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Brazilian Journal of Poultry Science

Print version ISSN 1516-635XOn-line version ISSN 1806-9061

Rev. Bras. Cienc. Avic. vol.2 no.3 Campinas Sept. 2000

https://doi.org/10.1590/S1516-635X2000000300011 

Influência do Genótipo e do Sexo Sobre o Valor Hematócrito em Galinhas Reprodutoras Pesadas

Influence of The Genotype and Sex on The Hematocrit Value of Meat-Type Chicken

 


Autor(es) / Author(s)

Rosário MF1
Silva MAN1
Martins E2
Savino VJM3
Coelho AAD3

1-Bolsista CNPq/ESALQ-USP

2-Técnico especializado do Departamento de Genética ESALQ-USP

3-Docentes do Departamento de Genética ESALQ-USP

 

Corresponência / Mail Address

Millor Fernandes do Rosário

Escola Sup. de Agricultura Luiz de Queiroz - USP
Av: Pádua Dias, 11 - Caixa Postal 83
13400-970 - Piracicaba - SP - Brasil

E-mail: mfrosari@carpa.ciagri.usp.br 

 

Unitermos / Keywords

porcentagem de células sanguíneas, genótipos de aves, melhoramento genético, frangos de corte

packed cells volume, chicken genotype, genetic breeding, broilers.

 

Observações / Notes

Suporte financeiro CNPq.

Agradecimentos ao Profº Dr. Raul Machado Neto, do Depto. de Produção Animal da ESALQ/USP, pelo auxílio na realização das análises laboratoriais e aos professores Dr. Sílvio Zocchi e Dr. Antonio Augusto Franco Garcia, do Depto. de Ciências Exatas da ESALQ/USP, pela orientação na execução das análises estatísticas.

RESUMO

Este trabalho avaliou o efeito do genótipo e do sexo sobre os valores de hematócrito em galinhas para corte. Foram utilizados 180 reprodutores, provenientes de 18 genótipos experimentais, dos quais amostras de sangue foram coletadas para determinação da porcentagem de células sanguíneas. Para o fator genótipo foi possível distinguir dois grupos, com médias variando de 45,83 a 41,69% e 41,24 a 37,21%. Já para o fator sexo, os valores apresentaram diferença significativa, com valores de 46,20 ± 4,14% para machos e 35,74% ± 3,16% para fêmeas. Concluiu-se que o genótipo e o sexo influenciaram o valor hematócrito em galinhas reprodutoras pesadas, além de agrupar todos os genótipos em dois grupos.

 

ABSTRACT

The objective of this research was to evaluate the effect of the genotype and sex on the value of meat-type chicken hematocrit (percentage packed cells volume). One hundred and eighty breeders of 18 experimental genotypes were used. Individual samples of blood were collected and the percentage packed cells volume was determined. For the factor genotype, it was possible to distinguish two different groups with averages changing from 45,83 to 41,69% and 41,24 to 37,21%. For sex, the values showed significant difference with values of 46,20 ± 4,14% for males and 35,74 ± 3,16% for females. In conclusion the genotype and sex influenced the hematocrit value in meat-type chickens, above to cluster every genotypes in two groups.


 

 

INTRODUÇÃO

A seleção de linhagens de aves para corte tem resultado em substancial aumento na velocidade de crescimento. As limitações anatômicas e fisiológicas da circulação sanguínea nos pulmões provoca a síndrome de hipertensão pulmonar (PHS); esta pode originar grande acúmulo de fluido na cavidade abdominal, quadro este denominado de síndrome ascítica (Julian, 1993). Na síndrome ascítica ocorre redução da eficiência da circulação sangüínea, levando as aves à morte por hipóxia, predominantemente no período entre 30 e 40 dias de idade (Dale, 1990).

As patologias avícolas consideradas multifatoriais exigem estudos amplos, sendo de fundamental importância a interação entre as variações ambientais e a resposta fisiológica da ave. A síndrome ascítica se encaixa nesse conceito, por ser uma manifestação patológica que ocorre quando certos fatores genéticos, nutricionais, ambientais e de manejo atuam em conjunto determinando o processo (Jaenisch et al., 1995).

Os diversos fatores, incluindo altitude, concentração de amônia, baixas temperaturas, crescimento rápido, dietas densas, reações vacinais, doenças respiratórias e suscetibilidade genética atuam produzindo uma deficiência de oxigênio nos tecidos (Julian, 1990). O ventrículo direito que bombeia sangue para a artéria pulmonar aumenta de volume, perdendo sua capacidade de suprir as demandas de sangue arterial para todo o organismo da ave.

Numa tentativa de contornar a deficiência de oxigênio no sangue, mecanismos de regulação são acionados devido à homeostase. Em resposta, o organismo passa a produzir maior número de hemáceas e o coração bate mais rápido, a fim de minimizar prejuízos devido à deficiência de suprimento de oxigênio para as diferentes partes do organismo (Macari et al., 1994).

Estudos de Rose & Waldmann (1966) mostraram que a anóxia em aves estimula a produção de hemácias, resultando em maior densidade sangüínea e consequentemente maiores valores de hematócrito e de viscosidade. Esses relatos concordam com os de van Blerk (1985), que constatou sintomas de falha cardíaca e edema, incluindo ascite e alto hematócrito, para uma pressão parcial de oxigênio diminuída. Cueva et al. (1974) observaram um aumento considerável de glóbulos vermelhos, do volume corpuscular médio e dos valores de hematócrito em frangos que apresentavam ascite. Os autores verificaram ainda que o teor de hemoglobina nos glóbulos vermelhos aumentou nessas aves.

Conforme indicado por Shlosberg et al. (1992), um parâmetro apropriado para se fazer a monitoria da ascite é o hematócrito (% células sangüíneas), o qual reflete a hipertrofia do ventrículo direito, sendo seu valor mais elevado em aves com a síndrome.

De Morais et al. (1996) relatam que o sexo é um dos fatores que mais influenciam na suscetibilidade à síndrome ascítica, sendo o macho mais afetado devido a maior velocidade de crescimento. Esse relato concorda com os de Coello et al. (1993), que obtiveram uma mortalidade pela síndrome ascítica de 11% em lote constituído apenas de machos, de 10% em lote misto (fêmeas e machos) e não verificaram mortalidade por ascite no lote constituído apenas de fêmeas.

Silversides et al. (1997) e Lubritz & McPherson (1994) demonstraram ser possível fazer a diferenciação entre genótipos de frangos utilizando-se da técnica do micro-hematócrito.

Diante do exposto, delineou-se o presente trabalho com o objetivo de avaliar as influências do genótipo e do sexo sobre o valor de hematócrito em galinhas reprodutoras pesadas visando a obtenção de famílias que possam ser testadas para resistência à síndrome ascítica.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

O presente trabalho foi realizado nas instalações experimentais do Setor de Aves do Departamento de Genética da ESALQ/USP, Piracicaba-SP, no período de maio a julho de 1999.

Utilizou-se 180 reprodutores de frangos de corte de ambos os sexos, sendo 90 fêmeas e 90 machos, com idade média de 35 semanas, pertencentes a 18 genótipos experimentais do Programa de Melhoramento Genético de Galinhas para Corte da ESALQ/USP, a saber: A1, A2, A3, B1, B2, B3, C1, C2, C3, D1, D2, D3, MO, PB, PC, DD, MP e LL. Essas aves foram obtidas por amostragem ao acaso, de 5 aves de cada sexo dentro de cada genótipo. A seguir são descritas as procedências de cada linhagem. As linhagens A1, A2 e A3 são de fêmeas da linhagem de fêmea; B1, B2 e B3 são de machos da linhagem de fêmea; C1, C2 e C3 são de fêmeas da linhagem de macho; e D1, D2 e D3 são de machos da linhagem de macho. Os números 1, 2 e 3 indicam diferentes épocas de obtenção das linhas, em 1981, 1982 e 1984, respectivamente. As linhas foram obtidas a partir de matrizes e avós comerciais de origem importada e vêm sendo melhoradas para taxa de crescimento e características reprodutivas, utilizando-se seleção massal, ou seja, seleção fenotípica individual das progênies de cruzamentos entre machos e fêmeas da mesma linha, sendo a linha macho selecionada para características de corte, e a fêmea para caracteres reprodutivos. A linhagem DD é portadora do gene do nanismo (dwarf). PB é uma linhagem portadora do gene pescoço pelado (Na) com coloração branca das penas. PC é uma linhagem portadora do gene pescoço pelado (Na) com penas coloridas. MO é uma linhagem de corte selecionada para elevada produção de ovos. MP é uma linhagem de corte selecionada para elevado peso corporal. E LL é uma linhagem de corte auto-sexável, portadora do gene do empenamento lento (K).

Quando da época do experimento, essas aves estavam recebendo ração de reprodução com 3.200 kcal, 17% de proteína bruta e 4% de cálcio, sendo fornecidos 120 e 160 gramas por ave por dia, respectivamente, para machos e fêmeas.

O hematócrito foi determinado através da técnica do micro-hematócrito, em que cinco amostras individuais do sangue de cada ave foram coletadas da veia braquial utilizando-se de agulha descartável. Com o intuito de minimizar contaminantes e/ou fatores que pudessem interferir na obtenção dos resultados, limpou-se a região com solução de iodo e álcool, na proporção 2:1. Com uma perfuração na veia, colocou-se os micro-tubos heparinizados, tendo o sangue completado 2/3 do volume dos mesmos por capilaridade. A selagem dos micro-tubos foi feita a fogo, com o auxílio do bico de Bunsen.

As amostras foram centrifugadas a 11.500 rpm durante 5 minutos. Com o auxílio de um cartão de leitura (FANEM Ltda), cada micro-tubo foi lido, obtendo-se a porcentagem de células em relação ao volume total de sangue coletado.

Os dados obtidos foram analisados por ANOVA, utilizando-se o procedimento GLM do programa estatístico SASâ (1985), em um delineamento inteiramente casualizado, em esquema fatorial 18 x 2 (18 genótipos e 2 sexos), com 5 repetições. Quando necessário, procedeu-se a comparação entre médias pelo teste de Scott-Knott, o qual fez o agrupamento estatístico a partir das médias do hematócrito dos genótipos estudados, para p£ 0,05, de acordo com Scott & Knott (1974).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Através da análise de variância (Tabela 1), verificou-se diferenças altamente significativas (p<0,01) dos valores de hematócrito para o efeito dos fatores sexo e genótipo. Já a interação sexo x genótipo não mostrou-se capaz de influenciar os resultados obtidos quando da análise dos dois fatores em separado.

 

 

Através do teste de Scott-Knott foi possível agrupar estatisticamente os 18 genótipos em 2 grupos distintos para a característica fenotípica hematócrito.(Tabela 2)

 

 

Um grupo foi constituído pelos genótipos DD, PB, LL, B1, D1 e A1, em que DD apresentou a maior média (45,83%) e A1 a menor (41,69%); e o outro grupo, pelos genótipos MO, C3, B2, PC, B3, D3, MP, A3, C2, C1, D2 e A2, em que MO apresentou a maior média (41,24%) e A2 a menor (37,21%).

Apesar dos genótipos A, B, C e D (1, 2 e 3) possuírem origens próximas, esperava-se que os seus valores de hematócrito fossem semelhantes, sendo colocados em um mesmo grupo, porém as médias de hematócrito dos genótipos A1, B1 e D1 foram agrupadas em um grupo diferente dos demais.

Os valores de hematócrito para todos os genótipos foram superiores aos determinados por Maxwell et al. (1992), que encontraram para aves normais valores de 27,06 ± 2,6% e para aves ascíticas, de 37,2 ± 10,6%.

Dessa forma, todas as aves, de todos os genótipos, estariam comprovadamente ascíticas, porém isso não pôde ser confirmado, já que não houve registros de mortalidade por ascite em nenhum dos 18 genótipos estudados.

Os valores elevados apresentados podem ser uma característica intrínseca de cada genótipo, não podendo-se relacionar os altos valores de hematócrito com suscetibilidade à ascite nesse caso. Apenas pode-se afirmar que o genótipo influi no valor hematócrito.

Silversides et al. (1997), avaliando o valor hematócrito em nove linhagens comerciais de frangos de corte, constataram a divisão em 4 grupos aos 21 dias e em 3 grupos aos 42 dias de idade para essa característica, com valores variando de 28,80 a 32,90% e 27,10 a 33,80% na primeira e segunda idades, respectivamente. Utilizando-se do frio como fator estressante, Lubritz & McPherson (1994) também encontraram diferenças entre três genótipos com relação aos valores de hematócrito, sendo que as aves estressadas apresentaram maior valor. Nos dois trabalhos foram obtidos índices de mortalidade, podendo-se afirmar que as aves com maior hematócrito foram as mais suscetíveis à ascite.

Observou-se que o sexo da ave foi fator de diferenciação para os valores de hematócrito, sendo que para os machos a média foi de 46,20 ± 4,14% e para as fêmeas, foi de 35,74 ± 3,16%. Esse resultado, como postulado por De Morais et al. (1996) e Coello et al. (1993), sugere que os frangos de corte machos, por serem mais suscetíveis à síndrome ascítica do que as fêmeas, apresentam valores superiores de hematócrito. Esse fato está provavelmente associado ao desenvolvimento mais acelerado dos machos em relação às fêmeas (Waldroup et al., 1990).

Conforme Shlosberg et al. (1992) e Cueva et al. (1974), aves ascíticas apresentam maiores valores de hematócrito. Tendo sido detectada variabilidade nos valores para essa característica entre os 18 genótipos analisados neste trabalho, reforçou-se a hipótese de Shlosberg et al. (1992) de que o hematócrito pode ser um parâmetro indireto indicado para o monitoramento da hipertrofia ventricular direita na seleção de genótipos resistentes à síndrome ascítica.

 

CONCLUSÕES

Com os resultados obtidos pôde-se concluir que os fatores sexo e genótipo da ave diferenciaram os valores de hematócrito em galinhas reprodutoras pesadas e dentre os 18 genótipos estudados foi possível distinguir dois grupos para essa característica.

 

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