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Brazilian Journal of Psychiatry

Print version ISSN 1516-4446

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.32 no.3 São Paulo Sept. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462010000300003 

EDITORIAL

 

Primeiro Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira

 

First National Survey on Patterns of Alcohol Consumption in the Brazilian Population

 

 

A Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (UNIAD) do Instituto Nacional de Políticas Públicas do Álcool e Drogas (INPAD) do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com financiamento da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), realizou entre 2005 e 2006 o Primeiro Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira. Este é um levantamento inédito no país não só pela abrangência dos temas abordados, mas também pela representatividade da amostra que possibilitou uma ampla coleta de informações.

Vários estudos epidemiológicos realizados até o momento já apontaram que o consumo de bebidas alcoólicas no Brasil, particularmente entre os jovens, é um importante problema de saúde pública. Dados para apoiar esta afirmação têm origem em uma série de fontes, incluindo levantamentos entre estudantes, pesquisas com crianças e adolescentes em situação de rua, dados sobre internações hospitalares e levantamentos domiciliares1-3.

No entanto, apesar dessas pesquisas e de várias outras voltadas a populações mais específicas, até o presente momento não existia no Brasil um retrato preciso da população geral em relação aos padrões de consumo de álcool. O atual levantamento é importante por ser o primeiro no qual se investigou em detalhe o padrão do uso do álcool do brasileiro, o que o brasileiro pensa sobre as políticas das bebidas alcoólicas, quais são os problemas associados com o uso do álcool no Brasil, e quantos brasileiros abusam ou são dependentes do álcool. Esse levantamento também investigou questões relacionadas ao consumo de tabaco, envolvimento patológico com jogos de azar, consumo de outras substâncias psicotrópicas, níveis de transtorno de déficit de atenção e depressão, entre outros tópicos.

Foram entrevistadas 3.007 pessoas, sendo 2.346 adultos maiores de 18 anos e 661 adolescentes entre 14 e 17 anos. Estas pessoas foram escolhidas por meio de um método probabilístico em multiestágios, o que garante que as informações colhidas refletem a população brasileira como um todo. A amostra foi desenhada para ser representativa da população brasileira de 14 anos de idade ou mais, de ambos os sexos, e sem exclusão de qualquer parte do território nacional, inclusive áreas rurais. Não foram incluídas na amostra, no entanto, populações indígenas que vivem em aldeias. A pesquisa também não abrangeu residentes em território brasileiro que não falam a língua portuguesa, deficientes mentais e outros deficientes incapacitados de responder ao questionário. Finalmente, não foram pesquisados os brasileiros presos.

Os achados de nossas pesquisas descritos em dois artigos4,5 neste fascículo da Revista Brasileira de Psiquiatria apontam que o chamado beber moderado não é a regra entre a população brasileira adulta4. Por outro lado, entre aqueles que consomem bebidas alcoólicas, praticamente um quarto apresenta problemas e consome quantidades potencialmente prejudiciais. O consumo de homens, solteiros e mais jovens é usualmente mais frequente, em maiores quantidades e associado a maiores problemas.

Os novos dados também permitem uma reflexão sobre um tipo de consumo de risco, o beber em binge (o consumo de quatro ou mais doses de bebidas alcoólicas pelas mulheres e cinco ou mais pelos homens, em uma única ocasião). Há anos esse padrão de consumo tem sido apontado internacionalmente como associado a uma série de problemas, incluindo prejuízos de saúde e relacionados à violência, além de problemas no âmbito ocupacional (faltas nos estudos, no trabalho). Além disso, levando-se em conta que um terço dos homens e pouco mais de metade das mulheres não relata consumo de álcool no último ano, os índices de abuso e dependência encontrados entre os adultos no estudo são considerados elevados.

Adolescentes de ambos os sexos têm um padrão de consumo muito mais semelhante entre si quando comparados com os homens e mulheres adultos5. Por outro lado, vários padrões guardam semelhança com o dos adultos. Assim, cerca de dois terços dos adolescentes não bebem no Brasil, mas os que bebem tendem a beber de forma a aumentar o risco de desenvolver problemas de álcool, abuso ou dependência.

Esses dados podem auxiliar no desenvolvimento de políticas nacionais para reduzir os problemas de bebidas alcoólicas no Brasil. Dados nacionais sobre o consumo em binge, os problemas associados ao consumo e os tipos de bebidas mais consumidas, além das diferenças regionais, podem apontar caminhos para tais políticas. Finalmente, a idade de início do consumo de bebidas alcoólicas (por volta dos 14 anos no caso dos adolescentes) é outro fator fundamental. Políticas públicas relacionadas ao adiamento da idade de início do consumo de bebidas alcoólicas entre os adolescentes brasileiros deveriam ser estabelecidas e novas estratégias preventivas ao consumo de álcool, especialmente entre os adolescentes, seriam necessárias e oportunas para monitorar o movimento dessa variável.

 

Ilana Pinsky, Marcos Zaleski, Ronaldo Laranjeira

Unidade de Pesquisa em Álcool e Outras Drogas (UNIAD), Instituto Nacional de Políticas Públicas do Álcool e Drogas (INPAD), Departamento de Psiquiatria, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), São Paulo, SP, Brasil

Raul Caetano

Escola de Saúde Pública, University of Texas Southwestern, Dallas, Texas, EUA

 


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Referências

1. Galduróz JC, Caetano R. Epidemiologia do uso de álcool no Brasil. Rev Bras Psiquiatr. 2004;26(Suppl 1):3-6.         [ Links ]

2. Fonseca AM, Galduróz JC, Noto AR, Carlini E. Comparison between two household surveys on psychotropic drug use in Brazil: 2001 and 2004. Cien Saude Colet. 2010;15(3):663-70.         [ Links ]

3. Kerr-Corrêa F, Tucci AM, Hegedus AM, Trinca LA, de Oliveira JB, Floripes TM, Kerr LR. Drinking patterns between men and women in two distinct Brazilian communities. Rev Bras Psiquiatr. 2008;30(3):235-42.         [ Links ]

4. Laranjeira R, Pinsky I, Sanches M, Zaleski M, Caetano R. Alcohol use patterns among Brazilian adults. Rev Bras Psiquiatr. 2010;32(3):231-41.         [ Links ]

5. Pinsky I, Sanches M, Zaleski M, Laranjeira R, Caetano R. Patterns of alcohol use among Brazilian adolescents. Rev Bras Psiquiatr. 2010;32(3):242-9.         [ Links ]

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