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Revista Brasileira de Psiquiatria

versão impressa ISSN 1516-4446

Rev. Bras. Psiquiatr. v.26 n.1 São Paulo mar. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462004000100007 

ARTIGO ORIGINAL

 

Características de comportamento do filho único vs filho primogênito e não primogênito

 

 

Marcelo B.TavaresI; Felipe Costa FuchsI; Felipe DiligentiI; José Ricardo Pinto de AbreuII; Luis Augusto RohdeII; Sandra Costa FuchsIII

ICurso de Medicina, Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS, Brasil
IIDepartamento de Psiquiatria, Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS, Brasil
IIIDepartamento de Medicina Social, Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar o impacto de ser filho único sobre as caraterísticas de relacionamento com amigos e pais, desempenho escolar, comportamento social e sexual.
MÉTODOS: Realizou-se um estudo, incluindo um total de 360 adolescentes identificados no terceiro ano do ensino médio de uma escola privada de Porto Alegre, em 2000 e 2001. Adolescentes do sexo masculino e feminino, com idade entre 15 e 19 anos foram selecionados para participar de um estudo transversal. Um questionário anônimo, pré-testado e auto-administrado foi preenchido em sala de aula com dados demográficos, educação dos pais, ordem de nascimento (filho único, primogênito e não primogênito), tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas, uso de drogas ilícitas, desempenho escolar, comportamento social e sexual e outras características.
RESULTADOS: Identificaram-se 8% de adolescentes filhos únicos, 35% primogênitos e 57% não primogênitos em uma amostra socioeconomicamente homogênea. Comportamento social, relacionamento com os pais e amigos, prática de esportes, tabagismo e uso de drogas não se associaram com ordem de nascimento. Os filhos únicos menos freqüentemente relataram intoxicação alcoólica (39%) comparativamente aos primogênitos (68,9%; p=0,03) e adolescentes com irmãos (72,3%; p<0,001). Filhos únicos obtiveram melhor desempenho escolar do que os filhos com irmãos (p=0,03). Comportamento sexual diferenciou os filhos únicos devido à idade mais precoce com que iniciaram a atividade sexual e pela menor taxa de auto-identificação como heterossexual, a qual persistiu mesmo após controle para fatores de confusão comparativamente a filhos não primogênitos (p=0,038).
CONCLUSÕES: Nossos achados sugerem que ser filho único não está associado com pior desempenho em diversas áreas do desenvolvimento. O impacto da presença de irmãos no desenvolvimento da identificação sexual deve ser explorado em trabalhos futuros.

Descritores: Adolescência. Filho único. Álcool. Tabagismo. Drogas. Comportamento sexual.


 

 

Introdução

Nas últimas décadas, houve uma diminuição progressiva no tamanho médio das famílias, mudança na estrutura familiar e aumento na freqüência de famílias com apenas um filho. Tem sido sugerido que a ausência de irmãos e a maior convivência com adultos podem interferir no desenvolvimento intelectual, da personalidade e na adaptação ao convívio social.1-3

Historicamente, há relatos de que o filho único recebe excessiva atenção, amadurece precocemente e, pela ausência de irmãos, torna-se egoísta, exigente, dependente e temperamental comparativamente às crianças com irmãos.4 Algumas evidências não confirmam o estereótipo do filho único,5,6 sugerindo que eles não apresentam problemas de personalidade mais freqüentemente do que as crianças com irmãos e até podem apresentar vantagens relacionadas à inteligência, desempenho acadêmico e sucesso profissional.5 Os filhos únicos parecem ter tantos amigos quanto os não únicos, exercer a liderança e sentirem-se satisfeitos com suas vidas.7 Tendem a exibir traços similares aos filhos primogênitos7 e parecem ter maior auto-estima do que as crianças com irmãos.5 Entretanto, há poucos dados disponíveis comparando caraterísticas associadas à condição de filho único6 com a de ser primogênito e a de ter irmãos.7

No presente estudo, investigou-se o efeito da condição de filho único, comparativamente aos primogênitos e aos adolescentes não primogênitos, sobre caraterísticas de relacionamento, desempenho escolar, comportamento social e sexual.

 

Métodos

Desenho do estudo

Realizou-se um estudo transversal em uma amostra de escolares freqüentando, em 2000 e 2001, o ensino médio de uma escola privada cujos alunos apresentam nível socioeconômico elevado – determinado pela freqüência de pais com curso superior completo. Consideraram-se elegíveis todos os alunos freqüentando o terceiro ano do ensino médio. Características socioeconômicas, demográficas, familiares, desempenho escolar, comportamento social e sexual, assim como história de uso de drogas e consumo de bebidas alcoólicas, foram obtidas através de um questionário padronizado, pré-testado e autopreenchido. Nas perguntas sobre uso de drogas, adotou-se o nome usual e o jargão pelo qual as drogas são conhecidas em Porto Alegre, RS.8 A ausência de identificação dos questionários garantiu o anonimato do respondente, aumentando a confiabilidade das respostas. Além disso, havia perguntas diferentes aferindo a mesma característica (por exemplo, ''ficar'', idade do primeiro intercurso sexual e número de parceiros), o que permitiu avaliar a consistência das respostas. Apesar da maioria das questões ser pré-codificada, algumas questões eram abertas para permitir a especificação de detalhes quanto ao consumo de drogas, por exemplo.

Variáveis em estudo

As variáveis estudadas foram: gênero, idade, anos de escolaridade, escolaridade dos pais, estado civil dos pais, número de pais biológicos vivendo na casa, relacionamento com os pais e amigos, características parentais (imposição de limites quanto a horários, dormir fora de casa, jeito de vestir, corte de cabelo, tatuagem ou piercing), desempenho escolar (notas predominantes no boletim escolar naquele ano), preocupação com vestibular e profissão, prática de esportes, uso e número de horas semanais na internet, atividades realizadas no lazer (esportes, cinema, televisão, leitura de livros, namoro), consumo de bebidas alcoólicas (consumo de bebidas e intoxicação alcoólica), tabagismo (hábito e número de cigarros fumados por dia), uso de drogas ilícitas (uso, tipo e número de drogas usadas) e sexualidade (''ficar'' – relações físicas sem intercurso sexual, intercurso sexual, idade da primeira relação sexual, opção sexual – heterossexual, bissexual ou homossexual; posteriormente categorizada como heterossexual, sim ou não).

A variável independente de interesse foi ordem de nascimento, categorizada em filho único, primogênito e filho não primogênito. As demais variáveis independentes foram consideradas fatores de confusão: idade, gênero, escolaridade do pai, escolaridade da mãe, estado civil dos pais, número de pais biológicos vivendo na casa, imposição de limites.

As variáveis dependentes foram: notas no boletim escolar, preocupação com vestibular e profissão, prática de esportes, ter namorada, relacionamento com os pais, navegar na internet, tabagismo, uso de drogas, consumo de bebidas alcoólicas, intoxicação alcoólica, relação sem intercurso sexual e opção sexual.

Procedimentos

A coleta de dados foi realizada por três acadêmicos de Medicina, treinados para aplicar o instrumento e preparados para esclarecer dúvidas, que supervisionaram o preenchimento dos questionários. Aplicou-se o questionário na sala de aula (antes ou após as atividades acadêmicas) e com anuência dos professores responsáveis pelas atividades. O projeto foi aprovado pela direção da escola, que autorizou a coleta de dados; os alunos foram informados sobre a pesquisa, sem a menção da hipótese a ser testada, aceitando participar. Assegurou-se a confidencialidade das respostas através do preenchimento anônimo dos questionários.

Tamanho da amostra e análise dos dados

Estimou-se que uma amostra de 239 adolescentes seria suficiente para detectar uma prevalência de filho único de 8%, com um intervalo de confiança de 95%, para um erro de 2%. Como não havia dados disponíveis para realizar o cálculo de tamanho da amostra para o teste de hipóteses, optou-se por ampliar a amostra e avaliar o poder do estudo a posteriori. Na análise de dados, calcularam-se as prevalências e seus intervalos de confiança de 95% e testou-se a significância estatística das associações utilizando-se o teste do Qui-quadrado. Consideraram-se como estatisticamente significativas as associações cujo valor p foi <0,05; e como apresentando tendência à significância as associações cujo valor p variou entre 5% e 15%.

A análise do efeito da condição de filho único sobre os desfechos de interesse baseou-se em um modelo hierarquizado que auxiliou na interpretação das associações (vide Figura).9 A hierarquização das variáveis inicia pelo determinante distal (nível 1), nível socioeconômico – analisado através da escolaridade dos pais. Como esta amostra é muito homogênea para variáveis socioeconômicas, decidiu-se não incluir escolaridade dos pais ou outras variáveis deste nível hierárquico. No nível subseqüente estão as variáveis: relacionamento com os pais e estrutura familiar, que também podem afetar os desfechos de interesse (por exemplo: desempenho acadêmico, comportamento social). A seguir, no nível 3, vêm as características da condição de filho único, primogênito e não primogênito (fator em estudo), idade e gênero. A hipótese testada é a de que a condição de filho único determina os desfechos de interesse (nível 4), mas é influenciada pelo gênero e idade do adolescente e pelas variáveis hierarquicamente superiores.9 Assim, ao verificar-se o efeito independente do fator em estudo, ajustou-se para as variáveis associadas com a ordem de nascimento na análise univariada (gênero, idade, número de pais biológicos residindo no domicílio e limitação à realização de tatuagem ou piercing).

 

 

Seguindo-se este modelo, realizou-se uma análise de regressão logística para cada desfecho de interesse (desenvolvimento sexual – ''ficar'' e opção heterossexual – e comportamento social – intoxicação alcoólica) ou regressão linear múltipla (desempenho acadêmico – notas no boletim – e horas navegando na internet), considerando-se a condição de filho único como variável independente e idade, gênero, permissão para fazer tatuagem ou piercing e número de pais biológicos residindo no domicílio como co-variáveis (fatores de confusão); foram colocadas no modelo apenas as variáveis com valor p<0,2.

 

Resultados

Incluíram-se 360 estudantes (96% da totalidade) que estavam presentes nos dias da coleta de dados. Não houve recusas em participar. A amostra constituiu-se de 52,2% de adolescentes do gênero feminino; 56,1% tinham 17 anos de idade, 8,1% eram filhos únicos, 34,7% primogênitos e 57,2% dos adolescentes possuíam irmãos e não eram primogênitos.

A Tabela 1 mostra que os filhos únicos mais freqüentemente eram homens e tinham idade entre 15 e 16 anos, comparativamente aos demais que eram predominantemente mulheres e tinham 17 anos. A grande maioria dos pais e mães dos adolescentes possuía curso superior. Filhos únicos e não únicos não diferiram significativamente quanto ao estado civil dos pais. A maior parte dos adolescentes vivia com os dois pais biológicos, mas 10,3% dos filhos únicos viviam com os avós, comparativamente a 2,4% dos filhos primogênitos e não primogênitos.

 

 

O relacionamento com os pais foi avaliado através da pergunta: ''Como é o seu relacionamento com seus pais?'', havendo cinco opções de repostas: excelente, bom, satisfatório, ruim e péssimo. A grande maioria dos escolares respondeu manter um relacionamento bom ou excelente (87%) com os pais. A pergunta sobre como os adolescentes gostariam que os pais fossem mostrou diferença significativa apenas entre os filhos primogênitos e únicos, uma vez que 76% dos filhos únicos gostariam que os pais fossem assim como são (vs 69% dos filhos primogênitos), 17% que fossem mais flexíveis (vs 30%) e 7% mais preocupados (vs 1%) (p=0,047).

Em relação à colocação de limites pelos pais na vida dos adolescentes, aproximadamente 31% dos pais limitavam o horário dos filhos chegarem em casa, 36% restringiam o hábito de dormir fora, 17% controlavam as amizades, 13% interferiam com o jeito de vestir, 7% com o comprimento do cabelo e 54% com a realização de tatuagem ou piercing. Não foram encontradas diferenças significativas entre os três grupos em relação a essas variáveis, com exceção à permissão para colocação de piercing ou tatuagem (37,9% filhos único vs 57,6% dos primogênitos, p=0,056, e vs 53,7% dos não primogênitos, p=0,11).

Embora não tenham sido detectadas diferenças significativas entre os grupos com relação a preocupações com o vestibular ou com a profissão, destaca-se, na Tabela 2, o predomínio de notas entre 9 e 10 (17,2%) dos filhos únicos, comparativamente aos filhos primogênitos (5,6%) e não primogênitos (2,9%).

 

 

As atividades realizadas no lazer foram muito semelhantes entre os adolescentes filhos únicos, primogênitos e não primogênitos, sendo que 90% freqüentavam o cinema, 89% assistiam à televisão, 45% liam livros, 97% saíam com amigos e 62% namoravam. Observa-se, na Tabela 3, que a prática de esportes e a presença de namorada não diferiram significativamente entre os filhos únicos, primogênitos e não primogênitos, mas sim o número de horas navegando na internet.

 

 

A freqüência de tabagismo foi 19,2%, mas não diferiu significativamente entre os filhos únicos, primogênitos e não primogênitos. Aproximadamente 71% referiram consumo de bebidas alcoólicas, sendo mais freqüente entre os filhos primogênitos e não primogênitos do que entre os filhos únicos (Tabela 3). Estas diferenças tornaram-se mais evidentes para o relato de intoxicação alcoólica: cerca de 39,3% dos filhos únicos referiram episódios de intoxicação alcoólica vs 68,9% dos primogênitos (p=0,03) e 72,3% dos não primogênitos (p<0,001). Entre os adolescentes, 28,6% eram usuários de drogas ilícitas, sejam usuários atuais (15,6%) ou pregressos (13,0%). Globalmente, 22,5% referiram o emprego de maconha, 11,4% solventes (11,1% lança perfume e 0,3% benzina), 0,6% cocaína, 0,6% alucinógenos e 1,7% mencionaram mais do que três drogas diferentes. Destaca-se, na Tabela 3, que não houve diferença estatisticamente significativa na freqüência de uso de drogas ilícitas com a ordem de nascimento.

Investigaram-se também aspectos relacionados às etapas da sexualidade dos adolescentes (Tabela 3). A prática de atividade sexual sem intercurso sexual (''ficar'') foi menos freqüente entre os filhos únicos (86,2%) do que entre os primogênitos (97,6%) e os não primogênitos (97,6%). A definição sexual como homo ou bissexual – não heterossexual – foi mencionada em maior proporção pelos filhos únicos, primogênitos, e não primogênitos, respectivamente. Apesar de não haver diferenças marcantes na proporção de adolescentes que iniciou vida sexual ativa entre os grupos, a idade da primeira relação sexual foi significativamente menor entre os filhos únicos (13,9±1,7 anos) do que entre os primogênitos (15,0±1,1 anos, p=0,001) e os não primogênitos (15,2±1,2 anos, p=0,01).

Destaca-se, na Tabela 4, que os filhos primogênitos e não primogênitos apresentaram uma chance aproximadamente quatro a cinco vezes maior de terem tido uma intoxicação alcoólica do que os filhos únicos, independentemente da idade, gênero, número de pais biológicos residindo no domicílio e limitação paterna à realização de piercing ou tatuagem. Em relação às relações físicas sem intercurso sexual, os filhos primogênitos e os não primogênitos com irmãos apresentaram uma chance cerca de seis vezes maior de já terem experimentado esta prática do que os filhos únicos. Por outro lado, os filhos não primogênitos declararam-se heterossexuais mais freqüentemente do que os filhos únicos, persistindo o efeito mesmo após o controle para fatores de confusão. O consumo de drogas ilícitas, por outro lado, manteve-se não associado à ordem de nascimento, mesmo ajustando-se para os fatores de confusão (p=0,3).

 

 

Considerando-se o efeito de confundimento das co-variáveis, a análise do efeito da ordem de nascimento sobre o desempenho nas notas escolares mostrou uma associação positiva apenas para os filhos únicos comparativamente aos não primogênitos (beta =2,47; IC 95% 0,08 a 4,85; p=0,04), mas não para os primogênitos (beta =0,92 IC 95% 1,36 a 3,19; p=0,4). Ou seja, os filhos únicos apresentaram melhor desempenho escolar do que os filhos não primogênitos. Analisou-se também o efeito independente da ordem de nascimento sobre o número de horas passadas navegando na internet, caracterizando-se uma associação independente e significativa para os filhos únicos comparativamente aos filhos não primogênitos (beta =0,78 IC 95% 0,23 a 1,33; p=0,006) e aos primogênitos (beta =0,67 IC 95% 0,02 a 1,33; p=0,04).

 

Discussão

Neste artigo, nós comparamos as características dos filhos únicos com as dos filhos primogênitos e não primogênitos em uma amostra homogênea de adolescentes provenientes de escola privada. A seleção de escolares do terceiro ano do ensino médio assegurou a semelhança quanto à faixa etária, desenvolvimento puberal, e, por pertencerem à mesma escola, nível socioeconômico e comportamentos sociais, reduzindo a probabilidade de que características da escola pudessem afetar o desempenho acadêmico. Uma das vantagens da restrição do estudo a este perfil de estudantes é que diferenciais socioeconômicos são menos prováveis de restringir comportamentos sociais e confundir as associações.10 Além disso, pela idade dos escolares é possível que a estrutura familiar já estivesse definida. Por outro lado, esta amostra não é representativa dos adolescentes pertencentes à população geral, visto que apenas 6% da população de Porto Alegre pertence à classe alta.11

Outra limitação do estudo é a possibilidade de que em algumas associações tenha havido erro beta, ou seja, o estudo não teve poder para detectá-las como estatisticamente significativas. Por exemplo, ao testar-se a associação entre ordem de nascimento e consumo de bebidas alcoólicas, o poder para comparar filho único com primogênito foi de 41%, considerando-se o valor p de 0,11 como apresentando tendência à significância.

As características demográficas da amostra indicam a predominância de mulheres e de escolares com idade entre 15 e 17 anos. O nível socioeconômico elevado é evidenciado pela alta taxa de pais (89% ou mais) e mães (79% ou mais) que completaram curso de nível superior, dado que não diferiu significativamente entre os filhos únicos, primogênitos e não primogênitos.

A prevalência 8,1% de filhos únicos está de acordo com a redução do tamanho médio das famílias, detectado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística,12 particularmente entre famílias de maior nível socioeconômico.

Desempenho escolar

Neste estudo detectou-se o melhor desempenho escolar dos filhos únicos em relação aos filhos não primogênitos5, mas entre filhos únicos e primogênitos não foi possível caracterizar diferenças independentes e significativas.13 A associação inversa entre ordem de nascimento e desempenho escolar14 é corroborada pelo melhor desempenho escolar dos filhos únicos,15 em diferentes famílias e ambientes.16

Relacionamento com outras pessoas

A descrição de que os filhos únicos convivem predominantemente com adultos durante a infância sugere que eles sejam mais maduros e assumam comportamentos adultos mais precocemente6 do que os demais. Neste estudo, as preocupações com o vestibular e a profissão foram semelhantes entre os filhos primogênitos, não primogênitos e únicos.

Contrariamente à impressão de que os filhos primogênitos tendem a ser diferentes dos demais,13,17 neste estudo não se detectaram diferenças entre filhos únicos, primogênitos e não primogênitos quanto ao relacionamento com os pais, presença de namorada e prática de esportes. As diferenças surgiram em algumas atividades realizadas no lazer. Por exemplo, os filhos únicos passaram mais tempo na internet, uma atividade individual e sem interação pessoal, do que os primogênitos e os filhos que possuíam irmãos. As demais atividades realizadas no lazer (ir ao cinema, dançar, ler) foram semelhantes entre eles.

Tabagismo, álcool e drogas

Antes de considerarmos a associação das características de comportamento social com a ordem de nascimento, comparamos as prevalências com outros estudos. Neste estudo, detectou-se menor prevalência de tabagismo (19,2%) do que o uso de drogas ilícitas (28,6%) e consumo de bebidas alcoólicas (70,8%). Embora a magnitude seja diferente, esta mesma ordem ascendente de consumo foi verificada em alunos de escolas públicas de São Paulo (50%, 53,1% e 85,2%, respectivamente)18 e de Cuiabá (29%, 34,5% e 78,6%, respectivamente).19 As diferenças no tipo de drogas ilícitas consumidas estão relacionadas ao tipo de escola, vizinhança e perfil socioeconômico dos alunos,20 além de outras características. Em São Paulo, houve maior emprego de maconha (46%), solventes (28,2%), cocaína (17,8%), enquanto que, em Cuiabá, entre os alunos de 16 a 18 anos, a ordem foi solventes (15,2%), maconha (6,6%), ansiolíticos (6,6%) e cocaína (2,5%). Nossos resultados quanto ao tipo de drogas ilícitas usadas foram semelhantes aos descritos para uma amostra de escolares representativa da cidade de Pelotas (18,1% maconha, 13,5% solventes, 4,2% cocaína, 1,8% alucinógenos).21 É possível que a prevalência e o tipo de droga estejam fortemente associados com o nível socioeconômico19,21 mais do que com características específicas, como a ordem de nascimento, não relacionada com uso de drogas neste estudo.

A prevalência do consumo de bebidas alcoólicas entre escolares é elevada,21 situando-se acima de 75% em diversas capitais brasileiras.22 O consumo de bebidas alcoólicas, particularmente a intoxicação alcoólica, diferiu significativamente entre os filhos únicos, primogênitos e não primogênitos, sendo mais marcante as diferenças entre os filhos únicos e os não primogênitos. Talvez uma maior supervisão parental direta em função do menor número de filhos em casa possa explicar esse menor número de episódios de intoxicação alcoólica nos filhos únicos.

Desenvolvimento sexual

As características do desenvolvimento sexual dos adolescentes detectadas neste estudo (96,7% ''ficaram'', 48,2% mantiveram intercurso sexual, 94,2% identificaram-se como heterossexuais) são semelhantes às previamente descritas para escolares do ensino médio de Porto Alegre, onde 42,4% mantiveram intercurso sexual e 93,6% identificaram-se como heterossexuais.23

Neste estudo, o que chama a atenção é a menor prevalência de adolescentes auto-identificados como heterossexuais entre os filhos únicos comparativamente aos filhos não primogênitos. A bissexualidade ainda não resolvida ou a identidade sugerida como homossexual não parece ser resultado do confundimento por idade e gênero. Na medida em que a literatura prévia sugere que a identidade homossexual parece ser associada a um maior número de irmãos e de maior proporção de meninos/meninas nos irmãos,24 é possível que nossos achados reflitam mais uma associação entre ser filho único e um maior tempo para amadurecimento da identidade heterossexual do que propriamente uma associação com identidade homossexual estabelecida. Novos estudos são necessários para uma melhor compreensão dessas associações.

Concluindo, os adolescentes investigados neste estudo mostraram um padrão similar ao previamente descrito para comportamentos como tabagismo, uso de drogas, consumo de bebidas alcoólicas, iniciação sexual, heterosexualidade. Os filhos únicos apresentaram algumas características diferentes dos filhos primogênitos e dos que possuem irmãos e não são primogênitos. Destacam-se o melhor desempenho escolar, o não expor-se à intoxicação alcoólica e o bom relacionamento com os pais. O número de horas que passam em atividades individuais – como o uso de internet – e a menor definição sexual são algumas das diferenças dos filhos que não possuem irmãos. Por outro lado, não se confirmaram as diferenças de comportamentos maduros, prática de esportes, interação com amigos e atividades de lazer com a ordem de nascimento. Assim, os achados desse estudo sugerem que ser filho único não parece estar associado a uma pior evolução em várias áreas do desenvolvimento avaliadas.

 

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Endereço para correspondência
Sandra Costa Fuchs
Departamento de Medicina Social
R. Ramiro Barcelos, 2600, sala 415
90035-003 Porto Alegre, RS, Brasil
E-mail: scfuchs@terra.com.br

Financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq -não há número de processo).
Recebido em 2/12/2002.
Aceito em 5/8/2003.