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Brazilian Journal of Psychiatry

Print version ISSN 1516-4446On-line version ISSN 1809-452X

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.29 no.3 São Paulo Sept. 2007

https://doi.org/10.1590/S1516-44462007000300021 

CARTAS AOS EDITORES

 

Ética, cultura e mídia: a quem culpar pelos transtornos alimentares?

 

Ethics, culture and media: who is guilty of eating disorders?

 

 

Sr. Editor,

Mobilizado com o impacto das recentes mortes de modelos brasileiras e com a pressão social por respostas para os chocantes sintomas alimentares, um Comitê Técnico da Associação Brasileira de Psiquiatria acaba de publicar um conjunto de diretrizes para aquilo que chamam de "indústria da moda".1 Como foi ressaltado em recente editorial,2 o objetivo destas recomendações seria fundamentalmente preventivo, baseado na tese de que a exposição de jovens a imagens sobrevalorizadas de extrema magreza é um fator determinante da ocorrência de transtornos alimentares (TA).

Embora seja louvável a iniciativa de tentarmos fornecer rapidamente soluções para o problema, temo que estejamos incorrendo em potenciais conflitos éticos, baseados em distorções científicas e, algumas vezes, até raciocínios ilógicos.

Já na introdução das Diretrizes,1 os autores destacam o "já reconhecido" papel determinante da valorização da extrema magreza pela moda e pela mídia na gênese e manutenção dos TA. Isto não é exatamente verdadeiro. Assim como outros transtornos mentais, os TA possuem múltiplos fatores causais, genéticos e ambientais.3-4 Existem evidências consistentes de que expor mulheres jovens a imagens de modelos magras aguça os sentimentos de insatisfação com o próprio corpo.4 Mas daí a provocarem anorexia ou bulimia nervosas, há um grande hiato, para o qual não se apresenta evidência convincente. Os poucos estudos que tentaram avaliar a influência da mídia no comportamento alimentar4 possuem desenho transversal ou ecológico; portanto, seus resultados não podem ser utilizados para determinar causalidade.

A recomendação para que modelos com IMC abaixo de 18,5 sejam proibidas de exercer livremente sua profissão não tem nenhuma fundamentação científica, posto que é baseada em suposições que, embora plausíveis, não foram submetidas a testes de hipóteses. Esta intervenção preventiva não foi devidamente avaliada e não se menciona nenhum esforço para medir seus efeitos.

Existe um problema ético grave em regular a atividade de profissionais baseado em sua aparência física, que envolve estigma e preconceito. Dados recentes de uma pesquisa com modelos brasileiras revelaram prevalências de sintomas alimentares similares aos de outros grupos, por exemplo, estudantes de nutrição.5 Imaginemos então que o foco das suspeitas agora se voltasse para as nutricionistas - se estivessem acima do peso, influenciariam subliminarmente seus pacientes, gerando e mantendo a obesidade. Daí teríamos que sugerir a interdição de suas atividades profissionais pelos mesmos motivos.

O Comitê termina com uma recomendação no mínimo surpreendente: que os profissionais da moda procurem valorizar "a beleza dos diversos biótipos brasileiros". Considero muito preocupante que, mesmo com a melhor das intenções, uma associação de médicos se considere apta a recomendar o padrão estético que a sociedade deve valorizar e desejar. O questionamento da própria cultura é uma tarefa que não deveria ser assimilada diretamente pelos médicos, dadas as limitações de nosso saber e área de atuação. Aqui, está claro que o psiquiatra foi colocado em um fogo cruzado entre as pressões por respostas e a falta de evidências, e muita cautela é necessária neste campo.

Finalizo lembrando que, enquanto médicos, somos representantes de uma ciência e nosso discurso público é, por dever, dirigido por um saber constituído com a metodologia apropriada. Ressalve-se o justo direito do médico incursionar na interdisciplinaridade filosófica e cultural, desde que a premissa anterior seja respeitada. Do contrário, para que a ciência?

 

Fernando Madalena Volpe
Grupo Interdisciplinar de Obesidade e Transtornos Alimentares (GOTA-SOCOR), Belo Horizonte (MG), Brasil

 

Referências

1. Associação Brasileira de Psiquiatria. Diretrizes para a indústria da moda - Recomendações da Comissão Técnica Brasileira de Grupos Especializados no Estudo e Tratamento de Transtornos Alimentares. 2007 [cited May 12 2007]; Available from: URL: http://www.abpbrasil.org.br/newsletter/comissao_ta/diretrizes_moda.pdf

2. Moya T, Claudino AM, van Furth EF. Extreme thinness in models mobilizes eating disorders' researchers and specialists. Rev Bras Psiquiatr. 2007;29(1):1-2.

3. Pinheiro AP, Sullivan PF, Bacaltchuck J; do Prado-Lima PA, Bulik CM. Genética em transtornos alimentares: ampliando os horizontes de pesquisa. Rev Bras Psiquiatr. 2006;28(3):218-25.

4. Polivy J, Herman CP. Causes of eating disorders. Annu Rev Psychol. 2002;53:187-213.

5. Rodrigues AM, Cintra IP, Fisberg M. Perfil nutricional, composição corporal e hábitos alimentares de modelos adolescentes. Pediatria Moderna. 2005;41(4):170-8.

 

 

Finaciamento: Inexistente
Conflito de interesses: Inexistente

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