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Revista Brasileira de Psiquiatria

Print version ISSN 1516-4446

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.33 no.1 São Paulo Mar. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462011000100025 

LIVROS

 

Evolução do cérebro: sistema nervoso, psicologia e psicopatologia sob a perspectiva evolucionista

 

 

 

Dalgalarrondo P. Porto Alegre: Artmed, 2011, 461p.

Esse é, sem dúvida alguma, um livro raro em nosso meio. Raro e instigante. Como o próprio autor afirma, o leitor é convidado para uma viagem pela neurociência evolucionista, ou seja, é chamado a entender como o cérebro se modificou ao longo da história filogenética da vida. Para isso, parte de princípios básicos enunciados por Charles Darwin e Theodosius Dohzhansky de que a única explicação crível para compreender o binômio diversidade-unidade dos organismos é de que eles teriam evoluído a partir de um ancestral comum. A unidade da vida, em suas dimensões bioquímica, genética e de estrutura celular, só se tornaria compreensível à luz da evolução.

Dessa forma, o Professor Dalgalarrondo enfatiza que a neuroanatomia, a neurofisiologia e as ciências do comportamento e da mente ganham sentido sob a perspectiva evolucionista. O livro, no entanto, não aborda apenas a evolução do cérebro. Ele se acerca da evolução do funcionamento mental e do comportamento. Finalmente, se debruça em como a teoria evolucionista pode oferecer modelos explicativos para a compreensão dos estados e dos transtornos mentais mais significativos e de seus sintomas.

A pergunta, por óbvia, que fica é: quem é, afinal, o leitor para esse livro? O próprio autor explica que o texto não foi escrito exclusivamente para estudantes de pós-graduação. A elaboração do livro visa estudantes de graduação de cursos das áreas de ciências biológicas e da saúde, assim como antropologia, residentes em psiquiatria ou neurologia, e também o chamado "leitor curioso" do tema. No entanto, o autor, com certeza, reconhece também que, mesmo para aqueles profissionais que são essencialmente clínicos, essa obra os ajuda a reconhecer que as neurociências evolutivas podem em muito contribuir para a ampliação do conhecimento. Dessa forma, portanto, para uma melhor prática médica.

A primeira parte do livro trata da "Evolução da vida e o homem". A segunda, aborda "O cérebro sob a perspectiva evolucionista". A terceira parte, "Cérebro e comportamento", aborda temas de clara influência clínica, como o da lateralização dos hemisférios e o da plasticidade neuronal. A última parte do livro, "Medicina evolucionista e psicopatologia", tem claro interesse para o psiquiatra clínico. Nessa última sessão, são analisados alguns transtornos mentais sob a perspectiva evolucionista, como a esquizofrenia (e a teoria de Timothy Crow), o autismo, os transtornos de ansiedade, a depressão, o transtorno de humor bipolar, os transtornos de personalidade, os transtornos de abuso e dependência de substâncias, e as demências. Essa é uma parte que, por certo, estimula o psiquiatra clínico a fazer "uma ponte" entre as ciências básicas e a psicopatologia.

Estamos, com certeza, frente a uma excelente obra científica. Esse livro traz o talento já reconhecido do Professor Dalgalarrondo, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), a serviço de uma abordagem inédita na língua portuguesa sobre um tema tão vasto quanto estimulante. Nós, psiquiatras brasileiros, merecíamos, já há algum tempo, um livro sobre psicopatologia a partir da perspectiva evolucionista. Agora, fomos presenteados com um livro a altura de toda a nossa melhor expectativa.

 

Eugenio Grevet
Programa de Pesquisa em Déficit de Atenção-Hiperatividade
em Adultos (PRODAH-Adultos), Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS, Brasil

 


 

Treating child & adolescent mental illness: a practical, all-in-one guide

 

 

 

Shatkin JP. 1st ed. New York (NY): W. W. Norton & Company; 2009.

O campo da Psiquiatria da Infância e da Adolescência tem evoluído intensamente nos últimos anos com novas abordagens psicofarmacológicas, refinamentos na avaliação clínica e avanços nas formas de psicoterapia. Nesse contexto de efervescência, a obra de Jess P. Shatkin, professor de Pediatria e Psiquiatria da Infância e da Adolescência da New York University e diretor de ensino e treinamento do NYU Child Study Center, nos traz uma agradável atualização sobre os tratamentos dos transtornos mentais de crianças e adolescentes. Seu livro possui a exata profundidade para satisfazer o objetivo de ser um guia prático em volume único abrangendo todos os tratamentos dentro da psiquiatria pediátrica.

O livro está dividido em 15 capítulos com os diversos transtornos que acometem nossas crianças e adolescentes. São eles: Introdução, TDAH, Transtornos disruptivos, Transtornos de aprendizagem, Transtornos de linguagem, Retardo mental, Transtornos do espectro autista, Tourette e transtornos de tique, Transtornos de ansiedade, Depressão, Transtorno bipolar, Esquizofrenia e psicose, Transtornos de uso de substância, Transtornos alimentares e Transtornos do sono. Ao final, conta, ainda, com uma revisão rápida sobre a história da psicofarmacologia pediátrica, o processo de avaliação e tratamento para esta população, e discute de forma crítica a questão dos Black Box Warnings colocados pelo Food and Drug Administration nos antidepressivos em relação ao aumento da ocorrência de suicídios com o uso destes fármacos.

Os capítulos trazem o pano de fundo histórico de cada transtorno, revisam sua apresentação clínica, nos atualizam sobre os últimos avanços das pesquisas sobre etiologia (neurociências, genética, neuroendocrinologia etc.), epidemiologia, curso clínico, diagnóstico e sobre as diversas formas de tratamentos existentes hoje. O livro não se limita aos tratamentos psicofarmacológicos, já que traz as evidências científicas das várias formas de psicoterapia que hoje são indicadas. De forma bastante interessante, em grande parte dos capítulos traz o contraponto do referencial psicanalítico em relação aos referenciais neurobiológico, cognitivo, comportamental e sistêmico. Apresenta-nos as evidências dos estudos que embasam as condutas terapêuticas e também nos mostra as áreas nas quais ainda há deficiência de conhecimento científico. Outro aspecto de grande utilidade clínica é que o autor nos coloca em contato com as diversas escalas psicométricas que são aplicadas na prática diária da avaliação dos transtornos.

De maneira bastante fluida, sua obra é atraente tanto a especialistas no campo da psiquiatria da infância e da adolescência quanto a estudantes da graduação e residentes, já que possibilita a oportunidade de uma revisão ampla para os mais experientes e um conhecimento prático e rápido para os que estão começando. Elegantemente, também consegue ser de grande utilidade como guia e material de consulta para seminários sobre o tema. O objetivo de ser um texto conciso sobre as diversas abordagens terapêuticas é atingido com méritos por incluir todo o aparato atual da medicina baseada em evidências. Essa é, sem dúvida, uma obra altamente recomendada para profissionais que lidam diariamente com o tratamento de crianças e adolescentes que sofrem de transtornos mentais.

 

Felipe Almeida Picon
Ambulatório de pesquisa em TDAH em Adultos
(ProDAH-A), Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA),
Porto Alegre, RS, Brasil