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Revista Brasileira de Psiquiatria

Print version ISSN 1516-4446

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.31 no.3 São Paulo Sept. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462009000300024 

CARTA AOS EDITORES

 

Comportamento anti-social e impulsividade no transtorno de personalidade anti-social

 

Antisocial behavior and impulsivity in antisocial personality disorder

 

 

Prezado Editor,

O transtorno de personalidade anti-social (TPAS) caracteriza-se por uma incapacidade de ajustar-se a normas sociais, um padrão invasivo de violação dos direitos de outras pessoas, envolvendo-se, com frequência, em atos criminosos, brigas, comportamentos agressivos, uso de drogas ilícitas, dentre outros1. A impulsividade é frequentemente observada nesses indivíduos e pode ser definida, basicamente, como uma predisposição para reações rápidas e não planejadas a estímulos externos ou internos, sem que sejam avaliadas as possíveis consequências de tais comportamentos2. A impulsividade é associada com disfunção do sistema serotonérgico e do córtex pré-frontal e suas conexões, alterações já observados no TPAS por meio de exames de neuroimagem, genéticos e neuropsicológicos2-5.

A relação entre a impulsividade e as diversas variáveis comportamentais como, por exemplo, o início dos atos criminosos, é pouco explorada na literatura e pode contribuir para uma melhor compreensão do transtorno e na elaboração de planos terapêuticos mais específicos2-4.

Dessa forma, pretendemos avaliar a associação entre a impulsividade com comportamentos anti-sociais e/ou criminosos observados no TPAS.

Em uma clínica psiquiátrica com serviço de pronto-atendimento, um total de 222 admissões consecutivas foram avaliadas por meio de entrevista semi-estruturada (MINI-PLUS). Foram selecionados 39 pacientes que preenchiam critério para o transtorno segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais - Quarta Edição, mas apenas 32 participaram por não apresentarem condições que pudessem interferir no estudo como: síndrome de abstinência, episódio depressivo e ou maníaco, intoxicação alcoólica ou por outras drogas, doenças neurológicas e retardo mental.

Utilizamos a Escala de Impusividade de Barrat (BIS-11), uma escala auto-aplicável que avalia a impulsividade em três subcategorias: atencional, motora e por falta de planejamento, além do escore total; e avaliação da inteligência por meio da aplicação das Escalas Progressivas de Raven. Além disso, informações sociodemográficas e relacionadas a comportamentos anti-sociais foram colhidas conforme demonstrado na tabela. Recrutamos 64 controles pareados por sexo e idade da população geral que não apresentassem transtornos psiquiátricos (MINI-PLUS) e que foram submetidos aos mesmos procedimentos. A análise estatística foi realizada pelo programa Statdisk versão 11.0.1.

 

 

O estudo foi aprovado por comitê de ética e todos os participantes deram consentimento informado.

Na tabela podemos observar as principais características da população estudada comparada com controles. Observamos que a impulsividade por falta de planejamento esteve negativamente correlacionada com idade de início de uso de drogas ilícitas (r = -0,39), idade da primeira prisão (r = -0,40), idade do primeiro crime e/ou comportamento anti-social (r = -0,56) e associada à história de tentativa de auto-extermínio (p = 0,01). O escore total da BIS-11 também mostrou correlação negativa com idade da primeira prisão (r = -0,41) e idade do primeiro crime e/ou comportamento anti-social (r = -0,53). Impulsividade motora mostrou correlação positiva com o número de tentativas de auto-extermínio (r = 0,38).

Percebemos que a impulsividade está associada a diversos comportamentos anti-sociais e/ou criminosos. Apesar do pequeno número da nossa amostra, conseguimos avaliar o comportamento impulsivo em diversos comportamentos anti-sociais. O estudo da impulsividade de forma mais aprofundada pode ajudar a compreender melhor o TPAS, possibilitando desenvolver condutas mais específicas tanto do ponto de vista clínico como judicial2,4.

 

Felipe Filardi da Rocha
Departamento de Farmacologia Bioquímica e Molecular,
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG),
Belo Horizonte (MG), Brasil
Hospital Galba Velloso, Faculdade de Medicina do Vale do Aço,
Ipatinga (MG), Brasil

Naira Vassalo Lage
Programa de Neurociências, Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG), Belo Horizonte (MG), Brasil

Karla Cristhina Alves de Sousa
Instituto de Médico-Legal de Belo Horizonte,
Belo Horizonte (MG), Brasil

 

 

Referências

1. Morana HC, Stone MH, Abdalla-Filho E. Personality disorders, psychopathy and serial killers. Rev Bras Psiquiatr. 2006;28(Suppl 2):S74-9.         [ Links ]

2. Swann AC, Lijffijt M, Lane SD, Steinberg JL, Moeller FG. Trait impulsivity and response inhibition in antisocial personality disorder. J Psychiatr Res. 2009;43(12);1057-63.         [ Links ]

3. Nelson RJ, Trainor BC. Neural mechanisms of aggression. Nat Rev Neurosci. 2007;8(7):536-46.         [ Links ]

4. da Rocha FF, Malloy-Diniz L, de Sousa KC, Prais HA, Correa H, Teixeira AL. Borderline personality features possibly related to cingulate and orbitofrontal cortices dysfunction due to schizencephaly. Clin Neurol Neurosurg. 2008;110(4):396-9.         [ Links ]

5. da Rocha FF, Malloy-Diniz L, Lage NV, Romano-Silva MA, de Marco LA, Correa H. Decision-making impairment is related to serotonin transporter promoter polymorphism in a sample of patients with obsessive-compulsive disorder. Behav Brain Res. 2008;195(1):159-63.         [ Links ]