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Revista Brasileira de Psiquiatria

Print version ISSN 1516-4446On-line version ISSN 1809-452X

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.27 no.2 São Paulo June 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462005000200024 

LIVROS

 

Ana Gabriela Hounie; Cláudio Augusto Duque

IProjeto Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo (PROTOC) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)
IISociedade Psicanalítica de Pernambuco

 

 

Cartas a um jovem terapeuta: reflexões para psicoterapeutas, aspirantes e curiosos
Contardo Calligaris. Rio de Janeiro: Campus; 2004. ISBN 85-352-1493-3

Vários autores recorrem ao formato "cartas" ao escrever um livro. Lembrem de "Cartas a um jovem poeta", de Rainer Maria Rilke, ou de "As ligações perigosas", de Choderlos de Laclos, que o próprio Calligaris cita numa anedota ao final do livro. É uma forma segura de manter a atenção do leitor, não só pelo interesse voyeurista que desperta, como pela simplicidade da linguagem que o estilo pede.

Nas cartas, Calligaris se dirige a dois jovens em início de carreira e procura dar-lhes uma noção do que é e do que não é ser terapeuta. Aborda temas polêmicos (como é de seu estilo) e trata também de questões clássicas tais como o que deve ser o setting, o que seria cura em psicoterapia, o que fazer com o amor transferencial, etc. Dentre os temas polêmicos, trata da eterna questão psicoterapia versus neurociências, sendo que fala da psicoterapia na sua vertente analítica, assim como da própria psicanálise. É interessante que aqui se possa falar um pouco dessa abordagem, já que a maioria das publicações recentes na literatura psiquiátrica se refere à psicoterapia de orientação cognitiva e/ou comportamental. O autor diz abertamente que, na prática, se é muitas vezes cognitivista ou behaviorista, ou seja, não se é analista 100% do tempo. E não descarta, portanto, a necessidade de se informar de técnicas outras ainda que se queira utilizar a psicanálise como método ou teoria explicativa do funcionamento psíquico. Pensamos que essa postura é uma faca de dois gumes. Por um lado, é um alívio alguém falar às claras daquilo que muitos profissionais pensam e fazem, mas não dizem abertamente, talvez por medo das suas instituições de origem ou pela adesão excessivamente rígida aos cânones do referencial teórico de predileção. Por outro, a um profissional em início de carreira pode dar a noção equivocada de que as coisas são mais simples do que na realidade podem ser.

Uma das utilidades da leitura para os jovens terapeutas, sejam das áreas psiquiátrica ou psicológica, é que o livro tenta dar uma noção da importância de cada uma delas, sem discriminação e sem conflitos. Calligaris nos dá como exemplo um paciente deprimido que, uma vez medicado, pode voltar a ter condições de participar ativamente de sua psicoterapia, ao contrário do que pensam alguns profissionais "biológicos" (que atribuem a melhora exclusivamente à medicação) e dos seus correspondentes psicanalíticos na ortodoxia, que muitas vezes são contra a medicação por pensar que esta não cura, apenas "anestesia o sintoma".

Talvez a parte mais interessante do livro seja a crítica que faz do distanciamento apresentado pelo discurso psicanalítico em algumas instituições em relação ao que deveria ser o seu objeto: o trabalho com o paciente. É justamente aí que está o seu maior mérito: situa a terapia no consultório, ocorrendo entre duas pessoas, uma querendo se livrar de alguma forma de sofrimento e outra procurando viver do trabalho de cuidar dessa pessoa. Pode parecer óbvio, mas não é freqüente que textos técnicos tratem de assuntos como "O que fazer para ter mais pacientes?", "O que dizer ao paciente sobre a terapia no início do tratamento?" ou "E se o paciente me dá sono?", mesmo que essas perguntas sejam assíduas entre as preocupações não só dos iniciantes. Nesse particular, o livro de Calligaris ganha por não ser "técnico".

Assim, cremos que o livro, de fácil e rápida leitura, poderia até ser indicado, não como obra básica, evidentemente, mas como leitura auxiliar pelos cursos, nem que seja para desencadear e ampliar um debate que é saudável, necessário e que remeta às obras de referência, num tempo em que fórmulas mágicas são procuradas. Uma coisa continua certa: quer para o terapeuta médico, quer para o terapeuta psicólogo, o caminho não é fácil e o entendimento dessas pequenas coisas, se não consegue torná-lo menos árduo, pelo menos alerta para que certas dificuldades requerem, além da técnica, sensibilidade e intuição.

 

 

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