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Revista Brasileira de Psiquiatria

Print version ISSN 1516-4446

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.22  s.1 São Paulo May 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462000000500006 


A epidemiologia da esquizofrenia

 

Jair J Maria e Raquel J Leitãob

aDepartamento de Psiquiatria da Unifesp/EPM. bDepartamento de Medicina Preventiva da Unifesp/EPM


 

 

A epidemiologia estuda a ocorrência e a distribuição de uma doença, ou condição relacionada à saúde, nos diversos grupos populacionais, procurando investigar os fatores determinantes em sua etiologia e prognóstico. Para o cálculo da freqüência da esquizofrenia na população, devem-se considerar o numerador (número de doentes) e a população (número de habitantes da área estudada) em determinada faixa etária. Em uma dada população, todos os casos devem ser incluídos no numerador. Alguns estudos epidemiológicos identificam seus casos a partir do contato com os serviços de atendimento, enquanto outros são desenvolvidos na comunidade, incluindo ou não os pacientes eventualmente institucionalizados.

 

Prevalência

A prevalência é a medida da proporção de indivíduos que apresentam um determinado transtorno no momento da avaliação (ponto-prevalência) ou em um período de tempo estabelecido (prevalência em um mês, no ano, na vida etc). Em uma revisão de vários estudos epidemiológicos conduzidos na Europa e nos Estados Unidos, Dohrenwend et al1 estimaram a prevalência de esquizofrenia com base na tendência central dos resultados (mediana) em 0,59%, com variação de 0,6% a 3%, dependendo dos critérios diagnósticos utilizados, não havendo evidência de diferença entre os sexos. Eaton2 revisou 25 estudos de prevalência de transtornos mentais realizados em diversos países a partir de 1960. Em cerca de 2 por 3 dos estudos analisados, a prevalência de esquizofrenia ficou entre 0,16% e 0,57%. Em revisão mais recente, Torrey (1987)3 analisou cerca de 70 estudos de prevalência publicados desde 1948, encontrando uma variação de 0,03% a 1,7%. Um estudo de prevalência de transtornos mentais foi conduzido por Santana4 no bairro do Ó, zona pobre da costa marítima de Salvador. A prevalência de esquizofrenia foi de 0,57% para os homens e de 0,36% para as mulheres (comunicação verbal da autora).

Trabalhos mais recentes, conduzidos com metodologia mais sofisticada, têm apresentado resultados acima desses valores, próximos a 1% da população.5 Em recente revisão da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o impacto mundial da doença, Murray & Lopez6 relataram uma taxa de prevalência de 0,92% para homens e 0,9% para mulheres. Taxas de prevalência mais elevadas (próximas a 1%) também têm sido relatadas em estudos recentes realizados na América Latina e no Brasil.7,8

 

Incidência

A incidência da esquizofrenia pode ser calculada diretamente em estudos populacionais do tipo corte transversal, ou por meio de dados sobre o contato de pacientes com unidades de serviços médicos e unidades psiquiátricas.

Primeira admissão hospitalar

A estimativa de incidência de uma doença pode ser obtida por intermédio de dados de primeira admissão hospitalar, geralmente no período de um ano. Walsh,9 por exemplo, estudou as primeiras internações psiquiátricas em Dublin durante o ano de 1962. A incidência da esquizofrenia foi de 5,7 por 10.000 habitantes nos homens e de 4,6 por 10.000 habitantes nas mulheres. Caetano10 calculou a taxa de primeira internação em hospitais brasileiros: a incidência da esquizofrenia variou de 1,9 a 3,9 por 10.000 habitantes na população masculina e de 1,8 a 3,2 por 10.000 na população feminina. Entretanto, esse tipo de coeficiente tende a dar um valor inferior ao real, pois nem todos os pacientes com esquizofrenia são tratados em hospitais psiquiátricos.

Registro de caso

O objetivo do registro de caso é traçar o caminho do paciente pelo sistema de assistência à saúde, de saúde mental e de serviços sociais situados na área de captação do registro. Hafner & Heiden11 fizeram uma compilação dos achados de incidência para esquizofrenia obtidos de 12 sistemas de registro de casos localizados na Europa, Estados Unidos e Austrália. A média foi 3,8 por 10.000 habitantes (desvio-padrão de 0,22) e a mediana de 5 por 10.000 habitantes. Em Nottingham, Reino Unido, Brewin et al12 encontraram uma taxa de incidência de 0,87 por 10.000, inferior àquela encontrada em um outro estudo da OMS para essa população no período de 1978 a 1980 (1,41 por 10.000). Suvisaari et al13 conduziram um estudo de seguimento, na Finlândia, da população nascida de 1954 a 1965, identificando por meio do registro de casos cerca de 5.645 pacientes com diagnóstico de esquizofrenia. Observaram um declínio na incidência de esquizofrenia, durante esse período, de 0,79 por 1.000 para 0,53 por 1.000 entre os homens e de 0,58 para 0,41 por 1.000 entre as mulheres.

Estudo multicêntrico

Por ser um transtorno de baixa incidência na população, uma metodologia apropriada para a construção epidemiológica da esquizofrenia é a colaboração multicêntrica, como a realizada por Sartorius et al.14 Nesse trabalho, 13 áreas de captação em 10 países diferentes participaram de um sistema de vigilância prospectiva, visando a identificar casos novos de esquizofrenia em todos os serviços médicos e sociais de uma área determinada, por um prazo de dois anos. Os pacientes foram divididos em dois grupos segundo o espectro diagnóstico adotado (amplo e restrito). Para o critério amplo, a incidência na população masculina variou de 1,5 a 4,2 por 10.000 habitantes com idade entre 15 e 54 anos, e de 1,2 a 4,8 na população feminina (diferenças estatisticamente significantes entre os centros). Para o critério restrito, nos homens a incidência caiu para uma variação de 0,8 a 1,7 por 10.000 e nas mulheres a variação foi de 0,5 a 1,4 por 10.000, desaparecendo a diferença estatística entre os centros. Com base nesses resultados, os investigadores concluíram que há uma síndrome de esquizofrenia "central" com uma probabilidade de ocorrência aproximada nas diferentes populações.

Idade de início e diferença entre os sexos

Casos novos de esquizofrenia raramente ocorrem antes da puberdade e acima dos 50 anos. Quando o começo é insidioso, há uma dificuldade de se estabelecer com precisão o início da doença. Albus et al15 investigaram 197 pacientes admitidos em um hospital psiquiátrico na Alemanha com diagnóstico de esquizofrenia pelos critérios do DSM-III-R. A idade na primeira admissão hospitalar foi mais precoce para os homens (média de 25 anos) do que para as mulheres (média de 30 anos). Entretanto, para o subgrupo de pacientes com história familiar positiva para transtornos psicóticos em parentes de primeiro grau não houve diferença entre os sexos quanto à idade de início, mas esses pacientes apresentaram um início de doença mais precoce do que aqueles sem antecedentes familiares. Suvisaari et al16 também observaram uma associação entre história familiar positiva e início mais precoce para a esquizofrenia.

 

O curso da esquizofrenia

Watt et al17 estabeleceram um corte de esquizofrênicos que haviam sido internados por um período de 20 meses (1973-1974) no hospital St. Jonhs em Buckinghamshire, Reino Unido, que atendia uma área de captação de cerca de meio milhão de habitantes. Os pacientes internados com diagnóstico de esquizofrenia ou com diagnósticos sugestivos da doença foram entrevistados com pressão sangüínea encefálica (PSE). Os autores conseguiram um corte de 121 esquizofrênicos (61 homens e 60 mulheres) representativo dessa população. Os autores conseguiram avaliar 107 esquizofrênicos após cinco anos, e verificaram que 48% dos pacientes tiveram um bom prognóstico. Na comparação entre sexos, das 22 mulheres da primeira internação, 15 (68,2%) apresentaram um bom prognóstico contra apenas 13 (50%) de um total de 26 homens. A diferença do curso da doença entre os sexos atingiu significância estatística.

Um outro fator importante relacionado com o curso da esquizofrenia emerge da comparação entre pacientes esquizofrênicos de países desenvolvidos e países em desenvolvimento. No estudo multicêntrico IPSS (International Pilot Study of Schizophrenia), Sartorius et al14 observaram que a proporção de pacientes com curso grave nos países desenvolvidos foi significativamente maior do que a verificada em pacientes de países menos desenvolvidos.18

Hegarty et al19 realizaram uma metanálise de 320 estudos selecionados sobre o curso da esquizofrenia nos anos de 1895 a 1992, abrangendo um total de 51.800 pacientes. Apenas 40,2% dos pacientes apresentaram uma melhora para um período médio de seguimento de 5,6 anos. O curso foi melhor quando se utilizaram critérios de diagnóstico mais abrangentes (46,5% apresentaram melhora) e pior para critérios mais restritos (27,3% melhoraram). A partir dos anos 50, houve uma melhora no prognóstico da esquizofrenia (48,5% apresentaram melhora), mas, na última década analisada pelo estudo, houve um declínio na melhora para apenas 36,4%, provavelmente refletindo a utilização de critérios mais restritos nos últimos anos.

 

Principais conclusões dos estudos epidemiológicos

As revisões dos estudos de prevalência de esquizofrenia originam uma estimativa aproximada de 0,5%. Os estudos de prevalência realizados nos últimos anos sugerem uma prevalência aproximada de esquizofrenia na ordem de 1%.

As diferentes estimativas de incidência da esquizofrenia sugerem a ocorrência de aproximadamente quatro casos novos por ano para uma população de 10.000 habitantes. A incidência real deve estar entre 1 e 7 casos novos para 10.000 habitantes por ano, dependendo do critério diagnóstico adotado na estimativa.

Os estudos epidemiológicos realizados no Brasil originam estimativas de incidência e prevalência compatíveis com as observadas em outros países. Não há consistência de possíveis diferenças na prevalência da esquizofrenia entre sexos, independentemente da metodologia empregada nos diferentes levantamentos epidemiológicos.

O começo da doença é mais precoce no homem do que na mulher. Entretanto, na presença de história familiar positiva para distúrbios psicóticos, a idade de início é mais precoce para homens e para mulheres.

Casos novos são raros antes da puberdade e depois dos 50 anos.

As mulheres apresentam um curso mais brando da esquizofrenia e, portanto, um melhor prognóstico e uma melhor possibilidade de adaptação social.

Dados de estudos multicêntricos sugerem que os pacientes de países menos desenvolvidos apresentam um prognóstico melhor na esquizofrenia. 

 

Referências

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Correspondência:
Jair de Jesus Mari
Departamento de Psiquiatria da Unifesp/EPM - Escola Paulista de Medicina - Rua Botucatu, 740, 3º andar. CEP 04023-900 - São Paulo, SP