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Revista Brasileira de Zootecnia

On-line version ISSN 1806-9290

R. Bras. Zootec. vol.40 no.3 Viçosa Mar. 2011

https://doi.org/10.1590/S1516-35982011000300002 

AQUACULTURA

 

Redução da proteína em dietas para tilápias-do-nilo por meio da suplementação de aminoácidos com base no conceito de proteína ideal

 

Protein reduction in diets for Nile tilapia by amino acids supplementation based on the ideal protein concept

 

 

José Sérgio RighettiI; Wilson Massamitu FuruyaII; Celso Ivan ConejeroIII; Thêmis Sakaguti GracianoIV; Luiz Vítor Oliveira VidalIV; Mariana MichellatoIV

IMestrando em Zootecnia, UEM. EMATER - Maringá, PR
IIDepartamento de Zootecnia, Universidade Estadual de Maringá- UEM, Maringá, PR
IIIDepartamento de Ciências Morfofisiológicas, UEM, Maringá, PR
IVPrograma de Pós-graduação em Zootecnia, UEM, Maringá, PR

 

 


RESUMO

Este trabalho foi realizado para avaliar os efeitos da redução da proteína da dieta, por meio da suplementação com aminoácidos sintéticos, sobre o desempenho produtivo, a digestibilidade e o diâmetro da fibra muscular de tilápias-do-nilo. Os aminoácidos (lisina, metionina, treonina e arginina) foram suplementados de forma a manter o perfil de aminoácidos da dieta-referência. Foram utilizados 160 peixes com peso vivo médio inicial de 105,7 ± 2,5 g, distribuídos em 16 tanques (1 m3 cada) e alimentados com dietas contendo 26,74; 25,82; 23,09 ou 22,16% de proteína digestível durante 110 dias. Não foi observado efeito dos níveis de proteína nas dietas sobre o ganho de peso diário, o índice hepatossomático, a gordura visceral, o rendimento de filé, os teores corporais de umidade, proteína bruta e cinzas, o teor de cinzas no filé, a taxa de sobrevivência e o diâmetro das fibras do músculo dorsal. Com a redução dos níveis de proteína na dieta, foi observada redução linear dos coeficientes de digestibilidade aparente da energia bruta, proteína bruta, extrato etéreo e fósforo das dietas. Houve efeito quadrático dos níveis de proteína sobre a conversão alimentar, a taxa de eficiência proteica, a retenção de nitrogênio, o nitrogênio excretado, a umidade no filé, a gordura corporal e no filé e proteína no filé, de modo que os melhores valores foram estimados com 24,53; 24,25; 24,04; 25,15; 24,67; 24,14; 24,34; 25,11% de proteína digestível, respectivamente. É possível reduzir, de 26,74 para 24,53%, a proteína digestível em dietas para tilápias-do-nilo na fase de 100 a 500 g.

Palavras-chave: aminoácido, desempenho, digestibilidade, fibra muscular, peixe


ABSTRACT

The objective of this work was to evaluate the effects of reduction of protein in diets for Nile tilapia by supplementation of synthetic amino acids on performance, digestibility and diameter of muscle fiber of Nile tilapias. The amino acids (lysine, methionine, threonine and arginine) were supplemented to keep the profile of amino acids in the reference diet. It was used 160 fish with initial live weight of 105.7 ± 2.5 g, distributed in 16 tanks (1 m3 each tank) fed diets containing 26.74; 25.82; 23.09 or 22.16% of digestible protein for 110 days. It was not observed any effects of protein levels in the diets on daily weight gain, hepatosomatic index, visceral fat, fillet yield, carcass humidity, crude protein and ash, fillet ash, survival rate and on the white muscle fiber diameter. A linear decrease on apparent digestibility coefficients, gross energy, crude protein, ether extract and phosphorus was observed when protein levels in the diet were reduced. There was a quadratic effect on feed conversion ratio, protein efficiency rate, nitrogen retention, nitrogen excretion, fillet humidity, carcass and fillet fat and fillet protein, in which the best-fit responses were estimated with 24.53, 24.25, 24.04, 25.15, 24.67, 24.14, 24.34 and 25.11% of digestible protein, respectively. It is possible to reduce the dietary protein level from 26.74 to 24.53% for Nile tilapia 100 to 500-g phase.

Key Words: amino acid, digestibility, fish, muscular fiber, performance


 

 

Introdução

A tilápia-do-nilo é uma das espécies mais importantes para a piscicultura, em razão da rápida taxa de crescimento, da adaptação a diversas condições de criação e das boas características organolépticas da carne, com filés sem espinhas intramusculares em "Y".

Nas últimas décadas, a produção de farinha de peixe tem se mantido estável, em torno de seis milhões de toneladas por ano, o que tem elevado seu custo (FAO, 2009). O farelo de soja destaca-se como a fonte proteica mais promissora, pela sua disponibilidade no mercado nacional e pelo elevado valor nutritivo (Kaushik et al., 1995; Furuya et al., 2004a). Entretanto, possui diversos fatores antinutricionais, desbalanço em aminoácidos sulfurados, baixa palatabilidade (Espe et al., 2006), menor valor energético e baixos teores de cálcio e fósforo em relação à farinha de peixe (Furuya et al., 2001), o que torna necessária a suplementação para melhorar o balanceamento de aminoácidos (Furuya et al., 2004b).

Os aminoácidos sintéticos, além de melhorar o perfil quali e quantitativo de aminoácidos e estimular o consumo, são amplamente utilizados quando se deseja reduzir o nível de proteína da ração (Furuya et al., 2004a). Para adequada suplementação de aminoácidos, é necessário o conhecimento das exigências nutricionais e da digestibilidade dos aminoácidos dos alimentos utilizados. Em muitas situações, é necessária a suplementação múltipla de aminoácidos para melhorar a utilização da proteína, de forma a manter contínua a taxa de absorção e evitar desbalanço de aminoácidos (Cowey & Walton, 1988).

A formulação de dietas com excesso de proteína para atender à exigência de aminoácidos é economicamente inviável, além de causar impactos negativos ao ambiente, uma vez que o nitrogênio é considerado a principal fonte de poluição na piscicultura. A possibilidade de redução da proteína da ração já foi demonstrada em experimentos com carpas (Viola & Lahav, 1991), tilápias-do-nilo (Furuya et al., 2005; Botaro et al., 2007) e truta arco-íris (Cheng et al., 2003; Gaylord & Barrows, 2009).

O músculo estriado nos peixes constitui aproximada-mente 70% de seu peso corporal, cujo crescimento ocorre por hipertrofia e/ou hiperplasia (Camargo, 2004). O estudo do desenvolvimento muscular da tilápia tem grande importância quando se procura otimizar a produção de carne.

Apesar da importância econômica da tilápia-do-nilo em diversos países, poucas pesquisas foram realizadas com objetivo de reduzir o conteúdo de proteína por meio da suplementação de aminoácidos em dietas para peixes de tamanho comercial. Assim, realizou-se este trabalho com o objetivo de avaliar os efeitos da redução da proteína da dieta por meio da suplementação de aminoácidos sobre o desempenho produtivo, a digestibilidade aparente e o diâmetro da fibra do músculo branco de tilápias-do-nilo.

 

Material e Métodos

O trabalho foi realizado no Laboratório de Aquicultura-DBI/UEM no período de dezembro a março de 2008, durante 110 dias. Foram utilizados 160 peixes com peso inicial de 105,7 ± 2,5 g, distribuídos em 16 tanques (1 m3 cada) ligados a um sistema de recirculação de água, em delineamento inteiramente casualizado com quatro dietas, quatro repetições e dez peixes por unidade experimental. Os peixes foram alimentados com dietas contendo 26,74; 25,82; 23,09 ou 22,16% de proteína digestível, mantendo-se relação energia digestível (kcal):proteína bruta (%) próxima de 120:1 (Tabela 1).

Cada tanque continha um sistema de aeração composto de pedra porosa acoplada a um soprador, além da aeração proporcionada pelo sistema de recirculação de água (12 L/minuto), realizada por meio de motobomba, de forma a manter o teor de oxigênio dissolvido entre 4 a 6mg/L. A temperatura da água foi mantida entre 25 e 27ºC. Essas variáveis foram aferidas diariamente, às 8h e 17h com oxímetro digital portátil.

Os aminoácidos foram suplementados de forma a manter a relação aminoácido essencial/lisina para atender às exigências para tilápias determinadas pelo NRC (1993). Cada dieta foi granulada em moedor de carne, adicionando-se água (52ºC) na proporção de 30% do peso seco da dieta. Em seguida, os grânulos foram desidratados em estufa de ventilação forçada a 55ºC e estocados em refrigerador a 5ºC. As dietas foram desintegradas e peneiradas de forma a se obterem grânulos com aproximadamente 4 mm de diâmetro.

Os peixes foram alimentados manualmente, à vontade, às 8 h; 11 h; 14 h e 17h30. Todos os peixes foram pesados individualmente em balança de precisão (0,01 g) no início e ao final do experimento, sendo anestesiados com óleo de cravo (70 mg/L). No início do experimento, foram selecionados os peixes cujo peso estivesse dentro do valor de 20% do desvio-padrão em relação à média do peso dos peixes de cada unidade experimental. Neste momento, 25 peixes foram armazenados em freezer (-20ºC) para determinação da composição química corporal. No final do experimento, cinco peixes de cada unidade experimental foram filetados, para determinação do rendimento e composição química do filé, e os demais foram eviscerados e moídos, para determinação da composição corporal.

A taxa de eficiência protéica e a retenção de nitrogênio corporal dos peixes foram calculadas de acordo com as expressões descritas por Jauncey & Ross (1982).

Foram coletadas amostras da porção mediana superficial do músculo dorsal direito de três peixes de cada tanque para mensuração do diâmetro das fibras. Após coleta, as amostras foram aparadas e reduzidas a fragmentos de 1,0 × 0,5 cm e cobertas com talco para preservação do tecido (Moline & Glenner, 1964). Em seguida, foram congeladas com nitrogênio líquido e armazenadas em freezer a -80ºC até o processamento. As amostras do músculo branco foram transferidas para câmara de micrótomo criostato Keichert Jung CM 1800 com temperatura interna de -20ºC, onde permaneceram por 1 hora. Posteriormente, cada amostra foi fixada em suporte metálico, com adesivo especial (Tissue Tek OCT - Optimal CristalTemperature), efetuando-se várias séries de cortes histológicos com 10 μm de espessura (Pullen, 1977).

Os cortes foram submetidos à técnica hematoxilina e eosina (HE) (Lillie, 1954), para avaliação do tecido e mensuração do diâmetro das fibras musculares. A determinação do diâmetro foi obtida pela mensuração do menor diâmetro das fibras (Dubowitz & Brooke, 1973). Foram capturadas imagens de dez campos microscópicos de cada amostra, com ampliação final de 200X, utilizando-se o programa Analisador de Imagem Computadorizado (Mexia et al., 2006).

Para determinação dos coeficientes de digestibilidade, foram utilizados 21 peixes com peso médio de 258,7 ± 27,3 g. Foi determinado o coeficiente de digestibilidade aparente no tempo de cada ração, em duplicata, considerando repetição o pool de fezes dos peixes de cada aquário. Os peixes foram anteriormente adaptados às instalações e ao manejo durante 30 dias.

As tilápias foram mantidas em dois aquários de fibra de vidro, com volume útil de 180 L para a coleta de fezes, mantidos com aeração constante por meio de pedra porosa acoplada a soprador central, de forma a manter o teor de oxigênio dissolvido em 4 a 6 mg/L. A temperatura da água foi mantida entre 25 e 27ºC por meio de aquecedor com termostato. Esses parâmetros variáveis foram aferidos diariamente às 8 h e 17 h, em oxímetro digital portátil para leitura do oxigênio dissolvido e da temperatura. A renovação de água dos aquários de coleta de fezes foi feita diariamente (8h30 e 17h30) utilizando-se a água proveniente de um reservatório de 1.000 L com água mantida nas mesmas condições dos aquários de digestibilidade. Os peixes foram alimentados diariamente das 7 h às 9 h e das 13 h às 17 h, manualmente, até saciedade aparente.

Para determinação dos coeficientes de digestibilidade aparente (CDA), as dietas utilizadas no experimento de desempenho foram moídas e adicionadas de 0,1% de óxido de crômio III (Cr2O3) como indicador (Pezzato et al., 2002), sendo peletizadas em moinho manual e desidratadas em estufa de ventilação forçada a 55ºC, conforme recomendado por Bremer Neto et al. (2005).

Os coeficientes de digestibilidade da energia e dos nutrientes das dietas foram determinados de acordo com a expressão proposta por Nose (1960):

em que: CDA = coeficiente de digestibilidade aparente (%); %Id e %If = % Indicador na dieta e nas fezes, respectivamente; e %Nf e % Nd = % de nutrientes nas fezes e na dieta, respectivamente.

A retenção de nitrogênio foi calculada de acordo com a expressão:

em que: Rn = retenção de nitrogênio (%); Nf = nitrogênio corporal final (%); Pf = peso final (g); Ni = nitrogênio corporal inicial (%); Pi = peso inicial (g); Nc = nitrogênio consumido (g).

A excreção de nitrogênio fecal foi determinada segundo a expressão:

em que: Ne = nutriente excretado (g/t GP); Nc = nitrogênio consumido (g); CDAn = coeficiente de digestibilidade aparente do nutriente (%); GP = ganho de peso (g).

As análises químico-bromatológicas das dietas e corporal dos peixes foram realizadas no Laboratório de Análise de Alimentos do Departamento de Zootecnia da Universidade Estadual de Maringá segundo Silva & Queiroz (2002).

Os dados foram submetidos à análise de variância e regressão polinomial, utilizando-se o programa SAEG da Universidade Federal de Viçosa (1982).

 

Resultados e Discussão

Não foi observado efeito (P>0,05) dos níveis de proteína digestível nas dietas sobre o ganho de peso diário, o índice hepatosomático, a gordura visceral, o rendimento de filé, os teores corporais de umidade, proteína bruta e cinzas, o conteúdo de cinzas no filé, a taxa de sobrevivência e o diâmetro das fibras brancas do músculo dorsal.

Foram obtidos valores médios de 71,21 ± 5,71; 69,05 ± 3,74; 66,15 ± 3,15 e 66,40 ± 3,93 μm de diâmetro das fibras musculares para os peixes alimentados com dietas contendo 26,74; 25,82; 23,09 e 22,16% de proteína digestível, respectivamente.

O crescimento do tecido muscular ocorre por dois processos: aumento do diâmetro da fibra (hipertrofia) e aumento do número de fibras existentes (hiperplasia), por meio da atividade dos mioblastos indiferenciados (células satélites), que também estão envolvidos nos processos de reparação muscular em casos de lesão (Camargo, 2004).

A diferenciação muscular origina a maior massa de tecido do organismo, correspondendo a aproximadamente 50% do peso corporal na maioria das espécies animais. Considerando que os maiores componentes do músculo são as fibras musculares, deduz-se que a taxa de crescimento pós-natal de um músculo é determinada pelo número de fibras musculares e pela taxa de crescimento individual das fibras (Scheuermann, 2004).

A mensuração da área/diâmetro das fibras constitui um parâmetro importante na avaliação do crescimento muscular e também para verificar qual tipo de fibra é mais susceptível ao crescimento. Smith & Fletcher (1988) verificaram em aves que as fibras brancas têm taxas de crescimento superiores às das fibras vermelhas. Mais recentemente, Aguiar et al. (2005) determinaram que o diâmetro das fibras brancas de tilápias-do-nilo é superior ao das fibras vermelhas e intermediárias.

Segundo Johnston et al. (1975), o crescimento muscular está associado ao aumento do diâmetro das fibras e influenciado pelo nível nutricional da dieta. Em peixes adultos, espera-se que a hipertrofia das fibras promova aumento da massa muscular, aumento do peso do filé e produção de carne.

Aguiar et al. (2005) destacaram a importância do adequado nível de lisina na dieta sobre o crescimento das fibras brancas de larvas de tilápia-do-nilo. A lisina, juntamente com a metionina e treonina, são aminoácidos importantes para o crescimento dos peixes, particularmente no desenvolvimento das fibras musculares, principalmente durante o período de crescimento hipertrófico, objetivando o aumento na produção de filés.

A suplementação de arginina é necessária para atender sua exigência para manutenção e produção e evitar antagonismos com a lisina, assim, é importante uma relação arginina:lisina próxima de 1 em dietas para tilápia-do-nilo (Furuya et al., 2004b).

A hiperplasia é mais acentuada nas fases larval e de alevino, mas posteriormente predomina o crescimento hipertrófico das fibras. Aguiar et al. (2005) e Furuya et al. (2005) verificaram diâmetros próximos de 22 e 30 μm para tilápias de 0,48 e 125 g, respectivamente.

Para os diâmetros das fibras do músculo dorsal dos peixes, foi observado acentuado grau de hipertrofia em relação aos peixes mais jovens: as de menor diâmetro foram mais arredondadas, enquanto as de maior diâmetro apresentaram aspecto mais hipertrófico e tiveram contorno poligonal. O tecido conjuntivo que envolve cada uma das fibras apresentou-se pouco desenvolvido, conferindo aspecto compacto às mesmas.

Neste trabalho, confirmou-se a possibilidade de redução da proteína digestível, de 26,74 para 24,53%, em dietas para tilápias-do-nilo, uma vez que a suplementação de aminoácidos em dietas com menores teores de proteína atendeu às exigências para crescimento muscular, possibilitando a manutenção do crescimento em peso, composição de proteína corporal e diâmetro das fibras dos peixes. Possivelmente, é necessária a suplementação de aminoácidos essenciais e não-essenciais para maior redução do nível de proteína, o que pode ser inviável do ponto de vista econômico, em função do elevado custo dos aminoácidos.

Os níveis de proteína tiveram efeito quadrático (P<0,05) sobre a conversão alimentar (Figura 1), a taxa de eficiência proteica, a retenção de nitrogênio e a excreção de nitrogênio, de modo que os melhores valores foram estimados com 24,53; 24,25; 24,04 e 25,15% de proteína digestível, respectivamente (Tabela 2).

 

 

A possibilidade de redução da proteína bruta da dieta, de 30 para 25%, com a suplementação de lisina já foi demonstrada por Viola & Lahav (1991) em experimento com carpas. Para tilápias-do-nilo de 4 a 120 g, Furuya et al. (2005) descreveram a possibilidade de redução da proteína digestível da dieta de 33,7 para 30,89% com a suplementação de metionina, lisina e treonina, enquanto Botaro et al. (2007) relataram que a proteína digestível em dietas para tilápias-do-nilo de 35 a 270 g pode ser reduzida de 29,12 para 26,2% com a suplementação de metionina, lisina e treonina.

Cheng et al. (2003) observaram possibilidade de redução do teor de proteína, de 42 para 37%, em dietas para truta arco-íris com a suplementação de lisina, metionina, treonina e triptofano. Com a mesma espécie, Gaylord & Barrows (2009) demonstraram que é possível reduzir, de 45 para 35%, a proteína bruta da dieta por meio da suplementação de lisina, metionina, treonina, glicina e taurina, sem prejuízos sobre o ganho de peso, a conversão alimentar, a utilização da proteína da dieta e o rendimento de filé. Esses autores também observaram menor valor de índice hepatossomático dos peixes alimentados com dietas contendo 35% de proteína bruta, fato não verificado neste trabalho, em que o peso do fígado foi relacionado ao peso corporal dos peixes ao final do experimento e não aos níveis de proteína das dietas.

A eficiência de utilização dos aminoácidos sintéticos tem sido controversa em peixes, principalmente em dietas para bagre-do-canal, como demonstrado por Li & Robinson (1998), que não observaram efeitos positivos da suplementação de lisina e metionina sobre o desempenho da espécie em estudo objetivando reduzir o teor de proteína da dieta. Destaca-se que as diferenças relacionadas aos níveis de energia, proteína e aminoácidos, bem como no manejo alimentar dos peixes, podem influenciar os resultados obtidos.

Estimou-se que a menor excreção de nitrogênio seria obtida com 25,25% de proteína digestível, tendo em vista o melhor balanceamento de aminoácidos da dieta. No entanto, a redução do nível de proteína abaixo do valor citado não permitiu adequada utilização da fração nitrogenada, o que pode ter sido consequência da elevada inclusão de aminoácidos sintéticos, que são rapidamente absorvidos, em comparação a aminoácidos ligados à proteína dos alimentos (Yamada et al., 1981; Cowey & Walton, 1988), com a elevação súbita dos aminoácidos sintéticos nos níveis plasmáticos (Schumacher et al., 1997), e pelas perdas por catabolismo (Plakas & Katayama, 1981; Murai et al., 1985). Além disso, com a redução de proteína, pode ter ocorrido deficiência de outro aminoácido, que não era limitante nos níveis mais elevados de proteína e que não foi suplementado nas dietas.

Outro fator que pode influenciar a utilização dos aminoácidos sintéticos pelos peixes é a alta taxa de lixiviação dos aminoácidos sintéticos em dietas para peixes (Zarate & Lovell, 1997). Neste trabalho, adotou-se a frequência de arraçoamento de quatro vezes por dia para evitar sobras e perdas de aminoácidos para o meio aquático.

Pesquisadores têm demonstrado a importância da utilização de aminoácidos sintéticos em dietas para peixes quando utilizadas fontes alternativas de proteína em substituição à farinha de peixe, principalmente quando se deseja reduzir o nível de proteína da dieta. Para a redução do nível de proteína, além da metionina e lisina, há necessidade de avaliar a presença dos demais aminoácidos de forma quantitativa e qualitativa, principalmente para evitar a presença de aminoácidos limitantes e antagonismos entre os mesmos. É necessário verificar também os níveis dos aminoácidos não-essenciais (Cowey, 1994) considerando as elevadas perdas de nitrogênio endógeno em relação aos animais terrestres (Abboudi et al., 2009).

Não foi observado efeito (P>0,05) dos níveis de proteína da dieta sobre os teores de umidade, proteína, e cinzas corporais e de cinzas no filé. A redução nos níveis de proteína da dieta teve efeito quadrático (Tabela 3) sobre os teores de gordura corporal, umidade, proteína (Figura 2) e gordura nos filés.

 

 

 

 

Apesar da importância da composição química corporal, destaca-se a dificuldade de preparo da amostra para análises laboratoriais, pela presença de ossos, escamas e nadadeira, que dificultam a moagem dos peixes e obtenção de amostra homogênea, o que não ocorre com amostras de filés. Assim, presupondo a relação positiva entre a composição química corporal e do filé, parecem ser mais adequadas as inferências dos efeitos da redução da proteína digestível da dieta sobre a composição química dos filés.

A composição em umidade dos filés dos peixes foi inversamente relacionada aos teores de proteína e gordura nos filés, de modo que os menores teores de umidade foram observados nos maiores teores de proteína e gordura nos filés. O adequado nível de proteína e o balanceamento de aminoácidos influenciaram a deposição de proteína nos filés, mas não acarretou redução nos níveis de gordura, principalmente pela suplementação de lisina, como observado por Zhou et al. (2007) em experimento com juvenis de cobia (Rachycentron canadum).

Com a redução dos níveis de proteína na dieta, foi observada redução linear nos coeficientes de digestibilidade aparente da energia bruta, proteína bruta, extrato etéreo e fósforo das dietas (Tabela 4).

 

 

A redução nos coeficientes de digestibilidade da energia e dos nutrientes da dieta com o menor teor de proteína provavelmente está relacionada à maior inclusão de farinha de peixe, em função do maior valor de cinzas, que reduz a digestibilidade da energia e nutrientes, piorando a conversão alimentar. Para tilápias-do-nilo, valores inferiores de coeficientes de digestibilidade da matéria seca e proteína bruta da farinha de peixe em relação aos obtidos com o farelo de soja foram encontrados por Furuya et al. (2001), Pezzato et al. (2002) e Guimarães et al. (2008).

As tilápias destacam-se pela elevada digestibilidade da energia e nutrientes dos alimentos convencionais e alternativos de origem vegetal (Fagbenro, 1998; Pezzato et al., 2002), principalmente pela utilização dos carboidratos como fonte de energia (Degani & Revach, 1991), o que não ocorre na mesma proporção em peixes carnívoros (NRC, 1993). De acordo com (Kubarik, 1997), as tilápias possuem adaptações morfológicas e fisiológicas que permitem a utilização mais eficiente dos alimentos de origem vegetal (Hanley, 1987; Guimarães et al., 2008a,b).

Para adequada suplementação de aminoácidos, é necessário o conhecimento das exigências e da digestibilidade dos aminoácidos dos alimentos utilizados. Nos últimos anos, com a determinação dos coeficientes de digestibilidade aparente da energia e proteína dos alimentos convencionais e alternativos (Furuya et al., 2001; Pezzato et al., 2002) e valores de proteína e aminoácidos digestíveis dos alimentos (Furuya et al., 2001; Pezzato et al., 2002; Guimarães et al., 2008a,b) para a tilápia-do-nilo, há possibilidade de elaboração de dietas mais precisas, que atendam as exigências dos peixes e que resultem em menor impacto ambiental.

 

Conclusões

É possível reduzir de 26,74 para 24,53% a proteína digestível em dietas para a tilápia-do-nilo na fase de 100 a 500 g.

 

Referências

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Recebido em 15/10/2009 e aprovado em 22/4/2010.

 

 

Correspondências devem ser enviadas para: joserighetti@emater.pr.gov.br

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