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Brazilian Journal of Psychiatry

Print version ISSN 1516-4446

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.32 no.2 São Paulo June 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462010000200016 

CARTAS AOS EDITORES

 

Transtorno de identidade de gênero (TIG) e orientação sexual

 

Gender identity disorder and sexual orientation

 

 

Caro Editor,

O transtorno de identidade de gênero (TIG) - ou transsexualismo - caracteriza-se por uma forte identificação com o gênero oposto, por um desconforto persistente com o próprio sexo e por um sentimento de inadequação no papel social deste sexo. Trata-se de uma condição que causa um sofrimento psicológico clinicamente significativo e prejuízos no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes da vida de um indivíduo1.

Desde a última metade do século XX, os avanços científicos têm favorecido o estudo deste transtorno, a maior aceitação social e a possibilidade de um tratamento integral orientado a redesignação sexual. Apesar disso, continua sendo pouco conhecido pela maior parte da sociedade, incluindo os profissionais da saúde mental.

Para realizar o diagnóstico, é preciso diferenciar os termos identidade de gênero e orientação sexual. A identidade de gênero refere-se à consciência de um indivíduo de ser homem ou mulher. A orientação sexual relaciona-se com a atração erótica, podendo ser homossexual, heterossexual, bissexual ou assexual. Os transexuais podem apresentar qualquer uma destas orientações1.

Recentemente, atendemos na Unidade de Gênero do Hospital Clinic de Barcelona (UIG) um paciente de 51 anos que há três anos recebeu o diagnóstico de TIG homem-mulher. Desde pequeno gostava de brincadeiras femininas e, inclusive, sua mãe o tratava como menina. Devido à forte repressão do pai, acabou restringindo suas tendências femininas. Aos 14 anos, começou a namorar uma menina. Logo no início confessou que se sentia como uma mulher e ela entendeu e o apoiou. Aos 23 anos se casaram. Em casa, o paciente se vestia como mulher e as relações sexuais com penetração eram esporádicas e desagradáveis para ele, acontecendo apenas para agradar sua esposa. Aos 32 anos tiveram uma filha. Desde a juventude ocupa um cargo administrativo no serviço público e manteve papel social masculino devido ao desconhecimento, rechaço social e falta de serviços assistenciais na época. Aos 48 anos, época em que a UIG foi fundada, procurou o serviço. Iniciou o teste da vida real1 e, posteriormente, o tratamento hormonal, assumindo progressivamente o papel social feminino. Depois de dois anos, foi submetido à vaginoplastia. Atualmente, encontra-se muito satisfeita com a resignação. Tem boa aceitação social, laboral, familiar e mantém a relação matrimonial. A esposa afirma que sua orientação sexual é por homens, que não se considera lésbica, e que mantém seu casamento por uma questão afetiva. O paciente refere que sua orientação sexual é e sempre foi por mulheres.

A orientação sexual para o sexo biológico contrário ou bissexual não é um critério de exclusão para o diagnóstico do TIG. Na população espanhola, apenas uma minoria dos transexuais homem-mulher apresentam uma orientação sexual por mulheres (4,4%) ou bissexual (4,4%), porcentagem similar às das brasileira e asiática (0 a 4%) e menores que as européias e americanas (33% a 91%)2-4. No grupo de mulher-homem, a porcentagem que apresenta uma orientação sexual por homem é praticamente nula (0%) e a de bissexuais, baixa (2,8%), coincidindo com as outras2.

Conclui-se que, apesar da orientação sexual para o sexo biológico oposto dificultar o diagnóstico diferencial do TIG, não o descarta. Além disso, esta discussão destaca a importância do diagnóstico correto do TIG, assim como a possibilidade de acesso ao tratamento na rede pública, uma vez que são poucos os serviços habilitados no Brasil5.

 

Alexandre Costa Val, Ana Paula Souto Melo

Instituto Raul Soares, Fundação Hospitalar do Estado de
Minas Gerais (FHEMIG), Belo Horizonte, MG, Brasil

Iria Grande-Fullana, Esther Gómez-Gil

Hospital Clinic, Departamento de Psiquiatria,
Barcelona, Espanha

 

 

Referências

1. Gómez-Gil E, Esteva de Antonio I. Ser transexual (Being Transsexual). Barcelona: Glosa; 2006.         [ Links ]

2. Gómez-Gil E, Trilla A, Salamero M, Godás T, Valdés M. Sociodemographic, clinical, and psychiatric characteristics of transsexuals from Spain. Arch Sex Behav. 2009;38(3):378-92.         [ Links ]

3. Lawrence AA. Societal Individualism Predicts Prevalence of Nonhomosexual Orientation in Male-to-Female Transsexualism. Arch Sex Behav [Internet]. 2008. [cited 2009 Dec 20]. Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19067152        [ Links ]

4. Lobato MI, Koff WJ, Manenti C, da Fonseca Seger D, Salvador J, da Graça Borges Fortes M, Petry AR, Silveira E, Henriques AA. Follow-up of sex reassignment surgery in transsexuals: a Brazilian cohort. Arch Sex Behav. 2006;35(6):711-5.         [ Links ]

5. Arán M, Murta D, Lionço T. Transsexuality and public health in Brazil. Cien Saude Colet. 2009;14(4):1141-9.         [ Links ]

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