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Revista Brasileira de Psiquiatria

Print version ISSN 1516-4446

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.28 no.2 São Paulo June 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462006000200024 

CARTAS AOS EDITORES

 

Comentário sobre "Qualidade de vida em irmãos de autistas - II"

 

Comment on "Quality of life in siblings of autistic patients - II"

 

 

Sr. Editor,

Acompanhando a discussão a respeito do artigo "Qualidade de Vida em irmãos de autistas",1 considero necessário ressaltar que não é procedente a afirmação de Marciano na carta "Qualidade de vida em irmãos de autistas" – II,2 uma vez que a Vineland Adaptive Behavior Scale não é um instrumento objetivo de avaliação de qualidade de vida, mas uma escala de avaliação de comportamento adaptativo, como o próprio nome define, e não tem qualquer validade de construto para ser utilizada como instrumento de avaliação de qualidade de vida. Ela fez parte dos métodos empregados na amostra avaliada pelo projeto que deu origem à minha tese de doutoramento,3 envolvendo portadores de condições crônicas, pelo fato de ter sido utilizada em trabalhos anteriores, que não utilizavam escalas específicas para avaliação de qualidade de vida. A conclusão de que o mau-desempenho de pacientes oncológicos à Vineland pode ser considerado indício de uma má qualidade de vida é discutível, uma vez que foi confrontada pelo surpreendente resultado obtido a partir da aplicação do (então recém-validado em nosso meio) Autoquestionnaire Qualité de Vie Enfant Imagé, mais conhecido como AUQEI. Desde então, outros pesquisadores mantiveram a aplicação da Vineland Adaptive Behavior Scale para os sujeitos avaliados em suas dissertações de mestrado.1,4 entre outras justificativas, com o intuito de obter populações mais homogêneas quanto ao desempenho adaptativo, muitas delas possivelmente comprometidas, seja do ponto de vista de estimulação,1 conforme tão bem ressaltaram Lowenthal et al.,5 seja do ponto de vista cognitivo.4 Elias, inclusive, acaba de apresentar os resultados de sua dissertação de mestrado defendida na UNICAMP,4 na qual avaliou autistas de alto funcionamento e os comparou a indivíduos pareados sadios, e não constatou diferenças estatisticamente significativas quanto à qualidade de vida desse grupo, utilizando o AUQEI. Conforme ressaltam Lowenthal et al., a presença de um filho autista no seio familiar pode ser causa de estresse, mas não deve ser a priori analisada diretamente como causa da pior qualidade de vida de seus irmãos.5 Conclusões apressadas a partir desses resultados nos colocam sob risco de cometer o mesmo erro que Kanner cometeu há algumas décadas, "rotulando" essas crianças e seus pais.

 

Evelyn Kuczynski
Instituto de Tratamento do Câncer Infantil (ITACI), São Paulo (SP), Brasil

 

Referências

1. Marciano AR, Scheuer CI. Quality of life in siblings of autistic patients. Rev Bras Psiquiatr. 2005;27(1):67-9.

2. Marciano AR. "Qualidade de vida em irmãos de autistas" – II. Rev Bras Psiquiatr. 2005;27(4):341.

3. Kuczynski E, Silva CA, Cristofani LM, Kiss MH, Odone Filho V, Assumpcao Jr FB. Evaluación de la calidad de vida (CV) en niños y adolescentes portadores de enfermedades crónicas y/o incapacitadoras: un estudio brasileño. An Pediatr. 2003;58(6):550-5.

4. Elias AV. Qualidade de vida e autismo [dissertação]. Campinas: Universidade Estadual de Campinas; 2005.

5. Lowenthal R, Campos ML, Amorosino C, Gomila A, D'Antino ME. "Qualidade de vida em irmãos de autistas" – I. Rev Bras Psiquiatr. 2005;27(4):344.

 

 

Financiamento: Inexistente
Conflito de interesses: Inexistente