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Brazilian Journal of Psychiatry

Print version ISSN 1516-4446On-line version ISSN 1809-452X

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.21 n.3 São Paulo Sept. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44461999000300007 

artigos originais


Sintomas de conteúdo religioso em pacientes psiquiátricos

Symptoms of religious content on psychiatric patients

 

Clarissa de Rosalmeida Dantas1, Lilian Bianchi Pavarin2 e Paulo Dalgalarrondo3


 

 

RESUMO
INTRODUÇÃO:
Vários trabalhos têm identificado a importância da religiosidade na vida pessoal, nas relações sociais, nas atitudes e representações relacionadas a saúde e doença, assim como na composição dos sintomas psiquiátricos. Poucos estudos empíricos em nosso meio têm investigado as relações entre religiosidade e perfil psicopatológico.
OBJETIVO: O presente trabalho visa avaliar fatores socioculturais e sintomas psicopatológicos gerais associados à presença e intensidade de sintomas com conteúdos religiosos ou místicos.
MÉTODO: Foram estudadas 200 internações consecutivas na unidade psiquiátrica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). As escalas de avaliação de sintomas psicopatológicos foram: BPRS-forma expandida e o GAS, acrescentando-se um item referente a sintomas religiosos, o qual explicitamente solicitava ao avaliador que verificasse a presença e intensidade de sintomas de conteúdo religioso. O nível de significância estatística considerado foi p<0,01.
RESULTADO: Sintomas religiosos com grau de intensidade moderado a muito intenso estiveram presentes em 15,7% dos casos (n=28). Não foram encontradas relações significativas entre presença e intensidade de sintomas religiosos e as seguintes variáveis socioculturais: filiação religiosa, intensidade de prática religiosa e diagnóstico psiquiátrico. Foram encontradas correlações positivas entre presença e intensidade dos sintomas religiosos e sintomas do espectro maníaco.
CONCLUSÕES: O presente trabalho, embora de natureza exploratória e preliminar, sugere que se deva estudar com mais cuidado e profundidade as experiências religiosas de pacientes bipolares, particularmente a associação de vivências maníacas a vivências religiosas e místicas.

DESCRITORES
Religião; psicopatologia; sintomas maníacos; cultura

 

ABSTRACT
BACKGROUND:
A number of studies have identified the role of religion in personal life, social relationships, attitudes and values related to health and mental illness. Moreover, religious personal experience has been proved to contribute to the genesis and configuration of psychiatric symptoms. Few empirical studies have investigated in Brazil the interaction of religiosity and psychopathology.
OBJECTIVE: The study aims to evaluate the relationship between mental symptoms of religious content, social and cultural factors and general psychiatric symptoms.
METHOD: A number of 200 consecutive admissions in a General Hospital psychiatric in-patient unit were reviewed. In order to identify symptoms of religious content, a specific item was added to the BPRS-extended form. Statistical significance was considered above the 0.01 level.
RESULTS: Moderate to intense symptoms of religious content were present in 15.7% of all patients. No significant interactions were identified between religious affiliation, religious commitment and psychiatric diagnosis. Strong correlations were found between religious content and symptoms of the manic spectrum.
CONCLUSIONS: Although the descriptive design of the present study refrains further conclusions, the results indicate that the relationship between manic symptoms and religious experiences should be further investigated in future studies.

KEYWORDS
Religion; psychopathology; manic symptoms; culture

 

 

Introdução

Atualmente, a questão da religiosidade vem ganhando reconhecimento como tema de pesquisas em psiquiatria. Não obstante, revisões sistemáticas de estudos publicados em importantes jornais psiquiátricos indicam que a variável religiosa é raramente investigada e, quando isso é feito, revela-se geralmente uma abordagem metodológica e conceitual inadequada.1 Além disso, vários autores têm chamado a atenção para uma excessiva e, eventualmente, preconceituosa associação feita entre religiosidade e psicopatologia na literatura psiquiátrica.2-4

Religião como dimensão humana fundamental

A religião, tanto nas suas formas sociais e institucionais, como na sua dimensão individual, é objeto sumamente complexo. Willian James5 funda no início do século, com seu "The varieties of religious experience", um importante ramo da psicologia social; a psicologia da religião. Ele defendeu a tese de que as experiências religiosas individuais, em oposição às concepções doutrinárias e preceitos estabelecidos das religiões organizadas, constituiriam o núcleo central da vida religiosa. Assim, a experiência religiosa viva do crente, mais ou menos organizada, experimentada de forma plena, cheia de paixão, contradições e envolvimento afetivo, deve formar o cerne da psicologia da religião.

Freud,6,7 em seus diversos estudos sobre a religião, elabora a idéia de que a religião seria para a vida social o que a neurose é para a vida individual. Ele contrapõe a neurose obsessiva às práticas religiosas (ritos, tabus, proibições, etc). Na perspectiva freudiana a religião é vista como uma forma privilegiada de defesa contra medos primitivos, impulsos irracionais e inaceitáveis. Além disso, Freud destacava a religião como recurso cultural do qual o ser humano dispõe para lidar com o desamparo básico.

Jung,8 em contraposição a Freud, desenvolve uma elaboração teórica mais favorável à religiosidade. Para ele, a religião permite ao homem o contato com símbolos e arquétipos fundamentais pelos quais os seres humanos isoladamente ou coletivamente encontram explicações e significado para os mistérios e dificuldades em suas vidas.

A visão da antropologia cultural

É abundante e complexa a produção teórica e empírica da antropologia cultural em relação à religião. Não cabe aqui abarcar toda essa rica produção.

Para Malinowski,9 o que determina a cultura e suas variantes (incluindo a religião) são necessidades biológicas básicas e psicológicas secundárias. As instituições sociais seriam respostas culturais a tais necessidades, respostas que só podem ser formuladas coletivamente. Assim, a religião é uma das respostas culturais possíveis às necessidades básicas e secundárias sentidas pelo corpo social.

Na últimas décadas, o antropólogo Cliford Geertz10 tem formulado teses muito fecundas, buscando compreender a religião dentro de um marco de antropologia hermenêutica. Em seu brilhante trabalho "A religião como sistema cultural", ele afirma que a religião se inscreve no centro da cultura, sendo portanto elemento estratégico na elucidação dos múltiplos significados que o convívio social implica. Ele condensa seu conceito de religião em cinco proposições básicas; afirmando que uma religião é: 1) Um sistema de símbolos que atua para 2) estabelecer poderosas, permanentes e duradouras disposições e motivações nos homens através da 3) formulação de conceitos de uma ordem de existência geral e 4) vestindo essas concepções com tal aura de fatualidade que 5) as disposições e motivações parecem singularmente realistas.

Neste sentido, a perspectiva de muitos autores da chamada "Psiquiatria Cultural" (Kleiman, Leff, Good, etc) indica que a religião cumpre duas tarefas culturais e psicológicas fundamentais: possibilita a construção de um mundo possível, de uma ordem plausível e aceitável, dando um sentido ao caos fenomênico da experiência; e, em segundo lugar, permite ao homem sofrer, isto é, que o sofrimento tenha uma determinada forma, um determinado sentido. Assim, numa perspectiva das ciências sociais e psicológicas contemporâneas, a religião não é mais vista como simples sistema defensivo ou de alienação. Seu papel como instituição social, organizador da experiência subjetiva, tem sido enfatizado tanto por cientistas sociais como por pesquisadores das áreas de saúde mental.

Religião e psicopatologia

A maioria dos trabalhos aponta para uma associação benéfica entre religiosidade e saúde mental.4 A conversão a um grupo religioso e a realização de rituais religiosos foram relacionados com menores índices de estresse e com melhora no bem-estar psicológico, medidos através de escalas padronizadas, em estudos tanto retrospectivos quanto prospectivos.11-13

Um dos mais importantes psicopatólogos deste século, o alemão Kurt Schneider,14 dedicou um livro à questão da relação entre religião e psicopatologia: "Zur Einführung in die Religionspsychopathologie" (Para uma introdução à psicopatologia da religião). Trata-se de um cuidadoso estudo referente a como doentes mentais de diferentes grupos diagnósticos vivenciam fenômenos religiosos, como seus sintomas estão profundamente marcados pelas dimensões místicas, como o sagrado é recorrente nos conteúdos da patologia mental. O psicopatólogo chama especial atenção para as vivências religiosas de pacientes esquizofrênicos.

Ndetei e Vadher15 estudaram quantitativamente a fenomênica religiosa em quase 600 pacientes de nove diferentes grupos culturais internados em um hospital londrino. Sintomas de conteúdo religioso estiveram presentes em 20% dos casos estudados, sendo determinados mais pelo contexto histórico-cultutral dos pacientes do que por sua denominação religiosa.

Larson et al.,16 em uma metanálise, encontraram diferenças na representação de denominações religiosas em amostras psiquiátricas, quando comparadas a amostras nacionais norte-americanas com sobre-representação de judeus, sub-representação de protestantes e católicos aparecendo homogeneamente em proporção com as amostras nacionais. Dados semelhantes já haviam sido relatados em outros trabalhos,17 sendo interpretados por seus autores como resultado de filtros na busca e obtenção de serviços de saúde mental.

Um estudo18 com amostras de pacientes psiquiátricos internados em um hospital público e universitário, no Brasil, e em uma clínica psiquiátrica na Alemanha, mostrou uma maior prevalência de diagnósticos de psicoses funcionais nos grupos religiosos pentecostais e seitas minoritárias cristãs, quando comparados a grupos majoritários. Esses resultados, somando-se aos de pesquisas prévias, reforçam as evidências de que a denominação religiosa influencia o acesso e o uso de serviços de saúde. Grupos evangélicos preferem claramente encaminhar pessoas com dificuldades comportamentais ou emocionais leves para pastores e outros conselheiros religiosos a encaminhá-los aos serviços médicos oficiais. Os membros de seitas e grupos religiosos minoritários com distúrbios neuróticos e de adaptação ficam provavelmente retidos no contexto da igreja e lá são "tratados" via participação nos cultos e outras práticas religiosas. Para os serviços psiquiátricos de internação seriam encaminhados apenas os casos mais graves, como as psicoses, que extrapolariam as possibilidades de cura simbólica pelo contexto religioso.

Um estudo19 com pacientes psiquiátricos internados mostrou que, quando comparados a outros grupos diagnósticos, os deprimidos apresentavam uma porcentagem de crença em Deus menor que a média, assim como o menor índice de experiências religiosas. Por outro lado, crenças e práticas religiosas mais fortes foram relacionadas a menores índices de sintomas depressivos e melhora clínica mais rápida em mulheres idosas com fratura de bacia,20 menores índices de depressão em homens idosos internados por doenças não-psiquiátrica e menor tempo até a remissão dos sintomas depressivos presentes em homens idosos após a alta hospitalar.21,22 Há ainda achados que indicam que a religiosidade dos pais não apenas relaciona-se com melhores índices de saúde mental dos próprios pais, mas também é um fator protetor contra a depressão nos filhos, notadamente quando há concordância entre religiosidade materna e religiosidade filial.23,24 Em todos esses estudos, é ressaltada a importância da religião como estratégia sociocultural utilizada pelos pacientes na tentativa de lidar de forma bem sucedida com a própria doença e com outras adversidades.

Durkheim,25 em sua teoria sobre o suicídio, argumenta que a religião promove valores compartilhados, interação e limites sociais fortes que evitam que o indivíduo se sinta isolado e, ao mesmo tempo, estabelecem um conjunto de ideais pelos quais viver, constituindo-se em um fator protetor contra o suicídio. Sua teoria básica vem ganhando suporte empírico, principalmente quando se leva em consideração os aspectos mais amplos de religiosidade e adesão religiosa e não apenas aspectos puramente denominacionais. 26-29

A religiosidade também parece exercer efeito protetor contra outros comportamentos desviantes. Foi descrita, por exemplo, como um dos fatores ambientais/familiares mais importantes na redução do risco de uso e abuso de álcool, tabaco e drogas ilícitas.30

Crenças religiosas têm um papel importante e freqüentemente central na vida diária dos pacientes.19,31 Neeleman,32 comparando grupos diagnósticos psiquiátricos entre si e com um grupo de controles médicos, encontrou dados sugestivos de que pacientes psiquiátricos têm atitudes e crenças religiosas mais fortes que os pacientes não psiquiátricos, mesmo eliminando-se a influência de fatores demográficos, étnicos e sociais, e que, além disso, as crenças religiosas são mais acentuadas em pacientes mais gravemente doentes.

Estando presente de forma tão significativa no universo cultural dos pacientes, aspectos religiosos também podem permear manifestações psicopatológicas, tornando-se, por exemplo, o veículo de expressão de necessidades e conflitos neuróticos ou tema/conteúdo de experiências psicóticas.33

 

Objetivos

Tendo em mente essas considerações sobre o importante papel das crenças e práticas religiosas sobre a doença mental, particularmente no meio religioso e cultural brasileiro, o presente trabalho visa avaliar dados socioculturais e sintomas psicopatológicos gerais associados à presença e intensidade de sintomas com conteúdos religiosos ou místicos.

 

Métodos

Foram revistas 200 internações consecutivas na unidade psiquiátrica do Hospital de Clínicas da Unicamp (com 16 leitos) em Campinas, Brasil. Tal hospital é público e universitário, cobrindo uma população de cerca de 2 milhões de habitantes.

Os dados desse trabalho foram obtidos a partir de um formulário padronizado adotado no serviço de psiquiatria do HC-Unciamp.

Os campos desse formulário utilizados foram: idade, sexo, anos de escolaridade com sucesso, denominação religiosa, freqüência aos cultos religiosos, diagnóstico clínico. As escalas de avaliação de sintomas psicopatológicos foram: BPRS-forma expandida, acrescentando-se um item referente a sintomas religiosos, e GAS.

As denominações religiosas foram agrupadas em católicos, protestantes (incluindo protestantes históricos e pentecostais) e outros (incluindo testemunhas de Jeová, seicho-no-iê, espírita kardecista, umbanda/candomblé e outras).

O diagnóstico psiquiátrico foi realizado adotando-se os critérios diagnósticos da CID-10. Para efeito de análise estatística, os diagnósticos foram agrupados em cinco grandes grupos (figura 1).

 

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O "BPRS-forma expandida" consiste em uma escala na qual a intensidade de 25 sintomas psicopatológicos é avaliada atribuindo-se os valores de 1 a 7.

O item adicional referente a sintomas de conteúdo religioso explicitamente solicitava ao avaliador que verificasse a presença e intensidade de sintomas religiosos com a seguinte definição: "qualquer sintoma ou vivência, como por exemplo, delírios ou alucinações religiosas ou místicas, idéias sobrevalorizadas de conteúdo religioso, suficientemente intensas e um tanto destoantes do contexto sociocultural do paciente. Idéias de ter estado possuído por entidade sobrenatural (como o demônio, um orixá ou o Espírito Santo). Perguntas que foram formuladas: Você sente que alguma coisa sobrenatural (do tipo religioso) tem ocorrido com você? Você percebe que Deus (Jesus, o Espírito Santo) ou o demônio estariam tendo influência sobre você? Você se sente especialmente ligado a Deus (Jesus, etc.)?

A análise estatística foi feita através do teste qui-quadrado, do teste de correlação de Spearman, do teste t de Student para comparação de médias e de análises de variância (ANOVA). O nível de significância estatística considerado foi p<0,01.

 

Resultados

A média da idade dos pacientes foi de 34,4 ± 13,7 anos (11-68), com 46% de homens (n=92) e 54% de mulheres (n=108). A escolaridade média (em anos de escola com sucesso) foi de 6,4 ± 4,3 (0-20).

A distribuição das denominações religiosas foi: católicos, 59,5% (n=119), protestantes 20,5% (n=41) e outros 20,0% (n=40).

A freqüência aos cultos religiosos (em vezes por mês) foi em média 2,6 ± 4,2 para todos os casos em que esse campo da ficha foi preenchido (68%, n=116). Católicos apresentaram freqüência em média de 1,5 ± 3,4; protestantes, 5,7 ± 4,3; e outros, 2,5 ± 4,2, sendo significativa a diferença entre os grupos (p < 0,001).

Quanto ao diagnóstico psiquiátrico, os casos distribuíram-se da seguinte forma: esquizofrenia 28,0% (n=56), Depressão 24,0% (n=48), mania 19,0% (n=38), neuroses e transtornos da personalidade 9,5% (n=19), e outros 19,5% (n=39). A freqüência dos diferentes diagnósticos em cada grupo religioso está resumida na tabela 1. Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos religiosos quanto ao diagnóstico.

 

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Sintomas psicopatológicos e religiosos

A escala de sintomas BPRS - forma expandida foi preenchida em 188 fichas (98%). A pontuação média na escala foi 57,1 ± 64,8. Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos religiosos quanto à pontuação média no BPRS. Também não foram encontradas diferenças significativas quanto ao BPRS entre os grupos diagnósticos. Os dados estão apresentados na tabela 2.

 

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O item do BPRS referente a sintomas religiosos foi preenchido em 178 fichas (89%). A pontuação média foi 1,7 ± 1,5. Os grupos religiosos e os grupos diagnósticos não diferiram quanto à pontuação média no item "sintomas religiosos".

Sintomas religiosos com grau de intensidade moderado a muito intenso estiveram presentes em 15,7% dos casos (n=28) em que esse item estava preenchido. Não foram encontradas relações significativas entre presença e intensidade de sintomas religiosos e as seguintes variáveis socioculturais: filiação religiosa, intensidade de prática religiosa e diagnóstico psiquiátrico.

A idadecorrelacionou-se positivamente com a presença e intensidade de sintomas religiosos (r=0,20, p<0,01). Devido a este fato, foi testada a relação entre sintomas religiosos e os outros sintomas aferidos pelo BPRS-forma expandida, utilizando a técnica de correlação parcializada, controlando a variável idade. Assim, encontramos uma correlação positiva entre os seguintes sintomas e a presença e intensidade dos sintomas religiosos: comportamento bizarro (r=0,32, p<0,01), desorganização conceitual(r=0,27, p<0,01), excitação (r=0,29, p<0,001), grandiosidade (r=0,69, p<0,001), hiperatividade motora (r=0,27, p<0,01), humor elevado (r=0,21, p<0,005), pensamentos não-habituais (r=0,29, p<0,01) e tendência à distração (r=0,22, p<0,01). Foi encontrada uma correlação negativa entre sintomas religiosos e depressão (r= -0,20, p<0,01).

Não houve correlação significativa entre a presença e intensidade de sintomas religiosos e todos os outros sintomas aferidos pelo BPRS (tabela 3).

 

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Discussão

Estudar quantitativamente, com métodos estatísticos, a relação entre psicopatologia e religiosidade é um procedimento passível de crítica. Da mesma forma, agrupar conjuntamente diferentes denominações religiosas pode ser considerado algo inadequado. Entretanto, do ponto de vista psicossocial e sociológico, os grupos religiosos aqui agrupados têm muitos pontos em comum, diferindo mais em termos teológicos e doutrinários.18, 34

A denominação religiosa, embora pressuponha a existência de um conjunto de crenças e práticas compartilhadas, não é considerada atualmente uma boa medida da dimensão religiosa.1,35 De fato, o conceito mais amplo e multidimensional de "religiosidade", considerada como o conjunto de crenças, valores, práticas rituais e atitudes, parece ser mais rico e fecundo. Os estudos futuros das relações entre psiquiatria e religião deverão, portanto, concentrar-se sobre dimensões mais abrangentes e sutis da vida religiosa.

Neste trabalho, a denominação religiosa foi estudada como fator sociocultural, supostamente associado à presença e à intensidade de sintomas de conteúdo religioso, e não como a variável religiosa central.

A freqüência aos cultos foi significativamente maior no grupo de protestantes (dado já esperado), pois grupos religiosos minoritários tendem a ser mais coesos, com maior participação dos membros nas atividades da igreja.12,18,34,36

Os grupos religiosos não apresentaram diferenças quanto à prevalência dos diferentes diagnósticos psiquiátricos. Estudos em amostras clínicas, de um modo geral, apontam para uma maior freqüência de diagnósticos de psicoses em membros de seitas e grupos religiosos minoritários,10,12 a qual tende a ser atribuída a efeitos de seleção, secundários a filtros na busca e obtenção de atenção médica. Possivelmente, em nossa amostra clínica esses efeitos de seleção atuaram de forma diferente, não determinando variações na prevalência dos diagnósticos psiquiátricos. Apesar disso, houve uma tendência, ainda que não significativa estatisticamente, a um escore de sintomas psicopatológicos (pontuação total no BPRS) maior no grupo de protestantes.

Não se encontrou associação entre a filiação a um determinado grupo religioso e a presença de sintomas religiosos. Dados semelhantes já haviam sido descritos. Ndetei e Vadher,15 estudando a fenomênica religiosa em pacientes psiquiátricos, constataram que a presença de sintomas de conteúdo religioso explicava-se melhor por fatores histórico-culturais mais amplos do que pela denominação religiosa atual dos pacientes psiquiátricos.

Sintomas com conteúdo religioso, em algum grau, estiveram presentes em 23% dos casos estudados e, de modo evidente, em 15,7%, freqüência próxima à encontrada por Ndetei e Vadher,15 20%, em pacientes psiquiátricos internados em Londres. Em uma revisão da literatura sobre idéias religiosas e transtornos psiquiátricos,37 sintomas de conteúdo religioso foram relatados com freqüências variando entre 13,5% e 20%. Essa porcentagem reforça a importância de se levar em consideração aspectos ligados à religiosidade dos pacientes. Note-se que esse número diz respeito apenas a sintomas psicopatológicos, não abrangendo outras vivências pessoais pelas quais a questão da religião pode assumir importância na abordagem de pacientes psiquiátricos.

Seria esperado que determinadas filiações religiosas (por exemplo, as denominações minoritárias, com mais características de seitas) e uma freqüência maior aos cultos (indicando indiretamente uma religiosidade mais intensa) se correlacionariam mais significativamente com a presença de sintomas de conteúdo religioso. Embora essas hipóteses sejam plausíveis, os dados empíricos obtidos as rejeitaram.

Apesar de não ter sido observado que grupos diagnósticos específicos revelem maior freqüência e intensidade de sintomas religiosos e místicos, verificou-se que determinados sintomas, particularmente encontrados em pacientes "maníacos" – excitação, humor elevado, hiperatividade, desorganização conceitual, tendência à distração e idéias de grandeza – parecem estar mais intimamente associados a conteúdos religiosos e místicos. Por outro lado, não houve associação a sintomas como culpa, ansiedade e tendência suicida. Em relação à depressão, a associação encontrada foi negativa.

Beit-Hallahmi e Argyle,37 revisando a literatura da década de 60, encontraram três estudos nos quais a presença de sintomas de conteúdo religioso estava fortemente associada a transtornos afetivos, embora os autores citem também o Group for the Advancement of Psychiatry de 1968, que afirmou o papel mais importante da religião na depressão e na esquizofrenia.

Quando questionados sobre experiências religiosas, no estudo de Kroll e Sheehan,19 70% dos pacientes esquizofrênicos e 55% dos pacientes com diagnóstico de episódio maníaco referiam ter tido experiências religiosas pessoais únicas, destoantes das de seu grupo religioso. Dos pacientes maníacos, 46% afirmavam que Deus falava através de si e porcentagem igual afirmava que Deus ou espíritos comunicavam-se consigo; as mesmas questões tiveram respostas afirmativas em 60% e 20% dos pacientes esquizofrênicos, respectivamente.

Embora, por questões metodológicas, os dados obtidos e os mencionados anteriormente não sejam diretamente comparáveis, podem ser considerados concordantes, posto que os sintomas que estiveram relacionados a vivências religiosas neste estudo estão presentes de forma muito importante em pacientes com transtorno afetivo bipolar, particularmente no episódio maníaco.

Ainda no estudo de Kroll e Sheehan,19 o grupo de pacientes com depressão foi o que apresentou o menor escore de experiências religiosas. A questão sobre experiências religiosas pessoais mencionada anteriormente, por exemplo, teve 25% de respostas afirmativas. Dos pacientes deprimidos, apenas 31% afirmavam que Deus falava através de si. Inversamente, são vários os estudos que apontam uma correlação negativa entre religiosidade e sintomas depressivos.20-23 Esses dados estão de acordo com o que encontramos em nosso trabalho: uma associação negativa entre sintomas de conteúdo religioso e depressão.

 

Conclusões

Os dados desse trabalho não deram suporte às hipóteses de que a presença e intensidade de sintomas de conteúdo religiosos estejam relacionadas a uma maior freqüência aos cultos religiosos e à denominação religiosa, evidenciando-se que esta última é uma variável pouco elucidativa quando se visa adentrar no difícil campo das relações entre a dimensão religiosa e saúde mental.

Também não foi encontrada maior prevalência de sintomas religiosos em grupos diagnósticos particulares, ao contrário daquilo que foi postulado no passado por autores clássicos da psicopatologia, como Schneider e Weitbrecht, que postulavam uma maior presença de vivências religiosas em esquizofrênicos ou epilépticos.

Por outro lado, sintomas de conteúdo religioso estiveram fortemente associados a quadros de hiperatividade motora, elevação do humor, excitação, tendência à distração, comportamento bizarro e grandiosidade. Da mesma forma, revelaram uma associação negativa com depressão.

Deve-se pois ressaltar que os dados obtidos no presente trabalho indicam que, ao contrário do que afirmavam alguns autores clássicos, as experiências religiosas relacionadas a estados maníacos parecem ser das mais significativas.

 

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Correspondência
Paulo Dalgalarrondo
Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria
Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp
Caixa postal 6111
13083-970 Campinas, SP
Email: pdalga@correionet.com.br

 

 

1. Acadêmicas de medicina da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp.
2. Professor do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da FCM/Unicamp.

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