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Brazilian Journal of Psychiatry

Print version ISSN 1516-4446

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.33 no.1 São Paulo Mar. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462011000100015 

REVISÃO

 

O tratamento farmacológico do transtorno bipolar: uma revisão sistemática e crítica dos aspectos metodológicos dos estudos clínicos modernos

 

The pharmacological treatment of bipolar disorder: a systematic and critical review of the methodological aspects of modern clinical trials

 

 

Elie Cheniaux

Instituto de Psiquiatria, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, RJ, Brazil. Faculdade de Ciências Médicas, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Revisar sistematicamente os principais estudos clínicos sobre o tratamento farmacológico do transtorno bipolar e fazer uma análise crítica de seus aspectos metodológicos.
MÉTODO: Realizou-se uma busca nas bases de dados Medline, ISI e PsycINFO, utilizando-se os seguintes termos de busca: "bipolar", "randomized", "placebo" e "controlled". Foram selecionados estudos clínicos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo sobre o tratamento farmacológico do transtorno bipolar. Além disso, de acordo com os nossos critérios, as amostras deveriam ser de no mínimo 100 pacientes e a substância testada deveria ser usada como monoterapia.
RESULTADOS: 34 artigos se adequaram aos critérios de seleção. Todas as substâncias atualmente indicadas para mania, depressão bipolar e para o tratamento de manutenção foram mais eficazes que o placebo em pelo menos um estudo. Todavia, esses estudos tiveram amostras altamente selecionadas, altas taxas de abandono e baixas taxas de resposta clínica.
CONCLUSÃO: Os modernos estudos clínicos sobre o tratamento farmacológico do transtorno bipolar apresentam algumas importantes limitações metodológicas. Assim, seus resultados devem ser considerados com cautela.

Descritores: Transtorno bipolar; Farmacoterapia; Revisão; Metodologia; Ensaios clínicos como assunto


ABSTRACT

OBJECTIVE: To review systematically the main clinical trials on the pharmacological treatment of bipolar disorder and to make a critical analysis of their methodological aspects.
METHOD: A search in Medline, ISI and PsycINFO databases was conducted, using the following search terms: "bipolar", "randomized", "placebo" e "controlled". Randomized, double-blind, placebo-controlled clinical trials on the pharmacological treatment of bipolar disorder were selected. Besides, according to our criteria, samples had to consist of at least 100 patients and experimental drug had to be used as monotherapy.
RESULTS: 34 articles met our selection criteria. All drugs currently indicated for mania, bipolar depression and maintenance treatment of bipolar disorder were more effective than placebo in at least one clinical trial. However, these studies had highly selected samples, high dropout rates and low response rates.
CONCLUSION: Modern clinical trials on pharmacological treatment of bipolar disorder have important methodological limitations. So, their results should be taken with caution.

Descriptors: Bipolar disorder; Pharmacotherapy; Review; Methodology; Clinical trials as topic


 

 

Introdução

O tratamento de indivíduos com transtorno bipolar é uma tarefa altamente complexa. Antes de tudo, porque envolve estratégias distintas nas diferentes fases da doença: mania, depressão e eutimia. Até o momento, receberam aprovação do Food and Drug Administration (FDA), a agência americana responsável pelo controle de medicamentos e alimentos, para o tratamento da mania o lítio, a clorpromazina, a carbamazepina, o divalproato e diversos antipsicóticos atípicos - a risperidona, a olanzapina, a quetiapina, a ziprasidona, o aripiprazol1 e, mais recentemente, a asenapina2. Para a depressão bipolar, foram aprovados apenas a combinação olanzapina-fluoxetina e a quetiapina3. Por fim, o FDA recomenda para o tratamento de manutenção o lítio, a olanzapina, o aripiprazol e a lamotrigina4. Todas essas substâncias, exceto a clorpromazina5, demonstraram sua eficácia por meio de estudos clínicos com grandes amostras, randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo.

Diante dessa multiplicidade de opções terapêuticas consideradas eficazes, poderíamos imaginar um cenário bastante otimista para os pacientes que sofrem de transtorno bipolar. No entanto, o que se observa é que grande parte desses pacientes, mesmo seguindo um tratamento regular e adequado, apresenta uma evolução desfavorável. Em um estudo multicêntrico recente6, 1.469 bipolares, submetidos ao "melhor tratamento disponível", foram acompanhados durante dois anos. Neste período, apenas 58,4% dos pacientes apresentaram em algum momento remissão dos sintomas afetivos, e, entre aqueles que conseguiram ficar assintomáticos, 48,5% tiveram recorrências.

Em função desse aparente contraste entre a observação clínica diária e os resultados dos mais importantes estudos clínicos sobre a eficácia do tratamento farmacológico do transtorno bipolar, realizamos uma revisão sistemática desses estudos com o objetivo de fazer uma análise crítica de seus aspectos metodológicos.

 

Método

Foi realizada uma revisão sistemática da literatura científica sobre a eficácia do tratamento farmacológico do transtorno bipolar. Buscaram-se especificamente estudos clínicos com grandes amostras, randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo. Foram utilizadas as bases de dados Medline, ISI e PsycINFO, no dia 5 de maio de 2010. Não houve nenhuma restrição quanto ao período da publicação. Os termos de busca empregados foram "bipolar", "randomized", "placebo" e "controlled".

Só foram selecionados estudos nos quais a substância testada foi empregada como monoterapia. A única exceção em relação a este critério foi a combinação olanzapina-fluoxetina, devido ao fato de esta associação de substâncias ter sido lançada no mercado como um único medicamento. Embora, na prática clínica diária, os pacientes que sofrem de transtorno bipolar sejam muito frequentemente tratados com mais de um medicamento ao mesmo tempo, o FDA, via de regra, analisa a eficácia de uma determinada substância com base em estudos que a empregam como monoterapia.

Com o objetivo de eliminar estudos com amostras muito pequenas, estipulou-se que só seriam incluídos aqueles com pelo menos 100 pacientes. Além disso, as amostras deveriam ser constituídas apenas por indivíduos adultos.

Não houve procura por estudos não publicados. Quando resultados diferentes relativos a uma mesma amostra eram publicados em artigos diferentes, somente o estudo original foi selecionado. Assim, estudos com análises ad hoc de subamostras ou que representavam prolongamentos de estudos originais não foram considerados.

 

Resultados

Na busca inicial, encontrou-se um total de 647 referências no Medline, 562 no ISI e 235 no PsycINFO. Após análise dos resumos e, em alguns casos, do texto integral do artigo, foram selecionados 34 artigos. A maioria das referências excluídas consistiu em artigos de revisão, relatos de caso e cartas para o editor. Entre os estudos clínicos não selecionados, foram comuns os abertos ou não comparativos, com duas ou mais substâncias combinadas, ou com amostras formadas exclusivamente por crianças ou adolescentes.

1. Tratamento da mania bipolar

A Tabela 1 apresenta as informações dos 21 artigos encontrados sobre o tratamento farmacológico da mania que se adequaram aos critérios de seleção. Os 21 artigos se referem a 24 estudos clínicos, já que um dos artigos7 apresentou os resultados de quatro estudos clínicos. Nesses estudos, 11 diferentes substâncias foram comparadas com placebo, sendo que em dez deles havia mais de uma substância ativa sendo testada. Em todos os estudos, foi utilizada a redução no escore total de uma escala de sintomas maníacos como medida primária de eficácia. Apenas três estudos8-10 não permitiram a inclusão de pacientes em estado misto nas amostras.

De acordo com os resultados, observou-se superioridade do lítio sobre o placebo em cinco estudos, publicados em quatro artigos7,8,11,12, da carbamazepina em dois estudos13,14, do divalproato em dois estudos11,15, da olanzapina em cinco estudos16-20, do aripiprazol em quatro estudos12,21-23, da ziprasidona em dois estudos24,25, da risperidona em dois estudos9,26, da quetiapina em dois estudos8,10, da asenapina em dois estudos16,17 e do haloperidol em dois estudos10,23.

Todos os quatro estudos com o topiramato foram negativos7. Em dois deles, o topiramato também foi inferior ao lítio. Em dois estudos, o divalproato foi equivalente ao placebo20,27. Em um desses dois estudos20, o divalproato também não se distinguiu da olanzapina, embora esta tenha apresentado um resultado positivo. Num estudo no qual tanto o haloperidol como a quetiapina foram superiores ao placebo, o haloperidol também foi superior à quetiapina10. Por fim, num estudo em que a olanzapina e a asenapina foram consideradas eficazes, a olanzapina levou a uma redução significativamente maior na escala de mania do que a asenapina17.

Apenas em nove estudos há informações sobre a taxa de virada para depressão durante o tratamento. Com relação a esse aspecto, o lítio7,8,12, o topiramato7, o aripiprazol12,23, a olanzapina16-19, a quetiapina8,10, o haloperidol10,23 e a asenapina16,17 não se distinguiram do placebo.

Nos estudos sobre o tratamento da mania, os tamanhos das amostras foram bastante elevados, variando entre 11519 e 52120 pacientes. Todavia, uma parte significativa dos pacientes avaliados na triagem inicial não foi incluída no estudo. Foram comuns entre os critérios de exclusão um risco importante de violência ou suicídio e comorbidade com um transtorno de abuso ou dependência de substância ou com doença clínica. Dos 24 estudos, em 13 não há nenhuma informação sobre o número de pacientes inicialmente triados7,8,11,13-15,18,19,21,22. Dos 11 estudos restantes, em nove mais de um quinto dos pacientes foi excluído já na triagem inicial9,12,16,17,20,23-25,27. Entre esses nove estudos, dois se caracterizaram pela exclusão de cerca de um terço dos pacientes antes da fase de randomização12,20.

Observou-se que uma parte significativa dos pacientes randomizados não completou os estudos. Em 16 dos 24 estudos, pelo menos um terço dos pacientes não chegou ao fim do período previsto de tratamento, de três ou quatro semanas7-9,11-15,18,19,21,22,24,25,27. Em sete desses 16 estudos, a taxa de abandono foi superior a 50%9,11-13,18,21,27.

Em diversos estudos, a taxa de resposta (isto é, a proporção de pacientes que tiveram uma redução de pelo menos 50% no escore total da escala de mania) foi inferior a 50%. Isso aconteceu em três estudos com o lítio7,11,12, em um com a carbamazepina13, em três com o divalproato11,15,20, em dois com a olanzapina18,20, em três com o aripiprazol12,21,23, em dois com a asenapina16,17, em um com a ziprasidona25, em um com a risperidona9, em um com a quetiapina10 e em um com o haloperidol23.

Em quatro estudos, embora o medicamento tenha apresentado uma redução na escala de mania significativamente maior que o placebo, ele não se distinguiu do placebo quanto à taxa de resposta. Essa situação ocorreu com a olanzapina20, a quetiapina10, a asenapina17, o aripiprazol e o haloperidol23.

2. Tratamento da depressão bipolar

A Tabela 2 apresenta os dados dos sete artigos referentes ao tratamento farmacológico da depressão bipolar. Esses sete artigos trazem os resultados de 11 estudos clínicos, pois um artigo apresenta os resultados de cinco estudos clínicos28, outro artigo é relativo a outros dois estudos clínicos29 e as informações de um mesmo estudo clínico são expostas em dois artigos28,30. Com uma única exceção31, os estudos clínicos compararam uma única substância ao placebo. Em todos os estudos, foi utilizada a redução no escore total de uma escala de depressão como medida primária de eficácia.

Num mesmo estudo31, a combinação olanzapina-fluoxetina e a olanzapina distinguiram-se do placebo, sendo que a combinação olanzapina-fluoxetina foi também superior à olanzapina. A quetiapina foi avaliada em três estudos32-34 e, em todos eles, foi superior ao placebo. Já os cinco estudos com a lamotrigina foram negativos, embora, em um deles, ela tenha se diferenciado do placebo numa medida secundária de eficácia28,30. Os dois estudos com o aripiprazol também foram negativos29.

Em dez dos 11 estudos, a substância investigada não se distinguiu do placebo quanto à taxa de virada para mania ou hipomania28-32,34. No estudo restante33, a quetiapina levou a um número significativamente menor de viradas que o placebo.

As amostras dos estudos sobre o tratamento da depressão bipolar foram grandes, variando de 19530 a 83331 pacientes. No entanto, muitos pacientes avaliados na triagem inicial não chegaram à etapa de randomização do estudo em função da aplicação de diversos critérios de exclusão. Entre estes critérios, foram comuns: comorbidade com outro transtorno mental do eixo I, especialmente um transtorno de abuso ou dependência de substância, risco importante de violência ou suicídio e doença clínica significativa. Em sete dos 11 estudos não há informações sobre quantos pacientes foram excluídos já na primeira etapa. Nos quatro estudos restantes, foram incluídos de 64,6%33 a 77,7%31 dos pacientes avaliados na triagem inicial. Com exceção de um estudo31, em todos os outros as amostras eram compostas exclusivamente por pacientes ambulatoriais.

Em oito dos 11 estudos, mais de um terço dos pacientes randomizados abandonou o tratamento antes do final do período estipulado, de sete a dez semanas28,29,31-34. Em um desses oito estudos, essa taxa foi superior a 50%31.

Com relação às taxas de resposta, a lamotrigina28,30 e o aripiprazol29 não se distinguiram do placebo. Embora a taxa de resposta com a olanzapina tenha sido significativamente superior à obtida com o placebo, ela foi de apenas 39%.

3. Tratamento de manutenção no transtorno bipolar

A Tabela 3 apresenta os resultados dos seis artigos que investigaram o tratamento de manutenção no transtorno bipolar, que correspondem a seis estudos diferentes. Em todos os estudos, os pacientes foram randomizados após alcançarem remissão sintomática de um episódio afetivo agudo, durante o qual foram tratados de forma aberta. Em cinco estudos35-39, os pacientes tinham apresentado um episódio maníaco, hipomaníaco ou misto e, no estudo restante40, um episódio depressivo. Nos seis estudos, a medida primária de eficácia foi o tempo para a recorrência de um episódio afetivo. Dependendo do estudo, o que indicava o surgimento de um novo episódio afetivo era um aumento dos escores nas escalas de mania ou depressão, a necessidade de associar uma nova substância ao tratamento, ou hospitalização.

Num estudo com o divalproato e o lítio35, ambas as substâncias não se diferenciaram do placebo quanto à prevenção de novos episódios afetivos. Os dois estudos com a lamotrigina e o lítio apresentaram resultados idênticos: as duas substâncias foram superiores ao placebo na prevenção de episódios afetivos em geral; o lítio se distinguiu do placebo na prevenção de episódios maníacos, mas a lamotrigina não; e a lamotrigina se distinguiu do placebo na prevenção de episódios depressivos, mas o lítio não36,40. Já a olanzapina foi superior ao placebo tanto na profilaxia de episódios maníacos como de depressivos39. Por fim, os estudos com o aripiprazol37 e com a risperidona injetável de ação prolongada38 tiveram resultados semelhantes: as duas substâncias se diferenciaram do placebo na prevenção de episódios afetivos em geral e maníacos, mas não na prevenção de episódios depressivos.

Os tamanhos das amostras nos seis estudos variaram de 16137 a 46340 pacientes. Apenas uma parte dos pacientes tratados durante o episódio afetivo agudo tornou-se eutímica e pôde ser randomizada: entre 25,4%37 e 65,1%35. Nos dois estudos com a lamotrigina e o lítio36,40, foram randomizados somente os pacientes que tinham apresentado remissão sintomática com o uso da lamotrigina. Nos estudos com a olanzapina39, o aripiprazol37 e a risperidona injetável de ação prolongada38, a substância comparada ao placebo foi a mesma que tinha se mostrado eficaz no tratamento do episódio afetivo agudo.

A duração de cada estudo variou de 26 semanas37 a 24 meses38. Em todos os seis estudos35-40, mais da metade dos pacientes randomizados não permaneceu até o final. Em três desses seis estudos, a taxa de abandono foi superior a 80%36,39,40.

Nos dois estudos com a lamotrigina e o lítio36,40, embora essas duas substâncias tenham sido associadas a um tempo para a recorrência de um episódio afetivo em geral maior que o placebo, elas não se diferenciaram significativamente do placebo quanto à taxa de não recorrência.

 

Discussão

O presente trabalho apresenta uma revisão sistemática dos estudos clínicos com grandes amostras, randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo que investigaram a eficácia do tratamento farmacológico do transtorno bipolar. Em pelo menos um desses estudos, cada uma das substâncias aprovadas pelo FDA para episódios agudos de mania ou depressão bipolar e para o tratamento de manutenção do transtorno bipolar se diferenciou significativamente do placebo quanto à redução nos escores das escalas clínicas ou quanto ao tempo para a recorrência de um episódio afetivo. No entanto, diversas limitações metodológicas podem ser apontadas.

Em primeiro lugar, esses estudos tiveram amostras altamente selecionadas, o que dificulta a generalização de seus resultados para a situação clínica do dia a dia41. Nos estudos relativos ao tratamento da mania ou da depressão aguda, foram excluídos na triagem inicial os pacientes mais violentos, com risco de suicídio e com comorbidades, especialmente com transtornos mentais relacionados a substâncias. Ou seja, foram excluídos justamente os pacientes mais graves. Como exemplo dessa menor gravidade clínica está o fato de as amostras nos estudos sobre o tratamento da depressão bipolar, com uma única exceção31, terem sido constituídas unicamente por pacientes ambulatoriais.

Com relação a quase todos os estudos sobre o tratamento de manutenção, houve um importante viés na seleção das amostras: a substância testada após a randomização era a mesma que tinha sido eficaz no tratamento de um episódio afetivo agudo, numa etapa aberta do estudo. Assim, por exemplo, a olanzapina foi superior ao placebo na prevenção de novos episódios afetivos numa amostra de pacientes que, imediatamente antes, quando estavam em mania, já tinham apresentado uma resposta favorável à mesma olanzapina39. O mesmo pode ser dito em relação à lamotrigina36,40, ao aripiprazol37 e à risperidona injetável de ação prolongada38.

Um aspecto metodológico importante foram as altas taxas de abandono, o que enviesa os resultados do desfecho, mesmo quando se aplicam os princípios da "intenção de se tratar" e da "última observação levada adiante" na análise dos resultados42. Nos estudos sobre o tratamento da mania e da depressão agudas, cerca de 40% dos pacientes em média não concluíram o tratamento. Em relação aos estudos sobre o tratamento de manutenção, as taxas de abandono foram em média 75%.

Outro elemento que merece destaque se refere às taxas de resposta, que, em vários estudos sobre o tratamento da mania, foram inferiores a 50% dos pacientes. Isso aconteceu com todas as substâncias testadas em pelo menos um estudo. Além disso, em quatro estudos - com a olanzapina20, a quetiapina10, a asenapina17, o aripiprazol e o haloperidol23 - as substâncias foram consideradas eficazes, mas não se distinguiram significativamente do placebo quanto à proporção de pacientes considerados respondedores. Com relação à depressão bipolar, apenas 39% dos pacientes que fizeram uso de olanzapina tiveram uma resposta favorável31. Por fim, em dois estudos a lamotrigina e o lítio foram equivalentes ao placebo em relação às taxas de não recorrência de episódios afetivos no tratamento de manutenção do transtorno bipolar36,40.

Na análise da eficácia do tratamento farmacológico do transtorno bipolar, deve-se considerar ainda que os estudos financiados pela indústria farmacêutica que apresentam um resultado negativo frequentemente não são publicados43,44. Assim, há um importante viés se levarmos em conta apenas os estudos publicados. Por outro lado, algumas vezes acontece de o estudo negativo ser publicado, mas a interpretação dos resultados dada pelos autores ser tendenciosa43. Este foi o caso de um estudo com a lamotrigina na depressão bipolar30. Embora a substância tenha sido equivalente ao placebo na medida primária de eficácia, a escala de Hamilton para depressão, os autores enfatizaram diferenças em medidas secundárias de eficácia, como a escala de Montgomery-Asberg, e concluíram que "a lamotrigina em monoterapia é um tratamento eficaz e bem tolerado para a depressão bipolar".

O que também dificulta uma melhor avaliação sobre as opções para o tratamento do transtorno bipolar é a escassez de estudos com uma metodologia adequada com determinadas substâncias ou classes de substâncias. Por exemplo, os estudos com a clorpromazina e outros antipsicóticos típicos na mania são muito antigos5, com exceção de dois estudos com antipsicóticos de segunda geração nos quais o haloperidol foi utilizado como um comparador ativo10,23. Nos estudos controlados por placebo com antidepressivos no tratamento da depressão bipolar, ou a substância estava associada a outro medicamento ou na amostra havia também pacientes com depressão unipolar45. Os dois estudos com o divalproato na depressão bipolar tiveram amostras muito pequenas46,47. Por fim, embora o divalproato seja apontado com uma das principais opções no tratamento de manutenção do transtorno bipolar em diversas diretrizes terapêuticas48, no único estudo controlado com placebo publicado, esse anticonvulsivante não se diferenciou do placebo35.

 

Conclusão

Os resultados dos modernos estudos farmacológicos sobre o tratamento do transtorno bipolar, apesar do emprego de métodos de pesquisa bastante rigorosos e sofisticados, que seguem os padrões científicos atuais, devem ser considerados com cautela. Esses estudos apresentaram algumas importantes limitações metodológicas, tais como amostras altamente selecionadas, altas taxas de abandono e baixas taxas de resposta terapêutica.

 


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Correspondência:
Elie Cheniaux
R. Santa Clara, 50 / 1213 - Copacabana
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Submitted: 22 Maio 2010
Accepted: 7 Julho 2010

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