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Revista Brasileira de Psiquiatria

versão impressa ISSN 1516-4446
versão On-line ISSN 1809-452X

Rev. Bras. Psiquiatr. v.27 n.2 São Paulo jun. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462005000200022 

CARTAS AOS EDITORES

 

Freqüência de epilepsia em pacientes psiquiátricos internados

 

 

Sr. Editor,

Epilepsia é um transtorno neurológico comum com uma prevalência pontual na população geral entre 0,5 e 1% e uma taxa de prevalência ao longo da vida entre 1,5 e 5%.1 A comorbidade com transtornos psiquiátricos é elevada, encontrando-se entre 22% e 58% em crianças e entre 19 e 52% em adultos com epilepsia.2

O estudo de Marchetti et al, apresentado no XXII Congresso Brasileiro de Psiquiatria, em Salvador,3 e também publicado nessa secção,4 revelou dados interessantes sobre inquérito realizado no congresso anterior sobre "Atitudes de psiquiatras brasileiros em relação à epilepsia". De 157 psiquiatras entrevistados, 95% referiram já ter tratado pacientes com epilepsia e algum tipo de transtorno mental. Destes, 80% relataram insatisfação com o nível de informação pessoal sobre o tema epilepsia e 98% desejavam maior conhecimento a respeito.3-4

Motivados por esse trabalho, realizamos revisão de prontuário de 119 pacientes internados (M/F, 59/60) no hospital psiquiátrico Instituto Raul Soares, em Belo Horizonte, em maio de 2004. Avaliamos a freqüência de epilepsia, definida a partir da história clínica e da descrição no prontuário de crises epilépticas recorrentes na ausência de condições tóxico-metabólicas, algumas características sociodemográficas, os diagnósticos psiquiátricos associados e o tempo de internação.

A freqüência de epilepsia na amostra estudada foi de 10,1% (12/119), com uma distribuição semelhante entre os gêneros (M/F, 7/5). A idade média ± desvio-padrão dos pacientes epilépticos foi de 36,2 ± 9,4 anos, sem diferença estatística em relação aos outros pacientes (37,1 ± 11,6 anos). Os diagnósticos psiquiátricos dos pacientes epilépticos foram retardo mental moderado a grave (5 pacientes), esquizofrenia (6 pacientes) e dependência de múltiplas drogas (1 paciente). Dos 18 pacientes internados cronicamente na instituição por período superior a um ano, quatro eram epilépticos (22,2%).

Nossos resultados mostram que a epilepsia é uma condição freqüente entre os pacientes psiquiátricos internados. Sugerem ainda que a presença de epilepsia pode ser um dos fatores de mau prognóstico na evolução de doenças psiquiátricas, determinando maior tempo de internação.

O trabalho de Marchetti et al3-4 aponta a necessidade de disseminação de informações sobre epilepsia e, possivelmente, a inclusão do ensino formal do assunto nas residências de psiquiatria. Nosso trabalho, apesar das limitações inerentes a estudos baseados em revisão de prontuário, corrobora a idéia de que a epilepsia é uma importante comorbidade em pacientes com transtornos mentais e, portanto, deve ser bem conhecida por psiquiatras.

 

Arthur Kümmer, Gustavo C Nunes,
Natália M Campos, Hélio Lauar

Residência de Psiquiatria do Instituto Raul Soares,
Belo Horizonte, MG

Antonio L Teixeira Júnior
Residência de Psiquiatria do Instituto Raul Soares,
Belo Horizonte, MG
Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina
da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG),
Belo Horizonte, MG

 

Referências

1. Browne TR, Holmes GL. Epilepsy. N Engl J Med. 2001;344(15):1145-51. Erratum in: N Engl J Med. 2001;344(25):1956.

2. Gaitatzis A, Trimble MR, Sander JW. The psychiatric comorbidity of epilepsy. Acta Neurol Scand. 2004;110(4):207-20.

3. Marchetti RL. Epilepsia nas sombras da psiquiatria brasileira. Rev Bras Psiquiatr. 2004;26(1):67-8.

4. Marchetti RL, Castro AP, Daltio CCS, Cremonese E, Ramos JMP, Gallucci J. Atitudes de psiquiatras brasileiros em relação à epilepsia. Rev Bras Psiquiatr. 2004;26(Supl 2):23.

 

 

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