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Revista Brasileira de Psiquiatria

Print version ISSN 1516-4446

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.28 no.4 São Paulo Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462006000400019 

CARTA AOS EDITORES

 

Alopecia secundária ao uso de inibidor seletivo da recaptação de serotonina: relato de dois casos

 

Alopecia associated with the use of serotonin selective reuptake inhibitors: two case reports

 

 

Sr. Editor,

A perda de cabelos pode ser um efeito adverso de inúmeros psicofármacos, com alguns relatos envolvendo o uso de antidepressivos.1-2 A seguir, descrevemos dois casos de pacientes que desenvolveram alopecia secundariamente ao uso de um inibidor seletivo da recaptação de serotonina (ISRS).

Caso 1 - LAFR, 47 anos, sexo feminino, leucoderma, diagnosticada com transtorno de ansiedade generalizada. Iniciou fluoxetina 10 mg/d com aumento progressivo para 20 mg/d. Após aproximadamente cinco semanas, queixou-se de "cabelos fracos", com sua escova ficando cheia de cabelos quando se penteava, fato que nunca ocorrera. No terceiro mês de tratamento, apresentava importante redução dos sintomas ansiosos, porém com importante perda capilar do couro cabeludo. Após substituição da medicação pela paroxetina (20 mg/d), houve recuperação gradual e completa dos cabelos em um período de dois meses, sem reaparecimento dos sintomas ansiosos.

Caso 2 - DDS, 25 anos, sexo masculino, leucodermo, primo da primeira paciente, recebeu o diagnóstico de bulimia nervosa e episódio depressivo leve. Segundo o paciente, os episódios de hiperfagia seguida de vômitos auto-induzidos tiveram início há, aproximadamente, dois anos, após ter passado por período de "estresse e ansiedade". Foi iniciado citalopram 20 mg/d e psicoterapia. Após cinco meses, mesmo sem melhora da sintomatologia psiquiátrica, interrompeu uso do fármaco devido à expressiva redução capilar do couro cabeludo, axilas e tórax. Manteve o tratamento psicoterápico, mas recusou-se a utilizar outros fármacos com medo de ficar "careca". Após cinco meses, havia recuperado totalmente os pêlos das regiões acometidas, sem redução dos sintomas psiquiátricos.

Ambos os pacientes passaram por avaliação clínica (sem alterações na propedêutica hepática, renal, hematológica e da tireóide) e dermatológica completa, nunca apresentaram queixas semelhantes anteriormente, além de demonstrarem estreita relação do aparecimento e remissão da alopecia com o uso dos fármacos. No primeiro paciente, a substituição da fluoxetina por outro ISRS não acarretou a propagação do problema.

Revisão no Medline (período: até agosto de 2006; descritores: "alopecia", "hair loss" e/ou "antidepressant", "SSRIs", "citalopram", "fluoxetine") demonstrou que a alopecia secundária ao uso de ISRS é evento raro,3-4 com maior incidência com uso de sertralina e citalopram,3 além de evidências de que seja dose dependente e ligada ao sexo feminino (aproximadamente 90% dos casos).2-4 Apesar de considerável número dos relatos mostrar melhora gradual apenas com a suspensão da medicação, alguns autores sugerem administração de complexo vitamínico.2-5 Além disso, pode-se pensar numa possível propensão familiar devido ao parentesco dos pacientes, fato já relatado com o uso de fluoxetina.4

 

Felipe Filardi da Rocha
Hospital das Clínicas e Departamento de Farmacologia do ICB, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte (MG), Brasil

Manuela Möller Malheiros
Instituto Raul Soares, Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais, Belo Horizonte (MG), Brasil

 

Referências

1. Mercke Y, Sheng H, Khan T, Lippmann S. Hair loss in psychopharmacology. Ann Clin Psychiatry. 2000;12(1):35-42.

2. Wheatley D. Hair loss with antidepressants. Hum Psychopharmacol. 1993;8:439-41.

3. Hedenmalm K, Sundstrom A, Spigset O. Alopecia associated with treatment with selective serotonin reuptake inhibitors (SSRIs). Pharmacoepidemiol Drug Saf. 2006 [Epub ahead of print].

4. Gupta S, Masand PS. Citalopram and hair loss. Prim Care Companion J Clin Psychiatry. 2000;2(2):61-2.

5. Mareth TR. Hair loss associated with fluoxetine use in two family members. J Clin Psychiatry. 1994;55(4):163.

 

 

Financiamento: Inexistente
Conflito de interesses: Inexistente

 

 

Trabalho desenvolvido no Instituto Raul Soares, Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais, e Hospital das Clínicas, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte (MG), Brasil