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Revista Brasileira de Psiquiatria

Print version ISSN 1516-4446

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.32 no.4 São Paulo Dec. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462010000400022 

CARTA AOS EDITORES

 

Qual a verdadeira associação entre disfunção cognitiva e o uso da cannabis?

 

What is the really association between cognitive disfunction and cannabis?

 

 

Prezado Editor,

Foi com grande interesse que lemos o artigo de revisão "Anormalidades cognitivas no uso da cannabis" publicado no primeiro suplemento da Revista Brasileira de Psiquiatria de 2010.1 O artigo trata de forma bem objetiva a possibilidade de prejuízos cognitivos irreversíveis com o uso da cannabis. Por ser a droga ilícita mais usada no mundo, o estudo de tais déficits é de extrema importância.1

De forma sumária, os autores sugerem que o uso crônico da cannabis causa alterações que podem ser persistentes, mesmo após a cessação do uso, em diversas funções cognitivas. Estes efeitos seriam ainda piores em usuários pesados e com início do uso na adolescência.1

A partir destes dados, temos algumas ressalvas a fazer. Uma variável que não é avaliada em nenhum estudo e que pode confundir os achados trata-se das disfunções cognitivas pregressas ao uso da droga, resultando na busca e experimento da mesma. Algumas disfunções cognitivas como, por exemplo, dificuldades na tomada de decisões, poderiam propiciar o primeiro contato com a droga, e não o próprio uso causar o prejuízo da mesma. Estas considerações poderiam justificar o elevado uso de drogas lícitas e ilícitas em diversos transtornos psiquiátricos como, por exemplo, o transtorno bipolar do humor, esquizofrenia e o transtorno de personalidade antissocial.2-4 Nestes transtornos, alterações neuroanatômicas e neurofuncionais conhecidas, com suas consequentes disfunções cognitivas, poderiam justificar o elevado uso de substâncias psicoativas por parte dos pacientes.2,3

Resultados preliminares de uma coorte realizada por nós mostram que disfunções neuropsicológicas pregressas estão associadas à busca pela cannabis. Estudamos um grupo de 124 adolescentes (entre 13 e 14 anos) sem transtornos psiquiátricos (avaliados pelo MINIPLUS) e sem história de uso de drogas ilícitas. Além de avaliarmos dados sociodemográficos e inteligência (avaliada pelo teste de Escalas Progressivas de Raven), aplicamos a Barratt Impulsiveness Scale (BIS-11), uma escala de autopreenchimento que avalia a impulsividade do indivíduo como um todo, além de três categorias distintas: impulsividade motora, impulsividade atencional e impulsividade por falta de planejamento. Além disso, essas características têm sido associadas à própria personalidade do indivíduo, não sendo meramente uma medida cognitiva.4 Após 14 meses reavaliamos 114 adolescentes (10 não foram encontrados ou se recusaram a participar) e averiguamos história do uso da cannabis. Observamos que categorias como impulsividade motora e impulsividade por falta de planejamento estavam associadas ao uso da droga (Tabela 1).

 

 

Estudos pregressos têm mostrado que funções cognitivas como a incapacidade de inibir respostas motoras e disfunções no processo de tomada de decisões estão diretamente associadas às categorias da impulsividade citadas, respectivamente.3-5 Apesar de serem dados preliminares, podemos observar, de forma indireta, que disfunções cognitivas pré-existentes estão associadas ao uso da cannabis.

Dessa forma, fica a ressalva de que os déficits observados nos estudos podem não ser completamente explicados pelo uso abusivo da substância. São necessários, assim, estudos mais detalhados para esclarecimentos das associações da cannabis, disfunções cognitivas e alterações neuroanatômicas.

 

Felipe Filardi da Rocha
Programa de Medicina Molecular, Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, MG, Brasil
Faculdade de Medicina, Instituto Metropolitano de Ensino
Superior UNIVAÇO, Ipatinga, MG, Brasil

Naira Vassalo Lage
Programa de Medicina Molecular, Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, MG, Brasil

 

 

Referências

1. Solowij N, Pesa N. Anormalidades cognitivas no uso da cannabis. Rev Bras Psiquiatr. 2010;32(Suppl 1):531-40.         [ Links ]

2. Sewell RA, Skosnik PD, Garcia-Sosa I, Ranganathan M, D'Souza DC. Efeitos comportamentais, cognitivos e psicofisiológicos dos canabinoides: relevância para a psicose e a esquizofrenia. Rev Bras Psiquiatr. 2010;32(Suppl 1):S15-30.         [ Links ]

3. da Rocha FF, Malloy-Diniz L, de Sousa KC, Prais HA, Correa H, Teixeira AL. Borderline personality features possibly related to cingulate and orbitofrontal cortices dysfunction due to schizencephaly. Clin Neurol Neurosurg. 2008;110(4):396-9.         [ Links ]

4. da Rocha FF, Lage NV, de Sousa KC. Comportamento anti-social e impulsividade no transtorno de personalidade anti-social. Rev Bras Psiquiatr. 2009;31(3):291-2.         [ Links ]

5. da Rocha FF, Malloy-Diniz L, Lage NV, Romano-Silva MA, de Marco LA, Correa H. Decision-making impairment is related to serotonin transporter promoter polymorphism in a sample of patients with obsessive-compulsive disorder. Behav Brain Res. 2008;195(1):159-63.         [ Links ]