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Revista Brasileira de Psiquiatria

versão impressa ISSN 1516-4446

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.34 no.2 São Paulo jun. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462012000200015 

CARTA AOS EDITORES

 

Comportamentos sexuais compulsivos graves: relato de dois casos em tratamento

 

 

Maria Luiza Sant'Ana do AmaralI,II; Marco de Tubino Scanavino, PhDIII

IPsicóloga
IIExpert em Sexualidade Humana, Escola de Medicina, Universidade de São Paulo (USP)
IIIMédico Assistente, Programa de Estudos da Sexualidade (ProSex), Instituto de Psiquiatria da Escola de Medicina, Universidade de São Paulo (USP)

 

 

Prezado Editor

O comportamento sexual compulsivo (CSC) é definido por pulsões sexuais, fantasias sexualmente ativadoras e comportamentos sexuais que são recorrentes e intensos, causando interferências perturbadoras na vida cotidian.1 O CSC grave pode se associar à ocorrência prolongada de CSC e a várias consequências negativas: sofrimento emocional intenso, sanções legais e riscos elevados à saúde.1 Por exemplo, relações sexuais sem proteção intencionais (barebacking) e práticas sexuais em homens que fazem sexo com homens (HSH),2 que contribuem para aumentar os indicadores de transmissão de HIV.3

No Brasil os HSH constituem 28% dos casos de AIDS em indivíduos masculinos desde 2000.4 Analisando os relatos de dois casos graves de CSC associados a barebacking , viu-se que esses pacientes foram submetidos a tratamento psiquiátrico por medicação (Tabela 1) e a 16 sessões de psicoterapia psicodinâmica. O inventário usado foi a Sexual Compulsivity Scale (SCS), a qual foi aplicada antes da intervenção, imediatamente depois e três meses após a mesma (Tabela 1). Os comportamentos sexuais estudados foram: ter um parceiro básico, número de parceiros casuais e uso de preservativos durante o coito anal. O critério para barebacking foi o relato do não uso de preservativo durante a maioria das ocasiões de relação sexual anal. O critério para CSC foi superar o escore limite de 24 à SCS.5

Esse estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética do Hospital das Clínicas da Escola de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). Os pacientes procuraram tratamento para CSC no Programa de Estudos da Sexualidade do Instituto de Psiquiatria no HC-FMUSP. Eles foram admitidos ao estudo depois de assinar o formulário de consentimento.

C., que é HIV negativo, relata a ocorrência de CSC desde 2000. Os principais aspectos desse CSC incluíam: bate-papos por telefone ou internet e visitas a cinemas e saunas em busca de sexo. Ele relatou 30 a 40 parceiros casuais nos últimos seis meses, apesar de um relacionamento de três anos com um parceiro básico, com o qual ele raramente usa um preservativo. Ele vinha usando outras estratégias para a redução do risco sexual, como fazer o parceiro retirar o pênis antes da ejaculação.

A., que é HIV positivo, relatou nunca ter tido um relacionamento estável e estar constantemente em busca de sexo em saunas. Ele paga por seus encontros sexuais e relata ter tido relações sexuais anais receptivas sem proteção com três homens diferentes de cada vez. A. relatou ter tido 50 parceiros casuais nos últimos seis meses.

Ao final do tratamento A. e C. apresentaram melhoras de acordo com os escores da SCS (Tabela 1), aumentando seu controle sobre o CSC e o uso de preservativos. A. visitou saunas em frequência menor, teve apenas quatro parceiros casuais nos últimos seis meses e usou preservativos na maior parte das ocasiões. Ele aumentou seu reconhecimento dos riscos de doenças sexualmente transmitidas envolvendo sexo não seguro. C. aumentou o uso de preservativos com seu parceiro básico, parou de frequentar saunas e cinemas e diminuiu seu uso da internet e a prática de sexo casual, baixando para quatro parceiros casuais num período de seis meses, com uma frequência de uso de preservativo de 50%.

Esses relatos sugerem que o tratamento medicamentoso psiquiátrico e a psicoterapia breve psicodinâmica podem aumentar o controle sobre o CSC e reduzir as evoluções finais negativas.

 

Agradecimentos

Esse artigo faz parte do Projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Processo n. 2010/15921-6. Agradecemos à Dra, Carmita Abdo, que coordena o ProSex.

 

Referências

1. Miner M, Coleman E, Center B, Ross M, Rosser B. The compulsive sexual behavior inventory: psychometric properties. Arch Sex Behav. 2007;36(4):579-87.         [ Links ]

2. Carballo-Diéguez A, Ventuneac A, Bauermeister J, G.W. Dowsett, Dolezal C, Remien RH, Balan I, Rowe M. Is 'bareback' a useful construct in primary HIV-prevention? Definitions, identity and research. Cult Health Sex. 2009;11(1):51-65.         [ Links ]

3. Parsons J, Bimbi D. Intentional unprotected anal intercourse among sex who have sex with men: barebacking - from behavior to identity. AIDS Behav. 2007;11(2):277-87.         [ Links ]

4. Brasil. Ministério da Saúde. Programa Nacional de DST e Aids. 2011. http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/gerson_pereira.pdf.         [ Links ]

5. Parsons JT BD, Halkitis PN. Sexual compulsivity among gay/bisexual male escorts who advertise on the Internet. Sex Add Compul. 2001;8:101-12.         [ Links ]

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