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Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia

versão On-line ISSN 1982-0232

Rev. soc. bras. fonoaudiol. v.12 n.2 São Paulo abr./jun. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-80342007000200016 

RESENHA

 

Use of context in pragmatic language comprehension by children with Asperger syndrome or High-Functioning Autism

 

 

Comentado por: Liliane Perroud Miilher

Bolsista de mestrado FAPESP pelo Programa de Pós-graduação em Ciências da Reabilitação (Comunicação Humana) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP – São Paulo (SP), Brasil; Colaboradora do Laboratório de Investigação Fonoaudiológica em Distúrbios do Espectro Autístico da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – LIF-DEA – São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 

Compreender uma emissão não depende somente das informações lingüísticas, é necessário que o ouvinte some àquelas, fatores contextuais e seu conhecimento de mundo. Dessa forma, a compreensão pragmática é a habilidade em utilizar o contexto na compreensão, considerando que o significado é construído quando são feitas conexões entre as informações.

O Autismo de Alto Funcionamento (AAF) e a Síndrome de Asperger (SA) são condições neurobiológicas incluídas nos Transtornos Invasivos do Desenvolvimento. Um dos aspectos mais salientes destas condições é a interpretação literal das emissões, sendo que uma das explicações sugeridas para este fato é a dificuldade em fazer inferências contextuais.

O estudo apresentado, foi construído com base na Teoria da Relevância. Esta é baseada na pressuposição de que as formas lingüísticas puras, muitas vezes, não oferecem o significado pretendido e, portanto, não são suficientes para compreender as emissões. As falas, de forma geral, podem ter mais de uma interpretação. Para que o ouvinte compreenda corretamente, após ouvir algo, ele é dirigido a uma "pesquisa de relevância" e utiliza as informações contextuais para interpretar o significado da fala. As informações contextuais referem-se aos pressupostos lingüísticos, informações físicas, conhecimento do próprio mundo e crenças sobre as pressuposições do falante próprias ao contexto.

Na compreensão de fala, muitas operações contextuais precisam ser processadas. É comum, durante a comunicação, o uso de sentenças incompletas e indiretas que só podem ser interpretadas com o uso das informações contextuais. Quando mais familiar a situação, menor a necessidade de busca inferencial, pois a pessoa pode utilizar esquemas internalizados de inferência.

O desenho do estudo buscou investigar se crianças com SA a AAF derivam respostas utilizando informações contextuais.

Os autores investigaram:

Se havia diferenças nas respostas de crianças de três grupos: controle, jovens crianças com SA a AAF e crianças mais velhas com SA e AAF. A hipótese dos autores é que crianças mais jovens com SA e AAF apresentariam um pior desempenho que as mais velhas com o mesmo diagnóstico e que o grupo controle.

Se o desempenho de crianças com SA e AAF variaria de acordo com a complexidade contextual das questões. Os autores hipotetizaram que as crianças teriam mais dificuldades com questões que exigem maior demanda desenvolvimental.

Participaram do estudo 39 crianças finlandesas. Destas, 27 tinham diagnóstico de Síndrome de Asperger e 12 tinham diagnóstico de Autismo de Alto Funcionamento. O grupo foi subdividido em:

Crianças mais jovens: 16 crianças entre sete e nove anos

Crianças mais velhas: 23 crianças entre 10-12 anos

Para garantir que o desempenho das crianças do grupo de estudo não fosse afetado pelas habilidades lingüísticas ou problemas de memória auditiva, todas as crianças foram avaliadas em três subtestes do Development Neuropsychological Assessment (NEPSY): compreensão de instruções, memória narrativa e compreensão de estrutura de sentenças. Todas obtiverem resultados dentro dos padrões de normalidade.

O grupo controle foi composto por 23 crianças típicas, com idade entre sete e nove anos. Os pais preencheram o High-Functioning Autism Spectrum Screening Questionnaire para verificar se nenhuma destas crianças podia ser incluída no grupo de SA e AAF.

Tanto as crianças do grupo controle quanto do grupo pesquisa responderam ao Boston Naming Test e ao subteste de Associação Auditiva do Illinois Test of Psycholinguistic Abilities (ITPA)

O material utilizado continha questões que variavam na demanda contextual e diziam respeito a:

Indicação de referência (nove questões): a criança deveria encontrar um objeto referido verbalmente.

Enriquecimento (nove questões): a criança deveria enriquecer as informações semânticas incompletas com base no contexto dado e seu conhecimento de mundo.

Implicatura básica (nove questões): a criança deveria conectar seu conhecimento de mundo ao contexto visual e/ou verbal para encontrar o significado pretendido.

Rotina (nove questões): a mesma demanda da "implicatura básica", contudo, eram questões familiares, rotineiras.

Sentimentos (cinco questões): o alvo era compreender os sentimentos de alguém em um dado ambiente.

Se a criança dava uma resposta correta ela deveria, em seguida, explicá-la (nos casos de "rotina", "implicatura básica" e "sentimentos"). Como uma das questões de "implicatura" não tinha a questão de seguimento, as crianças justificaram 22 respostas.

Todas as crianças foram avaliadas na seguinte ordem: material de compreensão pragmática, subteste de associação auditiva e Boston Naming Test. O estudo não se ateve às questões qualitativas das respostas e justificativas dadas pelas crianças.

Para examinar a diferença entre o escore de respostas e justificativas nos dois grupos foi utilizado o Teste-T para amostras independentes. Para averiguar as diferenças nas respostas e justificativas a diferentes tipos de questões foi utilizado o teste Mann-Whitney.

Conforme os autores esperavam, o escore do grupo controle foi maior do que o escore dos grupos pesquisa, considerando tanto as respostas quanto as explicações. A comparação entre os dois grupos de crianças com AS e AAF, revelou que as crianças mais velhas tiveram um melhor desempenho.

A comparação entre os diferentes tipos de questões mostrou que as questões de "indicação de referência" eliciaram o maior número de respostas corretas para todas as crianças.

As seguintes diferenças estatísticas foram observadas entre os grupos: nas questões de enriquecimento houve diferença entre o grupo controle e o grupo de jovens crianças e entre os dois grupos de crianças com SA a AAF; nas questões de rotina houve diferença entre o grupo controle e o grupo de jovens crianças e entre o grupo controle e as crianças mais velhas; nas questões de implicatura, o grupo controle obteve melhores resultados que as crianças com AS a AAF.

Com relação às explicações para diferentes tipos de questões, o grupo controle apresentou um melhor desempenho que o grupo pesquisa nas questões de rotina e de implicatura básica.

Os resultados do estudo evidenciaram que crianças com SA e AAF são inábeis em utilizar as informações contextuais para compreenderem as emissões. Os resultados corroboraram a idéia de que apenas as informações lingüísticas não são suficientes para compreender-se algo que foi dito. Isto foi demonstrado, pois, apesar da população estudada apresentar boas habilidades lingüísticas, as crianças não foram capazes de utilizar as informações contextuais.

Considerando que as crianças mais velhas do grupo pesquisa apresentaram um melhor desempenho que as mais novas, os autores sugeriram que a dificuldade em usar as informações contextuais diminui com o desenvolvimento. Em crianças típicas, há uma evidente melhora no desempenho entre a idade de três e cinco anos, mas crianças com SA ou AAF apresentam um atraso, isto pode significar que elas perderam alguns passos do desenvolvimento e, assim, o uso pragmático do contexto permanece frágil. De forma geral, as crianças do grupo pesquisa apresentaram uma progressão de desenvolvimento semelhante à prevista pela Teoria da Relevância, ou seja, nas questões de "indicação de referência", que são mais simples, o desempenho dos sujeitos foi melhor que nas questões mais complexas (de "implicatura básica").

O fato das crianças apresentarem dificuldades em dar explicações sugere que os problemas de comunicação nas situações cotidianas podem ser devido a uma dificuldade em compreender o tipo de processo de pensamento que o parceiro de comunicação utilizou para dar a resposta.

Como as crianças responderam aos diferentes tipos de questões, elas parecem apresentar uma ineficiência, e não incapacidade, em utilizar o contexto na compreensão.

Uma limitação do estudo apontada pelos autores refere-se à pequena amostra, além disso, o material utilizado pode não ter sido o mais indicado para detectar as diferenças entre os grupos.

A capacidade de entender o contexto é uma importante habilidade na vida real dos sujeitos, sendo que os problemas comunicativos podem ser o resultado de uma falta de discriminação do parceiro, o que, muitas vezes, é a causa dos problemas sociais visto em indivíduos com SA e AAF.

Os resultados mostraram que as crianças são capazes de entender sentenças indiretas, portanto, este tipo de emissão pode ser utilizado, já que, como as crianças têm dificuldade de compreensão, o interlocutor pode fornecer uma explicação a respeito do significado pretendido e, dessa forma, fornecer à criança o conhecimento dos fatores que subjazem sua própria fala.

Os autores sugeriram que a reabilitação deve começar tão logo as dificuldades em utilizar o contexto sejam percebidas, fornecendo suporte para os anos iniciais de desenvolvimento.

 

 

Endereço para correspondência:
Liliane Perroud Miller
Rua Cipotânea, 51, Cidade Universitária
São Paulo – SP - CEP 05360-160
E-mail: li_miilher@hotmail.com

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