metabólico (g/kg0,75/dia) e em porcentagem do peso vivo (%PV) foram afetados (P<0,05) pela relação volumoso:concentrado e pelo tipo de volumoso, pois os maiores valores foram obtidos com silagem de milho e na menor relação volumoso:concentrado. O consumo de MS é importante no desempenho de ovinos em confinamento e pode ser considerado determinante do aporte de nutrientes necessários para o atendimento das exigências de mantença e de ganho de peso dos animais (Sniffen et al., 1993).

Neste trabalho, o maior consumo de MS (3,61% PV) foi observado com o fornecimento da dieta com relação volumoso:concentrado de 40:60 e está de acordo com os valores estimados pelo NRC (2006), que sugere consumo de MS entre 3,54 e 3,99% do PV para cordeiros de até 4 meses de idade com 30 kg de peso corporal e ganho de peso diário de 200 a 250 g/dia. Cardoso et al. (2006) avaliaram níveis de FDN na dieta de cordeiros mestiços Ile de France × Texel e também encontraram consumo de matéria seca similar (3,46% PV).

A conversão alimentar não diferiu (P>0,05) entre as dietas e apresentou valor médio de 3,0 kgMS ingerida/kg de ganho de peso corporal. Esse valor foi inferior ao reportado por Ochove et al. (2006), que avaliaram o desempenho de cordeiros mestiços Santa Inês alimentados com as mesmas relações volumoso:concentrado e variedade de cana-deaçúcar e encontraram conversão alimentar de 5,5. Okamoto et al. (2008) estudaram o desempenho de cordeiras Santa Inês alimentadas com cana-de-açúcar variedade RB72-454 nas mesmas relações volumoso:concentrado e encontraram conversão alimentar média de 7,87, ou seja, 2,62 vezes superior à obtida neste trabalho. Essa maior eficiência alimentar pode ser explicada pela qualidade nutricional da cana-de-açúcar variedade IAC 86-2480 e pela maior capacidade produtiva da raça Ile de France, em comparação à raça Santa Inês.

O pior desempenho dos cordeiros alimentados com cana-de-açúcar (255,66 g/dia) e com maior relação volumoso:concentrado (235,96 g/dia) na dieta pode ser justificado pela diminuição da densidade energética, decorrente do aumento da proporção de volumoso, e pela redução do consumo voluntário, decorrente do enchimento do rúmen (barreira física), comprovada pela menor ingestão de MS durante o período total de confinamento. Segundo Landell et al. (2002), a taxa de digestão da fibra da cana-deaçúcar no rúmen é baixa e o acúmulo de fibra não-digerida limita o consumo pelos animais. Além da barreira física causada pelo acúmulo de fibra no rúmen, o consumo de alimentos depende do animal, das condições de alimentação e do meio ambiente e é regulado por fatores físicos, psicogênicos e fisiológicos (Mertens, 1994; Forbes, 1995).

Gastaldi & Silva Sobrinho (1998), objetivando comparar o desenvolvimento ponderal de ovinos ½ Ideal ½ Ile de France, em confinamento, com diferentes relações volumoso:concentrado, concluíram que os animais que receberam dieta com 30% de volumoso e 70% de concentrado apresentaram melhores desempenhos em relação aos que receberam dieta na relação 50:50. Da mesma forma, ao avaliarem o desempenho de cordeiros Texel alimentados com diferentes relações volumoso:concentrado, Carvalho et al. (2007) observaram maiores ganhos de peso (228,0 g/dia) e melhor conversão alimentar (4,0) nos animais que receberam 70% de concentrado na dieta.

A relação volumoso:concentrado não influenciou (P>0,05) os consumos de MS, MO, PB, carboidratos totais e carboidratos não-fibrosos digestíveis, os quais apresentaram valores médios de 802,65; 776,16; 162,01; 591,83 e 471,42 g/dia (Tabela 3).

O maior consumo de EE pelos cordeiros alimentados com a dieta com 40% de volumoso e 60% de concentrado pode estar relacionado à maior concentração desse nutriente em alimentos concentrados em relação aos volumosos. No mesmo sentido, houve maiores consumos da porção fibrosa, representada pela FDN e FDA, nos animais que receberam maior quantidade de volumoso na dieta. Oliveira et al. (2009), estudando o desempenho de tourinhos Nelore e Canchim alimentados com cana-deaçúcar constituindo 40 ou 60% da dieta, relatou menor consumo de EE e maior consumo de FDN nos animais que receberam maior proporção de volumoso.

Em comparação à dieta com cana-de-açúcar, os cordeiros alimentados com silagem de milho, independentemente da proporção avaliada na dieta, apresentaram maiores consumos para a maioria dos nutrientes, exceto PB e CNF. O consumo alimentar é um dos principais parâmetros a serem avaliados na formulação de dietas, além de ser a medida mais associada ao desempenho animal (Yamamoto et al., 2007).

Houve interação (P<0,05) entre a relação volumoso:concentrado e o tipo de volumoso para os consumos de EE, FDN e FDA, comprovando que o efeito do tipo de volumoso sobre o consumo desses nutrientes depende de sua proporção na dieta (Tabela 4).

Os cordeiros alimentados com silagem de milho apresentaram maior consumo de EE digestível, nas duas relações volumoso:concentrado (Tabela 4), em comparação àqueles que consumiram a dieta com cana-de-açúcar. O consumo de EE entre os animais alimentados com maior quantidade de cana-de-açúcar (60%) na dieta foi de 7,00 g/dia de EE e diferiu (P<0,05) do observado naqueles mantidos com a dieta com relação 40:60. Esse resultado está relacionado à menor concentração de EE na dieta com cana-de-açúcar na relação 60:40, em decorrência da maior participação deste volumoso, que possui apenas 0,43% de extrato etéreo (Tabelas 1 e 2).

O consumo de extrato etéreo neste trabalho (7,00 g/dia) foi superior ao encontrado por Campos et al. (2007), de 5,02 g/dia, em ovinos alimentados com cana-de-açúcar in natura com ureia e óxido de cálcio. Esse resultado indica que o consumo de EE pelos animais alimentados com canade-açúcar, independentemente da relação volumoso: concentrado, está relacionado à maior participação de concentrado na dieta, já que a cana-de-açúcar in natura apresentou teor muito baixo deste nutriente (0,43%).

O consumo de FDN digestível pelos cordeiros alimentados com cana-de-açúcar foi menor (P<0,05) que o obtido com a silagem de milho nas duas relações volumoso:concentrado estudadas e pode ser explicado pelo menor consumo de MS e pela baixa digestibilidade da FDN deste volumoso (Tabela 5). Segundo Landell et al. (2002), a taxa de degradação da FDN da cana-de-açúcar é lenta, o que aumenta o tempo de permanência da digesta no rúmen e diminui o consumo pelos animais.

A fibra em detergente neutro é a fração de carboidratos estruturais dos alimentos e está relacionada à regulação do consumo, da taxa de passagem e da atividade mastigatória dos ruminantes (Cardoso et al., 2006). Assim, elevados teores de FDN na dieta limitam o consumo de MS, mas induzem maior consumo de FDN (Dantas Filho et al., 2007). Neste trabalho, o maior teor de FDN (32,46%, Tabela 2) foi obtido com a dieta com 60% de silagem de milho + 40% de concentrado, o que resultou em maior consumo de FDN, de 184,87 g/dia (Tabela 4).

O consumo de fibra em detergente ácido digestível nos cordeiros alimentados com cana-de-açúcar foi menor que naqueles alimentados com silagem de milho nas duas proporções estudadas, em razão da menor digestibilidade desse nutriente nas dietas com cana-de-açúcar (Tabela 5), já que alimentos de baixa digestibilidade também limitam o consumo. Estes resultados foram semelhantes aos obtidos por Pinto et al. (2009), que reportaram menor consumo e menor digestibilidade da FDA em tourinhos mestiços alimentados com cana-de-açúcar.

A relação volumoso:concentrado influenciou (P<0,05) apenas as digestibilidades da matéria orgânica e dos carboidratos totais, que foram maiores na relação volumoso: concentrado 40:60 (80,34 e 80,71%, respectivamente) (Tabela 5).

A digestibilidade da MS (78,91%), PB (81,30%) e energia bruta (78,77%) foi maior nos cordeiros alimentados com cana-de-açúcar. A digestibilidade dos alimentos está relacionada à relação substrato/enzima e ao tempo de exposição desse substrato aos microrganismos do rúmen (Pancoti et al., 2007). Dietas contendo cana-de-açúcar provocam aumento no tempo de retenção do alimento no rúmen, aumentando sua digestibilidade, o que pode ter ocorrido com esses nutrientes. Além disso, o menor consumo de MS nos cordeiros alimentados com cana-de-açúcar (Tabela 3) também pode ter aumentado o tempo de retenção da dieta no rúmen, estendendo o tempo de exposição aos microrganismos e aumentando a digestibilidade desses nutrientes.

O percentual de digestibilidade dos carboidratos nãofibrosos neste trabalho, de 93,5%, foi superior aos encontrados por Mouro et al. (2007), de 78,2%, em cordeiros Corriedale alimentados com duas fontes de carboidratos (casca de soja ou milho em grão) em duas relações volumoso: concentrado (40:60 e 30:70). Esse resultado indica a alta digestibilidade dos carboidratos não-fibrosos de dietas contendo cana-de-açúcar e silagem de milho.

Houve interação (P<0,05) entre a relação volumoso: concentrado e o tipo de volumoso apenas para a digestibilidade do extrato etéreo (Tabela 6). Apenas o tipo de volumoso promoveu diferenças (P<0,05) na digestibilidade desse nutriente, que foi maior (89,6%) para a dieta com 60% de silagem de milho, o que confirma a alta digestibilidade do extrato etéreo deste volumoso.

 

 

A menor digestibilidade do EE da cana-de-açúcar pode ser atribuída ao baixo teor desse nutriente na dieta, apenas 1,15% (Tabela 2), e pela menor ingestão (Tabela 3). Já para a cana-de-açúcar na relação 40:60, o aumento na ingestão de EE proveniente da maior inclusão de concentrado refletiu em maior digestibilidade e não diferiu entre as dietas com silagem de milho.

Não houve interação (P>0,05) entre a relação volumoso:concentrado e o tipo de volumoso para o balanço de nitrogênio (Tabela 7). A quantidade de nitrogênio ingerido, absorvido e retido (balanço de nitrogênio) foi influenciada (P<0,05) pela relação volumoso:concentrado, uma vez que os maiores valores foram obtidos com a relação 40:60, de 32,6; 20,5 e 13,7 g/dia, respectivamente. O nitrogênio retido correspondeu a 37,96% do ingerido. O aumento do nível de concentrado, independentemente do tipo de volumoso, refletiu em maior absorção e retenção de nitrogênio, pois, enquanto o consumo e a digestibilidade relacionam-se mais com a proporção de volumoso da dieta, o balanço de nitrogênio é altamente influenciado pelo teor de concentrado. Assim, o balanço de nitrogênio constitui importante ferramenta para determinar a eficiência de utilização do nitrogênio pelos ruminantes e suas perdas para o ambiente (Gentil et al., 2007). Neste trabalho, o balanço de nitrogênio foi positivo em todas as dietas avaliadas, resultado já esperado, já que os cordeiros estavam em fase de crescimento.

As perdas de nitrogênio pelas fezes e pela urina não foram influenciadas pela relação volumoso:concentrado nem pelo tipo de volumoso e apresentou valores médios de 12,3 e 6,6 g/dia, respectivamente. As perdas de nitrogênio pelas vias fecal e urinária corresponderam a 40,74 e 22,20% do nitrogênio ingerido, respectivamente, indicando que 62,94% do nitrogênio ingerido foi perdido nas fezes e na urina. Zeoula et al. (2006), avaliando o balanço de nitrogênio de ovinos sem raça definida alimentados com diferentes teores de proteína degradável no rúmen, reportaram valores médios de 6,33; 11,30 e 14,04 g/dia para nitrogênio fecal, urinário e retido, respectivamente. Segundo Kozloski (2002), a quantidade de nitrogênio excretada pelas fezes aumenta com a atividade fermentativa no intestino grosso, devido ao maior aporte de nitrogênio de origem microbiana nas fezes, o que ocorre particularmente quando as dietas são ricas em grãos de cereais, como milho e sorgo.

Para avaliação do balanço de nitrogênio deste experimento, é importante considerar a composição das dietas, pois a inclusão de fonte de nitrogênio prontamente disponível (ureia), aliada à grande quantidade de carboidratos prontamente disponíveis no rúmen (amido da silagem de milho e sacarose da cana-de-açúcar), pode ter proporcionado melhor utilização das fontes de proteína e maior retenção de nitrogênio.

O tipo de volumoso afetou (P<0,05) apenas o nitrogênio ingerido e foi maior (33,0 g/dia) para a silagem de milho, porém, não foi observada diferença quando este valor foi expresso em unidade de tamanho metabólico (g/kg0,75/dia). O balanço de nitrogênio é um indicativo do metabolismo proteico e constitui importante parâmetro na avaliação de alimentos, o que permite avaliar se o animal encontra-se em equilíbrio quanto aos seus compostos nitrogenados (Guimarães Jr. et al., 2007).

 

Conclusões

Cordeiros alimentados com maior relação volumoso:concentrado apresentam menor consumo de matéria seca e ganho de peso diário, que resulta em maior tempo de confinamento para atingirem peso de abate. A cana-de-açúcar, independentemente da relação volumoso:concentrado na dieta, proporciona menor consumo da fração fibrosa digestível das dietas em relação à silagem de milho. O tipo de volumoso influencia mais a digestibilidade dos nutrientes que sua proporção na dieta. A utilização do nitrogênio é melhor quando fornecidas dietas com 40% de volumoso, independentemente do tipo de volumoso utilizado.

 

Agradecimentos

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo apoio financeiro a esta pesquisa.

 

Referências

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Recebido em 19/8/2008 e aprovado em 6/4/2009.

 

 

Correspondências devem ser enviadas para: greicymitzimoreno@yahoo.com.br
1 Projeto financiado pela FAPESP

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