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Revista Brasileira de Psiquiatria

versión impresa ISSN 1516-4446

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.32 no.4 São Paulo dic. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462010000400020 

CARTA AOS EDITORES

 

Problemas conjugais e outros fatores associados a transtornos psiquiátricos do pós-parto

 

Marital problems and other factors associated with postpartum psychiatric disorders

 

 

Caros Editores,

O objetivo desta carta é a comunicação do resultado de estudo da associação entre fatores demográficos, psicossociais, pré e perinatais e doenças psiquiátricas pós-parto.

São alarmantes as prevalências de transtorno mental pós-parto encontradas nos estudos brasileiros1,2 e internacionais. Isso inclui os índices encontrados por nosso grupo de pesquisa 3,4. A identificação dos fatores de risco psicossocias pode levar à identificação precoce e ao enfrentamento dos agravos à saude da mulher e de seu filho resultantes dos transtornos mentais nesse período da vida.

Nosso grupo trabalha uma linha de pesquisa que estuda o desenvolvimento de famílias através de seu acompanhamento longitudinal. No decorrer do ano de 1999, foram identificadas todas as famílias (n = 230) de um bairro que tiveram filhos em hospital público por meio das notificações de nascimento da Prefeitura de Porto Alegre-RS. As famílias identificadas que aceitaram participar (n = 148) foram visitadas por dois terapeutas de família, sendo realizadas observações, entrevistas semiestruturadas e aplicadas escalas. Fatores demográficos, psicossociais e relacionais foram estudados. A saúde mental das mães e pais foi avaliada pelo Self Report Questionnaire (SRQ-20). A Escala Avaliação Global do Funcionamento Relacional (GARF) do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais-4ª edição-Texto revisado (DSM-IV-TR) foi usada para aferir a qualidade do relacionamento do casal e do relacionamento materno com sua família de origem, com a família paterna e com a rede social.

No estudo realizado aos quatro meses do bebê, 34,45% das 148 mulheres entrevistadas apresentaram suspeita de transtorno psiquiátrico. Sessenta e dois por cento das mulheres coabitavam com companheiro, sendo que estes também foram entrevistados. Dos 118 pais, 25,4% apresentaram suspeita de transtorno mental. Nesta população, o fato de coabitar ou não com companheiro não esteve associado com transtorno mental. Na análise de regressão logística estudando a totalidade do grupo de mulheres, os fatores que se mostraram relacionados com possível transtorno mental foram a baixa renda familiar (p = 0,017) e a presença de transtorno psiquiátrico materno no passado (p = 0,043). Na regressão logística feita exclusivamente com as mulheres que viviam com companheiro, apenas a má qualidade da relação do casal esteve associada à presença de transtornos psiquiátricos quatro meses após o parto (OR = 7,34, p = 0,001).

As altas prevalências de transtornos mentais das mães e pais são preocupantes, mas sua associação com problemas conjugais nos casais que coabitam identificam um evento familiar com possibilidades terapêuticas comprovadas5. Por outro lado, nas famílias uniparentais a associação com fatores socioeconômicos e história de transtorno prévio também indicam o caminho preventivo a seguir. Estes índices não parecem ser resultado de erro de aferição, porque os dados de prevalência são semelhantes aos de Coutinho et al. e aos de Cruz et al., 32,9% de sintomas depressivos e 37,1% de transtorno mental pelo SRQ, respectivamente.

Este estudo reforça a necessidade de verificar a saúde mental da mãe no pré-natal e nas consultas de puericultura e introduz dados sobre a saúde mental do pai, especialmente sobre a importância de avaliar rotineiramente a relação conjugal nas consultas pré-natais e de puericultura. É relevante e ainda pouco enfatizada na literatura a importância da associação entre transtorno mental pós-parto e problemas conjugais.

 

Suzi Roseli Kerber
Programa de Pós-Graduação, Universidade Federal do
Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS, Brasil

Olga Garcia Falceto
Departamento de Psiquiatria, Faculdade de Medicina,
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS),
Porto Alegre, RS, Brasil

Carmen Luiza C. Fernandes
Programa de Residência de Medicina de Família e
Comunidade, Gerência da Saúde Comunitária, Grupo
Hospitalar Conceição, Porto Alegre, RS, Brasi

 

 

Referências

1. Coutinho DS, Baptista MN, Morais PR. Depressão pós-parto: prevalência e correlação com suporte social. Infanto Rev Neuropsiquiátr Infânc Adolesc. 2002;10(2):63-71.         [ Links ]

2. Cruz EBS, Simões GL, Faisal-Cury A. Post-partum depression screening among women attended by the Family Health Program. Rev Bras Ginecol Obstet. 2005;27(4):181-8.         [ Links ]

3. Falceto OG, GiuglianI E, Fernandes CL. Couples' Relationships and breastfeeding: is there an association? J Hum Lact. 2004;20(1):46-55.         [ Links ]

4. Hollist CS, Miller RB, Falceto OG, Fernandes CL. Marital satisfaction and depression: a replication of the Marital Discord Model in a Latino Sample. Fam Process. 2007;46(4)485-98.         [ Links ]

5. Pinsof WM, Wynne LC. The effectiveness and efficacy of marital and family therapy: introduction to the special issue. J Mar Fam Ther. 1995;21(4):341-2.         [ Links ]

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