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Brazilian Journal of Poultry Science

versão impressa ISSN 1516-635Xversão On-line ISSN 1806-9061

Rev. Bras. Cienc. Avic. v.3 n.2 Campinas maio/ago. 2001

https://doi.org/10.1590/S1516-635X2001000200008 

Efeitos de Produto de Exclusão Competitiva na Prevenção dos Efeitos Tóxicos da Ocratoxina A em Frangos

The Effect of Competitive Exclusion Product on the Prevention of the Toxic Effects of Ochratoxin in Broilers

 

 


Autor(es) / Author(s)

Santin E1
Maiorka A2
Gama NMSQ2
Dahlke F2
Krabbe EL2
Paulillo AC2

1 - Aluna do curso de pós-graduação em Medicina Veterinária FCAV/UNESP - Jaboticabal.

2 - FCAV/UNESP - Jabuticabal

 

Correspondência / Mail Address

Elizabeth Santin

Depto. de Patologia Veterinária / FCAV-UNESP
Via de Acesso Prof º Paulo Donato Castellane, s/n
14870-000 - Jaboticabal - SP - Brasil

E-mail: besantin@fcav.unesp.br

 

Unitermos / Keywords

frangos de corte, exclusão competitiva, mucosa intestinal, ocratoxina

broilers, competitive exclusion, intestinal mucosal, ochratoxin

 

Observações / Notes

Os autores agradecem à Fapesp pelo suporte financeiro desse trabalho.

Aviguard â - Bayer

RESUMO

Esse experimento foi realizado com o objetivo de avaliar a ação de produto de exclusão competitiva (EC) sobre os efeitos da ocratoxina A (OA). As aves alimentadas com 2 ppm de OA na dieta reduziram significativamente o consumo de ração e ganho de peso, além de apresentarem pior conversão alimentar quando comparadas às aves não expostas à OA na dieta. O emprego da EC no primeiro dia de vida não minimizou esses efeitos, bem como não afetou os parâmetros zootécnicos estudados. Aves alimentadas com OA apresentaram diminuição nos títulos vacinais contra o vírus da doença de Newcastle, evidenciando-se assim a interferência dessa micotoxina na resposta imune humoral de frangos de corte. De outra forma, a EC não interferiu na resposta imune humoral de frangos de corte vacinados contra a doença de Newcastle. Tanto a AO como a EC não alteraram os dados de altura de vilo, profundidade de cripta e relação vilo:cripta nas aves aos sete dias de idade quando comparados àqueles do grupo controle na mesma idade

 

ABSTRACT

This experiment aimed at evaluating the action of competitive exclusion (CE) on the effects of ochratoxin A (OA). Birds fed 2ppm OA in the diet had significant lower feed intake, weight gain, and feed conversion than birds not exposed to OA in the diet. The use of CE on the first day of age did not minimize these effects nor the performance parameters studied. Birds fed OA has lower vaccinal titers of Newcastle disease virus, showing the interference of this mycotoxin on the humoral immune response of broilers. CE did not interfere in the humoral immune response of broilers vaccinated for Newcastle disease. OA and CE did not influence villus height, crypt depth, nor villus:crypt ratio in seven-day-old birds as compared to control broilers of the same age.


 

 

INTRODUÇÃO

Ocratoxicose é uma patologia causada pela ocratoxina A (OA), que é sintetizada por diversas espécies de fungos dos gêneros Aspergillus e Penicillium, sendo muitas vezes encontrada contaminando cereais utilizados na alimentação animal (Castro et al. 1995). Os principais aspectos dessa patologia referem-se a severas lesões renais e hepáticas que resultam em imunossupressão e perda de desempenho das aves (Gibson et al.,1990). Recentemente, tem se buscado várias alternativas para reduzir as patologias causadas pelas micotoxinas nos animais. Entre elas, destacam-se os métodos biológicos de prevenção e controle que referem-se ao emprego de microorganismos vivos para minimizar as perdas das micotoxicoses. Stanley et al. (1993) apresentaram que o uso da levedura viva Saccharomyces cerevisiae reduziu os danos ocasionados pelas aflatoxinas. Esses autores sugeriram que esses microorganismos (MO) poderiam atuar degradando parte dessa toxina no intestino ou ainda ser adsorvida pela parede celular dessa levedura. Edens et al. (1999) verificaram que Lactobacillus reuteri, comumente utilizado como probiótico, foi capaz de adsorver aflatoxina in vitro, resultando em menor disponibilidade dessa toxina livre. De outra forma, o uso de produtos de exclusão competitiva (EC) tem se mostrado bastante eficaz para colonizar rapidamente o intestino delgado das aves e disponibilizar maior quantidade de bactérias, que eventualmente poderiam atuar sobre as micotoxinas no intestino. Observando esses resultados, foi elaborado o presente trabalho com o objetivo de avaliar a eficácia do uso da EC em aves intoxicadas com OA.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados 192 frangos, machos, Cobb, do 1º até o 21º dia de idade, alojados em baterias e seguindo normas tradicionais de manejo. As rações foram isonutritivas (Tabela 1) à base de milho e farelo de soja, formuladas de acordo com os níveis preconizados pelo National Research Council (1994). O consumo de água e ração foram ad libtum e as aves receberam luz durante as 24 horas do dia. O delineamento experimental foi inteiramente casualizado, com quatro tratamentos e quatro repetições com 12 aves cada. Os tratamentos consistiam em: T1 - Controle, T2 – submetido a EC no primeiro dia de vida, T3 – 2 ppm de OA na dieta e T4 - submetido a EC no primeiro dia de vida e 2 ppm de OA na dieta. As aves do T2 e T4, receberam um produto de ECÒ constituída de 4x109 UFC/g de bactérias anaeróbicas, 1x108 UFC/g de bactérias do gênero enterococcus, 1x104 UFC/g de bactérias coliformes não patogênicas e 1x107 UFC/g de bactérias produtoras de ácido láctico na água de bebida, sendo oferecida durante um período de três horas a partir do alojamento. A OA utilizada nos grupos T2 e T4 foi produzida através da fermentação do trigo com A. ochraceus, estirpe NRRL 3174, em umidade de 46%, conforme Manning & Wyatt (1984). Após 11 dias de fermentação, o trigo foi seco e moído, sendo seu teor de OA analisado mediante emprego do método de cromatografia de camada delgada (Soares & Rodriguez-Amaya, 1989), e incorporado à dieta das aves, em misturador tipo "Y", em concentração de 2 ppm. Aos sete dias de idade, todos os grupos experimentais foram vacinados, via ocular, utilizando vacina proveniente de um mesmo laboratório, com a estirpe lentogênica LaSota, do vírus da doença de Newcastle (VDN). O título dessa vacina foi obtido mediante determinação de sua dose infectante 50% (DIE50) em ovos embrionados de galinha SPF (Specific-pathogen-free), de oito a dez dias de incubação, sendo DIE50 (LaSota) = 107,20/0,1mL. Para a diluição das vacinas liofilizadas, empregou-se água destilada como diluente, na proporção de 30 mL/1000 doses vacinais/1000 aves, correspondente a 0,03 mL de dose vacinal ocular, conforme metodologia utilizada por Paulillo (1987).

 

 

Foram colhidas amostras de sangue de oito aves por grupo experimental, aos 7, 10 e 20 dias de idade das aves, por punção da veia da asa. Os soros foram separadas por centrifugação a 1000 g, durante 15 minutos, inativados a 56ºC, por 30 minutos e armazenados a -20ºC até o momento do uso. Para pesquisa de anticorpos inibidores da hemaglutinação para a doença de Newcastle, utilizou-se a reação de inibição da hemaglutinação (HI) com antígenos vivos, utilizando-se método b, padronizado por Cunningham (1971). O título dos anticorpos foi obtido transformando-se os valores das últimas diluições em que verificou-se a reação de inibição total da hemaglutinação em log2.

Aos sete dias de idade, quatro aves de cada tratamento foram sacrificadas por deslocamento cervical, após jejum de 12 horas para colheita do intestino delgado. Foram colhidos fragmentos de aproximadamente 2 cm de cada porção do intestino delgado (duodeno: a partir do piloro até a porção distal da alça duodenal; jejuno: a partir da porção distal da alça duodenal até o divertículo de Meckel e íleo: entre o divertículo de Meckel e a abertura dos cecos), os quais foram fixados em líquido de Bouim, desidratados em série crescente de álcoois, diafanizados em xilol e incluídos em parafina. A microtomia foi realizada com 14 cortes de 5 m m, dispostos em lâminas de vidro. Esses, posteriormente, foram corados com ácido periódico de Shiftt e cobertos com lamínula de vidro. As análises morfométricas do epitélio intestinal foram feitas em microscopia de luz, em sistema analisador de imagens Vídeo Plan. As variáveis estudadas foram altura dos vilos, profundidade de cripta (50 leituras por lâmina) e relação vilo/cripta. Para os resultados de desempenho foram analisados: consumo de ração, ganho de peso e conversão alimentar. Os resultados foram submetidos à análise da variância (GLM do SAS), sendo a diferença entre as médias verificada pelo teste de Tukey.

 

RESULTADOS

Os resultados de consumo de ração, ganho de peso e conversão alimentar estão apresentados na Tabela 1. As aves de 1 a 21 dias de vida alimentadas com 2 ppm de OA na dieta reduziram significativamente o consumo de ração e ganho de peso e também apresentaram pior conversão alimentar (p < 0,01) quando comparadas às aves não expostas à OA na dieta. O emprego da EC nas aves, no primeiro dia de vida, não minimizou esses efeitos, bem como não afetou os parâmetros zootécnicos estudados.

Independentemente do tratamento, as aves desse ensaio, apresentaram-se, aos 7 dias de idade, portadoras de anticorpos passivos inibidores da hemaglutinação. Analisando a Tabela 2, observa-se que os títulos de anticorpos inibidores da hemaglutinação aumentaram linearmente a partir da primovacinação para todos os grupos. Apesar de todos os grupos responderem aos estímulos antigênicos, os melhores títulos de anticorpos inibidores da hemaglutinação foram obtidos aos 20 dias de idade em aves não expostas à toxina (Grupos T1 e T2), evidenciando-se, assim, a interferência da OA (p < 0,01) na resposta imune humoral de frangos de corte vacinados contra a doença de Newcastle. De outra forma, a EC não interferiu (p > 0,05) na resposta imune humoral de frangos de corte vacinados contra a doença de Newcastle.

 

 

Tanto a OA como a EC não alteraram os dados de altura de vilo, profundidade de cripta e relação vilo:cripta nas aves aos sete dias de idade quando comparados àqueles do grupo controle na mesma idade (Tabela 3).

 

 

DISCUSSÃO

De maneira geral, a OA na dieta piorou o desempenho (Tabela 1) e diminuiu a resposta imune humoral das aves a vacina do VDN (Tabela 2). Todos esses dados estão de acordo com Santin (2000), que, estudando o efeito da OA em frangos de corte, também demonstrou a capacidade deletéria dessa toxina. De outra forma, o uso de um produto de EC no primeiro dia de vida das aves não interferiu no desempenho e na resposta imune das aves. Por outro lado, avaliando-se os aspectos morfométricos da mucosa intestinal, foi possível observar que nem a OA nem a EC atuaram sobre esses aspectos.

Nos últimos anos, vários autores (Hofacre et al., 1998) têm demonstrado que a aplicação de uma microbiota adequada as aves no primeiro dia de vida possibilita que o trato gastrointestinal desses animais torne-se mais saudável e menos predisposto a ataques de microorganismos patogênicos. Além disso, Edens et al. (1999) apresentaram que, em estudo in vitro, algumas bactérias utilizadas como probióticos para aves têm a capacidade de adsorver micotoxina, sugerindo que a utilização de microorganismos talvez seja uma alternativa ao controle das micotoxicoses. Entretanto, no presente estudo, pode-se observar que não houve interação entre a EC e a OA na dieta, demonstrando que a EC não preveniu os prejuízos no desempenho e da resposta imune humoral proporcionados pela OA. Assim, é conveniente especular que, provavelmente, o uso da EC apenas no primeiro dia de vida não possibilita que um número adequado de bactérias esteja disponível para adsorver a OA que foi oferecida diariamente as aves.

Desta forma, apesar da EC ser considerado um suplemento constituído de microorganismos vivos capazes de beneficiar o hospedeiro através do equilíbrio da microbiota intestinal, parece não ser pertinente sua utilização na prevenção dos efeitos negativos da OA em frangos.

 

CONCLUSÕES

Nas condições em que foi realizado este estudo, conclui-se que a OA influencia negativamente o consumo de ração, o ganho de peso, a conversão alimentar e diminui a resposta imune humoral em frangos.

A utilização da EC não minimiza os efeitos deletérios da ocratoxicose em frangos.

A EC e a OA não interferem na altura de vilo, profundidade de cripta e relação vilo:cripta no intestino delgado de frangos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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