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Brazilian Journal of Poultry Science

versão impressa ISSN 1516-635Xversão On-line ISSN 1806-9061

Rev. Bras. Cienc. Avic. v.4 n.3 Campinas set./dez. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-635X2002000300006 

Adaptação de linhagens de galinhas para corte ao sistema de criação semi-intensivo

 

Adaptation of meat-type chickens lines to semi-intensive breeding system

 

 

Silva MANI; Hellmeister Filho PII; Rosário MFIII; Martins EIV; Coelho AADV; Savino VJMV; Silva IJOVI; Menten JFMVII

IBolsista CAPES (DR), Depto. de Genética, ESALQ/USP
IIDocente, Depto. de Ciências Agrárias e Florestais/UESC, Ilhéus
IIIBolsista CAPES (MS), Depto. de Genética, ESALQ/USP
IVTécnico Especializado, Depto. de Genética, ESALQ/USP
VDocente, Depto. de Genética, ESALQ/USP
VIDocente, Depto. de Engenharia Rural, ESALQ/USP
VIIDocente, Depto. de Produção Animal, ESALQ/USP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Aves de quatro linhagens de galinhas para corte foram criadas no sistema semi-intensivo, em 16 boxes, sendo 4 boxes por linhagens, com 4,5 m2 de área interna (abrigo) e 35 m2 de área de pastejo, com o objetivo de analisar a adaptação dessas linhagens a esse sistema de criação, através de parâmetros ambientais e comportamentais. O período experimental desenvolveu-se entre 35 e 75 dias de idade, durante o qual foram coletados dados relativos à quantidade de aves presentes no pasto, temperatura e umidade relativa nos boxes e no pasto e porcentagem de sombra no pasto. Os parâmetros ambientais monitorados influenciaram o comportamento das aves. A análise bioclimática e a observação do comportamento permitiram diferenciar as linhagens estudadas no que diz respeito à adaptação das linhagens ao sistema semi-intensivo de criação. As aves das linhagens avaliadas mostraram-se adaptadas ao sistema semi-intensivo por demonstrar o comportamento esperado para esse sistema de criação.

Unitermos: adaptação, bem-estar, comportamento, sistema semi-intensivo


ABSTRACT

Birds of four meat-type chicken lines were reared at the semi-intensive system with the objective of evaluate the adaptation to these breeding systems through environmental and behavioural parameters. The experimental period took place between 35 and 75 days of age during which it was collected data of number of broilers in the pasture, air temperature and relative humidity inside the boxes and in the pasture areas, and percentage of shadow in the pasture areas. Environmental factors influenced the behaviour of the evaluated lines. The bioclimatic analysis and the observation of the chicken behaviour allowed to discriminate the studied lines regarding to the adaptation to the semi-intensive breeding system. The broilers of the evaluated lines showed adaptation to the semi-intensive system, presenting the expected behaviour for this breeding system.

Keywords: adaptation, behaviour, semi-intensive system, welfare


 

 

INTRODUÇÃO

A grande procura dos consumidores por produtos com atributo diferenciado vem influenciando mudanças nos sistemas utilizados para produção de frangos (Gessulli, 1999; Vercoe et al., 2000). A sociedade está interessada em sistemas de produção que aumentem o bem-estar na criação de animais (Von Borell & Van den Weghe, 1999; Verbeke & Viane, 2000). Sendo assim, a implementação de mudanças que melhorem o bem-estar animal pode garantir a escolha desses novos produtos pelos consumidores (Blokhuis et al., 2000; Fraser, 2001).

O regime de confinamento causa estresse intenso (Jones & Mills, 1999) e tem como conseqüência respostas fisiológicas e comportamentais dos animais (Dawkins, 1999; Marin et al., 2001), podendo causar sérios problemas de saúde, produtividade e no bem-estar (Mendl, 1999; Abeyesinghe et al., 2001; Hall, 2001). Por esses motivos, o sistema em que a ave permanece confinada durante todo o período de criação vem dando espaço ao sistema semi-intensivo. Esse sistema, informalmente conhecido como "tipo caipira", permite que as aves tenham livre acesso a áreas de pastejo, resultando em diferenças particulares na qualidade da carne das mesmas quando comparada com a das aves criadas confinadas.

Conforme Silva & Nakano (1998), essas diferenças ocorrem devido principalmente à ingestão, pela ave, de pasto, verduras, insetos, larvas, minhocas etc, que são abundantes no sistema semi-intensivo de criação. Sendo assim, consumidores mais exigentes preferem a carne de aves criadas semi-confinadas por possuir um sabor mais "natural" do que a carne de aves criadas totalmente confinadas.

A produção e a qualidade estão ligadas ao bem-estar do animal (Blokhuis et al., 2000). Portanto, os sistemas de criação devem evoluir para atender às necessidades dos consumidores (Verbeke & Viane, 2000; Vercoe et al., 2000).

O aumento da discussão a respeito do bem-estar animal tem incentivado pesquisas financiadas pela indústria e governo com o intuito de inovar e resolver problemas decorrentes do sistema de criação (Appleby et al., 1992; Blokhuis et al., 2000).

O bem-estar do animal e sua saúde devem ser considerados em um sistema de criação (Bockisch et al., 1999). De acordo com Dawkins (1999), plantéis em que animais não ficam doentes, não morrem, não sofrem injúrias ou deformações, provavelmente não têm seu bem-estar afetado, mas é necessária a avaliação do ambiente de criação para garantir a economicidade do sistema. Infelizmente, não há consenso de como se medir e/ou avaliar na prática o bem-estar do animal (Sundrum, 2001), o que torna necessária a realização de estudos que avaliem o animal e seu bem-estar em diferentes ambientes de criação (Fraser, 2001). As condições ambientais afetam diretamente o comportamento animal. A temperatura, umidade relativa e radiação solar são importantes indicadores da qualidade do ambiente para o animal (Bockisch et al., 1999) por serem agentes estressores (Furlan et al., 1999).

As condições ambientais são importantes, mas é essencial a seleção e utilização de linhagens especializadas e adaptadas ao sistema de criação, pois somente assim as aves expressarão todo seu potencial, resultando em maior produtividade e rentabilidade para o produtor (Zuanon et al., 1998).

Sendo assim, objetivou-se neste trabalho avaliar a capacidade de adaptação de aves para corte de diferentes linhagens ao sistema semi-intensivo de criação, através de parâmetros ambientais e comportamentais.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os materiais genéticos utilizados foram quatro linhagens de galinhas para corte, duas experimentais Caipirinha (de crescimento lento) e 7P (de crescimento rápido e portadora do gene Naked Neck – Na, de pescoço pelado), em desenvolvimento no Departamento de Genética – ESALQ/USP e duas comerciais C1 (de crescimento lento e portadora do gene Na, de pescoço pelado) e C2 (de crescimento rápido), utilizadas por produtores de frangos "tipo caipira".

Os pintos de um dia obtidos no incubatório experimental do Departamento de Genética – ESALQ/USP foram vacinados ao nascer contra a doença de Marek e alojados, sem separação de sexo, em 16 boxes experimentais, formados com tela de arame, com piso de cimento e cobertura de casca de arroz. Cada box possuía dimensões de 3,0 x 1,5 m de largura e comprimento respectivamente, totalizando 4,5 m2 de área interna (abrigo), com acesso à área de pastejo de grama-seda (Cynodon Dactylon) de 6,0 x 5,8 m de largura e comprimento respectivamente, totalizando aproximadamente 35 m2. Utilizaram-se quatro boxes por linhagem, com uma lotação de 35 pintos/box.

Na primeira semana, foram utilizadas lâmpadas incandescentes (150 Watts), na proporção de uma/box, para aquecimento das aves. Após esse período, as aves não receberam iluminação artificial. Até o sétimo dia, foram utilizados bebedouros do tipo pressão e comedouros tubulares infantis, na proporção de dois equipamentos de cada tipo por box. A partir do oitavo dia, a água passou a ser fornecida em bebedouros do tipo pendular e a ração em comedouros tubulares tipo adulto, tendo-se utilizado um equipamento de cada tipo por box. Ração comercial e água foram fornecidas à vontade durante todo o período de criação, que se estendeu até 75 dias de idade. Na Tabela 1, encontram-se os tipos de ração utilizados, com as porcentagens dos ingredientes das mesmas. As aves receberam também vacinação contra as doenças de Newcastle e Gumboro na água de bebida, aos 7 e 21 dias de idade, conforme recomendação do fabricante das vacinas.

Quando as aves atingiram 21 dias de idade, o acesso ao pasto foi aberto, permitindo a livre passagem das aves de cada box para o respectivo pasto e mantido aberto até as aves atingirem 75 dias de idade. Após um período de 14 dias de adaptação, iniciou-se o período de monitoramento, que se desenvolveu entre 35 e 75 dias de idade, durante o qual foi realizada a contagem do número de aves presentes em seus respectivos pastos, a partir de 8 até 20h (horário de Brasília), para se obter a taxa média diária de permanência no pasto (TX). Não foram realizadas marcações nas aves pois no período escolhido, de 8 até 20h, era possível a visualização das mesmas.

Paralelamente, coletaram-se dados de temperatura em termômetros de globo negro, que medem a sensação térmica da ave em função do ambiente, e de umidade relativa em higrômetros, presentes no interior dos boxes e no pasto, além da porcentagem de sombra no pasto.

O delineamento experimental foi em blocos casualizados, com quatro repetições, sendo cada bloco composto por quatro boxes, um de cada linhagem. A comparação de médias pelo teste de Tukey (p<0,05) foi processada através do programa computacional SAS (1985), no procedimento GLM (General Linear Models).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Na Tabela 2, estão apresentadas as taxas médias de permanência no pasto das quatro linhagens avaliadas. A linhagem C2 apresentou menor taxa de permanência (6,6 aves/dia), durante o período experimental, diferindo estatisticamente das outras três linhagens, sendo que a linhagem C1 foi a que apresentou maior taxa média de permanência no pasto, 9,6 aves/dia.

 

 

As médias da variação diária dos valores da taxa de permanência das linhagens e das temperaturas verificadas no pasto e no box são representadas graficamente na Figura 1. Pode-se observar que quanto maior a temperatura no pasto, menor foi a quantidade de aves presentes no pasto. A maior temperatura no pasto (52ºC) ocorreu às 12h, enquanto que a menor (28ºC) ocorreu às 20h. As maiores taxas de permanência no pasto ocorreram no início da manhã e final da tarde e as menores no período entre 12 e 14h, para todas as linhagens.

 

 

As temperaturas médias de globo negro no pasto ao longo do período de acompanhamento (8 às 20h) foram maiores que as similares no interior dos boxes. Quando consideradas as temperaturas de globo negro nos boxes (Figura 1), a taxa de permanência de aves no pasto foi menor no período em que ocorreu maior temperatura no interior do box (40,8ºC / às 12h), ou seja, mesmo quando a temperatura no box foi alta as aves permaneceram em seu interior e não no pasto. A hipótese mais provável para esse ocorrido é o fato de que no período entre 12 e 14h, em que ocorreram as menores taxas de permanência no pasto para todas as linhagens, a temperatura do pasto foi maior do que a do box e a porcentagem de sombra no pasto foi a menor (Figura 2). Portanto, a alta incidência de radiação solar e a maior temperatura do pasto fizeram com que as aves se abrigassem nos boxes.

 

 

Os valores médios da taxa de permanência das linhagens e da umidade relativa do ar no pasto e no interior dos boxes estão apresentados na Figura 3. A umidade relativa (%) foi maior no pasto do que no interior dos boxes entre 8 e 20h, sendo que os valores máximos ocorreram no início da manhã (8 h), tanto no pasto como nos boxes (86% no pasto e 75,8% no interior dos boxes). Pode-se observar que as aves tenderam a permanecer no pasto nos horários em que a umidade relativa no pasto e nos boxes foram as maiores, ou seja, no início da manhã e no final da tarde.

 

 

O comportamento do animal está ligado ao ambiente de criação (Craig & Muir, 1996; Ferrante et al., 2001) e a melhora deste ambiente pode beneficiar a criação (Von Borell & Van Den Weghe, 1999; Jones et al., 2000). A taxa de permanência das aves no pasto, ou seja, o comportamento das aves, foi afetado pelos fatores ambientais avaliados, demonstrando a importância de estudo dos fatores ambientais que podem, além de afetar o comportamento, afetar também o bem-estar dos animais.

As linhagens Caipirinha, 7P e C1 mostraram-se mais adaptadas ao sistema de criação semi-intensivo pois se comportaram da maneira esperada, ou seja, permaneceram no pasto com maior freqüência quando comparadas com a linhagem C2. Duncan (1998) cita que o comportamento pode ser utilizado como parâmetro para avaliar a qualidade do bem-estar das aves. Portanto, uma vez que o ambiente de criação proporcionou condições mais adequadas ao comportamento natural das aves, pode-se concluir que o bem-estar destas não foi afetado pelo sistema de criação.

De acordo com Sundrum (2001), o aumento da área de locomoção do animal pode afetar sua saúde e seu bem-estar. Uma vez que as aves permaneçam com maior freqüência no pasto, locomovem-se mais, o que melhora o seu bem-estar.

 

CONCLUSÕES

As aves das linhagens estudadas mostraram-se capazes de se adaptar ao sistema semi-intensivo de criação. A adaptação das aves a esse sistema pode ser avaliada utilizando-se parâmetros ambientais e comportamental. Vale ressaltar que as aves apresentaram o comportamento de freqüentar a área de pastejo, fator preponderante para que essas apresentem atributos diferenciados em relação às aves criadas no sistema de total confinamento durante todo o período de criação.

 

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Endereço para correspondência
Marco Aurélio Neves da Silva
Depto. de Genética, Setor de Aves /ESALQ
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E-mail: mansilva@esalq.usp.br

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